(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



quinta-feira, 9 de julho de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 21

Carta para António Carlos Carvalho

Pedro Sinde

Meu caro amigo

Escrevo-lhe esta carta no dia do seu aniversário, porque me ocorreu, ao pensar em si, uma parte essencial do trajecto que me tem acontecido percorrer. Como não importa nada daquilo que me diga respeito pessoalmente, só o vou evocar aqui para o lembrar a si.
Estamos em 1993 (há 16 anos!). Numa brochura sobre a Feira do Livro do Porto aparecem vários testemunhos pessoais, mais ou menos anódinos, sobre a relação com os livros. Um desses testemunhos, no entanto, chama-me imediatamente a atenção por causa do título: “Cinco caminhos para a sabedoria”. O nome do autor: António Carlos Carvalho. Apesar de nunca ter ouvido falar nesse nome, aquele título e a fotografia que o acompanhava fazia antever qualquer coisa de inusitado. E foi verdade. Sem exagerar, posso dizer que a minha vida mudou nesse dia.

Qualquer coisa imediatamente ressoou em mim, como se no fundo de mim alguma coisa soubesse que nos conhecíamos de “outros lugares”. E era certo, certíssimo, apesar de aqui nunca nos termos encontrado. Depois o texto. Também aí não sei dizer bem o que era, mas a familiaridade era a mesma. Desse texto, houve dois nomes que retive: René Guénon e Isaac Bashevis Singer. Do primeiro, li imediatamente O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos. É impossível voltar-se atrás depois de se ler Guénon, o que ele faz é impossível desfazer; logo porque nos toca em lugares do espírito (não tanto da alma) ou do intelecto que de pronto reconhecemos como verdadeiros, como intemporais. Ali encontrei, finalmente, o que de algum modo tendia a saber sobre estes tempos, mas que não tinha trazido à consciência. Compreendi porque é que me sentia “desenquadrado”. A impressão com que se fica é aquela que têm os loucos: eu achava que estava mal, mas afinal descobri que é o mundo todo que está errado! É este nosso tempo que está errado ou, melhor dito, ele, na verdade está a decorrer exactamente como o previsto e, por isso, cumpre-se como idade de ferro que é. É claro que este veneno inoculado por Guénon, acaba por ser matizado e é claro que com o tempo percebemos que Guénon, sendo uma figura essencial e até providencial para os nossos tempos, não é, no entanto, um “deus” e, como também tem alma, também se engana e precipita em alguns juízos. Mas nada disto retira valor à bênção que é o existir um homem destes com uma missão análoga à da sirene dos faróis.
De seguida, li, encomendado no calhamaço que era o catálogo manual da Livraria Leitura (no tempo em que não havia internet), Symboles de la Science Sacrée. Quando recebi o postal a avisar da chegada do livro, naturalmente faltei às enfadonhas aulas de “filosofia”, fui levantar o livro e “saltei” directamente para o café Ceuta para o devorar com o entusiasmo que caracteriza as primeiras descobertas. Um pouco mais tarde, viria a repetir-se esta impressão com a descoberta dos livros de António Telmo; mas esta seria outra história. Através do Reino da Quantidade tinha sentido este mundo como um inferno, com o Symboles senti a pureza e a sabedoria resplandecente da criação. Senti, como os adeptos de Zoroastro ou do evangelho de S. João, que a criação estava a ser tomada pelos filhos da treva. Se lhe conto isto, não é para falar de mim, como lhe disse, mas para que veja a importância que algumas sugestões suas puderam fazer numa alma em busca.
Pensei, nessa altura, que alguém que recomendava autores deste tipo devia saber “mais coisas”. Saí da minha timidez para ir à sua procura no DN. Mas também isto seria já outra história. Estas palavras são apenas de gratidão e para lhe lembrar que, se muitos projectos seus estão por cumprir, muitos outros cumpriu sem que disso tivesse talvez consciência – todavia, Ele sabe mais e por isso melhor do que nós decide quais os nossos projectos a cumprir, ainda quando deles não temos consciência.

Aceite o abraço grato do
Pedro Sinde

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