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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 35

António Carlos Carvalho

Passou mais um aniversário da morte do Fernando Pessoa. É uma das poucas efemérides que guardo dentro de mim, agora ainda mais porque moro a poucas centenas de metros daquela que foi a sua última morada neste mundo.
Como se sabe, o poeta viria a morrer em 1935 no Hospital de São Luís dos Franceses, ao Bairro Alto – e há muitos anos descobri, com espanto, que 35 anos depois, no mesmo hospital e no mesmo quarto morreu também um dos seus grandes amigos, Almada Negreiros. Coincidência?
Consta que as últimas palavras de Pessoa terão sido: «Dá-me os óculos».
Como se o poeta ainda quisesse ver – ou ver mais.
No final da vida, Almada tinha percebido que o importante era saber ver, não apenas olhar.

Fernando Pessoa

Curiosamente, encontrei ontem mesmo uma interpretação fascinante (luminosa) das consequências da chamada Queda de Adam. Passo a citar Gabriel Ittah (em «Les Dix Paroles», obra colectiva, ed. Cerf, 1995):
«Antes da falta o que é que via Adam? Não o aspecto exterior das coisas, mas sempre o aspecto interior. Que via ele na sua mulher? Tselem Elohim, essa partícula divina que constitui o essencial do ser, sendo o corpo apenas um invólucro acessório. Que vêem os olhos de Adam? Por todo o lado, a presença divina.
Após a falta, existe um versículo muito revelador (Ge. 3, 7):
«Os olhos deles abriram-se e eles compreenderam.»
Será que a falta lhes abriu os olhos? Temos a impressão que se trata de inteligência, ora nós julgávamos que a falta embrutecia. E de repente a própria Torah diz-nos: esta falta tão grave, tão essencial, abriu-lhes os olhos. Que é que terão então compreendido?
É precisamente aí que se situa a queda do ser humano. No início, vendo somente as coisas na sua interioridade, não tinha vergonha. Os seus olhos estavam dirigidos para a presença divina e só a ela viam. Após a falta, compreende. Entender intelectualmente representa o nível mais baixo de percepção do homem. A coisa deixa de ser sentida, já não é vivida, mas unicamente compreendida.
Nesse momento (Gen. 3, 8) eles entendem, compreendem que existe uma presença divina. Compreender é a manifestação essencial da queda. A presença divina torna-se qualquer coisa que depende do intelecto. Já não há realidade visual, apenas entender e compreender.
A partir desse momento, as coisas corporais tornam-se a realidade. Antes da falta, o homem via em todos os seres uma partícula divina. Depois da falta, só vê um corpo. Compreende que existe uma partícula divina que habita em cada ser. Mas isso deixa de ser experimentado.
Não basta saber, é necessário transmitir esse saber ao coração. O compreendido é insuficiente, deve tornar-se vivido. Muitas vezes, o homem vive de maneira realmente oposta ao que compreende. O que a Torah espera dele é que atinja uma percepção que transcende o mundo da matéria e que veja o que anima o mundo corporal, ou seja, a palavra divina.»


Mais tarde, o dom da Torah consistiu em preparar os Filhos de Israel para acederem a uma certa visão, a que vai além da compreensão: «todo o povo via as vozes» (Ex. 20, 18).

É isso que se espera agora de nós: vermos aquilo que ouvimos.

Como no Sinai.

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