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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

AO REDOR DO 31 DE JANEIRO, 3

“Viagem do Snr. D. Carlos ao Porto, depois do 31 de Janeiro: Mais dum ano decorrera, antes de sua majestade se abalançar à viagem. Serenados os ânimos, mete-se a caminho. Os estudantes, em Coimbra, assobiam-no. Chega ao Porto. Desfila o cortejo. Ao lado do carro de sua majestade seguia um chefe de esquadra, a pé, durindana ao vento. Entala-se-lhe o gládio numa das rodas, partindo-se em bocados. O monarca desembainha, veloz, a sua espada, de comandante em chefe, e bizarramente lha entrega com donairosa cortesia. Lá está na esquadra.
Baile do ministro inglês, em Sintra
: No verão de 1892 dava o ministro inglês uma festa pomposa em honra do Snr. D. Carlos. Sua majestade aceitou-o. O ministro inglês, naquele instante, era a Inglaterra. O soberano de Portugal era a nação portuguesa. Pois o rosto que levara a bofetada sangrenta ia ver-se aos espelhos do animalejo que lha dera! Ia limpar os escarros ao guardanapo de quem lhos atirou!
Um rei que a fatalidade inexorável, que o destino impiedoso submetesse, algemado, a semelhante vergonha, choraria de raiva lágrimas de sangue, a não guardar no íntimo da alma, como D. Carlos, o retrato de D. João VI, num pataco falso. Desejaria eu ver, em lance de tal ordem, a grande e melancólica figura de Pedro V. Que trágica altivez e que dorida nobreza não exprimira o seu olhar! E D. Carlos? D. Carlos, em toda aquela noite pavorosa jogou descuidadamente o bleuff, espécie de batota, com dois casquilhos elegantes do mundanismo que se diverte. Verifiquem, lendo o Jornal do Comércio, que relatou o baile. Acrescento mais: quem o relatou assistiu a ele.
Dissolução das cortes. Primeiro golpe d’estado
: O Snr. D. Carlos, um belo dia, farto de atirar às perdizes, alveja à queima-roupa o código político da nação. Com que fim? Salvar-nos, salvar a pátria. Era a vida da pátria, que, em risco iminente, o constrangia à ditadura. Espezinhava os códigos, para manter a nacionalidade, sacrificando (com que mágoa!) o juramento do rei à existência do reino.”

Guerra Junqueiro, in Pátria, 1896

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