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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

RAZÃO POÉTICA, 4

Gramática Secreta da Língua Portuguesa* [1.ª parte]

A gramática secreta da língua portuguesa consiste no seguinte: há dez elementos ocultos que se desdobram em vinte e duas consoantes visíveis, que por sua vez se multiplicam por sete sons audíveis – as sete vogais.

Para que o leitor não perca no caminho da leitura todo o sentido do que dizemos torna-se necessário dar algumas prévias informações, na hipótese de esse leitor não as ter já antes adquirido.

Com efeito, pertencem hoje ao domínio público certos dados exteriores da kabbalah hebraica, segundo os quais o Livro Sagrado terá vários sentidos sobrepostos em profundidade, do literal até ao anagógico, só apreensível este último por quem souber pensar as letras como significantes, senão como significados, trocando-as entre si, combinando-as em novas palavras, numerando-as, elevando-as até à ideia que elas representam. É um processo análogo ao apresentado por Platão no Crátilo. Os modernos linguistas nunca referem o Sepher Ietzirah ou o Sepher Hazzohar – o Livro da Formação e o Livro do Esplendor –, onde se expõe aquela doutrina, mas, dado o prestígio de Platão, o Crátilo não pôde ser escondido e, por isso, tem sido apresentado como a divina comédia da linguística antiga.

Os kabbalistas, apoiados no ensinamento contido naqueles dois livros hebreus, forneceram como chave de interpretação anagógica aquilo a que eles chama a Árvore Sephirótica. Representam-na habitualmente pelo esquema da figura 1.

figura 1: clique na imagem para a ampliar. Na figura faltam dois traços, que deveriam ligar a sephirah 1 à sephirah 2 e à sephirah 3.

São dez números e vinte e dois caminhos ligando-os uns aos outros; tantos como as letras do alfabeto hebraico. Segundo os kabbalistas, Deus manifestou-se ao mundo, que criou, formou e fez, por meio desses dez números e das vinte duas letras. Ao mundo da Emanação, constituído pelas três primeiras sephiroth, segue-se o mundo da Criação, formado pelo segundo triângulo, o mundo da Formação (terceiro triângulo) e por fim o mundo da Acção, o décimo número.

No seu aspecto numérico, a Árvore Sephirótica corresponde exactamente à tetrada pitagórica, aos quatro primeiros números que somados perfazem dez, o número da totalidade completa em si. É no Crátilo que se encontra o mesmo ensinamento relativo às letras.

Era inevitável que tão estranha concepção viesse a ser considerada uma expressão da mentalidade mística, incomparável com a sóbria seriedade de uma verdadeira teoria da língua, à qual se pretende dar um fundamento científico. No período do romantismo, ainda houve linguistas que tentaram atribuir significados às letras e aos fonemas. A ligação da origem das línguas feita por Herder às onomatopeias e interjeições deve-se talvez às sugestões provindas da kabbalah. Todavia, Ferdinand Saussure acabou definitivamente com as pretensões de certos linguistas ao considerar completamente arbitrária a relação do significante com o significado. Curiosamente, foram os estruturalistas, que se dizem discípulos ou continuadores de Saussure, que encontraram a sua ideia de estruturas fonéticas e de traços distintivos na própria kabbalah. Benjamin Lee Worf declara ter recebido o primeiro, decisivo e sério impulso no livro do teósofo Fabre d’Olivet, A Língua Hebraica Restituída, e nas árvores de Noam Chomsky é possível ver a remota projecção da árvore sephirótica.

De tudo isto se falará adiante. Para já, o que nos importa é verificar que a língua portuguesa se desenvolve, como aliás todas as línguas, sobre dez elementos simples, que, por sua vez, se desdobram em vinte e duas consoantes, exactamente os dois números que organizam a árvore sephirótica.

O leitor perguntará: como dez elementos e vinte e duas consoantes? É isso que nos propomos em seguida mostrar.

Diga-se primeiro o que se entende por «elemento».

A designação de «elementos» dada por Platão e restantes filósofos gregos às letras do alfabeto encontra-se também no Sepher Ietzirah. Elementos e não fonemas. Dizem os historiadores da linguística que os antigos gramáticos não distinguiam as letras dos fonemas. É completamente falso. Platão, por exemplo, distinguia-os tão bem que só considera fonemas as vogais. Aconselha no Filebo, como se estivesse a criticar os foneticistas do século XIX, que se procure determinar a indefinida variedade sem termo da voz humana. Entre o uno do som e o seu múltiplo, deve-se sim pelo contrário determinar os grandes géneros que, segundo ele, são três: o das vogais, o dos áfonos e um terceiro constituído por sopros e vibrações. Esta divisão corresponde à dos vários mundos indicados na árvore sephirótica, como veremos depois. É, em termos modernos, a das oclusivas (B, D, G, etc.), das fricativas (F, V, X, J, etc.), das vibrantes (R, L, etc.), e a das vogais.

Como dissemos, só as vogais são vozes. Para a consoante ser fonema, tem de apoiar-se numa vogal. Em si não tem som, é um elemento puro, um simples e um indivísivel. Será por esta mesma razão que o alfabeto hebraico é constituído só por consoantes, vinte e duas.

Está aqui uma noção decisiva. De se aceitar ou não como princípio da língua o elemento, depende a orientação da linguística. Os modernos, para os quais a matéria-prima de uma língua é o fonema e não o elemento, isto é, que consideram a sílaba a unidade mínima, desenvolveram um tipo de «ciência» radicalmente diferente, que fatalmente viria a subordinar a linguística, vendo nela um capítulo da semiótica, tal como foi definida por Saussure. O homem, diz-se então, pode utilizar fonemas, ou desenhos, ou cores, ou qualquer outro sistema de sinais para comunicar o que pretende comunicar. As línguas são espécies de um género que é a linguagem, le Langage.

Se, porém, é um indivisível ou um invisível que constitui o fundamento material da palavra, o homem não o utiliza, fala-o. É dele que a palavra emerge. Não é o outro que a linguagem vai colher para lhe dar sentido. Ele é o próprio sentido e, por isso, tudo se passa como se não tivesse sentido nenhum.

(continua)
António Telmo

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