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Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



sábado, 18 de dezembro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 115



O EQUÍVOCO DA CHAMADA «MORTE DA EUROPA»

Eduardo Aroso

«A esperança na salvação do mundo pela Europa nada tem a ver, no espírito de Carlos Aurélio, com finanças ou economia. Como a ciência económica nada tem resolvido até agora, das duas uma: ou a ciência económica não é ciência ou aqueles que dedicaram toda a vida a estudá-la ainda não conseguiram penetrar nos seus misteriosos segredos».
Do prefácio de António Telmo à obra Mapa Metafísico da Europa, de Carlos Aurélio (ed. Fundação Lusíada)

É curioso começar por observar que não se diz a morte da Ásia, ou a morte da África, quando actualmente se repete incessantemente a morte da Europa. Só o que nasce pode perecer. Assim sendo, é caso para perguntar se os dois primeiros continentes, imunes à degeneração, ainda não vieram à luz do mundo (!), ou se estão todos bem de saúde, de modo a não sofrer da dita fatalidade. Ou existe algo do nosso continente que não pode escapar a essa implacável lei natural?
Não me parece que a Europa de Bach e de Beethoven, de Gaudí e de Rodin, de Victor Hugo, de Camões e de Dostoiévski, de Leonardo da Vinci e de Rafael, de Newton e Einstein, de Kant e de Hegel, possa morrer definitivamente, como se as obras destes pioneiros não servissem para mais nada. Se nos interrogarmos se a Europa das ciências e das humanidades se encontra, há já muito, diluída por outros continentes, é evidente que a resposta é fácil. Mais difícil é apurar o que de melhor da cultura europeia tem ajudado ao desenvolvimento de outros povos, no contraste actual de certa barbárie feita com as cinzas daquilo que o velho continente não superou, ou que outros aproveitaram em avassalador materialismo. É certo que, ou por premeditada e obscura intenção de alguns autores, ou pela ligeireza informativa e cariz político com que se fazem certas notícias, tem-se decretado a morte do nosso continente. Mas, seja como for, se houver morte da Europa, a esta só lhe resta renascer de si mesma. Isto pode não passar pela cabeça de muitos, como não passou ao tempo do Renascimento que, depois do Direito Romano e da teologia da Idade Média, ainda nasceria de novo para o ideal grego nas suas várias manifestações.
Seria numerosa, se mencionada, a lista de grandes construtores do mundo ou espíritos da Grande Obra. O que nos legou uma Maria Montessori, um S. Francisco de Assis, uma Joana d’ Arc e um Bandarra, serão ainda um sol do futuro, ao contrário de muitos meteoros do presente que nos caem em cima, tapando-nos o céu que guarda estrelas muito mais perenes. A haver “cadáver” Europa só pode ser o da sociedade de negócios, em partes desiguais, chamada C.E.E., que já não usa aquela típica sigla S.A.R.L. (sociedade anónima de responsabilidade limitada). Não tem havido, sobretudo nos últimos tempos, a responsabilidade dos sócios maioritários para com os restantes, desabando, como consequência, sobre milhões de seres que, apesar de existir uma UNESCO, observam impavidamente a mutilação das culturas regionais e nacionais com a perda do melhor que cada povo tem: o seu casticismo e singularidade. Por outro lado, vêem desaparecer a chamada classe média, a única que pode proporcionar a formação das elites no cultivo da alta cultura, como garante civilizacional. Nisto tudo impera o domínio obscuro através da tecnologia a que também se chama globalização, não sei se igual ou diferente daquela no tempo do Império Romano que utilizou o latim como “instrumento de ponta”.
Seria pouco razoável admitir que a História da Europa não tem traços negros, fragilidades várias, corpo de civilização sujeito ao mesmo que um ser humano tem, a partir de certa idade: o de partir facilmente uma perna ou um braço ou estar sujeito a outras mazelas próprias dos anos. Todos sabemos que muitos europeus cultos de séculos passados acreditavam que certos povos indígenas mais se assemelhavam a bestas de carga do que a seres humanos, homens do velho continente, da sociedade e da política, e representantes eclesiásticos que também tiveram as suas “guerras santas”, com mais perdão, diga-se, do que aquelas que, passados vários séculos, hoje ainda se fazem, num tempo que devia ser outro, mais à frente e mais acima. Se a tecnologia, para o bem e para o mal, globalizou o mundo ao arrepio dos navegadores portugueses que o ligaram e deram a conhecer muito antes, os que hoje exploram o planeta e o injectam de perversidade, sejam europeus ou não, e, directa ou indirectamente, lhes terá servido o Direito Romano e o que Platão e Newton legaram, ainda terão de abrir os velhos livros, se não se quiseram extraviar ainda mais. De modo nenhum para voltarem a fazer comboios a vapor ou outro engenho ultrapassado; não, por certo, os livros de economia que estão praticamente desactualizados a cada ano que passa, mas para perceberem que a Vida encontra-se na Vida, numa (re) leitura ao jeito de quem, por exemplo, olha vezes sem conta o deslizar de um belo rio, numa manhã de primavera, e nunca se cansa de o fazer.
Ainda que toda a experiência seja bem precioso e inalienável quando assimilada, pouca sabedoria o futuro imediato poderá retirar desta sociedade de negócios chamada C.E.E., já com sucursais em todos os continentes, que, afinal, e paradoxalmente, não emprega os seus sócios (leia-se os muitos filhos, havendo apenas lugar para os afilhados). Essa falange europeia – felizmente não toda – orgulhosa, jacobina e sobretudo plutocrata, terá ainda de aprender muito com Eckhart e Leibniz, inspiradores de filósofos, pensadores e até (pasme-se) de cientistas do mundo quântico, ao mais alto nível. Aprender ainda com o primeiro ecologista do planeta, o místico S. Francisco de Assis, livre de dinheiros em bancos, de política corrupta e sindicalismo rasteiro. O seu sentimento - mais que sentido - ecológico não se preocupava com difusas “diversidades actuais” e “ordenamentos territoriais”: o Amor é que ordenava (ordena), verdadeiro sustento de tudo, do homem inteiro na natureza toda, a sensível e a transcendental, bem patente no imortal poema que nos deixou. De tal modo este Amor foi grandioso que a ciência natural lhe deve grande impulso, para já não falarmos da despojada audácia dos franciscanos (e não outros) que iam nas primeiras naus portuguesas da demanda, factos históricos estes bem observados pelo nosso Jaime Cortesão.
Se esta Europa de sempre não pode morrer, há-de ter cirurgia plástica e limpeza interior e externa do corpo, isto é, adoptar um outro paradigma que deponha humildemente o ideal grego, no sentido filosófico (não propriamente a cultura helénica), acrescido de tudo o que o velho continente fez de alquimia civilizacional ao longo das épocas; erguer a luminosa esperança no altar das mais altas expectativas: humilde e laborioso, de justeza mais que de justiça, e de fraternidade mais que de sociabilidade.
É consolador verificarmos que na Europa de hoje há assistência médica mais eficaz e imediata a um sem-abrigo, se compararmos com a ajuda dada a um acometido de peste ou lepra, em séculos passados. Porém, isso não pode ser emblema de orgulho e descanso de consciências, pois nascemos e vivemos no tempo que é o tempo de cada época. A questão é saber se esse sem-abrigo tem alguém que lhe dê uma palavra de consolo (já que o que é oficial não consola ninguém) nas paredes bem limpas e desinfectadas de um hospital, e se a Europa das massas letradas, que sobem nas estatísticas de mestrados, doutoramentos e outras qualificações, ainda sabe o que foi a Europa, no que ela se tornou e o que ela ainda pode vir a ser. Se nos ativermos unicamente aos resultados que nos dão nas televisões, das habituais mostras de inquéritos, concluiremos sem dúvidas que a esmagadora maioria nada sabe do velho continente, nem sequer, provavelmente, o nome do rei-fundador ou do primeiro presidente da república da sua nação.
Assim como Fidelino de Figueiredo viu «As duas Espanhas», o geógrafo antigo Al-Rasis desenhou duas Ibérias, a dos rios que correm para o Mediterrâneo e a dos rios que correm para o Atlântico, também nós podemos ver duas Europas, não já a eslava e a do ocidente, mas a dos alicerces de perenidade, de sinal bem visível no Renascimento (Fénix sobre todos os escombros) e a Europa-Sociedade que hoje fabrica “escravos de ordenado mínimo” e alguns capatazes bem pagos. Uma dessas duas Europas, a da maquilhagem que se desfaz depois da recepção e da festa dos convivas da dita sociedade, é a sombra tétrica da verdadeira que não pode perecer na sua inteireza.

Quase Solstício de Dezembro, 2010

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