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quinta-feira, 11 de junho de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 19

A Lâmina
Pedro Martins
Ao António Carlos Carvalho
e ao João Pedro Secca

Sampaio Bruno nasceu em 30 de Novembro de 1857. Fernando Pessoa morreu em 30 de Novembro de 1935. Setenta e oito anos – tantos quantas as lâminas do Tarot – envolvem as suas vidas terrenas. Setenta e oito anos exactos!
No lance desta evidência, temerário será afirmar, sem mais, o transcurso de um qualquer ciclo. Mas, no lento desfiar do livro do tempo, nada nos impede de sustentar a analogia que cinge os anos aos arcanos. Como não entrever, na roda-viva do calendário, a aspiração cósmica de dois espíritos tão elevados ao assombro universal de uma sabedoria definitiva?
Que o convívio entre ambos haja de ser reduzido à expressão epistolar – é circunstância que não infirma a ideia justíssima de Pedro Sinde: Pessoa, como Pascoaes, foi discípulo de Bruno. Como tantas vezes sucede com as coisas do espírito, poderosos laços ocultos uniram, no remoto, estes dois homens de génio.
Fernando Pessoa viu em Sampaio Bruno o único homem que, em Portugal, mostrava compreender. Não raro, e com acerto, se assinalou a influência que o filósofo de O Encoberto exerceu sobre o poeta da Mensagem. Em certa medida, a doutrina messiânica de Bruno explica cabalmente o sebastianismo de Pessoa.
Haverá, de resto, nestes dois livros, a fonte inesgotável de uma conversação infinda, lá onde as suas almas foram alçadas à luz que jorra do Oriente Eterno. É que – bom será não esquecer – aqui se trata também dos dois vultos que, entre nós, mais pareciam conhecer da Maçonaria, posto que ambos tivessem declarado não ser maçons, como na História Secreta de Portugal, com frisante estranheza, no-lo recorda António Telmo. N’O Encoberto, Bruno faz, às escâncaras, a apologia da Augusta Ordem, à qual tem por garante histórico da fraternidade universal; Pessoa, pela sua parte, ao cerrar a Mensagem com Nevoeiro, encerra-a com a discreta inscrição da divisa maçónica Valete, Fratres.

Menos notado parece ser o influxo ideológico que o poeta colheu d’O Brasil Mental. É na ampla Introdução desta obra decisiva que Sampaio Bruno faz a defesa da Pátria de Junqueiro, obra então recente, mas já verberada, em termos maldosos, pela crítica brasileira. Do celebrado poema satírico, nela escreveu o filósofo que ele era “único” no mundo, não existindo, em literatura alguma, paralelo que se lhe comparasse, quanto menos que se lhe avantajasse. Pessoa quase lhe segue as pisadas quando, anos mais tarde, ainda em vida de Bruno e de Junqueiro, sobreleva a Pátria a’Os Lusíadas, para, com o Fausto, de Goethe, e o Prometeu Liberto, de Shelley, a integrar na “trilogia de grandeza da poesia superlírica moderna”.
A par de Basílio Teles, foi Sampaio Bruno um dos dedicatários da Pátria, livro saído a lume em 1896, isto é: trinta e nove anos depois do nascimento do filósofo portuense; e trinta e nove anos antes da morte do poeta lisboeta. Quer dizer: exactamente a meio do nosso período de setenta e oito anos!
Dir-se-ia que, neste estranho caso, os acontecimentos tendem a revestir-se de um duplo nexo, lógico e cronológico, que os encadeia perante o nosso pasmo. Nessa Pátria que, em 1914, Fernando Pessoa irá considerar superior à epopeia camonina, viu Sampaio Bruno como que Os Lusíadas da decadência; mas, em 1924, ainda Pessoa afirmava aguardar a epopeia que Camões não pôde escrever, sinal de que, com a Pátria, nada ficara encerrado. É certo que, na série de artigos sobre a Nova Poesia Portuguesa, o poeta vislumbrara o prelúdio de uma “renascença extraordinária”, de um “ressurgimento assombroso”. Mas, ao movimento literário emergente, não deixara de apontar, como óbice subsistente, a relativa falta de imaginação dos seus mentores, pecha que só “o grande Poeta proximamente vindouro” – significativamente, Pessoa chama-lhe Super-Camões – haveria de suprimir.
Neste entendimento, como na pública exaltação da epopeia junqueirina, e bem assim na acentuação audaz (perante o Conde de Keyserling) de que foi Portugal a criar o mundo moderno, Fernando Pessoa segue, pari passu, a doutrinação que Sampaio Bruno enuncia na Introdução d’O Brasil Mental. A reflexão motivada pela obra de Junqueiro constitui, porventura, o elo mais forte entre os que prendem Pessoa a Bruno. Talvez por isso – quem o poderá asseverar? – a Pátria nos surja, a meio do caminho do tempo, qual Bojador dobrado, prenunciando já a passagem da Boa Esperança.
Em O Bateleur, António Telmo pôde ver na primeira lâmina do Tarot a figura que Fernando Pessoa pretendia realizar em si. A tal se opunham, porém, obstáculos interiores e obstáculos exteriores. Os primeiros advinham das imperfeições do poeta; os segundos, dos ódios de que era alvo. Já de si, o arquétipo continha o perigo do equívoco que, referido por Álvaro Ribeiro e Gilbert Durand, é próprio dos símbolos. No conto, o pintor, que representa Almada Negreiros, está ciente de que le bateleur tanto pode significar o mágico como o charlatão, e acaba por realizar o retrato do poeta como uma fotografia da qual só desse o negativo. Em última instância, age desta sorte para o favorecer, como quem o protegesse da inveja e do ódio daqueles que o gostariam de matar.
Propositadamente, Fernando Pessoa pôs a Mensagem à venda no dia 1 de Dezembro de 1934. Fê-lo – tudo o indica - com o intuito consciente de assinalar a data histórica da restauração da independência de Portugal, como tão bem observa António Carlos Carvalho no prefácio aposto à magnífica edição que Paulo Samuel dedicou recentemente ao poema. Estaria perto, ou longe, de saber que o fazia no primeiro dia do último ano da sua vida? No último dos setenta e oito anos em que a sua inteira existência se compôs com a de Sampaio Bruno, seu mestre… como quem lançasse uma derradeira carta sobre o tampo da mesa do tempo, para em si, enfim, realizar, como mágico (afinal, aquele que imagina), a figura da primeira lâmina do Tarot?

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