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sexta-feira, 12 de junho de 2009

PESSOA E OS OUTROS, 5

Entrevista sobre Mensagem

A calva socrática, os olhos de Edgar Poe, e um bigode risível, chaplinesco – eis a traços tão fortes como precisos a máscara de Fernando Pessoa. Encontramo-lo friorento e encharcado desta chuva cruel de Dezembro a uma mesa do Martinho da Arcada, última estampa romântica dos cafés do século XX. É ali que vivem agora os derradeiros abencerragens do Orpheu. A lira não se partiu. Ecoa ainda, mas menos bárbara, trazida da velha Grécia, no peito duma sereia, até à foz romana do Tejo. Fernando Pessoa tem três almas, baptizadas na pia lustral da estética nova: Álvaro de Campos, o das odes, convulsivo de dinamismo, Ricardo Reis, o clássico, que trabalha maravilhosamente a prosa, descobrindo na cinza dos túmulos tesouros de imagens, e Alberto Caeiro, o super-clássico, majestoso como um príncipe. Mas desta vez fala Fernando Pessoa – em «pessoa». O título da sua obra recente, Mensagem, está entre nós, como um hífen de amizade literária. Porquê o título?

O poeta desce a escada de Jacob, lentamente, coberto de neblinas e de signos misteriosos. A sua inteligência geometriza palavras, que vai rectificando empós. A sua confidência é quase soturna, trágica de inspiração íntima:
Mensagem é um livro nacionalista e, portanto, na tradição cristã representada pela busca do Santo Graal, e depois pela esperança do Encoberto.
É difícil de entender, mas os poetas falam como as cavernas com boca de mistério. De resto os versos são oiro de língua, fortes como tempestades.
– É um livro novo?
– Escrito em mim há muito tempo. Há poemas que são de 1914, quase do tempo do Orpheu.
– Mas estes são agora mais clássicos, digamos. Versos de almas tranquilas…
– Talvez. É que eu tenho várias maneiras de escrever – nunca uma.
– E como estabelece contacto com o deserto branco do papel?
Pessoa, numa nuvem de ópio:
– Por impulso, por intuição, que depois altero. O autor dá lugar ao crítico, mas este sabe o que aquele quis fazer…
– A sua Mensagem
– Projectar no momento presente uma coisa que vem através de Portugal, desde os romances de cavalaria. Quis marcar o destino imperial de Portugal, esse império que perpassou através de D. Sebastião, e que continua, «há-de ser».

Fernando Pessoa recolhe-se. Disse tudo. Sobe a escada de Jacob e desaparece à nossa vista, num céu constelado de enigmas e de belas imagens. Ferreira Gomes que está ao nosso lado olha-nos com mistério. Que é do poeta?

(publicada no Diário de Lisboa de 14 de Dezembro de 1934)

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