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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

NOS 75 ANOS DE «MENSAGEM», 1


A forma arcaizante da ortografia, que Pessoa adoptou neste poema, a sua estrutura e o próprio conteúdo, são reveladores de uma mesma intenção de recuperar para o tempo contemporâneo e, sobretudo, para o futuro, uma certa “ambiência” equivalente ao estado de alma dos portugueses que descobriram Portugal primeiro e o Mundo depois.
A Mensagem aparece, assim, destinada a agir sobre a alma dos portugueses seus contemporâneos e das gerações futuras. Não creio possível a compreensão da Mensagem sem se manter presente que Fernando pessoa procura despertar no seu leitor esse estado anímico bem determinado que, por uma espécie de anamnese mítica, possa recordar-lhe e acordá-lo para uma missão a realizar que é, conforme o diz o poeta, depois das descobertas da geografia do mundo, a descoberta das geografia da alma. De resto, esta intenção é bem nítida quando Pessoa procura revelar o sentido latente na palavra “mensagem” que dá nome ao poema: Mens agitat molem, isto é, a mente move a mole. Se consultarmos um dicionário de latim, ficaremos estupefactos com a fecundidade e a coerência desta decifração; lá encontraremos, na entrada Moles, is: “massa, volume, mole”, mas também “molhe, dique, represa”. Assim, temos dois sentidos diversificados, mas complementares. Pelo primeiro, ficamos a saber que o poeta tinha a intenção de, através do significado latente no poema, suscitar um determinado movimento no povo português; pelo segundo, que era necessário romper um dique de águas estagnadas, que muito bem significa a paralisação que o poeta via no seu Portugal de então, esse Portugal a entristecer.

Pedro Sinde, in "Prólogo" a Mensagem, Porto Editora, 2007.

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