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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

AGOSTINHO, 104 ANOS DEPOIS, 5


Teresinha*
Peguei numa pedrinha e fui-a passando devagar pelo chão, até que, quase sem pensar, lhe perguntei:

- Teresinha, a menina nunca se lembrou de que eu me quisesse casar consigo?
Mas, claro, fitando sempre a água. Não a vi nem estremecer. Voltou a cabeça para o meu lado e respondeu:
- Nunca me lembrei, não, senhor.
- E a menina se casava comigo?
- Eu casava, sim, senhor. Mas só se fosse para toda a vida.
- E se não fosse para toda a vida?
- Se não fosse para toda a vida não casava.
- Porquê, Teresinha?
- Porque não valia a pena o senhor ficar com essa lástima por minha causa.
- E como é que a gente conhece que é por toda a vida, Teresinha?
Então a menina costureira de camisas me respondeu, arrancando do chão um pezinho de musgo:
- Eu acho que se fosse por toda a vida o senhor não me perguntava isso.
E eu, senhor formado, me calei e jogando a pedrinha no rio fiz que sua imagem se perdesse num nevoeiro de água.
Agostinho da Silva
* excerto retirado de Herta / Teresinha / Joan, publicado em 1959

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