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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 29

António Carlos Carvalho

Em matéria de livros novos, como em quase tudo o resto neste mundo de hoje, raramente tenho boas notícias. Geralmente é a sensação do «déjà lu», do já lido, do «já li isto em qualquer lado». Ou então contam-me coisas do mundo editoral que me deixariam os cabelos em pé, se ainda os tivesse...
Mas às vezes há uma boa surpresa. Como agora aconteceu: Moacyr Scliar ganhou o Prémio Jabuti, o mais importante prémio literário brasileiro, e pela terceira vez, com o seu novo romance, «Manual da Paixão Solitária» (edição Companhia das Letras), inspirado pelo episódio bíblico das relações entre Judah, seus filhos e Tamar.
Ora uma notícia destas deixa-me contente por três boas razões:
-- porque Moacyr Scliar é um excelente contador de histórias, coisa que constitui o primeiro requisito da literatura (todos precisamos que nos contem histórias, até mesmo Deus criou o homem para que este lhe contasse histórias, segundo uma máxima da tradição judaica);
-- porque Moacyr Scliar é um velho senhor com 72 anos e 88 livros publicados, e não um daqueles jovens escritores, muito novos e muito frescos, que julgam ter inventado a literatura, mas que o marketing valoriza, ansioso por novidades;
-- porque Moacyr Scliar é um homem grande, de estatura e de coração, um dos poucos escritores que entrevistei e que se me revelaram iguais ao que escreviam.

Moacyr Scliar
Este descendente de judeus russos, nascido no bairro do Bonfim, em Porto Alegre, médico de profissão e escritor por vocação, é o autor de um certo livro que devíamos todos ler: «A Estranha Nação de Rafael Mendes» (L&PM Editores, 1983) – o título diz-nos tudo. O resto, só lendo.
Mas aqui vai um pequeno excerto:
«Os Mendes fixaram raízes no Rio Grande do Sul, com o tempo tornaram-se uma família tradicional, embora não fizessem parte da aristocracia rural propriamente dita. Tive, entre meus antepassados gaúchos, um fazendeiro, um comerciante; meu pai foi engenheiro, mas o nome Mendes tornou-se respeitado, pelo menos no círculo de minhas amizades. Quanto às remotas raízes ... Ninguém me falou de cristãos-novos, nem da Inquisição, nem dos essénios, nem dos profetas, nem da Árvore do Ouro ...
E, no entanto, algo havia; certa atracção pelo exótico, pelo misterioso, pelo oculto; certo fascínio pelo paradoxo; alguma perturbação ao passar por sinagoga; uma sensação de dissimulação; e perplexidade. Não a perplexidade do olho arregalado, da boca aberta e do queixo caído; uma perplexidade menor, embrionária; mas inquietante, de toda forma; inquietante o suficiente para demandar auxílio de um guia de perplexos, se disponível. O que não acontecia.»

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