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sábado, 22 de janeiro de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 8



Um problema de tradução

Alexandra Pinto Rebelo

Passei por um supermercado chinês, em Lisboa. Como nunca tinha estado em tal tipo de estabelecimento, entrei. Pensei que as minhas refeições frequentes em restaurantes chineses, ao longo de vários anos, seriam um posto fronteiriço seguro entre mim e aquele distante universo gastronómico. Bastou olhar para a primeira escada de prateleiras para compreender que não seria assim. Ainda passei bastantes minutos na loja, olhando com atenção, observando os desenhos indicativos das embalagens com cuidado bem como as manchas de tinta de milhares de caracteres. Nem com todo o meu cuidado e boa vontade consegui traduzir a maior parte das coisas vistas para os meus conceitos de matérias comestíveis.

Não há melhor experiência do que entrar noutra cultura para sentirmos que a maior parte das coisas nos são estranhas. O outro serve-nos sempre como ponto de referência para aquilo que nós não somos. Como não o compreendemos, surge-nos como um pequeno conjunto de estilhaços de caos, uma espécie de não-descrição, que em certa medida nos vai sugerindo aquilo que somos através do que não somos.

Poucos são aqueles que conseguem estabelecer este distanciamento na sua própria cultura. Terá sempre de ser um distanciamento forçado. Olhar para um galão é conhecê-lo. Não conseguimos parar toda a informação que, mesmo sendo silenciosa, nos percorre. Conseguir construir uma barreira entre o nosso conceito de galão e o galão ele mesmo é o princípio dos sábios. No fundo, importa conhecer as coisas como elas são, e não discursos sobre as coisas que decoramos desde crianças, discursos que acabam por moldar a nossa percepção. É muito difícil tornar estranho o que nos é familiar, por uma questão de princípio. Viver um paradoxo não entra na nossa lista habitual de coisas que somos. Assim, passamos a vida a fazer cumprimentos silenciosos, com discursos que são interpretações de outros, a coisas que se nos tornaram familiares tão só por termos decorado e compreendido esses discursos. Ou seja, aquilo que nós somos, aquilo em que nos transformam sempre, é um conjunto de teias de discursos sobre os objectos, sobre os fenómenos, interpretações marchetadas em palavras mesmo sendo reconhecivelmente curtas ou compridas demais. Tornamo-nos os discursos e pensamos que com eles nos tornamos nas coisas, conhecendo-as como nossas, conhecendo-as como se as fossemos.

Por isso, só os sábios podem quebrar discursos, ficando sem nada. (Falo de sábios, enquanto termo genérico, propositadamente). Os sábios, para serem sábios, sabem que nada têm, por isso nada perdem.

No meio deste texto, vou cometer uma heresia. Heresia, mesmo, não falo metaforicamente. Quem for mais sensível a estes assuntos, deverá parar de ler por agora.
Pensei eu se os anjos também não terão olhares que são eles mesmos interpretações sobre as coisas. Coisas superiores às nossas, presumo, desconhecidas dos humanos, talvez, mas não terão os anjos discursos decorados, teias de interpretações sobre os seus fenómenos e os nossos? Será que aquilo que nos vêm transmitindo são as coisas em si mesmas?
Parece-me que, das religiões do Livro, só o Islão terá resolvido este problema em termos filosóficos. O Corão existe desde o princípio dos tempos, não sendo inspirado mas sim revelado. É uma coisa per si, identificável com o Cristo da cultura cristã. Islão significa então submissão a essa revelação, revelação que é a coisa em si transformada em texto recitável.

Voltemos novamente ao oriente. A palavra sânscrita Tathatâ, tem um sentido próximo da nossa palavra “realidade”. Designa o Absoluto, a Verdadeira Natureza de todas as coisas. O termo Tat é a raíz da palavra. Ninguém sabe a sua origem nem o seu primeiro significado A hipótese mais forte é representar o som que os bebés fazem quando apontam uma coisa. O bebé é aquele que está mais próximo do início, não tendo ainda apreendido, ou decorado, discursos sobre os objectos ou fenómenos para os quais aponta. Dessa forma, esse som inicial, será aquele que com maior rigor descreve a coisa em si. Se pensarmos bem nisto, tudo, então, é Tat. Nós próprios somos Tat, bem como todas as nossas referências. Tudo o que é o Outro se diluí nesta pequena palavra levando-nos também a nós para um caldo primordial não-conceptual. Um dos nomes de Buda é Tathâgata, aquele que chegou à Iluminação pela via da Verdade. E a verdade, se olharem bem para a raíz, é Tat, nada mais do que isso.

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