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domingo, 15 de agosto de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 75



Crónica primeira da beira-mar
Eduardo Aroso

Maré é o mar que é. Em Portugal parece não haver marés, ou seja, o mar parece ser impedido de nos servir, quer no plano físico quer no domínio mítico. Quanto aos pescadores e ao que é pescado, estamos informados: mandam os “grão-capitães” de Bruxelas. Saibam ou não nadar, conheçam ou não uma caravela, distingam ou não a proa da popa de um paquete. «Nós por cá», como diz a simpática apresentadora da televisão, ora fazemos jus directamente ao que o oceano dá, ora lançamos mão dos enlatados que vêm de longe, talvez pela sedução de viajar… Quanto ao mar mítico, mudemos um pouco – sem nunca perder a seriedade – o tom e o compasso. Troquemos então a valsa dos salões europeus pelo fado e o Fado – nossos, claro está.
Um restaurante, numa encruzilhada (nem só nestes cruzamentos aparece o diabo, pois também algumas belezas por cá passam…) aqui da praia abriu as portas ao público há relativamente pouco tempo. Novo e diferente para, na companhia da maresia, puxar pelo apetite, decorado com um leve toque de exotismo. Entra a gente e dá logo de caras – quem diria – com o poema de Pessoa «Ó mar salgado…», em letras bem esculpidas sobre uma cor avermelhada que lembra o pôr-do-sol. Sim, mas pouco tempo passado, quem diria, no meio da profusão do turismo, mesmo com a designação cultural!, há (alguns) quem tenha ficado boquiaberto. As belas estrofes do poema de Mensagem desapareceram de repente! Oh, paradoxo dos nossos fados! Ele há coisas! Aquilo talvez fosse já o prenúncio de uma norma legal dada a conhecer ontem ao público. Portugal é o primeiro país do mundo ocidental a impor restrições à quantidade de sal no fabrico do pão. Uma solução com um duplo alcance: para a saúde está bem de ver, merece aplausos. Mas, juntando e considerando estas coincidências no país do paradoxo, somos levados a considerar esta medida como genial, de grande eficácia, quer no domínio da saúde quer no plano mítico. Assim, observando atitudes premonitórias como esta da nossa sociedade, parecendo antever resoluções políticas, percebemos imediatamente este rasgo cultural. Será que tem o dedo da actual ministra da cultura? De vez em quando é necessário remexer no plano mítico e histórico e impor limites ao nosso mar salgado. Ou seja, cuidado com esse sal! Os livros escolares já começaram a retirar esse elemento, substituindo-o por outros. O fabrico desses sais (as actuais salineiras) está agora sediado em muitas fundações filantrópicas e culturais do nosso país.
Figueira da Foz, 12-8-2010

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