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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

RAZÃO POÉTICA, 5

Gramática Secreta da Língua Portuguesa [2.ª parte]

Definido assim o elemento como o vazio de um fonema, quantos são os elementos?
Postas de parte as vogais, por capazes de formarem por si só uma sílaba, dir-se-á que os elementos são tantos quantos as consoantes, o que levaria a fazer variar o seu número consoante o número de línguas existentes. Não é assim. Como parece ser é do seguinte modo: o B e o D são a dupla forma do mesmo elemento; também o G e o K, o D e o T, o F e o V, o S e o Z, o X e o J. Aos termos dos vários pares chama o grande fonologista Trubetzkoi «termos correlativos». Só há correlação através de um terceiro termo, nem audível enquanto som (o B e o P já não o eram), nem visível como letra, mas apenas inteligível.
Dispondo na árvore sephirótica os pares e as tríadas correlativos temos a representação desenhada na figura 2.
Haverá, neste ponto, leitores que não quererão aceitar a ideia de uma base invisível ou de um comum ou de um terceiro como constituindo a raiz dos termos correlativos. Terão, no entanto, de reconhecer que há só dez conjuntos de termos correlativos, dez e não onze, dez e não nove. Pela nossa parte, vemos no P a explosão e no B a implosão do mesmo elemento; é, como para os restantes duplos, a face exterior e interior do mesmo.

Para o referido Livro da Formação, «dez e não nove, dez e não onze é o número dos elementos»; as letras são vinte e duas. Ambas as séries, porém, desenvolvem-se dentro de géneros distintos. As sephirot são propriamente números. A propósito escreve G. G. Scholem em La Kabbale et sa Symbolique, p. 49: «Quando les kabbalistes parlent d’attributs divins et de sefiroth, ils décrivent ce monde caché sous dix aspects; mais quand ils parlent de noms divins et de lettres divines, ils doivent nécessairement revenir aux vingt-deux consonnes de l’alphabet hebreu, avec lesquelles est écrite la Tora, c'est-à-dire, selon leur idée, dans lesquelles son essence obscure est devenue communicable. Pour résoudre cette contradiction notoire, on a proposé plusieurs solutions.»

figura 2: clique na imagem para a ampliar
desenho de Carlos Aurélio

Nenhumas das soluções propostas passam pela determinação de dez elementos, subjacentes às vinte e duas consoantes, e a partir dos quais estas se desenvolvem. No entanto, a ideia poderia ter ocorrido a quem observasse que os dez primeiros números (as sephirot) são ligados na árvore por vinte e dois ramos ou caminhos, cada um dos quais é representado por uma consoante. O que perturba Scholem é a combinação no mesmo esquema da gramática e da aritmética, sem se ver bem como uma se liga com a outra.
Se os dez elementos são a base invisível comum a todas as línguas, já o número das consoantes que a partir deles se geram é diferente em cada língua, assim como a forma que adquirem. Na língua portuguesa as consoantes são vinte e duas. Consideramos consoantes aqueles sons que não são puramente vocálicos e que só existem tendo por suporte as vogais. Pomos de lado a variedade supérflua, que não desempenha uma função fonológica, isto é, só consideramos as consoantes capazes de se assumirem como traços distintivos.
Quer dizer: o português fala-se com vinte e duas consoantes multiplicadas pelas vogais; com elas é uma língua completa, sem uma delas seria uma língua corrupta. Apresentámo-las já distribuídas por conjuntos na árvore das sephirot. Veremos daqui a pouco como se desenvolverão nas correntes que ligam entre si as sephirot.


Antes disso, demoremo-nos algum tempo sobre os elementos. No triângulo superior distribuem-se as oclusivas. São os elementos instantâneos, que se manifestam com a rapidez dos relâmpagos. Os kabbalistas designam as sephirot superiores como keter (a coroa), hochmah (a sabedoria suprema) e binah (a inteligência).
Vem em seguida a esfera da Criação. As letras são sopros, puros espíritos. Por uma coincidência perturbante as iniciais de Jesus Cristo (Iésous Xristos) ocupam a sephiroth do meio, em hebreu tiferet (a beleza) onde convergem e de onde divergem as correntes.
Segue-se o mundo das energias, a esfera da Formação, constituída por letras vibrantes. Entre as duas nasais, o M e o N, vibra o som comum ~, vasto mar onde se reflectem os mundos superiores.
O R é a letra correspondente à décima sephirah, malcuth, o Reino do Padre Nosso que Estais nos Céus. Platão vê no R a expressão do movimento, por ser de todas as letras a mais vibrátil.
O que designamos por natureza é constituído pelos quatro últimos elementos.


Eis agora como os elementos se desenvolvem em consoantes. Com excepção do M, os elementos constitutivos da natureza têm cada um deles uma forma tríplice. O décimo é o R em cara, – em carro, r em ar. O RR é o denso, o pesado, o movimento que se arrasta, o movimento do réptil; o r constitui a vibração pura do elemento na sua forma subtil; intermediário é R, vibração líquida. Os três significam os vários estados da matéria, do sólido ao gasoso ou as várias formas que assume a energia física.

Tríplice é também o elemento seguinte, em Iesod. Na palavra Lua é a líquida por excelência, uma energia expansiva, mas volitante ou grave, conforme a referimos, a primeira consoante de final de sílaba que exprime o leve, o ligeiro, o ágil, o alado. Como o R exprime os três estados da matéria física, o L exprime os três estados da matéria subtil psíquica.

Ao desenvolverem-se cada um destes elementos em correntes tríplices, dirigem-se para o alto, atraídos pelo movimento rotativo das três sephirot superiores, espécie de movimento em si mesmo como o motor imóvel teorizado por Aristóteles.

O mundo físico e o mundo psíquico (o R e o L) formam, como dissemos, a natureza. Não são dois mundos separados, mas ligados entre si em M e N e na vertical.
M é o princípio de ambos, a Matéria, nem física nem psíquica, mas base de ambas. Nada de denso existe neste elemento, que é ele mesmo em si, em relação aos que lhe são inferiores. Repercute-se no subtilíssimo som ~ até N, que, por sua vez, responde com um eco. É uma onda de amor entre a Mãe e a Filha: Mas o N tem um outro aspecto, o nh, a força plástica pela qual se formam e condensam os seres psíquicos e os seres físicos, os filhos de Eros e da imaginação.
A relação seguinte é a da Natureza com o mundo dos espíritos. No centro da Árvore se cruzam as energias inferiores que aspiram à ideia, vibrando de amor, depois de se terem concentrado em Iesod (L), o lugar da Lua, as influências do alto (B, D e G), as potências da direita e da esquerda.

Assim, na árvore da língua portuguesa, não estamos perante sucessivas emanações a partir de Keter. Aristóteles poderia ter pensado a sua filosofia, contemplando-a, e também Leonardo Coimbra, Sampaio Bruno ou os mais recentes discípulos do primeiro.
Antecedentes: 1.ª parte
(continua)
António Telmo

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