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quinta-feira, 23 de julho de 2009

O CAMINHO DO CAMINHO, 2

Cynthia Guimarães Taveira



Quando Deus dorme, nós sonhamos
Sonhei com um eclipse. E com uma nuvem. O eclipse, no início, não consegui perceber se era do sol ou da lua. Primeiro, pareceu-me ser da lua. Depois, alguém no sonho me disse que era do sol. E em seguida apercebi-me de que era um eclipse ao contrário. O céu não ficava mais escuro. Ficava cada vez mais luminoso. E uma nuvem solidificava-se, a pouco e pouco, em luz. Uma luz do outro mundo. Não era o eclipse do céu. Era o eclipse deste nosso mundo sombrio. Ah, se fosse possível uma hierofania universal e todos sucumbíssemos ao encanto da luz!
O monoteísmo cristão tendeu a dar a entender às suas ovelhas (não seremos um pouco mais do que ovelhas? Com tantos animais logo seríamos ovelhas, nós que interiorizamos todos os animais e, por isso, podemos imitar qualquer um...) que Deus estava no céu, estático, sentado confortavelmente num trono, sem nervos nem angústias, nem vontade de mudança a não ser para castigar. Abrindo e fechando as suas portas num jogo bi-rítmico, de bem e de mal, sorte ou azar. Numa dança de justiça que nos ultrapassa e nos detém a cada passo moral que possamos ou não dar.
Mas eu vi o céu a mudar de cor. E mudar de estrelas, nos hemisférios, nas estações do ano. E mudar as elipses dos planetas, e mudar as rotas dos asteróides, e mudar as gravidades das massas de terra. O céu só muda. E nós mudamos com ele e com essa nuvem que muda, não de forma, mas de essência luminosa.
São frequentes os sonhos de metamorfose. Os escaravelhos luminosos egípcios aparecem girando o sol, o escaravelho, aquele que se gera a si próprio. Animais nunca antes vistos, uma natureza metamorfoseada. Uma nova natureza feita de outros materiais só possíveis em sonhos. Um corpo leve que flutua e mergulha nas águas como um pássaro. A água que dança no ar. Não se imagina Deus estático e imutável depois de se sonhar assim. Como se toda a vida fosse apenas a possibilidade de metamorfose.
E até que ponto mudamos com Deus? Na outra vida, complementar, sonhada, viajamos com Ele, n’Ele.
O Hinduísmo, que muito aprecio, diz-nos que as imagens são ilusões e que, mesmo em estádios espirituais muito avançados, ainda existem resíduos dessas ilusões. A Libertação é o fim dessas ilusões. Como o mestre que sai para fora desse animal que é o cosmos e os vários cosmos que vivem dentro dele. Mas até essa imagem é um nascimento, uma espécie de parto para fora de qualquer coisa. Mais forte do que a condenação da morte parece a condenação de nascer, porque toda a morte implica um nascimento. E nascer é ser outro, ser sempre diferente. Uma caminhada incansável pela vida, pelos seus meandros. Condenados à luz, enfim. A essa encantadora luz...

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