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terça-feira, 14 de julho de 2009

O CAMINHO DO CAMINHO, 1

Cynthia Guimarães Taveira
O choro, a cascata e a luz
Uma amiga holandesa disse-me ter chorado convulsivamente pela noite fora. Infeliz não era. Depressiva também não. Disse-me que não sabia porquê mas nessa noite não conseguira parar de chorar. Como se chorasse por tudo. Por nada. Olhei-a espantada. Senti que era capaz de fazer o mesmo. Senti mais. Que deveria fazê-lo. E lembrei-me que talvez algumas pessoas ainda conseguissem ser humanas ao ponto de chorar numa só noite todas as lágrimas que não caíram durante anos. Mas o mundo é mundo e também símbolo e sonho. Lágrimas que guardamos, reservadas, lágrimas de sal, lágrimas de vida, enfim. O arrependimento dos mais pequenos detalhes extraviados do bom caminho. O arrependimento do bem que deixámos de fazer. O arrependimento até das acções mais inocentes e insignificantes mas demasiado fúteis para constarem no livro da alma. O arrependimento dos filmes dramáticos que vimos, das histórias que escutamos e lemos. E sim o arrependimento da História da humanidade, das barbaridades que partilhamos enquanto espécie. E ainda o arrependimento da nossa insignificância e da nossa incapacidade de explorar todas as nossas possibilidades, até ao limite, até ao fim. O arrependimento da ausência de absoluto num mundo hermeticamente fechado sob si próprio. O arrependimento é afinal tão próximo de tudo: desde a formiga que se esmaga sem querer, à responsabilidade de tendermos a ser anjos voadores de espírito infinito.
Todo o choro numa noite, não com gritos de angústia, mas sim acompanhado pela consciência do difícil acto de devolver tudo aos seus lugares, de repor o irreparável, de ensimesmar a vida até aí vivida para a devolver em lágrimas.
Temos duas cascatas nos olhos (espelhos da alma) e, quando choramos, choramos mais do que por apenas uma única coisa. Se alguém nos morre choramos de saudade, de arrependimento, de memórias, momentos, perfumes, toques, cheiros. O choro é plural e vem sobre a forma de cascata. Apenas no homem. Mas que cascata é essa que connosco vive?

“O filósofo grego Heraclito já tinha observado isto: num mesmo rio, jamais é a mesma água que corre; observação que ele colocava na base da teoria sobre a evolução perpétua dos seres e sobre o paradoxo do pensamento que tende a imobilizar as coisas que se movem em definições fixas. (…) o movimento descendente da cascata significa igualmente o movimento da actividade celeste, proveniente do motor imóvel”[1]

E ainda, na árvore sefirótica Kether, a coroa, simboliza “Eu sou“, e é dito dela ser uma luz que jorra perpetuamente, sem princípio nem fim, como uma cascata…
Há luz, afinal, nessa tristeza, a mais celeste que podemos conhecer. Enquanto há choro, há esperança.
Não é em vão que duas cascatas jorram dos nossos olhos. É nesse arrependimento que reside a verdadeira memória da humanidade. As lágrimas são uma arqueologia de Deus num movimento inverso ao do arrependimento, porque também elas são sempre mais do que uma única coisa, o sal da vida…
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[1] Dicionário dos Símbolos, Jean Chevalier e Alain Gbeerbrant - entrada para cascata.

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