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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 52

Algumas palavras devidas
a'O Canto dos Seres de Pedro Sinde
Eduardo Aroso


Meu caro Pedro Sinde,
Uma elevada mística da qual, à primeira vista, poderíamos pensar que floresceu com Frei Agostinho da Cruz, para depois logo abrandar, surge-nos, na primeira década do século XXI, em Pedro Sinde numa mística pensante ou num peculiar pensamento de religiosidade interrogativa, sem que se apague aquele que coloca a questão. Eis o que me parece haver na obra O Canto dos Seres. O seu livro, mais do que fazer jus, superiormente, à sentença de André Malraux «O século XXI será religioso ou não será», retoma um dos mais fecundos veios da nossa tradição que é, diríamos, o das núpcias da sensibilidade poética e dos ditames singulares da razão. Os seus textos, mormente os que constituem a primeira parte da obra, são necessariamente diferentes - no plasmar do vocabulário e na forma expositiva das ideias – do que sentiu e escreveu o poeta da serra da Arrábida. Agora temos Pedro Sinde que das fragas e torgas do Marão começa por alquimizar o mineral numa essência que é essência de todos os lugares altos de Portugal ou terra de lux, para nos deixar, como criaturas, nesse ponto em que estamos a meio caminho entre a terra e o céu, assim a alma queira. No seu livro anterior vimos que só é possível saber que há Terra Lúcida se o espírito se revestir também da mesma lucidez de consciência que sabe que a Natureza é viva não à maneira da vitalidade dos biólogos materialistas, mas verdadeiramente fazendo parte do corpo de Deus manifestado. Por isso, quando o meu amigo se refere, por exemplo, ao voo dos pássaros, ao som do vento e aos tons inefáveis do sol pela tarde, ou toca com a sua atenção no que escapa aos desatentos do quotidiano e da vida em geral, sabemos que organiza o seu sentir de tal modo que nada é visto mecanicamente na Natureza e no Homem. É como se não fosse o pensador a ter a iniciativa de tomar racionalmente a Natureza, mas, isso sim, só depois do consentimento desta, a sentir e meditar sobre ela.
O Canto dos Seres não é uma prosa poética, por profunda que seja, nem um livro em que os teoremas se servem de ilustrações poéticas, teoremas que podem ser provados por quem esteja disposto a responder ao convite do autor. Constitui, isso sim, um pensamento que parte do sentir a Natureza como ente e dentro da qual o pensamento deve fluir, porque dela necessita, como um barco à vela, da água e do vento para se mover.
Se, por hipótese, o título “Manual de Observação da Natureza” não fosse tão prosaico – o que rebaixaria desde logo a apetência pela obra – ele bem poderia ser dado ao seu livro, recomendado a todos os famintos de memórias e vozes perdidas. Não ao modo dos biólogos materialistas, coleccionadores de seivas e células, mas na expectante atitude de espanto que nos provoca o gigantismo espiritual da Natura, em simbiose de sabedoria, encanto e vida, vida inseparável, dir-se-ia. O Canto dos Seres é, em plano mais alto, um não muito extenso mas essencial Tratado, bem urgente, diga-se, que guia seguramente qualquer um que, no íntimo sentido, queira aproximar-se da Mãe-Terra. É sabido que muita gente espavorida procura o campo para estar com o lado de fora da Natureza, no risco de lhe acontecer o mesmo que àqueles que tem de viver maritalmente com outra pessoa, sem gostar dela, ou porque não a compreendem, ou por outras razões.
Ajuíza-se bem o modo como o Pedro vive e expressa a Natureza de dentro, quando lemos o que escreve já no final da obra, em jeito de epílogo «Cada ser canta, encanta-se e encanta. Há um canto que é o seu modo de aparecer no mundo, de se mostrar. O canto não está só na voz; é um canto a forma da pedra no seu aparecer, a cor da flor humilde que os nossos pés inadvertidamente pisam, o amanhecer glorioso, a fonte, o olhar meigo do cão, o olhar contemplativo do gato, o lavrador a recolher a casa depois da jornada, o filósofo de olhar intenso enquanto pensa o mistério da vida». Referindo-se ao ruído, mais à frente, escreve «O canto, face ao ruído, será já o canto do cisne? Ou será o ruído esse canto do cisne de uma civilização a dar o último estertor, a última convulsão? É que a cidade passará, mas o canto do universo não; a cidade é ruído do homem, o universo é canto do silêncio de Deus».
É sabido que o corpo nos incomoda, por isso o questionamos, quando abusamos dele. O Homem começa a ter má consciência de si pelas longas agressões à Natureza, e por isso põe a ênfase na ecologia. Mas tal como o antigo hábito de pagar a bula não apagava nem apaga nenhum pecado que se faça, a não ser pela reparação por outros modos, também meter-se na floresta, podendo trazer melhor oxigénio aos pulmões, não garante a respiração da alma.
Sim, a cidade passará – pelo menos como é hoje desenhada e organizada – mas o timbre sonoro das ondas na nossa costa atlântica, a imponente sentinela da serra Marão, ou a figura tutelar desse chacra português que é a Serra de Estrela, ou o «rumor dos pinhais que, como um trigo/ De Império, ondulam sem se poder ver», esses e outros cantos existirão ainda quando um dia já ninguém se lembrar que a Natureza ou Corpo de Deus Imanente foi tratado, durante muito tempo, como uma estatística. O seu livro ficará para os vindouros, seja em papel, seja on line, ou seja na mais estranha forma de arquivo, na certeza de que ele nos leva à Natureza por dentro. Por mim, li-o e reli-o e conservo-o no meu interior, dum modo que não se rasgará, em ficheiro que não se apague.
Meu caro Pedro Sinde, peço que aceite estas palavras ao sabor da Natureza em mim, cujo canto, neste momento, só poderá ser entendido no elementar ritmo em que são escritas. Palavras que desde há muito lhe eram devidas e que só agora se desprenderam em simples contraponto às suas completas melodias que harmonizam os textos de O Canto dos Seres.
Coimbra, 29 de Janeiro de 2010
Eduardo Aroso

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