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sexta-feira, 20 de março de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 2

António Carlos Carvalho

Amanhã à tarde, depois da apresentação pública do primeiro número dos «Cadernos», subiremos ao castelo de Sesimbra para plantarmos uma árvore perto da casa que foi a morada de Rafael Monteiro. Porque este sábado se assinala o Dia da Árvore, claro, mas também porque, para nós, esta árvore tem diversos significados.

Plantar uma árvore é muito mais do que um «dever ecológico», um «mandamento verde». Provavelmente, cada um de nós terá razões de coração, muito pessoais, associadas a um gesto destes. Sei que ver plantar uma árvore é, para mim, um voo da memória que me leva até Jerusalém em cujas colinas, por duas vezes, plantei uma árvore, a convite do instituto governamental que trata da reflorestação do país. Mas no fundo de mim havia muito mais do que razões de ordem prática – cada uma dessas árvores transformou-se em laço que me prende a Jerusalém, a cidade de que nunca me esqueço, que habito em sonho e memória, na esperança de ver cumprida a visão de Zacarias.
Na verdade, a árvore faz parte das memórias da minha vida desde sempre: a árvore diante da janela do quarto, como no poema de Régio; o suave murmúrio do vento nas folhas, quando passeava solitário pelas matas (e que depois descobri ser a presença de Deus diante do profeta Elias); a dor dilacerante de uma floresta a arder durante um incêndio de Verão; o odor inebriante das árvores nas ruas do Rio de Janeiro; a sepultura da minha querida gata à sombra das árvores de Monsanto, tal como o túmulo de Menasseh ben Israel no cemitério português de Amesterdão, ele próprio uma pequena floresta com clareiras; as oito colunas da nave dos Jerónimos, erguendo-se para uma abóboda de pedra cujas nervuras parecem ramos de palmeiras – lembrando que a madeira da árvore e a pedra têm ligações físicas e simbólicas, enquanto matéria-prima; e, agora, as árvores frondosas do Jardim da Parada, em Campo de Ourique.
Sim, a árvore esteve sempre ali, à minha espera, interpelando-me silenciosamente.
Sim, a árvore esteve sempre aqui, antes mesmo do início das nossas gerações – que se desenham e desdobram numa árvore genealógica, simbolizada pela árvore de Jessé, o pai de David, início da linhagem messiânica.
A Árvore do Conhecimento do Bem-Mal (assim mesmo, misturados, cujo fruto não é uma «maçã»: fomos enganados por uma má tradução latina – o texto original não indica de que fruto se trata), e a Árvore da Vida pontuam o relato das origens no Jardim do Éden ou das Delícias.
Árvore da Vida, Ets Haim, é também o nome da Livraria (Biblioteca) Montezinos, anexa à grandiosa Sinagoga Portuguesa de Amesterdão, ambas milagrosamente sobreviventes da barbárie nazi. A Biblioteca é hoje considerada a mais antiga do mundo (fundada em 1616 e em funcionamento desde 1675) e contém tesouros preciosos do pensamento português, à espera de alguém que os estude. Pergunto-me se Sampaio Bruno a terá visitado durante os seus anos de exílio... A Torah é igualmente chamada Árvore da Vida. E não é por acaso que Ets Haim é o título de diversos escritos kabbalísticos.
Ainda na Bíblia, onde a árvore tem mais de 120 referências, encontramos depois o carvalhal de Morê (o da visão e do ensino) e o carvalhal de Mambrê (onde os três anjos beneficiam da sua hospitalidade), ligados com a figura primordial de Abraham; a ama de Rebeca é enterrada sob o carvalho de Bethel, o «carvalho dos prantos».
Os Salmos indicam-nos que o homem justo é como uma árvore plantada junto à corrente das águas, que no devido tempo dá fruto e cuja folhagem nunca murcha. Os Provérbios de Salomão dizem que a sabedoria é uma Árvore da Vida para os que a alcançam, e que o fruto do justo é a Árvore da Vida. Por isso o Zohar insiste que o ser humano é uma árvore cujas raízes retiram a sua seiva do próprio céu.
Para nós, é evidente que a árvore nos lembra o nosso próprio caminho: tal como ela, estamos de pé, entre a terra e o céu, ascendendo sempre. Nem sentados nem deitados nem de joelhos -- de pé, humildemente, ligando o céu e a terra. Árvores de Vida.
Tal como a árvore, temos raízes, aqui, nesta terra, mas a nossa seiva vem do céu: é ela que nos mantém vivos e portadores de Vida.
Tal como a árvore, damo-nos a conhecer pelos nossos frutos, por aquilo que damos, que doamos, ao mundo – e aos outros. Existimos numa relação de dom, não de «poder», ilusão estúpida de uma criatura que se esqueceu dessa mesma condição e de quem a criou. Abraham, aquele em quem se cumpre o projecto inicial da Criação, aquele que inicia uma re-criação da humanidade, encarnou a virtude da hospitalidade, o atributo da bondade. Não é por acaso que o texto bíblico refere a sua relação com as árvores, à sombra das quais instala a sua tenda, lugar da Presença, e que seja à sombra d’A Árvore (a árvore por excelência, da qual todas procedem: a Árvore da Vida) que ele pede aos enviados (Anjos) que repousem.
A nós, falta-nos ainda descobrir a Árvore da Vida, talvez por estarmos tão perdidos na floresta do betão e dos seus espectáculos. Mas, de cada vez que plantamos uma árvore, damos um passo no caminho do reencontro, da Aliança. Asssim contribuímos para humanizar o mundo, completando a sua criação – e a nossa.
Amanhã vamos plantar uma oliveira. Sabemos bem que o ramo de oliveira simboliza a paz – mas não foi Picasso que o «inventou», desenhando-o: o símbolo vem já da narrativa do Dilúvio. Da segunda vez que Noé envia a pomba, ela regressa à Arca trazendo no seu bico um ramo de oliveira com as folhas verdes. E assim Noé compreende que as águas tinham cessado de cobrir a terra. Depois da «tempestade» (suscitada por Deus contra aquela humanidade iníqua) chegava a bonança, anunciada por um humilde ramo de oliveira.
Do seu fruto extraímos o azeite, relacionado com a santidade, isto é, com a separação: o azeite não se mistura, como acontece com os outros líquidos. É utilizado na unção e na santificação dos objectos sagrados, mas também os reis e os sacerdotes recebiam o «óleo de unção», azeite puro. David foi assim ungido três vezes – e, imitando-o, algumas monarquias europeias adoptaram esse mesmo ritual de unção na coroação do novo rei. Recebendo o azeite da unção sobre a sua cabeça, que depois lhes escorria pela barba e pelo resto do corpo, esses reis e sacerdotes eram assim separados dos outros e postos ao serviço de uma causa maior. Messias, Mashiah, significa realmente «ungido».
Mas o azeite é igualmente uma substância que se transforma em luz. Hoje, que só o vemos como tempero, esquecemo-nos de que o azeite esteve relacionado com a luz, a das candeias e lamparinas de azeite, cuja chama pode ser comparada à alma. E, no Hebraico, shemen evoca o radical shem, nome: cada homem distingue-se pelo nome, a escolha do nome é uma eleição; escolha e unção estão ligadas entre si. Recebendo este nome escolhido, somos ungidos para um determinado projecto neste mundo.
A partir de amanhã, e enquanto à nossa volta sobem as águas de um outro Dilúvio, agora desencadeado por uma humanidade desorientada (sem luz), sabemos que, ao menos ali, junto da casa do Rafael, temos um ramo de oliveira, uma esperança de paz, à nossa disposição. Que essa oliveira dê fruto e que nós saibamos ainda acender a candeia da nossa alma.

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