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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

AFORISMOS, 13

Eduardo Aroso

61 – Uma casa antiga - a emancipação das pedras.
62 – A nossa voz interior - o primeiro e o último mestre.
63 – Uma luz que viesse e nos desse nos olhos; uma chicotada mística que nos fizesse bater com a cabeça no entulho que amontoámos; um sol que nos queimasse a alma mais que a pele, e que por fim só pudéssemos aliviar esse escaldão de dor com a mais pungente das orações.
64 – O Estado-Providência e o Espírito Paráclito. Admitindo a necessidade do primeiro, no plano material, - reformulado em novo Estado, como se exige – e a supra-realidade do segundo, a correspondência é perfeita, seja por antítese ou por síntese. Duas faces da mesma moeda que, ora tilinta, ora paradoxalmente se transmuta em jacto de luz.
65 – A confusão entre duas palavras tem contribuído para uma visão distorcida do que é ser português. São elas universalismo e patriotismo na imagem, podemos dizer, das duas repúblicas: a de 31 de Janeiro de 1891 e a de 5 de Outubro de 1910. Junto aos patriotas, esta está relacionada com os patrioteiros do Terreiro do Paço (deslocado agora, em grau variável, para Bruxelas); a primeira, a dos nossos arquétipos mentais e espirituais, confere significado ao patriotismo universalista do português, o que emigra e consciente ou inconscientemente busca esse amplo sentido de ser, até encontrar o centro do mundo ou Reino do Preste João, ao qual, actualmente, pode até dar outro nome. Patriotismo universalista também do português que teve de ficar, à procura do centro, exilado na sua viagem estática, por não ir no caudal avassalador que corre sobretudo da Europa central para ocidente.
Mas nisto tudo há uma terceira situação – aquela infelizmente tida por vitoriosa, a mais apetecida, oficialmente bem reconhecida e intelectualmente a mais consensual – que é a dos que, discordando dos patrioteiros do Terreiro do Paço, se lançam na aventura de um universalismo que querendo ser tudo, recusa (geralmente por medo da solidão, da falta de aplausos e outros proveitos) e até se envergonha do que é medularmente português. Por isso o seu universalismo soa a choco, como os cântaros de barro rachados que só quando se enchem de água se vê que logo a deitam fora de novo.

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