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quinta-feira, 25 de junho de 2009

A DOR E O AMOR, 4

Antero de Quental
O drama da sua vida

II
Analisemos um pouco.
A personalidade de Antero, inicialmente, desdobra-se da seguinte forma:
Consciência de justo, cristalina, límpida, inalterável, levando, pelo cumprimento do dever, ao heroísmo e à santidade.
Razão metafísica, inquieta e perplexa, ardentemente buscando o segredo do ser, o enigma da existência, o destino do homem.
E, enfim, um princípio mórbido, (almas inferiores) no organismo ligado às duas modalidades supremas, e, ora adormecido ou vencido, deixando-as expandir livremente, ora rebelde e venenoso, intoxicando a vontade, agoniando a razão, mas nunca destruindo o brilho virginal e perene da consciência e do carácter.

Antero de Quental: desenho de António Carneiro
A vida de Antero, desenrolando-se harmónica e luminosa, num jogo acorde da consciência e da razão, sem que o elemento mórbido, por crises, lhe houvesse nunca dificultado ou modificado a trajectória, dar-nos-ia, decerto, não talvez um grande poeta, mas antes um grande herói, ou um grande santo. Não um grande poeta, tomando a palavra no sentido restrito da literatura, pois que, na essência e verdadeiramente, é Nun’Álvares ainda maior poeta do que Camões e S. Francisco de Assis maior poeta do que Nun’Álvares. Heroísmo, génio, virtude, – três momentos do mesmo ser, três aparências da mesma realidade: O Espírito evolucionando para Deus.
Em Antero, dada a sua nobreza moral, a filosofia não significa apenas a curiosidade do intelecto. A ideia torna-se nele em condutora da vida, em norma da existência. As abstracções fazem-se sangue, o verbo faz-se carne.
Há, como disse, naturezas de moralidade baixa e mentalidade superior. Em Antero, o senso moral não desfalece nem hesita. Mas no herói e no santo as ideias, logo que nascem, traduzem-se em actos. Pensar é executar, conceber é realizar. Em tais criaturas, a ama divina subjuga e vence as suas almas inferiores. E dominando-as, dominam o mundo.
Porque não foi Antero um desses homens?
Por duas causas:
A influência deletéria do elemento mórbido e a disparidade contínua da consciência e da razão ante o problema metafísico.
A consciência, agulha reveladora, marcando, imóvel o seu norte, – Deus. A razão, inquieta e desvairada, oscilando, febril, numa tremura de angústia, hoje apontando o desalento, amanhã o desespero, uma hora, a indiferença, outra hora, a dúvida, fechando cada período de ansiedade por um momento de equilíbrio, equilíbrio que de novo se destrói para de novo se encontrar, e que só ao cabo de vinte anos definitivamente se realiza, pela comunhão de toda a alma na luz absoluta da mesma fé.
Por noite negra e mar tormentoso, um barco frágil a duas bússolas guiado, esta indicando sempre a única estrelinha do horizonte, aquela, meia louca, continuamente vacilando, paralelas ambas de fugida, logo diversas e contrárias, até se fixarem, por último, na direcção unânime da mesma estrelinha redentora.
Daí, a ausência daquela unidade psicológica característica dos grandes heróis e dos grandes santos; daí, a terrível batalha espiritual que fez de Antero um homem de génio, por fazer dele um extraordinário desgraçado.
O drama da Consciência e da Razão, eis, afinal, a obra.
Destruída aos dezoito anos a unidade da alma pela morte da crença, a Razão liberta-se, o drama principia. Várias vezes o escreve, e outras tantas o renova, e de cada vez mais intenso, mais largo, mais profundo. Os dois últimos livros dos Sonetos são o drama definitivamente imortal. As versões anteriores, onde há páginas admiráveis, não chegam ainda à grandeza épica e soberana que o tempo não amesquinha, que a eternidade não dilui. É que no poeta das odes agita-se ainda o revolucionário. Os entusiasmos do batalhador encurtam a visão do filósofo. O choque das armas embebeda-o, a cólera exalta-o, e o cisco da arena revolvida empana-lhe as profundidades do horizonte. Soldado bravio e generoso, das rimas faz lanças, das odes faz metralha. Imprime à sua arte um cunho indelével de nobreza moral, mas diminui-lhe o alcance e a estabilidade, pelo ardor momentâneo que a produz, pela ideia efémera que a vitaliza. Arte incompleta.
Chega a hora divina, a hora do sofrimento. Ei-lo por terra, o lutador. Em bocados a lança, crivado de golpes, agoniza imóvel. Um rebelde exausto, um Prometeu paralítico. Quase um cadáver.
O mundo concreto, o mundo das formas, evaporou-se. Nem pés para o andar, nem mãos para o palpar, nem olhos para o ver. Onde estava? No Infinito. A que horas? O quadrante da ideia marca uma única, – a Eternidade. O Espaço, eis o lugar; o Tempo, eis o minuto.
E é nesse cenário formidável que o drama titânico vai desenrolar-se.
Drama genial. Tinha de o ser.
A consciência virtuosa do justo mais bela do que nunca. A razão do filósofo, exaltada, amargurada e patética. E a forma do artista, isenta de contágios, grandiosa e simples.
E o drama, em si, o mais alto e veemente que no espírito humano se desencadeia e tumultua. O drama da Vida e do Destino.
Porém, só a razão e a consciência, aliadas à arte, não o gerariam ainda. Dos elementos dum corpo ao corpo vivo, que distância enorme! Que é um diamante? Carbone puro. Que é um rubim? Alumínio, bórax, cromato de potassa. Mas que temperaturas prodigiosas, que combinações desconhecidas, que electricidades genésicas, para daí formar a estrela dum diamante ou a lágrima sanguinolenta dum rubim!
Na obra imortal do poeta a centelha divina foi o Amor e a Dor. E que admira que produzisse o Génio, se ela quase produz a Divindade! Dum justo, atribulando-o, faz um santo, e dum santo, crucificando-o, faz um anjo. A evolução da natureza, desde um mineral até um Cristo, desde um infusório até um Buda, não é mais que a infinita passagem do amor através do sofrimento, do espírito através da dor. Em vidas sem conta, em vidas inumeráveis, pelo Amor e pela Dor, pode a alma vegetal da cruz atingir quase em perfeição a alma celeste do seu crucificado.
1894.
Guerra Junqueiro

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