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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 34

António Carlos Carvalho

-- Ora, isso é um mito!
-- Mas não passa de um mito ...
Quantas vezes é que já ouvimos isto? Ou que já lemos? Não sei quando, nem como, nem porquê, mas a verdade é que, a partir de certa altura, nesta simiesca (a expressão é do Pascoaes) maneira de ser e de estar que se tornou a nossa, passámos a repetir esta falsidade como se fosse verdadeira: «mito» sinónimo de «mentira».
Creio que, uma vez mais, estamos a prestar homenagem, inconscientemente, às técnicas de propaganda do sinistro dr. Goebbels: uma mentira, repetida muitas vezes, acaba por se tornar verdade.
Aliás, é o que a publicidade (cujas técnicas de influência influenciaram a propaganda de ideias) faz todos os dias: encher-nos os olhos e os ouvidos com uma boa mentira.
Neste caso, a questão é mais grave: se nos convencerem que «o mito é uma mentira», perderemos definitivamente um utensílio importante para a nossa meditação.
Todos os povos têm (ou tinham) mitos de fundação, que dão fundamento à sua própria identidade. Esses mitos, que são narrativas exemplares, não narram acontecimentos no sentido histórico – e, no entanto, são absolutamente verdadeiros porque estão repletos de uma profunda sabedoria, são riquíssimos de significado e neles nos podemos reconhecer, identificando-nos pessoal ou colectivamente.
Podemos dizer que o mito é uma narrativa fundadora de identidade: lendo-a, somos arrastados para uma dinâmica que nos estrutura. E assim entendemos o que somos.

A Batalha de Ourique, de Domingos António de Sequeira
Lembro aqui uma passagem da «Arte de Ser Português», obra evocada há pouco tempo em Sesimbra – Pascoaes escreveu:
«Bem sabemos que o Cristo de Ourique é uma lenda, o que ingenuamente demonstrou Alexandre Herculano. Mas é certo que a Lenda se formou, o que, para nós, tem mais valor que a realidade histórica daquela aparição. A esta realidade preferimos a legendária. (...) E vê-se que na Legenda existe, em mais verdade, o génio de um Povo, que na História. Aquela, é criada pelo que ele tem de mais íntimo e profundo; e esta, pelo que ele possui de mais comum aos outros Povos.»
Repare-se na distinção que Pascoaes faz (em 1915!) entre Lenda e Legenda – distinção essa completamente esquecida no nosso tempo, mas fundamental – e leiamos Legenda como Mito: o mito é realmente uma história que se deve ler, guardar na memória e transmitir aos que vêm a seguir. Uma identidade transmitida em cadeia, a partir de uma narrativa exemplar.
De qualquer modo, tudo isto está explicado, muito melhor, nas obras de Mircea Eliade (em boa parte traduzidas entre nós – basta procurar e ler com olhos de ler).
Por isso, em vez de papaguearmos estes e outros disparates modernos, repetidos até à exaustão pelos meios de comunicação mas também por muito boa gente com títulos universitários, mais nos convém ir beber à fonte, aí onde a água do conhecimento corre pura, ainda não maculada pela poluição das ideias feitas.
Isto é, se ainda nos importamos com o significado e com o valor das palavras.
Ou seja, se é que ainda nos importamos com alguma coisa ...

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