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quarta-feira, 17 de junho de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 13

António Carlos Carvalho

No dia 7 deste mês, alguns políticos portugueses descobriram que as sondagens mentiam.
Esta descoberta, que deve ser acrescentada aos anais dos descobrimentos portugueses no mundo, causou alguma perplexidade nesse dia e no seguinte, mas caiu imediatamente no esquecimento (como, aliás, os Descobrimentos portugueses em geral – afinal de contas, naquela época não havia televisão e nenhum navegador foi transferido para Espanha por quase cem milhões de euros...)
Se tudo isto fosse para se levar a sério, no dia a seguir às eleições as empresas de sondagens abriam o jogo e fechavam as portas, envergonhadas. Ou alguém as mandava encerrar, numa qualquer Operação Pinóquio.
Mas como tudo isto não passa realmente de um jogo de «faz-de-conta», as tais empresas continuam a funcionar e darão notícia das suas «actividades científicas» nos meses mais próximos, até às eleições.
Por mim, pergunto apenas: só agora é que os tais políticos descobriram que as sondagens mentem?
Mas em Portugal é costume não se dizer o que se pensa e sente – tivemos mais de dois séculos de Inquisição e quase meio século de ditadura; aprendemos na carne o custo de se dizer a verdade, preferimos então dizer o que convém ou dá melhor imagem de nós.
E, afinal de contas, as sondagens, como também as famosas audiências dos meios de comunicação (TV, rádio, jornais, revistas), existem há muito tempo, foram aliás importadas dos Estados Unidos, como quase tudo o que constitui agora o nosso sistema de vida e de valores. Nos EUA, alguém se lembrou de aplicar os métodos da publicidade ao campo da política, para se poder prever o comportamento dos «clientes» ou «consumidores», vistos como massas, números simples.
E é verdade que, entretanto, o magnífico sistema que nos rege tem-se encarregado de nos reduzir a números: cada um de nós «existe» agora mais pelo número do bilhete de identidade, número do contribuinte, número da segurança social, número de utente dos serviços de saúde, etc. – do que pelo nome que os pais lhe deram.
Acontece que, aos olhos de Deus, cada um de nós é único, insubstituível – ao contrário do que nos apregoam e nos querem fazer acreditar: «Ninguém é insubstituível», dizem os mentirosos.
Tendo sido criado à imagem e semelhança de Deus (que não cabe nas sondagens nem nas estatísticas), cada um de nós nasceu para cumprir um papel determinado neste mundo, um projecto pessoal que corresponde aos desígnios divinos. E que ultrapassa de longe o papel de «cidadão eleitor».

René Guénon
Já em 1945 René Guénon escrevia um livro precioso intitulado «O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos», (ed. Dom Quixote, 1989), em que analisava «um dos traços característicos da mentalidade moderna, a tendência para reduzir tudo ao ponto de vista quantitativo», a tendência dita «igualitária», «a tendência para a uniformidade», que exige que os indivíduos sejam tratados como simples «unidades» numéricas, «realizando deste modo a unidade por baixo». Um indivíduo assim, lembrava, seria um «corpo sem alma», alguém em que o aspecto qualitativo ou essencial desapareceria quase totalmente («na realidade nunca se pode atingir o limite»), um indivíduo que deixaria de ter verdadeiramente um «nome» que lhe fosse próprio, porque estaria «como que esvaziado das qualidades que esse nome deveria ter»: seria pois «anónimo», no sentido inferior desta palavra. «É este o anonimato da “massa”, de que o indivíduo faz parte e na qual se perde, “massa” que não é mais do que a colecção de indivíduos semelhantes, todos considerados como outras tantas «”unidades” aritméticas puras e simples».
Neste mesmo livro, Guénon tem um capítulo dedicado à «ilusão das estatísticas». Lembrando que o ponto de vista científico moderno se caracteriza pelo desejo de reduzir todas as coisas à quantidade, e que só podem ser «exactas» as matemáticas puras, refere o «carácter falacioso das estatísticas», que «não são mais, no fundo, do que a contagem de um maior ou menor número de factos que se supôem inteiramente semelhantes entre si, condição importante sem a qual a sua adição não teria qualquer sentido; é evidente que deste modo só se obtém uma imagem deformada da realidade, porquanto os factos de que se trata só são efectivamente semelhantes ou comparáveis numa medida menor. Só que, fazendo alarde de números e cálculos, as pessoas dão a si e aos outros uma certa ilusão de “exactidão” que poderíamos qualificar de “pseudo-matemática”; mas, na realidade, sem mesmo nos apercebermos e em virtude de ideias pré-concebidas, destes números pode tirar-se tudo o que se quiser.»
Guénon era também um matemático e fazia questão de sublinhar que os números pitagóricos, «encarados como os princípios das coisas, não são, de modo nenhum, os números tais como os entendem os modernos matemáticos ou físicos, do mesmo modo que a imutabilidade primordial não é a imobilidade de uma pedra, ou que a verdadeira unidade não é a uniformidade de seres destituídos de todas as qualidades próprias; e, no entanto, porque nos dois casos se trata de números, os partidários de uma ciência exclusivamente quantitativa bem quiseram contar os Pitagóricos entre os seus “precursores”!»

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