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quarta-feira, 7 de abril de 2010

FREI AGOSTINHO E A ARRÁBIDA, 2*

Neste longo percurso, três rios da terra portuguesa foram abandonados e no fim, eleita uma sua serra, para o atingimento último: ver a Deus. Mas vê-se franciscanamente, através da criatura, da natureza: «Agora que de todo despedido / Nesta serra da Arrábida me vejo / De tudo, quanto mal tinha entendido, / Com mais quietação, livre desejo / Nela quero cavar a sepultura, / Que não junto do Lima nem do Tejo. / Aqui com mais suave compostura / Menos contradição, mais clara vista / Verei o Criador na criatura.» (Elegia VI, Estando na Arrábida). É como se ouvíssemos S. Boaventura, o santo franciscano, «As criaturas podem ser consideradas ou como coisas ou como sinais»; como sinais que nos levam a Deus, as considerou o Santo, e o poeta místico da Arrábida:

Quanto mais formosa for
A coisa que podes ver,
Verás que não pode ser
Sem ser mais o Criador:
Se vires lírios, e rosas,
O Sol, a Lua, as estrelas
Busca no Criador delas
Outras muito mais formosas
Cântico de amor, elevado por um filho de S. Francisco à natureza, ela imagem e caminho de Deus.
E sempre, o poeta místico rememorará o que foi essa longa peregrinação através do corpo da terra pátria, realizada conjuntamente com seu próprio ser, como caminho de ascese e assunção, passagem do profano ao sagrado. «Que campos, que montanhas / Passei, subi com vossa ajuda / Por terras naturais, e por estranhas / Oh! como se converte, rende e muda / Aquela alma ditosa que trespassa / De amor celestial a seta aguda! / Quão leve, quão ligeira, voa e passa / Pelos laços sutis da vida humana; / E como na divina se compassa! / Na doce perenal fonte que nos largos campos se passeia / Subindo nesta Serra se caminha / Atalhando o que nele se rodeia.» Centro final, como ponto de união entre mundos. Assim se diz nas Endechas:

Vamos ver da Serra,
Do monte deserto
O Céu mais de perto
De mais longe a terra.
Até à proximidade das estrelas:
Oh, Serra das estrelas tão vizinha,
Quem nunca de ti, Serra, se apartara?
Oh, quando se partira esta alma minha
Da terra, nesta tua se enterrara?
E, tal como noutro percurso de iniciação ou transfiguração, o da Divina Comédia, a transcensão de cada mundo sucessivo, será cantada como uma progressiva aproximação das estrelas: de ver, subir até elas.
Esta serra, como estado-limite na geografia interior do homem, assim como na geografia exterior duma Nação e dum Continente, o Eurásico, anímica e simbolicamente, física e concretamente, em união, Fr. Agostinho da Cruz a intuiu e utilizou, dela se apossou para sua obra de redenção.
As grandes peregrinações medievais do Ocidente, como procura pelo homem dum Centro, para transmutar seu ser humano no sagrado, terão tido nesta obra, como vida e poesia do eremita da Arrábida, nos séculos XVI-XVII, uma das suas derradeiras formas de expressão e realização, através do espaço terrestre: e que será específica e concretamente situada numa serra portuguesa, como finisterra dum Continente, debruçada sobre as águas do Atlântico, em marca e limite inultrapassável duma demanda. Assim diz na Écloga Piscatória XI:
Eu dali me parti naquele instante,
De vale em vale, vim de monte em monte,
Até não poder mais passar avante:
Que as águas Oceanas não têm ponte.

E neste limite da terra, se perguntará a si o eremita: «Aquela saudade que me manda / Lágrimas derramar em toda a parte, / Que fará nesta saudosa e branda?» Como serra da saudade, ela se revelará, a um tempo como manifestação suprema dos opostos cósmicos e seu ponto de reunião. «Daqui saudoso o sol se parte; / Daqui muito mais claro, mais dourado / Pelos montes, nascendo, se reparte.» Desde o alto céu, até às profundezas ctónicas, desde o princípio mundial masculino activo, criador, Sol, até ao princípio feminino, passivo, Gaia, ou útero primordial, tudo se unirá e fecundará entre si e se revelará: «Mas ouço queixar dentro a Lapa escura / Roídas as entranhas aparecem / Daquela rouca voz que lá murmura.» Foi esta voz, a mais tenebrosa e abissal do telúrico primeiro, não-manifestado, aquela a que Fr. Agostinho da Cruz, pelo verbo, deu forma manifestada; ele aqui seria como uma das suas mais altas e raras expressões, a voz da Terra-mãe. Que desde as profundezas primitivas dessa gruta, se eleva, redimida em Assunção, na Nossa Senhora da Arrábida.
E ainda como nunca, seria expressada na nossa espiritualidade, na língua religiosa cósmica, mais funda e nitidamente, a sua raiz mítica de complementaridade: como díade. Será esse o sentido mais alto da Elegia II, Da Arrábida. Foi esta serra, como lugar de ligação entre terra e céu, a que no solo português estava predestinada à manifestação da Montanha Sagrada; e Fr. Agostinho da Cruz, como poeta franciscano, predestinado a ser o instrumento necessário a esta manifestação religiosa cósmica, na sua primeira e verdadeira forma: a poesia mítica.
(continua)
Dalila Pereira da Costa
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* excerto retirado de Místicos Portugueses do Século XVI, livro publicado pela autora em 1986, com a chancela da Livraria Chardron de Lello & Irmão – Editores, Porto.

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