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Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

ANTÓNIO TELMO, SEMPRE













As periferias e os centros

Cynthia Guimarães Taveira

Os povos têm alma e, como tal, esta é uma mistura de adjectivos, uns bons, uns maus, uns assim-assim. A Alemanha tem uma alma e nela, por vezes, o maniqueísmo toma proporções gigantescas. Tão gigantescas que podem assumir a forma de  um Hölderlin ou de um Goethe. Podem também assumir, por outro lado, a forma de um Kant. A Alemanha vive entre dois pólos: o amor à natureza e o ódio à natureza. A raiz da crise é só esta. Não são os mercados, os euros, as dívidas. A génese está no posicionamento face ao jardim que é o mundo. A Alemanha quando ama a natureza dilui-se na Europa, ninguém dá por ela, faz parte de um todo, acompanha os ritmos sazonais e dança na Primavera em torno do eixo do mundo. Disse, dança na Primavera em torno do eixo do mundo, não disse que é o eixo do mundo. A Alemanha quando odeia a natureza é o eixo do mundo. Portugal quando ama a natureza é o eixo do mundo e nunca, na sua alma, chega a odiar a natureza porque tende mais a ser ela. Apenas se esquece dela, dorme longe dela. Sempre que a Alemanha centra as atenções sobre si própria é porque, nesse momento, está em guerra com a natureza. Por isso faz ondas e agita os restantes países. Agita os homens mais humildes dentro das suas casas mesmo que estes estejam situados numa ilha isolada no centro do Mediterrâneo. O problema da Europa é então, hoje, estranhamente, um problema de amor. Deixo-vos um textinho do Mestre António Telmo situado na História Secreta de Portugal (Ed Veja,1977, pag. 126):
“O desenvolvimento do pensamento alemão oferece, frequentes vezes, o aspecto do ódio à natureza: grandes máquinas mentais, perfuradoras, tractores, guindastes, que parecem insectos ampliados pelo microscópio. Os grandes sistemas de filosofia germânica zumbem com um grande ruído sintático e sinfónico no espaço da mente e abatem-se de súbito sobre a terra, abrindo minas, escavando, rasgando, torturando a carne da natureza.

Tal ódio assume em Kant a forma de repulsa: «Falam-me da beleza de um céu estrelado. Lembra-me um rosto coberto de bexigas». Ouça-se, comparando, o nosso Carlos Queiroz:

Anoitece.
Faz frio pensar na vida.
E a natureza parece
Dizer em voz comovida
Que o homem não a merece.»

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