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segunda-feira, 8 de junho de 2009

PENSANDO À BOLINA, 17

Pedro Sinde
Cada homem é chamado a contribuir com a
sua imaginação para a redenção universal.
Álvaro Ribeiro, A Razão Animada


A imaginação redimindo o mundo
Há quem fantasie que devia ter uma vida contemplativa, isolada do mundo, na solidão, a louvar Deus, à imagem dos monges da montanha sagrada do Athos. Em certa medida, todos guardamos em nós secretamente essa nostalgia; qualquer coisa no fundo de nós sabe que o essencial no homem é justamente a contemplação.

É verdade que há vocações especiais, vocações puramente contemplativas, mas essas são as daqueles que vão para os Athos deste mundo, não como uma fuga do mundo para encontrar Deus, mas, pelo contrário, como um caminho para encontrar o mundo em Deus. Estes, porém, são poucos, muito poucos; e esse caminho é de uma dificuldade imensa.

Nós, os deste mundo, temos também uma função a cumprir, uma função igualmente árdua, precisamente porque estamos no meio do furacão. Deus não pôs os homens neste mundo para eles aspirarem a sair dele; também não os pôs para passarem o tempo a louvá-lo ou a pedir perdão.

O mistério da criação é incomensurável e Deus é maior do que as religiões – quero dizer que também há Deus e caminho para os que estão “fora” do mundo tradicional; hoje, não há tradições e as religiões desmoronam-se à nossa volta, estamos sós e desprotegidos, mas, ainda assim, Deus continua a abraçar toda a sua criação maternalmente e nem o inferno escapa ao seu olhar misericordioso.

Ele criou cada um de nós em especial, como “filho único”, trouxe-nos à existência, “existenciou” (como diz Ibn ‘Arabî) cada um de nós como um ser único e é por isso que cada um tem um caminho, o seu, para Deus, que tem no seu seio “muitas moradas”; uma das interpretações possíveis da alegoria do filho pródigo, a que Cristo se refere, parece destinar-se precisamente a este final dos tempos, em que o nosso caminho já não se faz dentro dos muros protectores.

Este mundo vale a pena, porque temos uma missão a cumprir nele. Se todos fingíssemos que não nascemos ainda ou que este mundo é uma ilusão onde não vale a pena agir, então estaríamos a empobrecer o mundo. É certo que este mundo não se confunde com o Absoluto, mas por ser relativo, nem por isso deixa de manifestar os nomes de Deus. Temos o dever de manifestarmos o nome que nos coube, devemos aumentar de ser o mundo, como dizia Leonardo Coimbra. Esquecemo-nos, frequentemente que o mundo é real e que não vivemos entre sombras: olha para o teu vizinho e lembra-te que ele é uma alma única que veio, como tu, a este mundo; é preciso que, de cada vez que o saúdas pela manhã, o vejas como Alguém tão real como tu, não deixes que a Medusa no teu olhar o transforme numa sombra, quando passas por ele e maquinalmente o cumprimentas.

Não sentes em ti o dom que o Criador te deu? Não sentes em ti o desejo de o realizar? Por que escondes debaixo da mesa a lâmpada de brilho único que podes ser? Não tenhas medo, porque és eterno e trazes em ti a semente criadora! Sabe receber com a direita e dar com a esquerda, como os dervishes de Rumi e que esse rodopiar seja a expressão da tua imaginação a contribuir para a redenção universal, como diz a epígrafe citada de Álvaro Ribeiro. Trazes no fundo de ti essa palavra, verbo seminal ou logos spermatikos, que deves semear: o teu verbo é a semente e a imaginação é a terra onde ela crescerá. A tua obrigação é criar, dar o que recebeste, ainda aqui como os dervishes de Rumi: o que recebem com a direita ao alto é para darem com a esquerda para baixo – não guardam para si o que recebem, não podem parar o movimento universal, a dança do mundo, eles são ponte ou pontifex: construtores de pontes entre o céu e a terra. O céu, inesgotável, quer dar e a terra, sedenta, quer receber. A sua união é perfeita: poderosa hierogamia. Tu és um sacerdote que se ignora como tal; chega o tempo de te conheceres: “conhecer-se a si próprio, diz Álvaro Ribeiro, é, efectivamente, conhecer-se como espírito.” E conhecer-se como espírito é saber-se eterno, criador e teóforo.
Com os olhos bem abertos para a profundidade misteriosa do mundo em que estás mergulhado, poderás ver aqui já, e não num adiado mundo futuro, o “outro mundo”, porque na realidade só há um mundo: esse que, estando aqui, não é, no entanto, apenas este.

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