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Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



quarta-feira, 29 de abril de 2009

RAZÃO POÉTICA, 2

O Génio da Língua Portuguesa
excerto de um texto originalmente publicado em 1991

“Quando só houver Europa, depois de abolidas as fronteiras e, sobretudo, depois da unificação da moeda, terá de pôr-se o problema da homogeneização das línguas, porque, dada a prometida livre circulação das pessoas e do trabalho, se todas mantiverem os mesmos hábitos linguísticos, será o caos da comunicação social. Não chegará a escolha do inglês, do francês ou do alemão para os actos oficiais. Será necessário que todos, desde a Rússia até Portugal, falem a mesma língua. O espírito que congrega os homens serve-se de dois agentes: o dinheiro e a palavra, que formam o seu duplo aspecto tenebroso e luminoso.

No século passado, a babilónica inteligência secreta, que trabalha para a homogeneização da Humanidade, não teve, então, a astúcia de principiar pelo económico ou, se teve, guardou-a para melhor oportunidade. Começou logo pelo fim, pela unificação linguística. Mas o esperanto foi um fracasso. Se os dois extremos da cadeia são o dinheiro e a palavra, antes de tentar pôr os povos a falar uma única língua será necessário dissolvê-los, desligando as pessoas da consciência singular de pertencerem a uma Pátria. Tem-se hoje a certeza de que a solução pelo esperanto não voltará a ser proposta. Foi recentemente declarado pelo Ministro da Educação que o francês e o inglês vão passar a ser dados nos primeiros anos do ensino público, o mais perto possível do início da vida. Como é fácil prever, uma ou outra destas duas línguas será a escolhida para funcionar como o «écu» e com o sistema binário dos computadores na progressiva desintegração dos povos.
Qual será o destino do português? Dele ficarão apenas documentos escritos, a literatura, que será recordada por essa máquina de fazer passar o vivo à história a que se dá o nome de Universidade. Há quem sonhe com a propagação imperial da língua portuguesa. Mas tal é impossível pela razão simples de os estrangeiros não serem capazes de assimilar a sua fonética. Teria de ser reduzida, degradando-se naturalmente numa nova espécie de esperanto. De resto, os ensaios de reforma ortográfica que procuram unificar o português do Brasil, do mundo africano e o de Portugal já tendem para a esperantização, limando as diferenças naturalmente invencíveis. Cada língua é a criação artística ou espiritual de um génio fonético, isto é, daquele génio ou daquela inteligência sobrenatural que elabora um sistema harmónico de sons significativos tendo por base elementar o sistema transcendente das sephiras (Ver minha Gramática Secreta da Língua Portuguesa).
A Linguística, fundada como ciência exacta em 1816, data da publicação por Franz Bopp da Gramática Comparada das Línguas Indo-Germânicas, foi progressivamente elevando os andares de um edifício cónico, poderosa, subtilmente poderosa, aparentemente inofensiva maquinação para destruição das línguas. É o movimento inverso do mito da Torre de Babel. A prática dissolvente terá sempre de ser precedida pela teoria que a prepara. Pessimistas perante o destino social europeu da língua portuguesa que, dentro de alguns anos teremos de considerar uma língua morta para nós, como o Brasil e a África ainda resistirão durante algum tempo mais à destruição das Pátrias, cabe-nos descobrir uma gramática que sirva, ao que de nós continua a sobreviver noutros continentes, de escudo e de lança contra a subversão geral das línguas. Tal gramática será a que determine os princípios activos pelos quais o nosso génio fonético formou do latim o português. É, de facto, no momento em que o latim se transforma em português que podemos surpreender a «forma» de onde ele nasce e progressivamente emerge como uma admirável criação espiritual. O leitor já se apercebeu de que, para nós, o que caracteriza e distingue uma língua é a sua fonética. Tudo o mais deriva daí.”

António Telmo

(retirado de Viagem a Granada, Fundação Lusíada, 2005)

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