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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 12



A não violência

Alexandra Pinto Rebelo

Conhecemos o Senhor Ropu em Malta, bem como uma parte da sua família. Como fomos os únicos ocidentais a adivinhar a sua origem indiana, o Senhor Ropu simpatizou imediatamente connosco.

Conversávamos longamente sobre a sua cultura e a nossa, sobre aquilo que víamos, sobre as suas vidas de emigrantes no Dubai. É uma pequena maravilha poder falar demoradamente com alguém, parando o passo ao ritmo da conversa, gesticulando suavemente, sem o tempo a tocar-nos no braço dizendo “temos de ir”. Este prazer, tão nosso aqui do sul da Europa, prazer partilhado por outros, tem-se retirado aos poucos e poucos do nosso léxico de costumes. É pena que as Manifestações sejam gritos em relação a assuntos absolutamente práticos e não se dêem a assuntos considerados de menor importância, a pequenos luxos culturais que se vão dissolvendo aos poucos.

Num desses momentos, o Senhor Ropu perguntou-me se conhecia o Mahabarata, épico indiano. Disse-lhe que sim. Porém, só o conhecia através de um filme realizado admiravelmente por Peter Brook. Nessa altura ainda era um pouco difícil comprar alguns livros em Lisboa, sobretudo relacionados com o Oriente. Tinha apenas o Bhagavad-Gita, obra posterior, mas que naquela se encaixa, narrando os ensinamentos de Krishna no campo de batalha.

O Senhor Ropu parou. Olhou para o chão com uma expressão séria. Pensei ter cometido uma daquelas faltas de respeito imperdoáveis entre culturas, apesar de não compreender o que seria. Ele então baixou a voz e disse-me, num tom muito delicado, que apesar do Bhagavad-Gita ser uma obra sagrada, não se devia guardar nunca um seu exemplar em casa. Perguntei-lhe o porquê, claro. (Não conseguia conceber nenhum motivo impeditivo para termos uma obra sagrada em nossa casa. Muito pelo contrário, até me parecia que dignificava o espaço.)

O Senhor Ropu explicou-me de seguida que, sendo o tema principal do Bhagavad Gita a guerra, a obra, apesar de sagrada, continha em si a violência. Nós não devemos ter em nossa casa nada que apele à violência, nem um livro sagrado, pois o próprio espaço ficará de alguma forma marcado pela desarmonia, reflectindo-se isso nas pessoas que o habitam. Só devemos permitir a existência, nesse nosso primeiro espaço (ou assim deveria ser), de livros que falem de paz e de harmonia.

Lembro-me amiúde, depois de vários anos passados, do conselho do Senhor Ropu e da perplexidade então sentida e que, de alguma forma, nunca deixei de sentir. Imaginei-me, na altura, a deitar os meus livros todos pela janela, queimando-os, qualquer coisa como um Fahrenheit 451 em versão individualizada. Acho que não tenho livros que não tenham em si qualquer coisa de violento. Pensando no assunto por alto, talvez uma ou outra coisa budista, uma ou outra coisa hindú.

A nossa cultura sempre fez o elogio da violência, começando pela Ilíada e pela Odisseia. Estamos tão embrenhados nela que nem nos apercebemos. Quando falo em violência não me refiro só àquela física, mais óbvia. Refiro-me também à violência de ideias, à violência das imagens, à violência dos costumes, dos heróis. À violência dos próprios santos deixando-se representar, muitos deles, com os instrumentos do seu martírio. Não sei se a maior parte das culturas serão assim, a nossa sei que o é.

Possivelmente, tal manifesto de violência dá-nos a preparação suficiente para irmos resistindo, enquanto o mundo não se tornar um lugar quase perfeito. Talvez não conseguíssemos sobreviver, por agora, sem esse exercício teórico da agressão.

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