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domingo, 18 de dezembro de 2011

O CAMINHO DO CAMINHO, 20


Esquemas II
Cynthia Guimarães Taveira
 
Por caminhos tortos e incompreensíveis (agora, finalmente, talvez mais compreensíveis), quis o destino que fosse parar ao curso de Antropologia. Foi bom nuns aspectos, foi mau noutros. O aspecto bom tem, sobretudo, a ver com aquilo a que chamo o “complexo” de Atena. Aí vem ela, acabada de nascer, soltando um grito e erguendo um machado de guerra e eis que o desfere na cabeça dos pobres alunos. É um fim de um mundo. Não mais a nossa cultura, o nosso modo de viver, de pensar, vai ser o único. Pergunta um professor numa aula, em jeito de provocação, “Se num templo hindu vos fosse dito que para lá entrar teriam de se cobrir com bosta de vaca, que fariam?” Todos vão respondendo, trémulos, uns que sim, outros que não. No fundo, é como o livro de Woody Allen, acaba-se de vez com a nossa exclusiva cultura e, nesse fim, nascem em simultâneo todas as outras, uma reviravolta quase ontológica, apreendida e aprendida com dúvidas que se iam levantando sobre nós e sobre os outros.
Lado menos bom: os esquemas, as grelhas. Como se podem tornar Catedráticos distintos, como podem formar Escola, como se podem destacar neste mundo do conhecimento? Só há um caminho: criem uma grelha de interpretação cultural. Se tiverem um esquema que possa ser desenhado, ainda melhor. Não sigam nenhuma Escola, conheçam-nas todas, mas não sigam nenhuma, criem uma só vossa a quem alunos, mais tarde, possam recorrer para fazer os seus trabalhos, ficando assim “limpos” e “escudados” quando forem avaliados. Estarão assim protegidos contra as críticas porque, ao serem criticados, estará também um conceituado nome a ser criticado e a isso muito poucos críticos se atrevem. Foi assim que nasceu o Funcionalismo, o Estruturalismo, etc. Nasceram da necessidade de criação de um lugar de destaque no mundo universitário. Chocante? Nem por isso. É a vida.
Mas será a vida?
Aquilo que há de mais engraçado na literatura alquímica é a variedade. É tão variada, tão variada, que parece não fazer sentido nenhum. Porque é que para a mesma coisa são utilizados tantos símbolos diferentes? Se é a mesma coisa, e é dita ser um conhecimento tradicional, deveria usar sempre os mesmos símbolos. A cada coisa seu símbolo específico. Mas isso não acontece porque… é a vida. E é mesmo a Vida. Com V grande.
Já vi esquemas alquímicos desenhados, assim muito certinhos, muito direitinhos, muito higiénicos, muito científicos. Tudo no seu lugar, excepto uma coisa: quem os desenhou não conseguiu o corpo de glória, nem o elixir da juventude, nem sequer o ouro. Porquê? Porque é a vida…
Daí que qualquer interpretação que se faça de uma obra alquímica tenha de ter em consideração a Vida. Ela vai fazer toda a diferença e derruba os esquemas com um simples sopro de espírito… Porque só assim aprendemos, de facto, qualquer coisa de jeito, qualquer coisa que seja útil para nós e para os outros. E, mesmo assim, alguma coisa nos vai escapar sempre. Muito poucos foram, de facto, abençoados pela santidade verdadeira. Mas alguns conseguiram ser especiais e fazer alguma diferença humanamente qualitativa numa era que se desagrega a olhos vistos.
Por isso, quando se lê essa literatura, teremos sempre de nos lembrar das palavras de Camões: “um saber de experiência feito”, e essa experiência é a própria vida do alquimista que escreve. Daí o paradoxo apontado por Julius Evola, no final do seu livro A Tradição Hermética, (ed. 70, 1979, pag. 219): «A qualidade hermética segundo a qual, no dizer dos alquimistas, os seus textos são como se tivessem sido escritos só para eles, teremos de referi-la em maior grau à sua própria pessoa ou obra.»
Escrevendo em intima ligação à sua experiência, escrevem, em simultâneo, em intima ligação com uma sabedoria tradicional. Daí que seja muito complicado elaborar uma grelha de interpretação. O mundo alquímico não é o mundo académico. Mercúrio está sempre a voar.

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