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Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



quinta-feira, 19 de março de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 4

Para a História da Cultura em Sesimbra
por António Telmo*

Por volta dos anos 70, do século passado já se vê, o castelo de Sesimbra tinha como seu senhor um grande solitário que, como todos que sabem envolver-se de mistério no silêncio e na solidão, atraía irresistivelmente a visitá-lo todos quantos, “ansiosos de espírito”, tinham notícia dele. Por ali passaram a conversar com Rafael Alves Monteiro poetas, pintores, filósofos, toda a espécie de “extravagantes” e também muita mulher bonita. De todas, a mais belamente mágica e a mais inteligente foi Natália Correia. Trouxe consigo a habitual corte de admiradores e apaixonados.
Ali esteve muitas vezes António Carlos Carvalho. E ali vinha, sempre que visitava Portugal, o famoso filósofo francês Georges Gusdorf. Trouxeram-no Orlando Vitorino e José Marinho, seus companheiros na procura da “substantífica medula” do mundo. Lembrarei outros nomes prestigiados: Lima de Freitas, António Quadros, Afonso Botelho, Francisco Sottomayor, Almada Negreiros e Agostinho da Silva, todos já falecidos. Quem estiver atento, de visita ao Castelo, na alta noite silenciosa ainda os poderá ouvir conversar.
Ora aconteceu que, por volta dos anos 70, Hernâni Roque, um dos grandes amigos do grande solitário, esteve à frente da direcção d’O Sesimbrense e, sem que em nada alterasse a excelente fisionomia tradicional do nosso periódico, abriu as páginas centrais à colaboração de tão ilustre gente. Basta lembrar, para marcar a importância da iniciativa, que nelas se publicaram um poema de José Régio, o nosso maior poeta português de então, e uma entrevista com Álvaro Ribeiro, o nosso maior filósofo de sempre.
Por esses mesmos anos, realizaram-se na Biblioteca Municipal, por iniciativa do autor destas linhas, uma série de conferências que, ao tempo, tiveram grande repercussão, sobretudo popular. Destas conferências lembrarei a do grande oceanógrafo Clostermann que veio a originar todo o movimento à volta da criação de um parque marítimo; a de Agostinho da Silva, simulando falar da Grécia antiga, quando aquilo de que estava mesmo falando era do Portugal político e das suas misérias; a de António Quadros repassada de espiritualidade messianista; a de Rafael Alves Monteiro contra as construções titanescas e insectiformes que estavam desfigurando Sesimbra.
Quando recordamos agora que O Sesimbrense chegou a ser apontado na televisão como um periódico fascista precisamente por causa da colaboração que venho referindo, não podemos deixar de observar, à luz do que passo a contar, quanto os políticos não sabem o mal que fazem quando se metem a julgar aquilo que mentalmente os ultrapassa.
O que passo a contar é o seguinte:
Os representantes do Estado na Câmara Municipal de Sesimbra, alarmados com o êxito das conferências, desconfiados com o tom e o teor das comunicações, vão de pensar que era preciso evitar que perigosos pensadores de esquerda falassem livremente com o povo de Sesimbra. Não me deixaram convidar mais ninguém e impuseram-me um conferencista por eles escolhido.
Ora era regra por mim estabelecida, a fim de evitar o aborrecimento dos ouvintes, que os oradores não podiam ler discurso escrito, mas deviam sim falar livremente de improviso. Para tanto é necessário coragem, inteligência, imaginação e entrega a Deus.
Aquele que nos foi imposto leu seus papéis e lá fomos aguentando que passasse infindavelmente as folhas até respirarmos de alívio. Este mau hábito de ler quando se fala para o público foi banido do Brasil, onde me aconteceu ver esvaziar-se uma sala cheia de ouvintes logo que o orador pegou nos papéis. O que aconteceu em Sesimbra foi bem mais interessante.
Terminada a leitura, seguiu-se o colóquio com perguntas e respostas. Um pescador ergueu o braço pedindo a palavra:
- Diga-me lá! Foi o senhor que escreveu isso?
Respondeu o conferencista: - Então quem havia de ser?
E o inteligente homem do mar: - Eu é que sei?! Pode muito bem ter sido outra pessoa. Como podemos ter a certeza que foi v. que escreveu isso?


*Primeiro Director da Biblioteca de Sesimbra.

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