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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 9



Alexandra Pinto Rebelo

Do silêncio e Do horror

Acabei de ler um livro, mais um, sobre o terramoto de Lisboa. Como de costume, não consegui evitar sentir uma angústia resignada.

A minha família é de Lisboa, até nos perdermos na memória do tempo. Éramos educados desde crianças a sentirmos Lisboa, a termos uma consciência afectiva do espaço, entendendo-o como a um ente quase personificado, ou mesmo personificado, tendo um castelo no lugar do coração, ruas que também são artérias, igrejas, palácios, leitarias como se fossem órgãos. Este é, com certeza, um sentimento pagão, o que não é de estranhar se nos virmos, à semelhança de um sítio arqueológico, como uma sucessão de estratos de várias épocas.

Desde sempre me falaram no terramoto, horror que dividiu o tempo em dois. Em Lisboa, existem as coisas de antes do terramoto, e as coisas do depois. Entre eles, existe uma ponte de memória unindo os dois tempos: o Rossio ainda é o Rossio e não a Praça D. Pedro V, a Praça do Comércio ainda é o Terreiro do Paço, apesar do Paço ter, também ele, sucumbido.

Muitos de nós temos uma mitologia familiar sobre o assunto. Sempre nos foi dito que irá ocorrer outro de igual intensidade e, com ele, voltará o horror, o caos, a ruína. Alguns de nós, desde pequenos, fomos habituados a dormir com uma muda de roupa perto da cama para que, se dormindo a terra tremer, nos possamos vestir rapidamente para o que der e vier.

Ao longo dos anos, a Protecção Civil e entidades semelhantes ensinaram-nos a reagir em caso de tremor de terra. Fechar o gás e a electricidade, colocarmo-nos debaixo da moldura das portas, afastarmo-nos de móveis altos que nos possam atingir... Estas indicações só vêm dar vigor aos nossos pequenos mitos privados. Somos uma espécie de Pompeia moderna, sujeitos à erupção de um vulcão que há-de acontecer um dia. Quando, ninguém sabe.

Todos nós somos ainda sintomas dos traumas violentíssimos desses meados do séc. XVIII (o próprio rei D. José, recusou-se até ao fim a viver em novo palácio feito de pedra). Talvez por isso, o terramoto não se tenha constituído em mito cultural português. Há qualquer coisa que ainda nos corre pelas veias, um medo suspenso do acontecimento, não nos permitindo torná-lo em matéria abstracta para poder ser metamorfoseada em termos culturais. Em Lisboa, somos pródigos em conservar expressões. Dizemo-las, como uma Cidade falaria às suas amigas Cidades das lembranças da sua juventude. Dizemo-las e vamos sendo também nós Cidade, já que as Cidades, à maneira dos deuses antigos, não têm outra forma de ser sem nós. Qualquer coisa parece “as obras de Santa Engrácia”, às vezes queremos meter “o Rossio na Rua da Betesga”, se alguém tem um comportamento mais solto dizemos “então, já chegámos ao Brasil?”. Nestas expressões, de tantas que temos, nem uma refere o terramoto.

Parece que os limites do horror foram ultrapassados, que a única forma encontrada de lidarmos com isso é o silêncio da palavra, trancando o medo no seio da família, suspendendo-o, para que nada daquilo volte a acontecer.

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