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quinta-feira, 9 de abril de 2009

PENSANDO À BOLINA, 1

Pedro Sinde

A um homem simples de Santo Tirso que todos os dias ia ao templo
Todos os dias Deus chama por ti. E sempre à mesma hora tu estás disponível, livre. Dizes, então, que “sim, Amen”.
Aquiescente, livre e obediente, todos os dias àquela hora, cabeça baixa, passo lento mas certo, respondes ao teu chamamento.
Pobre diabo, assim exclama quem te vê de longe passar; mas na verdade és um pobre de Cristo. Vejo-te agora, de chapéu e gabardina, ambos surrados, ambos cinzentos, quase invisíveis de puídos. Levas a cabeça baixa, como se olhando pudesses ofender alguém. E lá vais, livre e obediente, nunca faltando ao teu compromisso.

desenho de Albrecht Dürer

Como sabes tu que Deus te chama todos os dias à mesma hora? Nunca o ouviste. Nunca leste nenhum livro – nem sabes ler letras. E, no entanto, todos os dias dizes que “sim, Amen”.

Em que corda profunda Deus te toca? Com que misteriosa ressonância respondes tu no alaúde da tua alma ao acorde que Deus tange em ti?

Ó meu Deus, o que os teus olhos viram! O que sofreste! A fome por que passaste… Não houve um dia, Verão ou Inverno, que a tua pele não estalasse mais um pouco ou mais um pouco mirrasse. Os teus onze irmãos morreram já, uns com pneumonia, outros à fome ou ao frio.

Carregaste toda a tua vida como um fardo pesado. E, ainda assim, que corda profunda Deus toca em ti? Com que misteriosa ressonância respondes tu no alaúde da tua alma a esse acorde? O que viu e sabe a tua alma de Deus para todos os dias à mesma hora, do mesmo modo, livre e obediente, responder? Que abismos insondáveis guardas no regaço da tua alma?

Não precisas de argumentos, sabes mais do que os doutores da teologia.

Ah! Que misteriosa íntima união se dá entre ti e Deus… de tal modo que ignoras que ele, o Senhor do Universo, Sonhador deste nosso mundo, Chama Viva do Pensamento, Criador dos nossos destinos, o Rei, o Único, te chama; e mesmo assim, sem saberes sabendo, respondes que “sim, Amen”.

Santo Tirso, 21 de Dezembro de 1998

texto originalmente publicado no blogue Maranos

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