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sábado, 19 de dezembro de 2009

PENSANDO À BOLINA, 24

Pedro Sinde



Manifesto Contra a Televisão [2.ª parte]
Estava ele a cogitar como é que podia deixar o rame-rame do dia-a-dia, as pequenas posses e fazer uma coisa maior, em grande. Para isso observava o comportamento dos homens e o modo como os seus colegas, os outros demónios, agiam.
Rapidamente se apercebeu que quase todos caíam num erro: não atacavam o homem a partir de dentro, mas a partir de fora. Vou-me explicar: um procurava convencer os homens de que não havia Deus, outro, mais arguto, procurava convencê-los de que não havia diabo, outro, que não havia moral. Tudo isto eram coisas exteriores ao homem e que, é certo, produziam os seus efeitos, mas era preciso chegar ao cerne, pois por este modo apenas se estava a actuar “fora” do homem. Era preciso actuar no seu íntimo, era preciso roubar-lhe alguma coisa, adormecer qualquer coisa nele. Pensou, pensou… era difícil. Tudo aquilo estava a ser feito por demónios com pouca imaginação. E foi aí que lhe ocorreu: a imaginação! É isso mesmo! Lembrou-se que um seu colega tinha começado um trabalho em tempos em que procurou convencer os homens de que a imaginação era a louca da casa, isto é, era a causa dos desvarios dos homens. Opôs à imaginação a razão e convenceu-os de que pela razão é que iriam. Mas esse trabalho não chegou a bom termo, que, no caso, porque falamos de demónios, era mau termo. Os poetas logo começaram a opor-se a esta ideia.
Era por ali, mas seria preciso intervir de outro modo. Ele sabia que o seu colega tinha visado, destruindo a imaginação, criar um sistema no mundo inteiro apenas regido por princípios da razão, é que ao separarmos a razão da imaginação tornamos esta última apenas um formalismo vazio que tudo aceita; os sistemas totalitários tinham nascido daí, mas isso já passara, apesar do sucesso que tiveram entre os demónios. O seu colega era estudado na história como um caso exemplar, mas certo certo é que já quase ninguém se lembrava dele.
Fechou-se na sua cela ascética e começou a maquinar – digo maquinar porque os demónios não meditam, maquinam.
Voltou a pensar na imaginação e percebeu que se tratava de uma força colossal. Dominando-a poderia fazer o que quisesse com os homens. O erro do seu colega foi não ter conseguido chegar às massas; era preciso encontrar qualquer coisa tão poderosa que começasse de baixo para cima. Esta expressão na sua mente significava também que era necessário que o reino demoníaco se começasse a infiltrar, a partir de baixo, para conquistar os céus, tal como em tempos fizeram com a torre de Babel, cujas fundações estavam assentes mesmo onde terminava o inferno; os trabalhadores que edificaram as fundações sentiam um estranho cheiro a enxofre e um calor que não sabiam de onde vinha; nem sonhavam que estavam mesmo por cima do inferno.
Antecedentes: 1.ª parte
(continua)

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