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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

AS DANÇAS DE DALILA, 1



Na poesia trovadoresca galaico-portuguesa e ainda na do Renascimento, semelhante união com os elementos da Natureza se confirmará; tomando então forma dialogal de vera participação mística:

“Fala Crisfal: companheiros do meu mal
águas que do alto correis,
onde caís desigual,
parece que me dizeis:
porque não choras, Crisfal?”

Participação perfeita de todos os seres num único fluxo vivo, em formas partilháveis, indiscerníveis, como algo de labiríntico e turbilionário: tal como essa antiga arte céltica da pré-história europeia; e nela, da portuguesa, impressa na arte sumptuária, como nos bordados das túnicas dos guerreiros galaicos, nas jóias, armas, na Pedra Bela, decoração das pedras da construção castreja, como as portas da citânia de Briteiros… Tal ainda a da belíssima arte irlandesa da alta Idade Média; ou também da sua poesia, onde as coordenadas espaciais e temporais do nosso mundo visível são anuladas, ou sofrendo uma libertação completa, graças à força da imaginação criadora própria deste povo.

“É no alto dum bosque que flutua
teu barco através dos cimos
há um bosque cheio de belos frutos
sob a proa do teu barco”


Assim canta a epopeia irlandesa, a Navegação de Brân. Ou D. Beltrão do nosso Romanceiro:

“Esse cavaleiro, amigo
Morto está nesse pragal,
Com as pernas dentro d’água
O corpo no areal,
Sete feridas no peito
A qual será mais mortal:
Por uma lhe entra o sol,
Por outra o luar,
Pela mais pequena d’elas
Um gaivão a voar”

Nesta força da imaginação criadora, o real sensível sofre assim essa libertação que é transmutação, ou melhor, rebenta os seus limites a nós aparentes, abrindo-se para o real absoluto. Dando-se ao mesmo tempo uma perfeita reintegração do homem na natureza e no cosmos: este sempre visto como grande ser vivente que a todos e a tudo em si envolve e contém. Cosmicização do homem, se poderá chamar a este processo de pensamento e vivência dos celtas: e de seus herdeiros, os portugueses; e que nestes teria a sua expressão máxima na obra da Descoberta.

Dalila L. Pereira da Costa

retirado de Corografia Sagrada, Lello & Irmão - Editores, 1993, pág. 198




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