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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A MINHA CARTILHA, 2



VIII
Creio em Deus. Mas a minha crença não é absoluta ou anti-cristã; à Torquemada. Deus é uma probabilidade representada por um sim sobre um número de nãos incalculável. Mas o sim brilha inextinguivelmente no meu espírito. E os nãos passam, por ele, como sombras.
IX
A crença absoluta é um produto antipático do nosso orgulho inquisitorial, contrariante o mais possível da humildade cristã. Quem se julga na posse integral de uma certeza filosófica ou religiosa cai no mais trágico ridículo profundamente ibérico, esse ridículo que, em «Dom Quixote», fez chorar o Henri Heine, quando fazia rir o mundo!
XI
A incerteza é dinâmica, e extática a certeza. Esta, é inerte, estéril; aquela, animadora, reveladora, fecunda. Por sua virtude, o sentimento religioso, e, portanto, o Cristianismo está em crescimento aperfeiçoador, desde a raiz dogmática à poética folhagem. O que jaz aprisionado nas trevas subterrâneas, liberta-se irrompendo à luz do sol.
O dogma é uma espécie de poética, ou uma espécie de gaiola interior à ave ou à poesia que nela vive. E a lógica não é interior ao nosso pensamento, como o nosso esqueleto ao nosso corpo? Temos a esfera que pretende limitar o espaço, e a pirâmide que aspira a ultrapassá-lo.
XIV
O crente absoluto que acredita em Deus absolutamente, porque acredita em si absolutamente, pertence à horrenda família dos Torquemadas. Detesto os fanáticos, os intolerantes, os insociáveis, os Pedros ou Penedos, que levam as questões até ao desenlace da facada! Detesto-os, e admiro-os, ao ver como é possível a fossilização em vida de uns miolos! Assim o reino mineral surge no reino espiritual, e o esqueleto num magricela, como eu!
Teixeira de Pascoaes

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