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quinta-feira, 23 de abril de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 15

Dom Carlos
por Pedro Martins

Tive há pouco notícia, pelo Pedro Sinde, de que o Dom Carlos, drama em verso da autoria de Teixeira de Pascoaes, já está em cartaz (e assim irá permanecer até 17 de Maio), representado pelo Teatro Experimental de Cascais. Soubera do respectivo desígnio, há cerca de um ano, pelo António Cagica Rapaz, que então o escutara ao grande actor João Vasco, como ele sesimbrense, e, com Carlos Avillez, um dos esteios da companhia cascalense. Vejo agora, com renovado júbilo, que o propósito de animar o drama se concretizou afinal.
A peça, publicada em 1925, não fora nunca levada à cena. Só agora o foi. Teve, para isso, de esperar pouco menos de um século! (Por aqui se vê como este é um país perdido…) A fortuna editorial da obra também não é famosa. É certo que conheceu várias edições – a que possuo é a 3.ª – no ano em que saiu a lume; mas, depois disso, apenas foi reeditada pela Bertrand, no âmbito da publicação, inconclusa, das obras do poeta, que Jacinto do Prado Coelho ali promoveu. É hoje um livro raro, preciosidade de alfarrabista, que dificilmente se encontra à venda. Dado que o drama subiu, enfim, ao palco, poderá a sua próxima impressão ocupar as cogitações da Assírio & Alvim, casa editora que, há mais de duas décadas, nos vem devolvendo o legado de Pascoaes?
Posto isto, não há senão que ir ver a peça. Ou sobre ela discretear a voo de pássaro. A muitos, não deixará porventura de causar surpresa o jaez apologético por que, nela, o poeta, presumível republicano, reabilita e exalta a memória do rei assassinado. Fá-lo como quem desagrava o soberano, tomando as dores de um Junqueiro havia pouco desaparecido, e, em seus últimos dias, roído pelo remorso, por julgar haver contribuído, com a violência exortativa do seu verbo (pense-se n’O Caçador Simão, do famigerado Finis Patriae), para as trágicas mortes do monarca e de seu filho, D. Luís Filipe. A esta luz, e como já deixei escrito em ensaio que será publicado proximamente na revista portuense Cosmorama, o Dom Carlos pode ser visto como um acto de contrição junqueiriano, mas havido a título póstumo e por mercê alheia, graça devida a quem, desde 1898, tomara a amizade de Junqueiro por uma “dívida” que se tornaria uma “sagrada lembrança”.
Claro está que o desagravo, no seu fito justiceiro, não passa sem reparo. De um certo ponto de vista, firmado na objectividade histórica descritiva dos últimos anos do reinado de D. Carlos, o panegírico não resiste, por exemplo, ao cotejo com o relato demolidor que Sampaio Bruno pôde exarar nas páginas indignadas d’A Dictadura. Mas diversa se antolha a perspectiva em que Pascoaes se coloca, visto como, segundo creio, foi movido por um desencanto profundo ante o descalabro da Primeira República que o poeta compôs o drama em verso, e bem assim o Jesus Cristo em Lisboa, tragicomédia escrita em parceria com Raul Brandão. Eis o que, pelo prisma das coincidências estrutivas, pretendo mostrar em próximo livro.
Como quer que seja, o que do Dom Carlos sobretudo ressalta é o poder transfigurador da palavra demiúrgica e encantatória de Pascoaes, mormente na assunção, pelo autor, da via ascética e mística a que o alter ego do Alma empresta um trilho angelógico, mormente na recriação mítica de um messianismo de timbre brunino, a que a personagem do Príncipe Real, D. Luís Filipe, confere surpreendente modelo sebástico.

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