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Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



segunda-feira, 6 de abril de 2009

PENSANDO À BOLINA, 14

Pedro Sinde

Um bando de anjos
Estava com o Denis a conversar sobre o grupo de filosofia portuguesa ou extravagante (hoje, para se ser português é preciso estar fora da vaga…) que se reúne a oriente de Estremoz, como li no prefácio de um livro de António Telmo. Depois de um breve silêncio, como se pensasse para si mesmo e a propósito do recente encontro em Montemor, disse: “Quase nenhum deles tem ideia disso ou acredita sequer nisso, mesmo que lho mostrassem, mas, na verdade, eles são um bando de anjos. É claro que quase todos eles conhecem apenas o seu lado humano, as suas vidas banais, as intrigas, mas, “atrás” disso, são um grupo de anjos, desnorteado, à procura de Deus. E, o que é mais interessante, é que quando se reúnem já estão num daqueles lugares angélicos a que se refere Swedenborg, só que, como não sabem disso, julgam que estão na Fonte de Letras ou na Biblioteca de Sesimbra… E mesmo quando não se reúnem, vários deles, não todos, se encontram nesses lugares de alma.”

imagem da autoria de Hannah Michael Gale Shapero

“Mas tu não estiveste em Montemor, pois não?” Perguntei-lhe eu estupidamente, como se isso tivesse algum interesse depois destas palavras. “Estive, estive. Eles é que não deram por isso.” E continuou: “O anjo não é o que se pinta habitualmente. Alguns têm o seu estado angélico apenas em potência e outros parcialmente em acto.” Não entendo bem…” exclamei. “O estado angélico do homem é aquela imagem à semelhança da qual ele foi feito no princípio dos tempos, quer dizer, agora mesmo, porque o princípio é agora, o princípio é fora do tempo e, por isso, é em cada momento, envolve o tempo inteiro como num abraço. Quando estamos no tempo – Denis acentuou esta expressão – a nossa alma julga que este mundo é mesmo este mundo, não vê que este mundo é já o outro. É ela que se exila, ao julgar que está num mundo separado!”
E mais não disse. Ficou ensimesmado no seu silêncio, do qual vi brotar uma ínfima lagryma. O privilégio que eu tenho de conviver com este homem.

Deixo-o assim tal como mo disse o desconcertante Denis; só lamento não poder descrever o modo naturalmente convincente como ele o diz, tenho a certeza de que se o leitor o ouvisse, não acreditaria no que ele diz, mas antes saberia que é assim. Mas como sabe ele tudo isto?

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