(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



segunda-feira, 30 de maio de 2011

LANCES E RELANCES, 5








UM ESTUDO PRECIOSO E LUMINOSO SOBRE O CULTO DO ESPÍRITO SANTO
DE MARIA ADELAIDE NETO SALVADO


Por Eduardo Aroso

Se todo o tempo é propício ao Espírito Santo, o que o calendário cosmológico e litúrgico agora nos aponta é um convite ao qual não podemos ficar indiferentes. Se não bastasse o medular motivo religioso, seria, no mínimo, a importância do tema situado nos meandros da História de Portugal, quiçá como agente do nosso destino enquanto nação. «O Culto do Espírito Santo em Terras da Beira Baixa – as longínquas raízes, de Maria Adelaide Neto Salvado, foi dado a público em 1998, com a chancela da editora Band, não significando a palavra o que, à primeira vista, pode indiciar, mas «o nome de divindade pré-romana cultuada nos espaços da Raia central ibérica» (…) e que «significaria atar, ligar, enlaçar, vincular». Assim, neste curioso pormenor editorial, não podemos deixar de observar que o sentido de enlaçar-se ou vincular-se se coaduna perfeitamente com a essência escatológica do Paráclito, omnipresente Consolador.

O livro contempla aspectos como o Espírito Santo nas palavras dos evangelistas, o respectivo culto nas primeiras comunidades cristãs – as heresias, focando a autora ainda os primeiros tempos do cristianismo peninsular, a diversidade das formas populares do culto na Beira Baixa, fazendo também uma incursão pelo cancioneiro poético tradicional. Referindo-se ao ambiente das primeiras comunidades cristãs, cita o cânone XLIII do primeiro Concílio peninsular de Elvira (300-306): «Temos por bem corrigir um mau costume, apoiados na autoridade das Escrituras. Todos celebremos o dia de Pentecostes, e se algum não o fizer, que seja assinalado como introdutor de nova heresia (in José Vives, Concílios Visigóticos e Hispano-Romanos)».

Lemos ainda neste capítulo que «nas práticas de ascese colectiva, os crentes priscilianistas diziam atingir o êxtase por acção do Espírito Santo». Priscilianismo que, considerado heresia, seria condenado no II Concílio de Toledo (397-400). Um aspecto, dir-se-ia menos previsível no âmbito popular deste estudo, em boa hora a autora o colocou. Aludindo a um romance muito popular na Idade Média, no qual o Espírito Santo teria descido sobre os cavaleiros do rei Artur, Maria Adelaide Neto Salvado interroga-se deste modo: «E não serão os jantares da véspera do Domingo do Espírito Santo, realizados nalgumas aldeias, reminiscências do acto propiciatório que os cristãos medievais realizavam para conseguir a mesma graça recebida pelos cavaleiros da Távola Redonda: a de que sobre eles descesse o Espírito Santo e neles despertasse o desejo profundo de buscar o caminho em direcção à Perfeição?»

Como não poderia deixar de ser, está presente nesta obra a acção da Rainha Santa Isabel, a partir de Alenquer, com a oficialização das Festas do Divino. Cremos que este é um dos momentos mais solenes daquilo a que António Quadros chama «O Projecto Áureo Português», tema que se integra na obra deste autor, em dois volumes, intitulada «Portugal, Razão e Mistério».

Em suma, «O Culto do Espírito Santo em Terras da Beira Baixa – as longínquas raízes», de 65 páginas e pequeno formato, não se assumindo exaustivo (pois resultou de uma conferência dada pela sua autora e professora), é, contudo, em nossa modesta opinião, um dos estudos mais esclarecedores e radicais deste culto na Beira Baixa e regiões adjacentes. O sentido do popular que a autora imprime criteriosamente na sua obra, é o de um popular não «popularucho», para onde tantas vezes é fácil resvalar. Dizemos popular ou talvez tradicional, pois a autora tem indubitavelmente a intenção de ir ao ponto mais fundo da raiz, dessa raiz incólume ao passar do tempo, o tradicional oculto e intocável que ainda vive, agora aparentemente morto, no coração do nosso Povo. No percurso pelo cancioneiro poético, destacamos a última quadra, da zona de Proença-a-Nova e Alpedrinha. Hoje, dolorosamente conscientes de que em não muitos momentos da nossa História semelhantes ao actual, ela tem sido tão verdadeira. Por isso, leiamo-la como verso e oração:

Divino Espírito Santo
Que lá ‘stais nessas alturas,
Dai-nos luz aos nossos olhos
Já que estamos às escuras.

Sem comentários:

Publicar um comentário