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quinta-feira, 28 de maio de 2009

DA URBE E DO BURGO, 4

O amanhecer da Renascença Portuguesa e o seu crepúsculo

“(…)
O grupo promotor da chamada Renascença Portuguesa constitui um exemplo típico de uma geração de certo modo heterogénea mas, em dado momento, fortemente convergente na atitude de anseio de uma palavra que, taumaturgicamente, quebrasse a modorra do viver pátrio, erguendo de novo a alma da gente lusíada àquela atmosfera de gratuidade e de esperança quase messiânica que já noutras eras teria sido, por assim dizer, seu avatar.

Nesse indefinido ponto místico se fixava, nos melhores momentos de sintonização, a confraterna ansiedade desse agrupamento de homens novos tão diversos, mas fortemente ligados por um fremente propósito de acção catalítica.

Se se quiser entender, na sua mais íntima força espiritual tal movimento, ter-se-á de sentir vivamente que nessa plêiade de homens novos – poetas, tribunos, professores, artistas, militares, comerciantes – de tão diferentes índoles e idiossincrasias, latejava uma autêntica aspiração de apostolado.

E dizemos assim –, «de tão diferentes índoles e idiossincrasias» –, porque, na verdade, nesse agrupamento se cruzavam e associavam temperamentos de vigorosa inspiração idealista e eloquente (como Leonardo Coimbra e Jaime Cortesão) com alguns vultos de pacata compleição positiva ou fria formação científica (Teixeira Rego, Marques Teixeira, Augusto Martins), fazendo-se notar, de permeio, alguns outros de fortes impulsos combativos (Raul Proença e Manuel Laranjeira), poetas de singela inspiração lírica (Augusto Casimiro, Afonso Duarte, Mário Beirão), pedagogistas da puritana disciplina (António Sérgio), ao lado de discretos professores, ricos de bonomia, tranquilos e lhanos (Álvaro Sampaio, Coelho de Magalhães, Mário de Vasconcelos e Sá, Luís Cardim); individualidades nocturnas e tímidas (como Raul Brandão e António Carneiro), esquivando-se, em silêncio, entre os gestos e as palavras cortantes de um personagem de forte pendor pragmático (uma espécie de brasseur d’affairs), – o temido e imperativo Álvaro Pinto, o homem dos caixotins e das máquinas de imprimir, armadas, por artes do diabo, num escuso barracão, perante o pasmo dos poetas e filósofos que andavam na Lua e não percebiam como dali podiam sair – e saíam – os seus poemas em tão belas edições, de papel de linho…

*

Propositadamente deixámos de apontar entre esses homens novos e tão diferentes uns dos outros, mas solidários na solicitude com que procuravam atear e manter essa singularíssima «fogueira espiritual» que há setenta anos, em dado momento, surgiu, nãos e sabe como, no meio sonolento e húmido do Porto –, propositadamente deixámos de citar, íamos a dizer, a figura quase mirrada, somaticamente o vulto de menor figura, de voz cavernosa e perfil magríssimo, de olhos encovados e trejeitos semidemoníacos, frenético e febril, e que todavia, na sua aparente pequenez, seria um dos que mais contribuíam para erguer essa «fogueira» a alturas imprevisíveis.

O pintor António Carneiro, autor do ex-libris da Renascença Portuguesa, acima reproduzido, e o poeta Teixeira de Pascoaes

Queremos, enfim, referir-nos ao poeta Teixeira de Pascoaes.
Como S. Paulo, esse outro punhado de ossos e de nervos, enfermiço e raquítico, alucinado e alucinante, o poeta das Sombras e da Vida Etérea não surge logo no primeiro momento do apostolado da Renascença. Tal momento parece ter pertencido a Jaime Cortesão, a Augusto Casimiro e a Leonardo Coimbra, três vultos imponentes e distintos, pela ênfase, pelo quixotismo, pelo fulgor eloquente. Tanto assim, que, segundo alguns «genealogistas da Literatura», a Renascença Portuguesa teria nascido de um passeio dos três pelos arredores de Coimbra. Terá sido assim? Não o cremos. Tal certidão de baptismo afigura-se-nos mais apócrifa que a certidão das Actas de Almacave.
A aragem do Choupal de modo algum poderia dar uma «ideia-força» dessa natureza.
De raiz, a ideia geradora do que poderemos talvez designar o «apostolado de A Águia», é uma flor dialecticamente nascida da atmosfera húmida e do chão rochoso do Porto.
Um terreno, quanto mais duro e mais ingrato, mais propício é à aparição, aparentemente teratológica, de uma realidade prodigiosa.
Quem diria que das tabernas e ruelas lôbregas do Tamisa nasceria o talento singularíssimo da Marlowe, ou o génio imperecível do Autor do Hamlet? E quem diria que a mais estranha e a mais majestosa rainha das flores – a raríssima Vitória Régia – só aparece, de longe a longe, nos mais inóspitos e abafados recantos da Amazónia?
A obra enorme e prodigiosa de Camilo, por exemplo, – verdadeira réplica de uma Vitória Régia –, que é ela senão uma compensação e uma consequência, por assim dizer dialéctica, do meio, tão impregnado de vulgaridade, que o Romancista, com o seu terrível génio satírico, procurou redimir?
Não tenhamos a menor dúvida: a «ideia-força» de que seria necessária uma verdadeira aposta de espiritualização para que a alma do povo português de novo reencontrasse o seu rumo esquecido só poderia surgir num meio como este: o meio portuense, tão rico de dialécticos contrários.
Saber, com precisão, como foi, onde foi, como nasceu tal ideia-mística, não é fácil, nem tão-pouco importa perder tempo a indagar. As indagações fácticas, nestes assuntos, não servem para nada. O que importa é apreender ou vislumbrar o inefável sentido que moveria tantas pessoas diferentes a participar, embora por pouco tempo, de uma dada alucinação.”
Sant’Anna Dionísio
(excerto de “O amanhecer da Renascença Portuguesa e o seu crepúsculo”, capítulo XXXVI de Da Urbe e do Burgo, Lello, 1971, pp. 241 e ss.)

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