
Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Amén.
Natália Correia
Creio, também eu, e em contrapartida, que esta «profissão de fé» da poetisa demonstra, para quem ainda não entendeu, que um poema pode ser um tratado filosófico; que sob essa forma o pensamento alcança alturas sublimes; que sob esta forma breve voamos mais longe do que com muitos textos longos e pesados; e que, por fim, Natália Correia era bem mais do que simples figura de Botequim ou espalhafatoso animal de palco...
ResponderEliminarBom dia!
ResponderEliminarTenho a mesma opinião de Natália. Para além da parlamentar, com uma oratória sempre aguçada e crítica, a poetisa que nasceu nas Ilhas do Espírito Santo, digo Açores, sempre revelou grande profunidade mística, sentindo bem a luta da carne e do espírito, admitindo, por fim, a vitória do último ou pelo menos a sua supremacia. Permitam-me que transcreva este poema de sua autoria.
«O Espírito
Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto».
Natália Correia, in “Poesia Completa”
Com os cumprimentos do Eduardo Aroso
Queria eu dizer que tenho a mesma opinião sobre Natália.
ResponderEliminarEduardo Aroso