(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



domingo, 12 de junho de 2011

LANCES E RELANCES, 6




















JORGE DE LIMA – EXPOENTE DA POESIA BRASILEIRA DO SÉC. XX

Por Eduardo Aroso


Jorge de Lima (1893-1953) nasceu em União, no Estado de Alagoas. Viveu em várias cidades, como Salvador, Maceió e Rio de Janeiro, para onde rumou, após perseguição política. Formou-se em Medicina, tendo recebido o grau de doutor, e exerceu cargos de carácter cívico. Em 1925 aderiu ao modernismo brasileiro.

A poesia completa de Jorge de Lima encontra-se reunida num único volume da Editora Nova Aguilar. Para além dos poemas, há todo um recheio precioso de textos como «Jorge de Lima visto por Jorge de Lima», onde abundam depoimentos e reflexões pessoais de vária índole, bem como panoramas sobre a poesia mundial.

«Aliás, parece que o que há, no Brasil, com os escritores, é um inexplicável medo de ser “eles mesmos”, sem premeditações nem compromissos. Muitos são os espécimes de homens de letras que traem a si mesmos, não tendo coragem de enfrentar a crítica, preferindo realizar coisas impessoais e informes» (…) «O poeta de ontem, de hoje e de amanhã é sempre revolucionário; o que não lhe impede de ser memorialista e transcender a própria memória».

Poeta, que conheceu Agostinho da Silva, do seu pendor religioso ele próprio nos diz da « … desejada renovação, já havendo compreendido que o plano mais elevado para isso seria uma poesia que se restaurasse em Cristo, que é a mais alta Poesia, a mais alta verdade».

Nestes dias de Pentecostes, é mister reler este belíssimo poema, a propósito do qual não posso, com saudade, deixar de aqui relatar este meu pormenor pessoal. Foi com grande regozijo que o li em Estremoz, na tarde de 18 de Maio de 2002, na ilustre presença de António Telmo e de sua esposa D. Maria Antónia, dos companheiros Raul Traveira e Manuela Azevedo, do Gresfoz, e dos amigos João M. Lopes Tavares e Roque N. Brás de Oliveira.



ESPÍRITO PARÁCLITO


Queima-me Língua de Fogo!
Sopra depois sobre as achas incendiadas
e espalha-as pelo mundo
para que a tua chama se propague!
Transforma-me em tuas brasas
para que eu queime também como tu queimas,
para que eu marque também como tu marcas!
Esfacela-me com tua tempestade,
Espírito violento e dulcíssimo,
e recompõe-me quando quiseres,
e cega-me para que os prodígios de Deus se realizem,
e ilumina-me para que tua glória se irradie!
Espírito, tu que és a boca de todas as sentenças,
toca-me para que os meus irmãos desconhecidos e
                                          [longínquos e estranhos,
compreendam a minha fala para todos os ouvidos que criares!
Exceder-me-ei em meus limites,
crescerei em todas as distâncias,
serei a palavra transcendente, a profecia, a revelação e as
                                                                      [realidades!
Devora-me, renova-me, ressurge-me em tua vontade criadora
diante da morte e diante do nada!
Aguça a minha intuição,
descansa em minhas pupilas,
agita a minha lentidão,
faze-me numeroso como tu,
cobre todo o meu corpo de pálpebras que espreitem todas as
                                                             [latitudes e longitudes
e expectativas e anunciações e partos e concepções
e gerações e séculos de séculos!
Ressurgirei de todos os ventres
e voarei no sentido da perpetuidade sobre as águas e sobre
                                                                           [as terras!
Desata-me Espírito Paráclito! Corta os meus laços,
sopra a terra que há sobre a minha sepultura!
Enche-me de tua verdade e sagra-me teu moderno apóstolo!
Amo como poeta a forma com que te apresentaste
à assembleia do Cenáculo!
E sinto a tua presença,
a tua aproximação, a tua unção sobre a minha alma!
Dá-me tua fecundidade sobrenatural,
tua heroicidade e tua luz!
Unge-me teu sacerdote,
teu soldado, teu vinho, teu pão,
tua semente, tuas perspectivas!
Espírito Paráclito, dedo da direita do Pai,
soergue as minhas pálpebras descidas e sopra sobre
                               [elas o teu hálito e tua essência!
Espírito Paráclito, amo-te, com os meus cinco sentidos,
com a minha imaginação,
com a minha memória e com os outros dons poéticos
                                  [e proféticos e reconstituidores
que ultrapassam minha espessa matéria e meu espírito
                                                              [translúcido!
Sou teu ramo de oliveira que trazes dos dilúvios constantes
                                                                da [humanidade
e cujo óleo ungirá os meus iguais e os desiguais do meu
                                                                     [tamanho!
Espírito Paráclito, tu que és o único pássaro que desce sobre
                                                 [mim na minha noite untuosa,
fura os meus olhos para que eu veja mais,
para que eu penetre a unidade que tu és,
a liberdade que tu és,
a multiplicidade que tu és,
para eu subir da minha pequenez e me abater em ti!

JORGE DE LIMA (A Túnica Inconsútil)



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