(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



domingo, 17 de outubro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 105




A História do Bruno
Cynthia Guimarães Taveira

Não era para escrever este texto. Por vergonha. Vergonha daquilo que presenciei. Por mágoa, demasiada mágoa. Eis os factos: Uma angolana conhece um aldeão português, e vice-versa, ele também a conhece no sentido bíblico em que um homem e uma mulher se conhecem. Ele é louro de olho claro. Ela é negra, de olho escuro. Desse encontro nasceu uma criança a que deram o nome Bruno. A criança é linda. Tem agora doze anos. Vejo-a brincar na praia. Tem uma alegria imensa em viver. É mulato louro e branco e os traços com que foi desenhada a sua face são africanos. A mistura saiu perfeita e o menino, que conheço há quatro anos, entretém-se, sem que o saiba, a dar lições de vida a um olhar mais atento. A sua vida não é fácil: a mãe separou-se do pai e foi agora viver com um homem muito mais velho, que bebe, que grita, que embirra, que não o ama de maneira nenhuma.
Mas o Bruno é uma borboleta, parece pairar acima de todas as adversidades. É inteligente e tem jeito para escrever. Nas histórias que escreve revela uma imaginação e uma facilidade com a palavra que admiro. Ele balança na vida e com a vida. Ele diz-me, sem que o diga, que o truque para viver está em saber dançar. Saber ouvir uma música acima do quotidiano triste. E pairar assim, acima das circunstâncias, e conseguir, assim, momentos de felicidade. Admiro-o quando o observo. Gosto muito dele. Se pudesse adoptava-o e retirava-o do mundo triste em que vive. Penso nisso às vezes. Antes de barrigas de aluguer, bebés proveta, desejos, absurdamente egoístas, de se ter um filho que sai do próprio ventre como prolongamento de si, vem a adopção. A adopção daqueles que, como o Bruno, quando lhe fazemos uma festa nos dá um abraço do tamanho do mundo, quando se dá um beijo, se recebe mil em troca. Há muitos como o Bruno e eles estão aí, à espera de alguém que os ame para poderem também amar. As provetas deviam ficar para o tempo em que já não houvesse crianças abandonadas à sua sorte.
No dia 1 de Outubro o Bruno foi assassinado com um tiro de caçadeira na testa. O velho, que pertencia à mesma aldeia que o pai do Bruno, chateou-se de vez, ou bebeu de mais, ou apeteceu-lhe (bem lá no fundo, acho que lhe apeteceu) e resolveu matar mãe e filho na mesma noite. Dava-se mal com a mãe e resolveu fazer justiça com as próprias mãos. A seguir, como viu que tinha feito asneira e que iria sofrer consequências sérias por isso, suicidou-se, coroando assim uma noite de cobardia. Matar pessoas indefesas é um acto de cobardia.
No dia 6 de Outubro foi o enterro. Lá fui. Com um desgosto e uma indignação sem tamanho. O meu Bruno morreu. O meu Bruno não morreu de doença, nem num desastre. Morreu porque alguém decidiu que ele ia morrer. Todo o meu corpo é só uma lágrima. Estavam menos pessoas no funeral do que imaginei. Pensei que, coitadas, estariam a trabalhar. A aldeia era confusa, não sabia ao certo quantas pessoas teria. Mas sabia, porque lá trabalhava, que as notícias se espalhavam depressa. Devia ter percebido os sinais pelas conversas: - Ela era má para ele, diziam. – Ela não o deixava beber nada, diziam. – Ela ia para os cafés à noite e fumava! – Ela discutia com ele no meio da rua.
Este último facto, “Ela discutia com ele no meio da rua”, era tido, naquele lugarejo, como um acto verdadeiramente escandaloso. Sabia disso porque trabalhava naquele sítio há oito anos e, pura e simplesmente, havia uma verdadeira opressão na exposição pública dos sentimentos. Punida com repúdios e ostracismos. Vinda de Lisboa, estranhava o fenómeno. Em Lisboa todos discutiam em qualquer lugar. Todos mostravam o que sentiam. Ali não se podia sequer sentir e eu não o sabia ainda. Fiquei a sabê-lo no velório do velho.

O velório do velho foi, paredes meias com o sítio onde trabalho e onde o Bruno brincou durante quatro anos. O velório do Bruno foi noutra terra, colada àquela. Foi mais longe.
Quando cheguei, de manhã, para trabalhar e ir ao funeral do Bruno e da mãe, foi com espanto que percebi que tinham posto o corpo do velho tão perto de um sítio onde o Bruno estava todos os dias. Mas o choque veio depois. Carros e mais carros foram-se acumulando junto à capela e, a aldeia em peso, velava e lamentava a morte do velho assassino. Mais pessoas foram ao funeral dele do que foram ao da mãe e ao do filho. Afinal o velho era filho da terra, e lá devia ter as suas razões para fazer o que fez. Estava desesperado, coitado.

Aquele lugarejo, aquele detestável lugarejo era o oposto do que eu sonhava para Portugal. No funeral da criança, uma amiga holandesa estranhava os nossos costumes e dizia-me: - Se isto fosse na Holanda, havia uma vigília com velas e crianças junto ao sítio onde o Bruno tinha morrido. Havia uma marcha silenciosa na aldeia e quase ninguém teria ido ao velório e ao funeral do velho. Foi com tristeza que lhe disse: aqui, as pessoas desta aldeia são xenófobas e racistas. Vivem perto do mar e nunca viajaram. Nunca saíram daqui. Não conhecem outra realidade que não a sua e recusam qualquer outra. O lugarejo chama-se Malveira da Serra. Fica perto do Guincho. Fica até perto de Lisboa. Mas é uma bolha no espaço e no tempo. Se passarem por lá, não parem.

Dedico este texto ao Bruno. De quem terei sempre saudades. E que não merecia o que lhe aconteceu.

sábado, 16 de outubro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 104


Civismo
Eduardo Aroso

A tua oficina tem mais um dia
Este em que nasce outra pedra bruta,
Mas com a luz do sol que te alumia
Para arrancares a sombra que há na gruta.

Relê e pensa diariamente a constituição,
E a lápis fez os teus registos pessoais;
Só é verdade o que lá está pela acção
De outras Índias achar no meio de vendavais.

Deixa as frases feitas e o novo-riquismo,
Disse o poeta que são «cadáveres adiados».
Tu e o teu vizinho lavrem com o arado do civismo,
Não esperem pela assembleia de tantos deputados.

Tem fé, não desanimes, que há-de vir o dia
Do sonho feito garantia, a perfeita lei.
Ajuda a fundar uma outra dinastia
Na república onde o Povo será rei.

Agosto de 2010

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 103

Notícia sobre António Telmo (1927-2010)*
Rodrigo Sobral Cunha

Figura aristocrática do Movimento da Filosofia Portuguesa, na linha de Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra, Álvaro Ribeiro e José Marinho, irmão de Orlando Vitorino e companheiro de Agostinho da Silva e de Dalila Pereira da Costa, atravessou António Telmo a nossa época entre 1927 e 2010, partindo na manhã de 21 de Agosto aos 83 anos de idade.
A sua obra propõe uma nova visão da história de Portugal, totalmente diversa das histórias oficiais ocidentais dos últimos dois séculos; ligada à Ordem do Templo e à Ordem de Cristo, aliando uma interpretação do Mosteiro dos Jerónimos a uma nova leitura do pensamento de Luís de Camões (em diálogo único com Fiama Hasse Pais Brandão) e apontando através do nevoeiro do seu tempo para um futuro presente sob o Reino do Espírito, da Liberdade e do Amor, perscrutado desde as flores do verde ramo até à Mensagem. Se o poder espiritual e o poder temporal tiveram a sua disputa esotérica no século XX entre as personagens de René Guénon e de Julius Evola, no caso de António Telmo dá-se a conciliação real e simbólica dos dois braços da cruz, na fidelidade à tradição templária portuguesa. Um dos mais originais filósofos da nossa época e um dos maiores escritores portugueses, conjugou tradições como a filosofia aristotélica e a filosofia hebraica, o sentido sagrado da língua portuguesa e o dom da palavra poética, a noção de firmamento e o culto dos heróis. Filólogo aberto à intuitio intellectualis do poder criador do verbo, a ele se devem, entretanto, a noção de uma gramática secreta da língua portuguesa e o conceito criacionista de razão poética. Pensador quinto-imperial, não deixa de considerar, no seguimento de Álvaro Ribeiro, que a soberania reside sobretudo na inteligência e na imaginação.
Ficam as obras: Arte Poética (Lisboa, Guimarães, 1963), História Secreta de Portugal (Lisboa, Vega, 1977), Gramática Secreta da Língua Portuguesa (Lisboa, Guimarães, 1981), Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões (Lisboa, Guimarães, 1982), Filosofia e Kabbalah (Lisboa, Guimarães, 1989), O Bateleur (Lisboa, Átrio, 1992), Horóscopo de Portugal (Lisboa, Guimarães, 1997), Contos (Lisboa, Aríon, 1999), O Mistério de Portugal na História e n’Os Lusíadas (Lisboa, Ésquilo, 2004), Viagem a Granada (Lisboa, Fundação Lusíada, 2005), Contos Secretos (Chaves, Tartaruga, 2007), A Hora de Anjos Haver: poemas (Porto, 2007), Congeminações de um Neopitagórico (Vale de Lázaro, AlBarzakh, 2006 / Lisboa, Zéfiro, 2009), A Verdade do Amor, seguido de Adoração: cânticos de amor, de Leonardo Coimbra (Lisboa, Zéfiro, 2008), Luís de Camões (Estremoz, Al-Barzakh, 2010), Viagens à volta de um tapete: a aventura maçónica (Lisboa, Zéfiro, 2010), O Portugal de António Telmo (Lisboa, Guimarães, 2010).
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* Texto do apontamento televisivo sobre António Telmo, que foi para o ar no programa Câmara Clara, da RTP 2, em 15 de Setembro de 2010.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

REINCIDINDO...


31 de Janeiro de 1891
Eduardo Aroso


Oculto sol que doiras ainda
A estrada sinuosa da liberdade
A contratempo na desavinda
Dama descarnada desta idade.
Fantasma do sonho que nos exorta
Pela sombra inquietante da viagem,
E junto ao abismo nos acorda
Em nova madrugada de coragem.

Janeiro de 2010

BREVEMENTE...

Novidade. Do novo livro de Rodrigo Sobral Cunha, prestes a chegar aos escaparates, aqui deixamos a sinopse:
A Ritmanálise é um novo modelo integral de conhecimento operacional concebido pelo filósofo, físico e matemático português Lúcio Alberto Pinheiro dos Santos (1889-1950) e apresentado à Europa pelo filósofo e epistemólogo francês Gaston Bachelard (1884-1962). O ritmo é a própria energia de existência em todas as escalas e assim o princípio unificador da física, da biologia e da psicologia. Tanto o universo como a própria vida assentam em sistemas rítmicos interactivos, desde as frequências regulares da radiação, passando pelo pulsar vital, até às oscilações do psiquismo humano, que esta nova forma de actividade criadora procura compreender e orientar.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 102




Das ironias sem decretos e das coisas sérias da República
Eduardo Aroso

«Paz aos homens; guerra às ideias»
Sampaio Bruno

Comemorar a república que nunca existiu seria um acto mental dos mais corajosos, digno daquele de ir na demanda do que se pressente existir, mas ao qual ainda se não chegou. Para que se não dê azo a afirmações deste teor «a república de todos e de tolos». O mesmo é dizer-se que a fundar-se a quinta dinastia, teria que haver, não direi uma que nunca tivesse existido, mas pelo menos algo naquele espírito da Ínclita Geração, pois daí até agora, atravessando 1910 e chegando a 2010, já nada nos tem servido ao Sonho. O ministro de hoje que não sai do gabinete para o país que pulsa diariamente, não está muito longe dos monarcas que já não sabiam andar a cavalo nem dançavam com o Povo, nem por este eram aclamados.
Se, ainda que de modo tosco, nestes estéreis tempos embruxelados (não disse embruxados) concebêssemos uma nova Ínclita Geração, isso já realizaria muito satisfatoriamente a proposta do período inicial deste escrito: comemorar o que nunca existiu, melhor, o que pudesse vir a ser, na certeza de uma obra maior de aura universal. Acordar para o dia que não vem no calendário, o dos altos Fados que Deus tem para os Homens que d’ Ele se abeiram para a traçar a História, fazendo definitivamente uma nova tatuagem no espírito.
O facto de Portugal nunca estar verdadeiramente presente no hemiciclo de S. Bento, compreende-se pelo meio espaço. Quando muito, só lá anda metade, e mesmo assim seria preciso que os bancos da dita assembleia estivessem todos ocupados, coisa rara! Portanto, ou vamos para a «táctica do quadrado», como em Aljubarrota, ou fazemos o círculo completo, o sol. Isto estaria em perfeita harmonia com o espírito da nossa verdadeira História, sendo um dos seus símbolos a esfera armilar. Assim, só metendo obras a sério em S. Bento é que Portugal pode ocupar o centro, e um rei-desejado ou um presidente apetecido poderá presidir sabiamente aos nossos destinos. Se há frater há pater, e fraternidade não surge por decreto ou despacho interno. Liberdade, inseparável de justiça; quanto a igualdade, fazer uma adenda à constituição para explicitar melhor esse apetecido mas incompreensível quebra-cabeças.
Se não há firme resolução para obras, querendo o tal círculo inteiro, ficamos na lua, isto é, quando está por metade, na fase crescente, não aumenta mais do meio círculo, nunca chegando a lua cheia; se é na fase minguante, fica-se simplesmente pelo nome. Ora o verbo minguar, muito se tem conjugado entre nós. E como míngua rima com língua – neste caso de um modo com pouca frescura -, diríamos estar perante mais outro paradoxo português: o povo está sem papas na língua! Ou seja, se por um lado, muita gente desta classe (que muito parece importar à república, enquanto votante) está sem comida que lhe passe pela língua - o que as mães chamam carinhosamente a papa - por outro lado parece que o povo ainda tem papas na língua! Aqui podemos distinguir dois tipos de pessoas: as do povo (povão no Brasil e zé-povinho em Portugal), as que ainda não aprenderam de uma vez por todas a mandar à fava quem não lhes deixa cultivar a terra à vontade, quem as não deixa pescar nos oceanos que, mais do que embruxados e poluídos, estão embruxelados. No ano do centenário da república, há que atentar nos tempos inesperados e imprevisíveis, dar andamento a soluções, pois quando chegar o momento do próximo acto de votar podem todos «estar sem papas na língua»!

4 de Outubro de 2010

domingo, 3 de outubro de 2010

NOVA ÁGUIA: O NÚMERO 6 ESTÁ A CHEGAR...

Efemérides. Subordinado ao tema A República, 100 anos depois, o sexto número da Nova Águia tem o seu primeiro lançamento marcado para a próxima quinta-feira, dia 7 de Outubro, pelas 19:00, na Universidade Católica do Porto, onde Carlos Magno a apresentará. Cinco dias depois, a 12, e desta feita às 17:00, será a vez de o Palácio da Independência, em Lisboa, acolher a apresentação da revista, que estará a cargo de Pinharanda Gomes.
Para além do tema de capa, este novo número da Nova Águia, no qual colaboram diversos nomes do círculo dos Cadernos, assinala ainda quatro efemérides: o bicentenário do nascimento de Alexandre Herculano; o centenário do nascimento de Miguel Reale; o cinquentenário do falecimento de Jaime Cortesão; e o ano da morte de António Telmo, colaborador da revista desde o primeiro número, e que nos deixou no passado dia 21 de Agosto.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 101



António Telmo
Rodrigo Sobral Cunha

Texto lido em homenagem a 16 de
Setembro na Biblioteca Nacional

A presença de António Telmo surgia como um grande silêncio pela brisa da tarde e quando falava a voz era cava e como que murmurejava num português claro, assemelhando-se sob estes aspectos ao mar. Os seus gestos eram calmos e movia-se como um carvalho na ciência do ser. Amava a amplidão do horizonte e a sua paisagem era a planície alentejana sob o límpido azul.
Tudo nele estava orientado para a acção do intelecto em convergência com a imaginação, ao que designava razão poética, e o seu modo de estar nobremente criacionista traduzia isto mesmo em toda a linha. Se lhe acontecia encontrar-se em situação de passividade, vítima da razão patética, pouca coisa levava a sério, embora o sentido da atenção nele fosse como uma corda firme. Frugal quanto às aparências, tinha um elevado sentido da beleza e gosto aristocrático que completava com as virtudes da veracidade e da lealdade.
De António Telmo, que pensou sempre com todo o seu ser, se pode dizer que era feito da madeira subtil da árvore da filosofia portuguesa; dessa árvore ignota cuja copa, tal como as raízes extremes, no reino da luz se aloca.
Interpretando o pensamento de seus mestres José Marinho e Álvaro Ribeiro, aprendeu a conciliar no seu os de Platão e de Aristóteles. Teve Platão por “o maior pensador europeu”. Com Sampaio Bruno aprendeu o exercício hermenêutico de extrair a luz da obscuridade e com Leonardo Coimbra aprendeu a graça inventiva desse “amor amante” que se verbaliza e faz gesto irmanando a luz. A Agostinho da Silva, a quem designou “Monarca do Espírito”, convidá-lo-ia para padrinho de sua filha, pondo ao filho o nome de Manuel. A propósito das Três Meditações sobre o Êxtase de Dalila Pereira da Costa, que contou também entre os seus melhores amigos, escreveu António Telmo: “tendo eu percorrido numa longa viagem as várias obras-primas da literatura esotérica – árabes, judaicas, cristãs da Alemanha, da Itália ou da Inglaterra –, em nenhuma me foi dado encontrar, em meditação do êxtase, um texto tão inteligente, tão exacto, tão lúcido, diria mesmo tão racional, e, no entanto, quase só constituído por interrogações.” Num certo sentido, pode dizer-se dele que leu ou viu tudo; de Oriente a Ocidente e de Ocidente a Oriente.
Uma das mais altas inteligências que tem conhecido Portugal, calhou-lhe na sorte, entretanto, dar aulas a crianças em Estremoz. Aí lhe sucedia ensinar, por exemplo, quem fôra o primeiro rei de Portugal e quais os seus feitos, enquanto fazia os sumários reproduzindo os programas ministeriais. Um dia colocou em exame aos seus alunos essa mesma questão: quem é o rei de Portugal (por antonomásia) e quais os seus feitos? Metade das respostas dos meninos afiançaram que era o “Zé Maria”, o contínuo da escola (que informava os alunos no recreio que era ele quem ali mandava). Este género de historietas sérias e outras histórias de outra natureza, eram correntes no círculo de amigos de António Telmo, círculo que ele mesmo animava com iniciativas que iam do comentário de livros e acontecimentos a discretas intervenções públicas sempre comunicadas a poucos. O convívio com o filósofo estava imbuído de uma atmosfera rarefeita, sem nuvens; e se algumas apareciam, dissolvia-as rapidamente o seu fino sentido de humor.
Entende António Telmo o diálogo como uma arte gnósica mediante a qual a verdade, depois de percorridos certos passos, se revela aos intervenientes através de uma sublime espécie de diafaneidade. O silêncio era substante a todo o diálogo com ele, supervisionado pela presença do espírito. De quem desconhecesse a capacidade do silêncio e da fala autêntica, o nosso filósofo afastava-se simplesmente sem qualquer palavra. O que naturalmente dava azo a vulgares opiniões, consignadas na sentença de Heraclito: “Os cães ladram aos desconhecidos”.
Para António Telmo o mundo, ou melhor, o Universo é uma interioridade a pensar. Significa isto que o “universo”, como o vê a ciência, é simplesmente exterior, oco até; não tem ressonâncias com as vivências do homo scientificus. Em contrapartida, “sagrado” (ou secreto) é o Universo experimentado com nosso inteiro ser; ou seja, com aquilo que em nós é capaz de intuir o uno e o diverso, discernindo para melhor compreender a plural vida do Universo. Ora, no pensamento de António Telmo uma tal compreensão é o que propicia a verdadeira imaginação.
Pela razão poética especula o filósofo acerca das imagens vivas que o movimento noctidiurno exibe e esconde à sensibilidade e à inteligência, entre luz e treva. O pensamento criacionista de António Telmo deve ser visto como uma teoria operativa, pois a contemplação nele é acção sublime que, iluminando o ser, esclarece o Universo, até ao seu essencial mistério.
Tendo feito seu o pensamento de Fernando Pessoa – “Minha pátria é a língua portuguesa” –, a obra de António Telmo procurou sempre a sabedoria interior da janela da língua portuguesa, desta feita totalmente aberta para o Universo.
Gostaria de terminar recordando as seguintes palavras concedidas pelo filósofo a uma entrevista: “Um dos sinais do Quinto Império é que ainda há andorinhas. O provérbio diz que uma andorinha não faz a Primavera. Mas eu acho que faz. Enquanto houver um homem onde resida a espiritualidade, há sempre um princípio do Quinto Império.”

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

REENTRAR NA «CATEDRAL», 9

Maternidade
Isabel Xavier

Esperava um filho e naquele dia orou
Sentiu-se em comunhão com o Universo
Cresceu em si rara força, chorou
Procurou papel e lápis, fez um verso

E nele colocou toda a força do seu estado
Sentiu-se mais que o mundo, só Amor
Sabia de antemão qual o sítio, qual o lado
Onde a levava aquele medo, aquela dor

Saber-se e em si o ente que sentia
Mover-se em si como algo de divino
Conhecer em seus gestos o que havia
Já, antes ou depois do que adivinho

Ser a verdade essencial ou parte dela
De forma única que mais ninguém conhece
Mística partilha mais do que aquela
Em que dois são um e um só vence

Com sua força as amarras que há no mundo
Não há amarras que prendam uma mãe
Que, passo a passo, vai chegando ao fundo
Do mistério maior que a vida tem

Algo distinto e muito mais do que ela
Transmissão de sentimentos, alquimia
Espelho de luz que em si luz enquanto vela
Por aquele novo ser que em si vivia

O ar, o céu, a terra, o mar
De todos eles se sente aparentada
E em cada gesto ou passo que vai dar
Há a firmeza que conhece o tudo e o nada

Nada no mundo a isso se compara
Estava viva de uma forma nova e mágica
Soube-se a dor que no mundo nunca sara
Porque é fora do mundo que há a trágica

Centelha de espírito que se anima
Quando viver é sinónimo de amar
E nascem as palavras com que rima
A verdade que um dia há-de reinar.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

terça-feira, 28 de setembro de 2010

RAZÃO POÉTICA, 7


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Isabel Xavier ou a arte de sentir*

Para os Teoremas de Filosofia, um dos maiores acontecimentos espirituais foi sem dúvida o de ter sido editado sob o seu patrocínio o livro de Isabel Xavier Catedral. Isabel Xavier tem colaborado nos Teoremas com algumas poesias. O livro é ilustrado por outro nosso colaborador, o pintor de Vila Viçosa Carlos Aurélio. São dois nomes que não dizem nada ou pouco mais que nada ao público culto, mas que são de dois espíritos verdadeiramente interessados pelo que mais importa.
Os poemas de Isabel Xavier pertencem àquela espécie que Eugénio de Castro, discípulo português do rosa-cruz Péladan, caracterizou como oaristos pelo nome do livro que o tornou célebre. Saber tudo quanto se implica nesta designação constitui o melhor comentário de Catedral.

A palavra oaristo não é de uso comum, até entre os literatos ocultistas que lêem e admiram o poeta rosa-cruz. Quem a elevou àquele plano em que a palavra se torna pensamento e o pensamento se faz luz foi Álvaro Ribeiro. Usou-a como a palavra mágica capaz de desvendar os segredos da linguística, até agora encobertos por uma ciência mais preocupada com a linguagem plebeia do que com as formas que a língua recebe quando trabalhada por mentes superiores.

“Cada idioma, escreve o insigne filósofo na página 178 d’A Razão Animada, é um órgão invisível que pode ser configurado mediante sinais gráficos e tipográficos, mas que exerce também funções indiscerníveis pela análise literal ou gramatical. No âmbito de cada idioma vão dialogando os seres humanos, e realizam conhecimento ou ciência, na medida em que continuam a relação de espírito a espírito. Fácil será inferir, portanto, que o diálogo mais profundo, de maior alcance gnósico, sófico e pístico, tem a designação clássica de oaristo”.

Qualquer dicionário nos diz que oaristo é o amor conversado, a conversa que precede, acompanha e amplia a união dos amantes, do amigo e da amada. Seu alto paradigma é o Cântico dos Cânticos. Aquilo que, vivendo o seu romance, eles murmuram, ciciam ou falam “humaniza a vida erótica para a transformar em vida de amor”. Continua Álvaro Ribeiro: “O ritual, por intermédio do mito, daquilo que se diz, vai até à porta do indizível, ou do mistério, e assim ascende à dignidade da liturgia. Sem palavras valorativas de bondade, de beleza e de verdade não pode haver linguagem comunicativa de graça entre os amantes.”

Sublinhamos “à dignidade da liturgia” para lembrar que, durante o sacramento do matrimónio, os ministros são os próprios noivos.

Há, nas linhas transcritas d’A Razão Animada, o princípio de uma teoria do conhecimento que, existente já, embora por modos e expressões diferentes, em Sampaio Bruno e em Leonardo Coimbra, em Álvaro Ribeiro se compõe com uma forma superior de linguística à qual convém chamar, com inteira propriedade, oarística.

A analogia do amor com o conhecimento é uma das linhas de força da tradição judaico-cristã, como se vê pelo Génesis onde se diz que Adão conheceu Eva, isto é, se uniu sexualmente com ela (depois do pecado original, convém dizer-se) e como se vê pelo Evangelho, no relato das bodas de Canaan, quando Cristo a pedido da Mãe transformou a água em vinho.

Por tudo isto se compreende como para Álvaro Ribeiro, pensador da tradição judaico-cristã, o conhecimento seja, como a etimologia ensina, “uma relação de sujeito a sujeito, e humanamente uma relação social de espírito a espírito”. É o que nos diz a página 151 d’A Razão Animada, após ter sido afirmado que as gnoseologias dualistas se lhe afiguram incapazes de explicar o conhecimento pelas relações do Sujeito como o Objecto. Nesta relação, o dualismo resolve-se por redução a um monismo. Ou o sujeito cria o objecto e temos o idealismo ou o objecto reflecte-se no sujeito e temos o materialismo. Há, no primeiro caso, uma assimilação do objecto pelo sujeito, e, no segundo caso, uma assimilação do sujeito pelo objecto. As filosofias germânicas e suas adjacentes, onde, como se sabe, aquela relação, (S – O) é predominante, lidam com uma forma de conhecimento que, por analogia, podemos explicar, recorrendo de novo à Bíblia, como a manducação assimilante do fruto proibido e, por conseguinte, como um acto de baixa magia. Esta linha de pensamento afirma o valor do pecado original e vai levar a ideia, pelo seu prolongamento em ciência do bem e do mal e em tecnologia, até às últimas consequências no domínio da biologia. O oaristo acaba quando as palavras degeneram da imaginação para o sensualismo, tendendo a cingir a mulher como objecto, em vez de por metáfora formarem, analogia com o que acontece no Cântico dos Cânticos. Agostinho da Silva, outro discípulo maior de Teixeira Rego e de Leonardo Coimbra, escreveu algures que só se amam verdadeiramente o homem e a mulher que se amam em Deus. O que equivale a dizer o que os mestres de Cabala ensinavam: há três associados que presidem ao concebimento de uma criança, Deus, o pai e a mãe.
A elevação, proposta por Álvaro Ribeiro, da linguística a oarística funda-se na ideia de que, nas formas superiores de linguagem em que se exprime o sobrenatural, todos os fonemas, todos os verbos, todas as frases se devem compreender como uma misteriosa conversa entre o amante e a amada, até quando ali pareça que se fala de outra coisa. É isso que nos permite ver na poesia de Isabel Xavier um oaristo continuado, até quando pareça não falar do amor. E tudo isto por virtude de um dom feminino raramente tido. Isabel Xavier pensa com o sentimento.

António Telmo
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* Publicado originalmente no n.º 7 da revista Teoremas de Filosofia (Primavera de 2003); e depois em Viagem a Granada (Lisboa, Fundação Lusíada, 2005).

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

REENTRAR NA «CATEDRAL», 8


Olhar
Isabel Xavier

Na ternura do teu olhar
Quando para mim olhaste aquele dia
Eu vi a terra, o Céu e o Mar
E nunca mais pude vê-los como os via

Desde esse mágico momento
Em tarde impassivelmente calma
Cessou em mim meu pensamento
Suspendeu-se em mim a minha alma

Não me possuo, não me reconheço
Em redor de mim tudo é estranheza
Dos passos que percorro desconheço
O fim ou o caminho que lá chega

Não sei o sentido do que faço
Mas se faço sei que tem algum sentido
Na penumbra que me envolve neste espaço
Procuro-me no que em vão tenho vivido

Bate à minha porta o desalento
Mas tenho o teu olhar p'ra recordar
Na memória daquele único momento
Sempre que olho a Terra, o Céu e o Mar.

O CAMINHO DO CAMINHO, 16

Cynthia Guimarães Taveira



Retratos
A tua casa não tem fotografias, observava o amigo. Pois não, respondia enquanto pensava no “porquê” dessa ausência. No Caminho do Caminho, no seu mais íntimo percurso, havia uma incapacidade de lidar com o seu passado. Quando olhava para trás, honestamente, parecia nada ter ficado resolvido e, quanto ao arrependimento, arrependia-se de uma série de coisas, umas mais graves, outras quase inofensivas. Não era o sentimento de culpa, era o arrependimento na sua forma mais pura. Nao gostava de olhar para trás, para a sua vida. Se um dos seus temas preferidos era História dos povos, das suas convulsões e pacificações, quanto à sua vida, alguma coisa o fazia arrepiar-se quando via um retrato seu. O momento, assim cristalizado no papel, parecia não mais voltar e isso provocava-lhe uma angústia demasiado próxima do sofrimento. Esta incapacidade de viajar no seu próprio tempo tinha bem presente a consciência de não conseguir resolver coisa nenhuma. A vida era um constante puzzle com peças ausentes ou pouco nítidas. Era a consciência da sua infinitude que o levava a não se conseguir confrontar com todas as suas acções finitas, encarceradas em contextos sempre demasiado apertados e delimitadores do seu raio de acção.
Não usas relógio, observava o amigo. Não, justificando-se: o tempo flui, sem medida. Todo o universo é mensurável, apenas o tempo é metido à força em relógios porque, não existindo, existe, e, existindo, não existe. O espaço é o corpo, próximo ou longínquo, o tempo é incapturável como a alma: aproxima-se a uma velocidade vertiginosa e escapa-se-nos por entre os dedos com a mesma rapidez. Estamos sempre no centro da ampulheta e, nesse ponto, somos apenas a passagem por onde o tempo flui. O tempo usa-nos, mas não somos o tempo.
Estranhava aquelas pessoas que diziam, com orgulho e com um brilho nos olhos, “não me arrependo de nada”. Como, se a vida era um constante arrependimento do que somos e não fomos, do que somos e não ousámos ser, do que somos e desejamos ser, do que somos e não somos? Ao nascer já somos arrependimento daquilo que não nascemos. Não somos a causa do labirinto, somos o labirinto. Não nos perdemos no labirinto, provocamos, a cada minuto, múltiplos novos labirintos: eles nascem naturalmente a partir das noções de distância que nos separam do acto e da potência, do sonho e da realidade, do humano e de Deus.
Um simples retrato tinha tantas implicações, sentimentais, filosóficas, que preferia não o ver. O retrato era sempre a consciência da sombra da sua vida, o lado negro da meditação, o encontro com a ilusão, o sabor amargo da finitude. A memória em palavras era sempre menos crua, mais subjectiva, mais fantasista, a memória em imagens era sempre um choque para o qual nunca estava preparado porque se arrependia de tudo e a ausência de tempo era a sua única possibilidade de fuga do irresolúvel.

domingo, 26 de setembro de 2010

PARA LER: FUNDAÇÃO ANTÓNIO QUADROS HOMENAGEIA ANTÓNIO TELMO


Evocação. A Fundação António Quadros homenageia a memória de António Telmo, dedicando-lhe inteiramente a sua newsletter n.º 15. Textos da autoria de Mafalda Ferro e António Quadros Ferro, uma carta inédita de António Telmo a António Quadros, raras fotografias que dão testemunho de um encontro do grupo da Filosofia Portuguesa no Vale do Infante, em 1983, por ocasião do centenário do nascimento de Leonardo Coimbra e um artigo com que António Telmo colaborou no jornal 57 contam-se entre os óptimos motivos de interesse que esta publicação apresenta.

sábado, 25 de setembro de 2010

REENTRAR NA «CATEDRAL», 7



Rosa
Isabel Xavier

O vermelho que naquela rosa existe
Causou-me espanto quando há pouco o vi
Não sei se me senti alegre ou triste
Nem sei bem dizer o que senti.

Tudo em mim mudou, ficou diferente
E nem olhar segunda vez ousei
A rosa lá, em seu vermelho ardente
E eu parada no momento em que a olhei .

Se um novo olhar quebrasse esse feitiço
Que pecado maior podia haver?
A rosa, o sol, os campos, tudo isso
Lembram-me quanto sou pequeno ser.

Há sensações únicas na vida
Quisera saber guardar esse momento
Quisera em sua força desmedida
Poder ancorar meu pensamento

Tudo passa, cada instante traz
Um novo instante, igual e diferente
Mas só pode julgar que tanto faz
Quem em si traz a alma doente.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 100


António Telmo*
Pedro Sinde
António Telmo (1927-2010). Em Estremoz, onde escolheu viver desde 1976, todos o conheciam por Professor Telmo. Os alunos que passaram por ele nunca se esqueceram das suas aulas. Assisti a muitos destes reencontros, enquanto passeávamos no largo de S. João (como insistia em chamar, à antiga, ao largo do Rossio), quando algum desses alunos se cruzava casualmente com ele, saudando-o carinhosamente e relembrando algum dos episódios invulgares que enchem a sua vida; como aquele, por exemplo, de ter desafiado para um “torneio de fisga” um aluno indisciplinado: “quem ganhar, manda na sala”, disse ao aluno. E o Professor ao mesmo tempo que ganhou o “torneio” conquistou o respeito do aluno. Tinha uma pontaria magnífica; por causa disso, em novo chamavam-lhe Guilherme Telmo.
Foi um jogador de bilhar e um caçador exímio; nos últimos anos, porém, sobre a caça, exclamava muitas vezes “como é que eu fui capaz?!…”. Agora, deleitava-se a contemplar nesse mesmo largo os pombos no seu voo circular, “para os fazer viver e já não para os matar”, como me disse numa carta.
Quem o visse no Águias d’Ouro estaria talvez longe de imaginar que escrevia um dos muitos livros que o tornariam famoso: a sua História Secreta de Portugal ou o Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, a Filosofia e Kabbalah, mais recentemente, a Viagem a Granada ou ainda as Congeminações de um Neopitagórico. O Águias não deixará seguramente de assinalar este facto.
Foi um dos melhores amigos de Agostinho da Silva, que o levou para Brasília com o fim de leccionar na Universidade nascente. António Telmo recordava saudoso esse tempo em que Agostinho da Silva, nos passeios que davam juntos, se punha a sonhar, contemplando um lugar no mato: “aqui ficará um monge cristão, ali um sufi e ali um monge zen”.
António Telmo é um dos expoentes da escola da filosofia portuguesa. Discípulo de Álvaro Ribeiro e José Marinho, imprimiu a este movimento uma originalidade magistral. A direcção do seu ensino ia no sentido de acentuar a ideia de que o pensamento deve fecundar e transformar a vida; a isso chamou, logo no seu primeiro livro Arte Poética, “filosofia operativa”. As tertúlias que orientou tinham sempre esta componente “operativa”, o pensamento tinha como corolário o aperfeiçoamento do comportamento ético, artístico, iniciático.
Outro ponto a destacar do seu ensino é o seu amor a Portugal. Reconhecendo a situação calamitosa que vive Portugal presentemente, nunca deixou, no entanto, de o amar e defender em todos os seus livros: estudou magnanimemente a sua arquitectura, a sua história, a literatura, a filosofia e até a língua.
Sempre procurou, como se pode ler numa nota biográfica que acompanha alguns dos seus livros, “estar de pé sobre a extensa planície, a toda a volta, com a sua sugestão de liberdade e de infinito.”
Morreu um homem livre.
____________
* Este artigo foi originalemente publicado na edição de 16 de Setembro de 2010 do jornal Brados do Alentejo, de Estremoz. O título que agora lhe foi dado é da responsabilidade do editor.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

NO PRÓXIMO SÁBADO, ÀS 15:30, NA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE ALCOCHETE

Colóquio. O centenário da proclamação da República oferece o pano de fundo ao colóquio que se realiza no próximo sábado, dia 25, pelas 15:30, na Biblioteca Municipal de Alcochete, e no qual serão oradores António Carlos Carvalho ("A Monarquia e o Rei") e Pedro Martins ("Teixeira de Pascoaes e a República").
A sessão, durante a qual serão apresentados Singularidades, segundo volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante, e o quinto número da Nova Águia, sobre Os cem anos d'A Águia e a situação cultural de hoje, contará ainda com a presença de Renato Epifânio, director desta revista, e que também integra o círculo dos Cadernos.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 99




Portugal
ou doce cantiga da noite dos tempos
Teresa David

Antiquíssimo braço
Antiquíssimo abraço
de mar
nascidos da Luz
nascidos da Cruz
Semi-dizer
De Esplendor
em Flor
pedras

voz perdida
voz reencontrada
guia-nos
para e por essa
constelação
de dizer
secretamente
Apenas,
conduz e roda os dedos
para a romã
do Amanhã

EXTRAVAGÂNCIAS, 98


A República dos objectivos ou dos ideais?
Eduardo Aroso

Embora a discussão em torno das ideias de república, de monarquia constitucional e parlamentar para Portugal continue a ser legítima, e considerando que é muito remota, no plano mundano, a possibilidade de implantação de uma qualquer monarquia (quebrada que foi a nossa tradição), torna-se de certa maneira obsoleto falar tanto da república pela república, ou, como fazem alguns, da república contra a monarquia, ou vice-versa, ao invés de plasmar um sonho, abordar a organização de um grande projecto, em suma, recuperar a alma do Povo, esse oxigénio vital para “respiração” de qualquer forma de governação.
Nestes últimos meses tem surgido um desarrazoado de situações que se tecem à volta do que de bom e de mau tem sido a república. Fica-nos a sensação de uma espécie de ser que nasceu com malformações tais que todos lhe pegam ao colo, mas ninguém a quer curar das maleitas.
Se é certo que A República de Platão, continua a ser o paradigma (ideal) do que ainda não foi atingido – de lá para cá, consideremos, se quisermos, as novidades da Revolução Francesa - e que pensar os antecedentes da república, o seu aparecimento e a sua existência em Portugal (que quase todos contam por 100 anos e outros por cento e tal!) nos pode conduzir a encontrar mais claramente o fio de Ariadne da nossa História, colocar frente a frente república/monarquia, militando ardorosamente na primeira, é como dizer que os homens e mulheres dos cinco continentes pertencem à espécie humana!
Ser republicano é pertencer à grande maioria, mas por assim ser é que, justificar isso, não é culturalmente razoável. Importa – sobretudo isto – não sufocar a beleza da diferença, que, na minoria, pode clarificar o que de bom e de mau há no chamado espírito de maioria.
A aparência de um céu nocturno, no mesmo local de observação e na mesma época do ano, povoado por uma imensidade de corpos luminosos, apresenta-se-nos de modo diverso se por ali passa um solitário cometa ou se dá outro fenómeno astronómico minoritário, mas, sucedendo, susceptível de proporcionar uma outra visão holística da abóbada celeste.
O que eu quero dizer é que muitos republicanos aprendiam mais sobre a república (ideal) se se debruçassem sobre os fundamentos da monarquia (não as modas) e neste caso teriam que ler, por exemplo, De Monarchia de Dante. Por outro lado, os monárquicos deveriam aprofundar o porquê de «o que está em cima é como o que está em baixo», não se verificando desde há muito nas sociedades modernas, levou ao ensombramento da figura do rei (que, apesar disso, ainda hoje na astrologia é figurada pelo sol) como representante divino na Terra para determinada nação e povo.
Esta oposição república/monarquia não é semelhante a uma outra (embora típica), a de direita/esquerda, nem pelo essencial nem pela discrepância da quantidade de prosélitos ser tão acentuada, sabendo nós a importância dos números e estatísticas para a política moderna, filha amada do positivismo e de todas as posteriores formas de materialismo. Perante a diferença de adeptos de um e outro regime, se à minoria monárquica pode fazer algum sentido afirmar e explicitar as suas convicções, desde que feitas na devida substância – até por razões de esclarecimento de uma larga camada do público que muito desconhece da monarquia - já aos republicanos (os jactantes) é caricato insistir na ideia na qual militam, a não ser para estudar melhor a já citada República de Platão, como medida para evitar, tanto quanto possível, eleitos ignorados por eleitores ignorantes.
Se assim não for, afirmar em 2010 a república pela república, ou contra a monarquia, seria ir dar ao tal exemplo: era uma vez um europeu, um africano, um asiático e ainda dois habitantes dos restantes continentes, que se encontraram para concluírem festivamente que pertencem à espécie humana!
O ditado popular «chover no molhado» podia sair à rua no 5 de Outubro, com a devida ressalva (ou não houvesse excepção para toda a regra) de que nem a chuva é toda a mesma (ácidas e menos ácidas) nem o chão é o mesmo. A chuva que caiu no 31 de Janeiro de 1891 não foi a dos pingos ácidos que se derramaram no 5 de Outubro. Nem este chão era já o mesmo.
Cabe aqui recordar uma publicação de António Cândido Franco, Panfleto contra Portugal, também na intenção de chamar a atenção que sobre este escrito de lúcido pensamento, rico conteúdo e estilisticamente escorrido, caiu um enorme esquecimento de mais de duas décadas (foi publicado em 1989), embora este que escreve já tenha ouvido e lido artigos nestes últimos anos, nos quais, lamentavelmente, frases quase ipsis verbis são ditas e escritas, não havendo referência quanto à fonte. Vamos então (re) ler Panfleto contra Portugal (não se interprete precipitadamente a expressão), Edições Arauto – Jorge Cabrita):
«Há dois níveis de afirmação da República, porque há realmente duas Repúblicas: a proclamada em 5 de Outubro de 1910 em Lisboa e a proclamada em 31 de Janeiro de 1891 no Porto. A primeira actuou no plano político, a segunda no plano cultural. Ela constitui, a meu ver, a única República pela qual vale a pena ainda hoje ser republicano.» (…) «É ela ainda que está na base de algumas declarações republicanas de Fernando Pessoa, ou ainda na actividade cívica de Agostinho da Silva. Só esta República, mais ideal do que real, mais individual do que colectiva, parece ter de facto contribuído para resolver alguns problemas colocados tanto pela dinastia dos Braganças, como pelo constitucionalismo liberal. A outra, a que ocupou em Lisboa o Terreiro do Paço, parece ter sido apenas uma caricatura nova dos problemas antigos».
É por demais conhecida a diferença nítida entre objectivo e ideal. Este foi banido há já muito do modo de vida das sociedades contemporâneas, dando lugar à epidemia dos objectivos actuais que fazem seres humanos infelizes (mesmo cumpridos os tais objectivos) levando até alguns à loucura e ao suicídio. Se acaso tivéssemos que aplicar as palavras objectivo e ideal à república de 5 de Outubro e à de 31 de Janeiro, ficariam bem na respectiva ordem.
É apenas nesta linha de pensamento do que aqui foi entrelaçado que a discussão da república portuguesa pode ter sentido. Alheada do ideal, fora do sentir português, esconjurando a alma do Povo pela inveja e ganância (hoje, plutocrata), mais desmoronando do que cumprindo Portugal, a república dos objectivos (seja a do orgulho só ou a dos cravos, cumpridos e florescidos uns e outros não) continuará à deriva, mesmo com a excelência dos objectivos em Expo (s) 98, de pontes Vasco da Gama e de TGVs.
Entretanto, à república ideal, os sucessivos governos, em raríssimas datas, vão cuidando dos ossários, guardados no canto da História. Para esta pobre e bela república não há verbas e muito menos fundações. Afundados foram já os seus heróis. Mas o Povo também diz que de vez em quando, nas encruzilhadas dos caminhos, «aparecem almas do outro mundo»!
Equinócio de Setembro de 2010.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

REENTRAR NA «CATEDRAL», 6


Lagoa

Isabel Xavier

A lagoa, parada, espelho de água
Reflectia no céu não sei que pensamento
A Natureza em redor escutava
Como que em prece e em recolhimento.

Quem me dera poder apreender
A suave transcendência do momento
Contento-me de a olhar e ver
Não sei ir além do sentimento.

Nas águas calmas contemplo algo que alguém
Antes de mim já viu talvez sem ver
E o seu sortilégio ali me tem
Cativa da Natureza a renascer.

E é nas águas da lagoa que descubro
Algo de mim que nelas já se espelha
Talvez a paz que há tanto em vão procuro
Ou a tranquilidade de me tornar mais velha.

Se ante o meu olhar se dispôs tanta beleza
Foi para que sentindo-a pudesse mais que vê-la
E devagar me chega esta certeza
De que as palavras me foram dadas p’ra dizê-la.

E é tanta a lucidez desse momento
Que me ocorre um pensamento:
Será esta a fronteira da vida
Ou tão-só o limiar da despedida?

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 97


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Crónica sétima da beira-mar
Eduardo Aroso

Na curva da estrada, quase sobre o que resta da muralha de Buarcos, junto à Capela da Senhora da Arribança, aí é que eles se sentam. Não querem a esplanada do café que fica a uma dúzia de metros. De um lado ou do outro, avista-se toda a extensa orla marítima, quase enseada, que vai até à Figueira da Foz. Nas pedras gastas, os pescadores ou o que resta deles naquelas figuras tisnadas de sol e maresia, sentam-se sem horário, mas quem estiver com atenção percebe que eles aparecem mais àquela hora em que as traineiras chegavam ao fim da tarde, rodeadas de círculos de gaivotas; bom augúrio!
Num dia destes, andando eu por ali, estava longe de assistir a uma tertúlia de numerologia, certamente sem intenção dos intervenientes. Era domingo; ouviu-se o sino da igreja de S. Pedro, que também não dista muito da muralha. Diz um dos pescadores:
- Nossa Senhora da Arribança me perdoe, mas da Santíssima Trindade nunca entendi nada!
- Isso só bispos é que desenredam - atalhou um outro.
- Será? Sabes companheiro, sempre ouvimos dizer que «três é conta que Deus fez».
- Pois sim; e quatro é a nossa cruz. A minha bem a sei. E também se não fossem os quatro pontos cardiais, a gente desnorteva no mar, no tempo em que não havia aparelhos...
Naquele grupo havia um pescador que pouco dizia. Era conhecido pelo «Água Morna», tal era a lentidão do seu falar e de todos os movimentos. O certo é que o homem quando se saía com alguma, logo se calavam os outros.
- Vocês não começaram do princípio: do um e do dois. Olhem que o problema do homem e da mulher (o dois) é que é o mais complicado; cá neste mundo, digo eu. Vejam as desgraças que andam por aí! Bom, mas indo pró mar, como é que a gente pode remar? Vá respondam-me!
- Ora como é que há-de ser! Com os dois braços, a estibordo e a bombordo.
- Mas assim é andar sempre cá e lá. E há gente que não passa disto.
- Vamos do dois para o três. O que eu quero dizer é que não basta remar à direita e à esquerda; é preciso remar para cima…

Setembro de 2010

domingo, 19 de setembro de 2010

A REPÚBLICA, 100 ANOS DEPOIS: SEXTO NÚMERO DA «NOVA ÁGUIA» SAI A 7 DE OUTUBRO

Efemérides. Subordinado ao tema A República, 100 anos depois, o sexto número da Nova Águia tem o seu primeiro lançamento marcado para 7 de Outubro, às 19:00, na Universidade Católica do Porto, onde Carlos Magno a apresentará. Cinco dias depois, a 12, e às 17:00, será a vez de o Palácio da Independência, em Lisboa, acolher a apresentação da revista, que estará a cargo de Pinharanda Gomes.
Para além do tema de capa, este novo número da Nova Águia assinala ainda quatro efemérides: o bicentenário do nascimento de Alexandre Herculano; o centenário do nascimento de Miguel Reale; o cinquentenário do falecimento de Jaime Cortesão; e o ano da morte de António Telmo, colaborador da revista desde o primeiro número, e que nos deixou no passado dia 21 de Agosto.

sábado, 18 de setembro de 2010

NO PRÓXIMO SÁBADO, ÀS 15:30, NA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE ALCOCHETE

Colóquio. O centenário da proclamação da República oferece o pano de fundo ao colóquio que se vai realizar no próximo sábado, dia 25, pelas 15:30, na Biblioteca Municipal de Alcochete, e no qual serão oradores António Carlos Carvalho ("A Monarquia e o Rei") e Pedro Martins ("Teixeira de Pascoaes e a República"). A sessão, durante a qual serão apresentados Singularidades, segundo volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante, e o quinto número da Nova Águia, sobre Os cem anos d'A Águia e a situação cultural de hoje, contará ainda com a presença de Renato Epifânio, director desta revista, e que também integra o círculo dos Cadernos.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

REENTRAR NA «CATEDRAL», 5

Jogo
Isabel Xavier

Amo tudo aquilo que se assemelha ao jogo
Como olhar que com olhar se cruza
Vencida distância que se consome em fogo
Chave de porta que não se abrindo, se usa.

Amo a distância que de ti me separa
E não me deixa em mim senão sonhar-te
Amo a saudade de um tempo que pára
À força de não te tendo, amar-te.

Amo a ausência de algo que me falta
Como se me fosse essa a razão da vida
Amo o momento que passando tarda
Como tardando na tarde a despedida.

Amo a impossibilidade, o sentimento
Que vagueia entre o ser e o existir
Lugar cativo que consome o tempo
Cansaço de tudo, vontade de partir.

Amo de um céu com nuvens a altura
Que a elas me impede de chegar
Medo constante, alegria pura
Ou só a certeza de o amor se amar.

HOMENAGEM A ANTÓNIO TELMO NA BIBLIOTECA NACIONAL: AS FOTOS

fotografias de Paula Viotti

Pedro Sinde

entre Miguel Real e Vasco Silva, da Babel

Renato Epifânio

Rodrigo Sobral Cunha


Pinharanda Gomes apresentando a obra O Portugal de António Telmo, perante uma plateia repleta

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 96


Crónica sexta da beira-mar
Eduardo Aroso

A ver o mar, dei comigo a cismar. O verbo na matéria, a precisão fonética. Separar do mar, ou, à maneira de uma lente convergente, juntar o pensamento através do mar? Eu estava sentado numa escarpa; no meu corpo apenas os olhos se moviam pelo focar da visão na distância. De repente, como aqueles grandes clarões das auroras boreais, percebi que o nosso planeta é também corpo do divino, que temos metaforizado no que chamamos Natureza, em vários níveis de entendimento e modos de percepção. A magnitude desse corpo, e no que podemos relacionar com o mundo sensível, mar, rios e lagos só podem ser o seu sangue. Elementos naturais que devem mover-se na flexibilidade que lhes é própria; assentos e canais por onde passam devem estar limpos, pois o que por vezes acontece ao nosso corpo (a.v.c.), também o descuido do homem pode provocar sério dano na natureza, em maior ou menor escala. Entenda-se, todavia, que se diz corpo da natureza, pois quanto à sua alma são outras as relações e mais subtis efeitos.
Eu estava sentado numa escarpa junto ao Cabo Mondego, que só pode ser um osso da terra, ainda que seja, como dizem os clínicos, um osso «exposto». Gerês, Estrela, Lousã e outras serras são tíbias e perónios. Estas expostas ao alto, outros na horizontal, como também o Cabo da Roca ou o de S. Vicente.
A terra é um músculo com muitas nervuras. No corpo humano há centenas deles, como existem variadíssimas qualidades de solos, desde os aráveis aos mais agrestes. Tal como o pão propriamente dito, feito de cereal, é símbolo inequívoco do alimento humano, seja ele qual for, também a hóstia do catolicismo, cuja substância original é o trigo, realiza a transmudação de um elemento natural (cereal) em alimento espiritual. Está de acordo com uma antiga lenda que diz que os países onde não há trigo o cristianismo também não cresce. Compreende-se assim bem melhor o sentido das palavras do sacerdote, no acto dos fiéis receberem a hóstia, quando diz «O Corpo de Cristo».
Só a insensibilidade avolumada do Homem a este corpo tão singular é que o tem impossibilitado de viver plenamente nesta verdadeira epiderme divina. É no ambiente da natureza com o homem, e deste com a mãe de todos os elementos, que a poesia e o pensamento portugueses têm florescido num espírito radical de não agressão, contrariando um modo de vida avassalador que se foi cristalizando em sentenças como esta «conquistar ou dominar a natureza», e que se foram inculcando negativamente nos canais mormente da ciência e da educação. Ou seja, em vez do aproveitamento sábio e amoroso, o ser humano, em muitas situações da vida, tem encarado a natureza como o bicho mais hediondo que é preciso dominar.
Devido à ausência do desenvolvimento científico no passado, hoje alguns podem aceitar uma visão do medonho da natureza, justificando a expressão (que não é tanto de um passado remoto, mas do positivismo europeu) «dominar a natureza». Curiosamente, as chamadas “artes marciais” dizem tão simplesmente que o domínio deve ser em nós, não o do outro. A ciência, embora materialista, veio responsabilizar mais o ser humano para não temer a mãe-natureza como força contra.
Inquestionável foi o contributo pioneiro do português, na era dos Descobrimentos, para uma visão mais científica da vida (na biologia, na astronomia, na botânica e outras), mas ao invés de traduzir o sentimento da natura em conhecimentos matemáticos ou filosóficos, prefere, por exemplo, estabelecer uma relação entre filho e mãe-natureza de maneira directa e sensível, tal nos diz a dulcíssima voz de Frei Agostinho da Cruz «Verei o Criador nas criaturas».
Consideremos, portanto, agora a questão do ponto de vista filosófico e poético. Na obra História Secreta de Portugal e depois em O Horóscopo de Portugal, António Telmo conduz o leitor pelo lado de dentro, ou seja, rumo ao átrio das núpcias alquímicas do pensar e do sentir, para o encontro com a alma da Natureza, com o duplo de todas as coisas e seres irrepetíveis desta, como nos diz a poesia de Pascoaes. Mas, para o exemplo em questão, António Telmo coloca-nos perante a sensibilidade de um poeta português, Carlos Queirós, e de Kant, pensador de estirpe de uma nação triplamente científica, filosófica e poética, mas cuja relação com a natureza é bem diferente daquela do poeta luso. Vejamos:
«Falam-me da beleza de um céu estrelado. Lembra-me um rosto coberto de bexigas (Kant).

«Anoitece.
Faz frio pensar na vida.
E a natureza parece
Dizer em voz comovida
Que o homem não a merece.»
(Carlos Queirós)

Setembro de 2010

terça-feira, 14 de setembro de 2010

AMANHÃ, A PARTIR DAS 23:00, NA RTP2: UM DEPOIMENTO SOBRE ANTÓNIO TELMO

Testemunho. Antecedendo a homenagem da próxima quinta-feira, na Biblioteca Nacional, o programa televisivo Câmara Clara, que vai para o ar amanhã, entre as 23:00 e as 23:30, na RTP2, transmite um depoimento de Rodrigo Sobral Cunha, previamente gravado, sobre a figura e a obra de António Telmo.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

REENTRAR NA «CATEDRAL», 4


Marrana
Isabel Xavier

A sós com o meu pensamento
Sustive um eco de longe no meu ser
Ergui-me como ao encontro do momento
Em que em mim ocorresse o renascer

De um sol de esplendor irradiante
Heróico vencedor da escuridão
Indubitável cais, perto e distante
Entre ondas de inquietude e de paixão

Procurei-me nas rotas desse mar
Que naveguei por me ser dado ver
O farol da esperança a iluminar
A esperança de eu ser um outro ser

Mas a realidade de me tornar diferente
O mundo não me pôde perdoar
E desde então caminho entre a gente
Disfarçando o meu diferente caminhar

Marrana como os judeus de outrora
Vou desbravando a floresta da Saudade
Na esperança de que chegue a hora
Que o regresso do Messias já não tarde

Porque essa espera é a humana condição
De quem o mundo não pode contentar
E prefere olhar o céu em vez do chão
E ainda espreita, às vezes, o luar.

domingo, 12 de setembro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 95


Tríptico d'A Vida, de António Carneiro: clique na imagem para a ampliar

Santa dúvida
Eduardo Aroso

Frouxo é o mundo
Das certezas acabadas.
A tarde é livre no sol todo,
A noite grávida do escuro
E a manhã já se levanta.
Entre o ser e o haver
Na dúvida – corda tensa,
A vida canta.

(1998)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 94



[As duas colunas]*
António Telmo

O insigne filósofo José Marinho, numa belíssima subtilíssima reflexão sobre a obra de Sampaio Bruno, caracteriza-a por este modo: “obra demasiado estranha porque excessivamente familiar – num sentido celeste, noutro sentido bem terrena – traduz com o autor uma família de espíritos da mais remota ascendência a daqueles cuja inspiração mítica, cujo logos formador não está no radioso Apolo, na clara luz solar, mas no divino oculto, nas constelações invisíveis”.
Aquele cujo logos formador está no radioso Apolo, na clara luz solar, é Leonardo Coimbra. Assim, mais adiante: “A luz que orientará Bruno não será, como em Leonardo Coimbra, a luz do claro sol. Sua inspiração vem de longe, não da luminosa tradição teológica e filosófica, mas da tradição secreta. Por isso, não é fácil imagem de adorno falar a propósito de Bruno das “constelações invisíveis”.
Sampaio Bruno e Leonardo Coimbra aparecem-nos assim como dois vigilantes, dois espíritos despertos, um na coluna obscura do Norte, outro na coluna luminosa do Sul levantando o templo da filosofia portuguesa. Álvaro Ribeiro preferiu falar em duas escolas: “A escola portuguesa de filosofia que Leonardo Coimbra fundou em reacção contra o positivismo dominante no primeiro quartel deste século (o século vinte), tem de comum com a escola, também portuguesa, de Sampaio Bruno a reivindicação do primado da teologia sobre as ciências especulativas”.

(…)
____________
* [Nota do editor] De um fragmento inédito. O título é da responsabilidade do editor.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

REENTRAR NA «CATEDRAL», 3


Palavras

Isabel Xavier

Como se respondesse ao apelo que há na terra
Ou não assistisse à morte do sol, diariamente
Como se o tempo percorresse cada era
Só pela paisagem que a manhã revela sempre

Como se os meus sonhos fossem doutros sonhos
Que nem mesmo em mim ouso sonhar
Vindos de um mundo mais real que os sonos
De quem um sono assim tem que acordar

Como se entre eu e nós fosse a distância
Que há dos sonhos meus ao que outros são
E neles não pulsasse a pura ânsia
Que faz sentir a terra além do chão

Como se com o sol não amanhecesse
Em cada dia a luz da criação
E em cada ser humano não houvesse
Um sentido p’rá luta pelo pão

Como se a simples lágrima vertida
Por alguém que sofre a sua sorte
Não alterasse o rumo de uma vida
E o Amor não vencesse a morte

E da memória não se insinuassem
Por entre as minhas mais longínquas penas
Indizíveis sons que em meus sonhos cruzassem
As palavras que fazem meus poemas.

NO DIA 15, A PARTIR DAS 23 HORAS, NA RTP 2: UM DEPOIMENTO SOBRE ANTÓNIO TELMO

Testemunho. Na próxima quarta-feira, dia 15, e antecedendo a homenagem do dia seguinte, na Biblioteca Nacional, o programa televisivo Câmara Clara, que vai para o ar, entre as 23:00 e as 23:30, na RTP2, transmite um depoimento de Rodrigo Sobral Cunha, previamente gravado, sobre a figura e a obra de António Telmo.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

REEDIÇÃO D'«A LÁGRIMA» DE JUNQUEIRO E EXPOSIÇÃO BIOBLIOGRÁFICA SOBRE O POETA



Norte. Por ocasião dos 160 anos do nascimento de Guerra Junqueiro, e no âmbito do centenário da República, o poema A Lágrima, escrito pelo autor de Os Simples em 1888, por reacção ao grande incêndio do teatro Baquet, no Porto (onde se estima que tenham morrido calcinadas pelo menos 120 de pessoas), vai ser reeditado com a tradicional chancela da Lello, e sob a coordenação de Henrique Manuel S. Pereira. Para além da edição corrente, em formato de bolso, haverá uma tiragem de luxo de apenas 150 exemplares, numerados. Ilustrada por Urbano, esta obra de Junqueiro terá também traduções em castelhano, italiano, francês e inglês.


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A iniciativa resulta de uma parceria que envolveu a Câmara Municipal de Freixo de Espada à Cinta (de onde Junqueiro era natural), a Universidade Católica do Porto e a Lello Editores, e que contou com o apoio da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República. O lançamento da obra é já no próximo dia 15, pelas 18h30, no Auditório A1 da Universidade Católica do Porto – Campus Foz. A apresentação da obra estará a cargo de Luís Machado de Abreu (Universidade de Aveiro).

Nesse mesmo dia será inaugurada a Exposição biobibliográfica Guerra Junqueiro, de Freixo para o Mundo, igualmente coordenada por Henrique Manuel S. Pereira.

Três dias depois, a 18, pelas 17h30, esta nova edição de A Lágrima será apresentada no Auditório Municipal de Freixo de Espada à Cinta.

EXTRAVAGÂNCIAS, 93



Sacer esto
Pedro Martins
(actualizado)

Na sua edição de hoje, a segunda (note-se!) que sai após a partida de António Telmo, o quinzenário JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias não entendeu útil, justo ou necessário dedicar algumas linhas (meia dúzia que fossem) ao desaparecimento do filósofo, e persiste num estranho silêncio, tanto mais inexplicável quanto o triste facto foi noticiado, de forma bem visível, por títulos generalistas como o Público, o Diário de Notícias ou o Expresso.
Por outro lado, e como foi já amplamente anunciado, encontra-se agendada para o próximo dia 16, na Biblioteca Nacional, uma sessão de homenagem ao autor da História Secreta de Portugal, que, segundo julgo saber, será honrada com a presença do Director daquela instituição. Todavia, no portal da Biblioteca, e notadamente na sua agenda, nada se diz sobre o evento*.

Algures em Filosofia e Kabbalah, António Telmo refere-se ao sacer esto lançado sobre Álvaro Ribeiro. Não que eu tenha alguma vez duvidado disso. Mas hoje, melhor do que nunca, vê-se que sabia do que falava.
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* Recebi, entretanto, uma explicação para o facto de o portal da Biblioteca Nacional não divulgar o evento de dia 16. Não sendo estritamente relevante, para o caso, dar conta do teor dessa explicação, posso, contudo, asseverar aos leitores que da mesma resulta não haver, neste ponto, qualquer intuito de silenciar a figura e a obra de António Telmo, esclarecimento que uma razão de justiça torna imperioso aqui deixar.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 92



Crónica quinta da beira-mar
Eduardo Aroso

Oficializar o disparate parece ser uma obsessão do homem contemporâneo. Notícia recente: num texto publicado no British Journal of Sports Medicine, médicos da Universidade de Londres defendem que a preguiça deve ser considerada uma doença.
Não me foi possível apurar qual o conceito de preguiça a que se referem. Sem querer que «o sapateiro vá além da chinela», isto é, admitindo que possa haver formas de indolência como sintoma de doença, e tomando também o modo como a notícia é divulgada, aceita-se convictamente que a preguiça é uma doença (coitados dos preguiçosos!). Oficializada a descoberta para governos e desgovernados, temos assim o sustentáculo legal para aplicações legislativas em certos campos da actividade humana, mormente no mundo do trabalho. Mas não só, pois, desta maneira, é possível actualizar a ética, podendo mesmo surgir uma nova forma: a ética light.
Devemos, todavia, admitir que este estudo científico tenha um inusitado alcance filosófico, ou seja, que já entre em linha de conta com o conceito grego de ócio, em que a disposição criativa sopra ininterruptamente todo o santo na vida do ser humano, e assim fica-nos a preguiça como uma desarmonia, a combater talvez com um novo medicamento… Havendo nesta conclusão científica o referido vislumbre filosófico, o do ócio separado da preguiça que, no fundo, vai dar à expressão de Agostinho da Silva, «o homem não nasceu para trabalhar, mas para criar», tudo isto constitui o epílogo da era industrial que adoptou como emblema a frase «time is money».
Só na sociedade do lucro as horas são dinheiro. E neste modo de vida e de pensar não pode ser de outro jeito. Em verdade, em verdade, lembro o que o professor também dizia: «O tempo dá-o Deus de graça». Já agora, como se fosse uma tertúlia, juntemos-lhe a voz do povo que diz «Deus dá pão, mas não miga sopas». Cientes do impacto da notícia, e estando então oficializada a preguiça, é de admitir que um dia destes alguém escreva (cientificamente comprovado) o adágio popular desta maneira: se Deus dá pão, então que migue também as sopas!
Agosto de 2010