A Lâmina
Pedro Martins
Sampaio Bruno nasceu em 30 de Novembro de 1857. Fernando Pessoa morreu em 30 de Novembro de 1935. Setenta e oito anos – tantos quantas as lâminas do Tarot – envolvem as suas vidas terrenas. Setenta e oito anos exactos!
Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.
A Lâmina

No herói, no santo e no génio os Deuses se lembram dos homens. O herói é um homem como todos, a quem coube por sorte o auxílio divino; não está nele a luz que lhe astreia a fronte, sol da glória ou luar da morte, e lhe separa o rosto dos de seus pares. O santo é um homem bom a que os Deuses, por misericórdia, cegaram, para que não sofresse; cego, pode crer no bem, em si, e em deuses melhores, pois não vê, na alma que cuida própria e nas coisas incertas que o cercam, a operação irremediável do capricho dos Deuses, o jugo superior do Destino. Os Deuses são amigos do herói, compadecem-se do santo; só ao génio, porém, é que verdadeiramente amam. Mas o amor dos Deuses, como por destino não é humano, revela-se em aquilo que humanamente se não revelara amor. Se só ao génio, amando-o, tornam seu igual, só ao génio dão, sem que queiram, a maldição fatal do abraço de fogo com que tal o afagam. Se a quem deram a beleza, só seu atributo, castigam com a consciência da mortalidade dela; se a quem deram a ciência, seu atributo também, punem com o conhecimento do que nela há de eterna limitação; que angústias não farão pesar sobre aqueles, génios do pensamento ou da arte, a quem, tornando-se criadores, deram a mesma sua essência? Assim ao génio caberá, além da dor da morte da beleza alheia, e da mágoa de conhecer a universal ignorância, o sofrimento próprio, de se sentir par dos Deuses sendo homem, par dos homens sendo deus, êxul ao mesmo tempo em duas terras. Génio na arte, não teve Sá-Carneiro nem alegria nem felicidade nesta vida. Só a arte, que fez ou que sentiu, por instantes o turbou de consolação. São assim os que os Deuses fadaram seus. Nem o amor os quer, nem a esperança os busca, nem a glória os acolhe. Ou morrem jovens, ou a si mesmos sobrevivem, íncolas da incompreensão ou da indiferença. Este morreu jovem, porque os Deuses lhe tiveram muito amor. Mas para Sá-Carneiro, génio não só da arte mas da inovação nela, juntou-se, à indiferença que circunda os génios, o escárnio que persegue os inovadores, profetas, como Cassandra, de verdades que todos têm por mentira. In qua scribebat, barbara terra fuit. Mas, se a terra fora outra, não variara o destino. Hoje, mais que em outro tempo, qualquer privilégio é um castigo. Hoje, mais que nunca, se sofre a própria grandeza. As plebes de todas as classes cobrem, como uma maré morta, as ruínas do que foi grande e os alicerces desertos do que poderia sê-lo. O circo, mais que em Roma que morria, é hoje a vida de todos; porém alargou seus muros até os confins da terra. A glória é dos gladiadores e dos mimos. Decide supremo qualquer soldado bárbaro, que a guarda impôs imperador. Nada nasce de grande que não nasça maldito, nem cresce de nobre que se não definhe, crescendo. Se assim é, assim seja! Os Deuses o quiseram assim. Fernando Pessoa (publicado em Athena 2, Novembro de 1924)

No mundo, poucos anos e cansados
Luís de Camões
Camões é Os Lusíadas. O lírico, em quem os inferiores focam a admiração que os denota inferiores, era, como em outros épicos de sensibilidade também notável, apenas a excedência inorgânica do épico.Não ocupa Os Lusíadas um lugar entre as primeiras epopeias do mundo; só a Ilíada, a Divina Comédia e o Paraíso Perdido ganharam essa elevação. Pertencendo, porém, à segunda ordem das epopeias, como a Jerusalém Libertada, o Orlando Furioso, a Faerie Queene – e, em certo modo, a Odisseia e a Eneida, que participam das duas ordens –, distingue-se Os Lusíadas não só destas epopeia, suas pares, senão também daquelas, suas superiores, em que é directamente uma epopeia histórica.
A vastidão impressiva da fábula, que uma epopeia requer, buscaram-na os antigos e os grandes modernos já na lenda ou na história indirecta, já no Além. Em aquelas se fundamentam, de diverso modo, a Ilíada, a Odisseia, a Eneida, a Jerusalém de Tasso; na lenda absoluta, ou fantasia pura, o poema de Spencer e o Orlando; no Além – o Além pagão do Cristismo – a epopeia de Dante e a de Milton.
Acontecimento. Na próxima rentrée, a Serra d’Ossa Edições vai reeditar o livro O Plutocrata, da autoria de Orlando Vitorino, que o assinou com o pseudónimo de Ernesto Palma. A obra, originalmente publicada em 1996 pelas Edições Ledo, e cuja actualidade se mantém intocada, será prefaciada por Elísio Gala, do círculo dos Cadernos de Filosofia Extravagante.

É verdade que há vocações especiais, vocações puramente contemplativas, mas essas são as daqueles que vão para os Athos deste mundo, não como uma fuga do mundo para encontrar Deus, mas, pelo contrário, como um caminho para encontrar o mundo em Deus. Estes, porém, são poucos, muito poucos; e esse caminho é de uma dificuldade imensa.
Nós, os deste mundo, temos também uma função a cumprir, uma função igualmente árdua, precisamente porque estamos no meio do furacão. Deus não pôs os homens neste mundo para eles aspirarem a sair dele; também não os pôs para passarem o tempo a louvá-lo ou a pedir perdão.
O mistério da criação é incomensurável e Deus é maior do que as religiões – quero dizer que também há Deus e caminho para os que estão “fora” do mundo tradicional; hoje, não há tradições e as religiões desmoronam-se à nossa volta, estamos sós e desprotegidos, mas, ainda assim, Deus continua a abraçar toda a sua criação maternalmente e nem o inferno escapa ao seu olhar misericordioso.
Ele criou cada um de nós em especial, como “filho único”, trouxe-nos à existência, “existenciou” (como diz Ibn ‘Arabî) cada um de nós como um ser único e é por isso que cada um tem um caminho, o seu, para Deus, que tem no seu seio “muitas moradas”; uma das interpretações possíveis da alegoria do filho pródigo, a que Cristo se refere, parece destinar-se precisamente a este final dos tempos, em que o nosso caminho já não se faz dentro dos muros protectores.
Este mundo vale a pena, porque temos uma missão a cumprir nele. Se todos fingíssemos que não nascemos ainda ou que este mundo é uma ilusão onde não vale a pena agir, então estaríamos a empobrecer o mundo. É certo que este mundo não se confunde com o Absoluto, mas por ser relativo, nem por isso deixa de manifestar os nomes de Deus. Temos o dever de manifestarmos o nome que nos coube, devemos aumentar de ser o mundo, como dizia Leonardo Coimbra. Esquecemo-nos, frequentemente que o mundo é real e que não vivemos entre sombras: olha para o teu vizinho e lembra-te que ele é uma alma única que veio, como tu, a este mundo; é preciso que, de cada vez que o saúdas pela manhã, o vejas como Alguém tão real como tu, não deixes que a Medusa no teu olhar o transforme numa sombra, quando passas por ele e maquinalmente o cumprimentas.
Não sentes em ti o dom que o Criador te deu? Não sentes em ti o desejo de o realizar? Por que escondes debaixo da mesa a lâmpada de brilho único que podes ser? Não tenhas medo, porque és eterno e trazes em ti a semente criadora! Sabe receber com a direita e dar com a esquerda, como os dervishes de Rumi e que esse rodopiar seja a expressão da tua imaginação a contribuir para a redenção universal, como diz a epígrafe citada de Álvaro Ribeiro. Trazes no fundo de ti essa palavra, verbo seminal ou logos spermatikos, que deves semear: o teu verbo é a semente e a imaginação é a terra onde ela crescerá. A tua obrigação é criar, dar o que recebeste, ainda aqui como os dervishes de Rumi: o que recebem com a direita ao alto é para darem com a esquerda para baixo – não guardam para si o que recebem, não podem parar o movimento universal, a dança do mundo, eles são ponte ou pontifex: construtores de pontes entre o céu e a terra. O céu, inesgotável, quer dar e a terra, sedenta, quer receber. A sua união é perfeita: poderosa hierogamia. Tu és um sacerdote que se ignora como tal; chega o tempo de te conheceres: “conhecer-se a si próprio, diz Álvaro Ribeiro, é, efectivamente, conhecer-se como espírito.” E conhecer-se como espírito é saber-se eterno, criador e teóforo. Com os olhos bem abertos para a profundidade misteriosa do mundo em que estás mergulhado, poderás ver aqui já, e não num adiado mundo futuro, o “outro mundo”, porque na realidade só há um mundo: esse que, estando aqui, não é, no entanto, apenas este.
Para a memória de António Nobre
Quando a hora do ultimatum abriu em Portugal, para não mais se fecharem, as portas do templo de Jano, o deus bifronte revelou-se na literatura nas duas maneiras correspondentes à dupla direcção do seu olhar. Junqueiro – o de Pátria e Finis Patriae – foi a face que olha para o Futuro, e se exalta. António Nobre foi a face que olha para o Passado, e se entristece.

Evocação. A partir de amanhã, segunda-feira, e até ao próximo sábado, dia 13, em que se comemora o 121.º aniversário do nascimento de Fernando Pessoa, os Cadernos de Filosofia Extravagante evocam o grande poeta, através da publicação de uma série de escritos da sua autoria, dedicados à poesia e aos poetas portugueses, de Camões a Mário de Sá-Carneiro, além de incursões no território extravagante da quadra popular e no domínio misterioso da Mensagem. Paralelamente, a poesia de Pessoa fará a sua aparição na rubrica Os Poetas Lusíadas.

O que faria o homem quando reparasse que os seus estavam a desaparecer enigmaticamente e descobrisse que os animais os tinham enjaulado, que lhes davam injecções com líquidos que lhes causavam uma dor atroz, que lhes implantavam orelhas nas costas e braços na cabeça?
O animal é visto como uma "coisa" ao serviço do homem. E o que é curioso é que aqueles que fazem estas experiências atrozes com os animais são exactamente os mesmos que defendem que os homens são apenas animais entre animais, par inter pares. Se o homem é apenas um igual entre iguais com o animal, então que direito o assiste nesse infligir de sofrimento inimaginável, invisível, mas bem existente? Os horrores de um laboratório científico... uma câmara de tortura!
Não há dúvida de que falta à nossa ciência uma orientação metafísica. Acalento a esperança secreta de que, no fundo, no fundo, eles não sabem o que fazem; possa assim alguém perdoar-lhes.
texto originalmente publicado no blogue MaranosCom partida da GALERIA MATOS FERREIRA, sita no nº. 18 da Rua Luz Soriano, a ASSOCIAÇÃO AGOSTINHO DA SILVA leva a efeito na quarta-feira, dia 10 de Junho (feriado), um Walkshop Literário.
A unidade temática deste percurso é feita com base em figuras da Literatura Portuguesa e não só…, na sua maioria dos séculos XIX e XX da nossa vida literária, artística, filosófica e até política: Gomes Freire, Eça, Pessoa, Almada, Amália, Álvaro Ribeiro... Com este passeio a pé por Lisboa pretendemos contar as suas histórias e dos fenómenos a elas estreitamente ligados, e que são algumas das faces da enorme densidade do passado desta Cidade. O encontro será às 15h00 horas no Bairro Alto, mais precisamente na Galeria Matos Ferreira. Depois de um desvio até à Rua do Alecrim, o grupo seguirá depois até ao Príncipe Real. A partir daí desceremos aos Restauradores, subindo depois ao Campo Mártires da Pátria, finalizando o percurso na Rua Gomes Freire. As inscrições são limitadas. O seu custo é de EUR 15,00 (quinze euros). Os interessados podem-se inscrever através do Tel 21 323 00 11, do Tlm 96 295 37 22, do Email: mfgaleria@netcabo.pt ou simplesmente comparecer 15 minutos antes do início. Haverá pausa para uma ginginha no Largo de S. Domingos.
A Europa está imobilizada na minha rua, a dois quarteirões de distância. É um casarão feio e triste, abandonado, excepto pelos pombos que fazem dele poleiro para descansar e dali iniciarem novas incursões pelo bairro.
Falo do cinema Europa, que já foi casa de espectáculos diversos, palco de concursos televisivos e de programas de variedades, mas que depois fechou e aguarda um destino incerto. Ninguém lhe pega, embora todos reconheçam que a situação é vergonhosa. Um edifício sem destino, sem projecto, sem futuro.
Aqui, em Campo de Ourique, bairro de Lisboa onde convergem e convivem várias gerações, malha de ruas bem desenhadas, à escala humana, ruas sempre cheias de gente, mesmo aos fins de semana e feriados; local onde Gomes Freire de Andrade (um ilustre militar português assassinado vergonhosamente pelos «velhos aliados» ingleses) teve o seu regimento; bairro de onde Machado Santos (outro mártir das intrigas políticas no país dos tais «brandos costumes» que o assassinaram na noite da «Leva da Morte», de 19 para 20 de Outubro de 1921) saiu com um grupo de revoltosos para o episódio da Rotunda, em 5 de Outubro de 1910; bairro onde funcionou a Universidade Popular e em cujo jardim se ergue uma orgulhosa estátua da Maria da Fonte – neste bairro único de Lisboa, o Europa é uma mancha, um sinal da incapacidade para se voltar a dar vida a um espaço.
Cinema Europa: clique na fotografia para a aumentar
Na fachada, onde o nome Europa está inscrito em letras gregas, a Europa não se encontra sentada no dorso do touro Zeus: é uma jovem nua que parece passear com o seu touro numa via láctea de estrelas de pedra.
Quem sabe, talvez um dia destes, nós, os habitantes de Campo de Ourique, erguendo os olhos para a fachada, vamos descobrir que a Europa foi mesmo raptada pelo touro e levada para Oriente, tal como se contava no mito antigo.
E nesse dia talvez alguém se lembre que a Europa foi mesmo levada para Oriente por antigos portugueses que, consciente ou inconscientemente, se identificavam com aquele velho mapa da Europa em que esta aparecia representada como uma princesa ou rainha, de pé, tendo Portugal como cabeça. Creio que foi nesse mapa que Pessoa se inspirou para escrever aquela abertura de «Mensagem»: «A Europa (...) fita, com olhar esfíngico e fatal, / O Ocidente, futuro do passado. // O rosto com que fita é Portugal.»
O touro, esse, inspirou, nas civilizações do Mediterrâneo, a forma da letra A (Alfa ou Alef). Os alfabetos ficaram para sempre marcados por esse animal mítico, terrível, misterioso.
Mas, até que esse dia chegue, para mim, a Europa é apenas um casarão abandonado, habitado por pombos que outrora foram mensageiros.
A Quinta Amarela
"Uma frondosa magnólia, ao lado de algumas salas de aula, quase se metia pelas janelas dentro. Era uma silenciosa ouvinte das lições de lógica, de filosofia grega, de história das religiões, de psicologia experimental que o hierático Newton de Macedo, ou o erudito Teixeira Rego, ou o eloquente Leonardo Coimbra (três homens mortos na pujança do talento, ao dobrar dos cinquenta) nos ofereciam, alternadamente, a certas horas. Tal era a estranha e tão discutida Quinta Amarela, sossegada moradia suburbana, rodeada de muros e arvoredo, ocupada, até 1910, por uma dúzia de freiras de não sei que Ordem e que uma década depois, mercê de um acto de certa audácia de um político-filósofo, se converteria em provisória sede da tão promissora Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Ali se conversava e estudava num ambiente por assim dizer de família, isento de doutorismo. Os professores eram todos novos e improvisados. Alguns, como o pesado e inolvidável autor da Nova Teoria do Sacrifício – autêntico sósia espiritual e somático de Sampaio Bruno –, eram genuinamente autodidactas que o «catalizador» da Faculdade havia ido buscar aos seus obscuros cacifos de trabalho, sem quaisquer respeitos humanos, persuadido como estava, e com profundo acerto, que um bom professor «nem sempre» precisa de passar pelas forcas caudinas da Sala dos Actos Privados ou da Sala dos Capelos.fotografia colhida em Do Tempo e da Luz
Outros eram humildes professores do liceu de província. Tal era o caso de Hernâni Cidade, então simples professor do ensino secundário em Leiria. Outros ainda – como Damião Peres, Ângelo Ribeiro, Newton de Macedo –, levara-os Leonardo consigo da rumorosa sala dos professores do liceu de Gil Vicente, apesar dos protestos dos guardiões das chaves da Sala dos Doutoramentos e até dos ressentidos assobios de muitos espíritos liberais que barafustavam contra a «falta de concurso» na improvisada escola de Humanidades do Porto. À distância de meio século se vê hoje claramente quem tinha razão. Aqueles que sustentam que o nosso país é tão pobre de ascetas de especialização humanística ou filosófica que dificilmente se pode constituir uma escola superior («uma única», sublinham) de Humanidades e Filosofia, ignoram, ou fingem ignorar, que o exemplo mais interessante, entre nós, de uma experiência de ensino (para não dizer antes: de convívio) especulativo superior, é justamente essa estranha aposta de improvisação docente que Leonardo Coimbra, com singular desassombro, jogou, em 1919, numa fugitiva passagem pelas cadeiras do Governo ao catalisar essa atmosfera de estudo, tão discreta e levitante, no velho e pesado burgo do Porto. Aparentemente, a escola era frustre. A sua própria instalação suburbana, numa moradia de arquitectura simplória, parecia dar-lhe um certo ar de envergonhada. As carteiras eram mesquinhas, as salas exíguas, as cátedras quase ridículas. Por isso nas outras Faculdades se dizia com ar displicente: – «É a Faculdade das Tretas.» «É a capelinha de Leonardo.» Claro está, na discutida Escola, nem tudo era Espírito puro, nem puro amor do saber, nem simpatia sem sombras. Havia também o seu quinhão de boémia e de diabolismo, para não dizer de banalidade e de rudeza; mas, o lado pior nunca serve para definir. Cada coisa (como dizia o velho Estagirita) conhece-se profundamente pela sua «enteléquia» e não pelos seus defeitos. Na «aposta demiúrgica» de que resultou a «primeira» Faculdade de Letras do Porto, o que interessa ter presente é a sua «enteléquia» e não as suas mazelas.*
Na verdade, o que houve de mais relevante naquela estranha experiência do ensino foi o indefinido encanto da pedagogia discreta de certos professores, a par do indefinido prazer de os ouvir na inesquecível atmosfera da boa vizinhança de um maciço de arvoredo habituado ao silêncio e à intimidade.
Se não fora a passagem, de vez em quando, dos carros eléctricos na rua contígua, em regra sossegada, o apito estrídulo, em mi menor, dos comboiozinhos da Póvoa que chegavam ou partiam da Boavista, ali ao pé, teríamos ali vivido verídicas «horas intemporais».
Dir-se-ia que a experiência de Platão (ou a do filósofo do Jardim e da Amizade) se tornara a repetir por virtude de um certo verbo de bom timbre e de uma dada respiração vegetal de sabor mediterrânico.
A grande distância, no tempo e no espaço, das libérrimas escolas gregas, voltava-se a ensinar e a aprender filosofia, livremente, na propícia proximidade de algumas árvores.
A majestosa magnólia, de carnuda folhagem e belas flores brancas de marfim, era a rainha. Ao seu lado havia velhas japoneiras que, pela Páscoa, se cobriam de camélias rubras e brancas; tufos de mirto e loureiro; maciços de alecrim; caneleiras de flores rubicundas e essência adocicada; festões e glicínias; dois ou três velhos castanheiros ao fundo, no extremo da antiga cerca e, pelo meio, conduzindo a diversos recantos, pacatas veredas flanqueadas de buxo que, a cada passo, eram estremunhadas por vivas discussões metafísicas (pois, na juventude, toda a discussão tem sabor metafísico) e, uma vez ou outra, por discretos idílios que, com o tempo, se converteriam em meia dúzia de casamentos felizes e dois ou três dramas camilianos (como foi a morte enigmática e nocturna do mais brilhante aluno do primeiro curso da Faculdade (1) ou a morte wertheriana de outro nosso condiscípulo, em pleno dia e em plena via pública).

O amanhecer da Renascença Portuguesa e o seu crepúsculo
“(…)
O grupo promotor da chamada Renascença Portuguesa constitui um exemplo típico de uma geração de certo modo heterogénea mas, em dado momento, fortemente convergente na atitude de anseio de uma palavra que, taumaturgicamente, quebrasse a modorra do viver pátrio, erguendo de novo a alma da gente lusíada àquela atmosfera de gratuidade e de esperança quase messiânica que já noutras eras teria sido, por assim dizer, seu avatar.
Nesse indefinido ponto místico se fixava, nos melhores momentos de sintonização, a confraterna ansiedade desse agrupamento de homens novos tão diversos, mas fortemente ligados por um fremente propósito de acção catalítica.
Se se quiser entender, na sua mais íntima força espiritual tal movimento, ter-se-á de sentir vivamente que nessa plêiade de homens novos – poetas, tribunos, professores, artistas, militares, comerciantes – de tão diferentes índoles e idiossincrasias, latejava uma autêntica aspiração de apostolado.
E dizemos assim –, «de tão diferentes índoles e idiossincrasias» –, porque, na verdade, nesse agrupamento se cruzavam e associavam temperamentos de vigorosa inspiração idealista e eloquente (como Leonardo Coimbra e Jaime Cortesão) com alguns vultos de pacata compleição positiva ou fria formação científica (Teixeira Rego, Marques Teixeira, Augusto Martins), fazendo-se notar, de permeio, alguns outros de fortes impulsos combativos (Raul Proença e Manuel Laranjeira), poetas de singela inspiração lírica (Augusto Casimiro, Afonso Duarte, Mário Beirão), pedagogistas da puritana disciplina (António Sérgio), ao lado de discretos professores, ricos de bonomia, tranquilos e lhanos (Álvaro Sampaio, Coelho de Magalhães, Mário de Vasconcelos e Sá, Luís Cardim); individualidades nocturnas e tímidas (como Raul Brandão e António Carneiro), esquivando-se, em silêncio, entre os gestos e as palavras cortantes de um personagem de forte pendor pragmático (uma espécie de brasseur d’affairs), – o temido e imperativo Álvaro Pinto, o homem dos caixotins e das máquinas de imprimir, armadas, por artes do diabo, num escuso barracão, perante o pasmo dos poetas e filósofos que andavam na Lua e não percebiam como dali podiam sair – e saíam – os seus poemas em tão belas edições, de papel de linho…
*
Propositadamente deixámos de apontar entre esses homens novos e tão diferentes uns dos outros, mas solidários na solicitude com que procuravam atear e manter essa singularíssima «fogueira espiritual» que há setenta anos, em dado momento, surgiu, nãos e sabe como, no meio sonolento e húmido do Porto –, propositadamente deixámos de citar, íamos a dizer, a figura quase mirrada, somaticamente o vulto de menor figura, de voz cavernosa e perfil magríssimo, de olhos encovados e trejeitos semidemoníacos, frenético e febril, e que todavia, na sua aparente pequenez, seria um dos que mais contribuíam para erguer essa «fogueira» a alturas imprevisíveis.
O pintor António Carneiro, autor do ex-libris da Renascença Portuguesa, acima reproduzido, e o poeta Teixeira de Pascoaes
Queremos, enfim, referir-nos ao poeta Teixeira de Pascoaes. Como S. Paulo, esse outro punhado de ossos e de nervos, enfermiço e raquítico, alucinado e alucinante, o poeta das Sombras e da Vida Etérea não surge logo no primeiro momento do apostolado da Renascença. Tal momento parece ter pertencido a Jaime Cortesão, a Augusto Casimiro e a Leonardo Coimbra, três vultos imponentes e distintos, pela ênfase, pelo quixotismo, pelo fulgor eloquente. Tanto assim, que, segundo alguns «genealogistas da Literatura», a Renascença Portuguesa teria nascido de um passeio dos três pelos arredores de Coimbra. Terá sido assim? Não o cremos. Tal certidão de baptismo afigura-se-nos mais apócrifa que a certidão das Actas de Almacave. A aragem do Choupal de modo algum poderia dar uma «ideia-força» dessa natureza. De raiz, a ideia geradora do que poderemos talvez designar o «apostolado de A Águia», é uma flor dialecticamente nascida da atmosfera húmida e do chão rochoso do Porto. Um terreno, quanto mais duro e mais ingrato, mais propício é à aparição, aparentemente teratológica, de uma realidade prodigiosa. Quem diria que das tabernas e ruelas lôbregas do Tamisa nasceria o talento singularíssimo da Marlowe, ou o génio imperecível do Autor do Hamlet? E quem diria que a mais estranha e a mais majestosa rainha das flores – a raríssima Vitória Régia – só aparece, de longe a longe, nos mais inóspitos e abafados recantos da Amazónia? A obra enorme e prodigiosa de Camilo, por exemplo, – verdadeira réplica de uma Vitória Régia –, que é ela senão uma compensação e uma consequência, por assim dizer dialéctica, do meio, tão impregnado de vulgaridade, que o Romancista, com o seu terrível génio satírico, procurou redimir? Não tenhamos a menor dúvida: a «ideia-força» de que seria necessária uma verdadeira aposta de espiritualização para que a alma do povo português de novo reencontrasse o seu rumo esquecido só poderia surgir num meio como este: o meio portuense, tão rico de dialécticos contrários. Saber, com precisão, como foi, onde foi, como nasceu tal ideia-mística, não é fácil, nem tão-pouco importa perder tempo a indagar. As indagações fácticas, nestes assuntos, não servem para nada. O que importa é apreender ou vislumbrar o inefável sentido que moveria tantas pessoas diferentes a participar, embora por pouco tempo, de uma dada alucinação.” Sant’Anna Dionísio (excerto de “O amanhecer da Renascença Portuguesa e o seu crepúsculo”, capítulo XXXVI de Da Urbe e do Burgo, Lello, 1971, pp. 241 e ss.)
(clique sobre o nome dos autores para saber mais)
Alexandre Teixeira Mendes: Poética (e configurações) marrana(s)
António Carlos Carvalho: A noz
António Telmo: A identidade religiosa de Luís de Camões; Carta a Pedro Martins
Avelino de Sousa: Neve (sonho); Um galo a Asclépio; Livre interpretação do mito de Teseu e o Minotauro
Cynthia Guimarães Taveira: Coincidências
Elísio Gala: Repensar o problema da filosofia portuguesa
Isabel Xavier: Dois poemas
Luís Paixão: Os templos do pensamento português
Maria do Resgate Almadanim: Carta ao professor
Paulo Júlio Guerreiro dos Santos: Páginas de autobiografia espiritual
Pedro Martins: Uma heresia de Pascoaes
Pedro Paquim Ribeiro, sob o pseudónimo de Fuas Paquim: Para o preâmbulo de um estauto senatorial
Pedro Sinde: Harmonia abraâmica: o triplo anel ou a herança de Portugal
Rodrigo Sobral Cunha: Sê, para que tudo seja (o som abstracto)
O desenho da capa é da autoria de Carlos Aurélio.
O interior dos Cadernos tem ilustrações de Cynthia Guimarães Taveira e fotografia de Tiago Sobral Cunha.
Os Cadernos estão à venda nos seguintes locais:
CALDAS DA RAINHA
Livraria 107
LISBOA
Associação Agostinho da Silva; Galeria Matos Ferreira
MONTEMOR-O-NOVO
Livraria Fonte de Letras
PORTO
Clube Literário do Porto
SETÚBAL
Prima Folia; Livraria Culsete; Livraria Universo
O p.v.p. é de 10 euros.
Pedidos para: serradossa@aeiou.pt