(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



quinta-feira, 11 de junho de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 19

A Lâmina
Pedro Martins
Ao António Carlos Carvalho
e ao João Pedro Secca

Sampaio Bruno nasceu em 30 de Novembro de 1857. Fernando Pessoa morreu em 30 de Novembro de 1935. Setenta e oito anos – tantos quantas as lâminas do Tarot – envolvem as suas vidas terrenas. Setenta e oito anos exactos!
No lance desta evidência, temerário será afirmar, sem mais, o transcurso de um qualquer ciclo. Mas, no lento desfiar do livro do tempo, nada nos impede de sustentar a analogia que cinge os anos aos arcanos. Como não entrever, na roda-viva do calendário, a aspiração cósmica de dois espíritos tão elevados ao assombro universal de uma sabedoria definitiva?
Que o convívio entre ambos haja de ser reduzido à expressão epistolar – é circunstância que não infirma a ideia justíssima de Pedro Sinde: Pessoa, como Pascoaes, foi discípulo de Bruno. Como tantas vezes sucede com as coisas do espírito, poderosos laços ocultos uniram, no remoto, estes dois homens de génio.
Fernando Pessoa viu em Sampaio Bruno o único homem que, em Portugal, mostrava compreender. Não raro, e com acerto, se assinalou a influência que o filósofo de O Encoberto exerceu sobre o poeta da Mensagem. Em certa medida, a doutrina messiânica de Bruno explica cabalmente o sebastianismo de Pessoa.
Haverá, de resto, nestes dois livros, a fonte inesgotável de uma conversação infinda, lá onde as suas almas foram alçadas à luz que jorra do Oriente Eterno. É que – bom será não esquecer – aqui se trata também dos dois vultos que, entre nós, mais pareciam conhecer da Maçonaria, posto que ambos tivessem declarado não ser maçons, como na História Secreta de Portugal, com frisante estranheza, no-lo recorda António Telmo. N’O Encoberto, Bruno faz, às escâncaras, a apologia da Augusta Ordem, à qual tem por garante histórico da fraternidade universal; Pessoa, pela sua parte, ao cerrar a Mensagem com Nevoeiro, encerra-a com a discreta inscrição da divisa maçónica Valete, Fratres.

Menos notado parece ser o influxo ideológico que o poeta colheu d’O Brasil Mental. É na ampla Introdução desta obra decisiva que Sampaio Bruno faz a defesa da Pátria de Junqueiro, obra então recente, mas já verberada, em termos maldosos, pela crítica brasileira. Do celebrado poema satírico, nela escreveu o filósofo que ele era “único” no mundo, não existindo, em literatura alguma, paralelo que se lhe comparasse, quanto menos que se lhe avantajasse. Pessoa quase lhe segue as pisadas quando, anos mais tarde, ainda em vida de Bruno e de Junqueiro, sobreleva a Pátria a’Os Lusíadas, para, com o Fausto, de Goethe, e o Prometeu Liberto, de Shelley, a integrar na “trilogia de grandeza da poesia superlírica moderna”.
A par de Basílio Teles, foi Sampaio Bruno um dos dedicatários da Pátria, livro saído a lume em 1896, isto é: trinta e nove anos depois do nascimento do filósofo portuense; e trinta e nove anos antes da morte do poeta lisboeta. Quer dizer: exactamente a meio do nosso período de setenta e oito anos!
Dir-se-ia que, neste estranho caso, os acontecimentos tendem a revestir-se de um duplo nexo, lógico e cronológico, que os encadeia perante o nosso pasmo. Nessa Pátria que, em 1914, Fernando Pessoa irá considerar superior à epopeia camonina, viu Sampaio Bruno como que Os Lusíadas da decadência; mas, em 1924, ainda Pessoa afirmava aguardar a epopeia que Camões não pôde escrever, sinal de que, com a Pátria, nada ficara encerrado. É certo que, na série de artigos sobre a Nova Poesia Portuguesa, o poeta vislumbrara o prelúdio de uma “renascença extraordinária”, de um “ressurgimento assombroso”. Mas, ao movimento literário emergente, não deixara de apontar, como óbice subsistente, a relativa falta de imaginação dos seus mentores, pecha que só “o grande Poeta proximamente vindouro” – significativamente, Pessoa chama-lhe Super-Camões – haveria de suprimir.
Neste entendimento, como na pública exaltação da epopeia junqueirina, e bem assim na acentuação audaz (perante o Conde de Keyserling) de que foi Portugal a criar o mundo moderno, Fernando Pessoa segue, pari passu, a doutrinação que Sampaio Bruno enuncia na Introdução d’O Brasil Mental. A reflexão motivada pela obra de Junqueiro constitui, porventura, o elo mais forte entre os que prendem Pessoa a Bruno. Talvez por isso – quem o poderá asseverar? – a Pátria nos surja, a meio do caminho do tempo, qual Bojador dobrado, prenunciando já a passagem da Boa Esperança.
Em O Bateleur, António Telmo pôde ver na primeira lâmina do Tarot a figura que Fernando Pessoa pretendia realizar em si. A tal se opunham, porém, obstáculos interiores e obstáculos exteriores. Os primeiros advinham das imperfeições do poeta; os segundos, dos ódios de que era alvo. Já de si, o arquétipo continha o perigo do equívoco que, referido por Álvaro Ribeiro e Gilbert Durand, é próprio dos símbolos. No conto, o pintor, que representa Almada Negreiros, está ciente de que le bateleur tanto pode significar o mágico como o charlatão, e acaba por realizar o retrato do poeta como uma fotografia da qual só desse o negativo. Em última instância, age desta sorte para o favorecer, como quem o protegesse da inveja e do ódio daqueles que o gostariam de matar.
Propositadamente, Fernando Pessoa pôs a Mensagem à venda no dia 1 de Dezembro de 1934. Fê-lo – tudo o indica - com o intuito consciente de assinalar a data histórica da restauração da independência de Portugal, como tão bem observa António Carlos Carvalho no prefácio aposto à magnífica edição que Paulo Samuel dedicou recentemente ao poema. Estaria perto, ou longe, de saber que o fazia no primeiro dia do último ano da sua vida? No último dos setenta e oito anos em que a sua inteira existência se compôs com a de Sampaio Bruno, seu mestre… como quem lançasse uma derradeira carta sobre o tampo da mesa do tempo, para em si, enfim, realizar, como mágico (afinal, aquele que imagina), a figura da primeira lâmina do Tarot?

OS POETAS LUSÍADAS, 17



INICIAÇÃO

Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
…………………………………
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.

Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada;
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.

…………………………………

A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não stás morto entre ciprestes.
…………………………………
Neófito, não há morte.

Fernando Pessoa

PESSOA E OS OUTROS, 4

Mário de Sá-Carneiro
(1890-1916)

Atque in perpetuum, frater, ave atque vale!
Cat.

Morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os Deuses esses dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares. Quem ama ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo. Como porém o homem não pode ser igual dos Deuses, pois o Destino os separou, não corre homem nem se alteia deus pelo amor divino: estagna só deus fingido, doente da sua ficção.
Não morrem jovens todos a que os Deuses amam, senão entendendo-se por morte o acabamento do que constitui a vida. E como à vida, além da mesma vida, a constitui o instinto natural com que se a vive, os Deuses, aos que amam, matam jovens ou na vida, ou no instinto natural com que vivê-la. Uns morrem; aos outros, tirado o instinto com que vivam, pesa a vida como morte, vivem morte, morrem a vida em ela mesma. E é na juventude, quando neles desabrocha a flor fatal e única, que começam a sua morte vivida.

No herói, no santo e no génio os Deuses se lembram dos homens. O herói é um homem como todos, a quem coube por sorte o auxílio divino; não está nele a luz que lhe astreia a fronte, sol da glória ou luar da morte, e lhe separa o rosto dos de seus pares. O santo é um homem bom a que os Deuses, por misericórdia, cegaram, para que não sofresse; cego, pode crer no bem, em si, e em deuses melhores, pois não vê, na alma que cuida própria e nas coisas incertas que o cercam, a operação irremediável do capricho dos Deuses, o jugo superior do Destino. Os Deuses são amigos do herói, compadecem-se do santo; só ao génio, porém, é que verdadeiramente amam. Mas o amor dos Deuses, como por destino não é humano, revela-se em aquilo que humanamente se não revelara amor. Se só ao génio, amando-o, tornam seu igual, só ao génio dão, sem que queiram, a maldição fatal do abraço de fogo com que tal o afagam. Se a quem deram a beleza, só seu atributo, castigam com a consciência da mortalidade dela; se a quem deram a ciência, seu atributo também, punem com o conhecimento do que nela há de eterna limitação; que angústias não farão pesar sobre aqueles, génios do pensamento ou da arte, a quem, tornando-se criadores, deram a mesma sua essência? Assim ao génio caberá, além da dor da morte da beleza alheia, e da mágoa de conhecer a universal ignorância, o sofrimento próprio, de se sentir par dos Deuses sendo homem, par dos homens sendo deus, êxul ao mesmo tempo em duas terras.
Génio na arte, não teve Sá-Carneiro nem alegria nem felicidade nesta vida. Só a arte, que fez ou que sentiu, por instantes o turbou de consolação. São assim os que os Deuses fadaram seus. Nem o amor os quer, nem a esperança os busca, nem a glória os acolhe. Ou morrem jovens, ou a si mesmos sobrevivem, íncolas da incompreensão ou da indiferença. Este morreu jovem, porque os Deuses lhe tiveram muito amor.
Mas para Sá-Carneiro, génio não só da arte mas da inovação nela, juntou-se, à indiferença que circunda os génios, o escárnio que persegue os inovadores, profetas, como Cassandra, de verdades que todos têm por mentira. In qua scribebat, barbara terra fuit. Mas, se a terra fora outra, não variara o destino. Hoje, mais que em outro tempo, qualquer privilégio é um castigo. Hoje, mais que nunca, se sofre a própria grandeza. As plebes de todas as classes cobrem, como uma maré morta, as ruínas do que foi grande e os alicerces desertos do que poderia sê-lo. O circo, mais que em Roma que morria, é hoje a vida de todos; porém alargou seus muros até os confins da terra. A glória é dos gladiadores e dos mimos. Decide supremo qualquer soldado bárbaro, que a guarda impôs imperador. Nada nasce de grande que não nasça maldito, nem cresce de nobre que se não definhe, crescendo. Se assim é, assim seja! Os Deuses o quiseram assim.
Fernando Pessoa
(publicado em Athena 2, Novembro de 1924)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

NO CORAÇÃO DA ARTE, 7

Cynthia Guimarães Taveira




A Loucura de Deus
Místicos e pintores foram criados pelos mesmos anjos. Moldados de saudade, aquecidos pelo fogo criador e insuflados pela criação. Dizem que muitos deles, sem telas ou papéis, desenhavam e pintavam em qualquer coisa: em tampos de mesa, no chão, em toalhas de papel. Dizem que outros, mesmo tendo telas à mão, papeis ou outros suportes, acabavam por pintar as paredes que os rodeavam. Dizem que nesse acto total estavam já loucos. Os pintores enlouquecem porque se sentem perto de Deus, e ninguém aguenta estar muito tempo perto Dele. Acabam por sofrer de tonturas criativas, por vezes, insuperáveis: a tela ou o papel já não têm espaço para suster o impulso criativo. O momento em que enlouquecem é o momento em que percebem que o universo se molda à sua vontade. Que as paredes não têm de ser necessariamente brancas. Que tudo pode mudar conforme o seu gesto. Confusos, já não sabem onde acabam e onde começa Deus. A fina linha que separa a sanidade da loucura está sempre próxima deles. Loucos como místicos pois tocam as franjas do divino e deixam de saber viver como simples mortais. Dizem até que Salvador Dali, já velho, numa cadeira de rodas, disse aos jornalistas: “Eu sou imortal”.

OS POETAS LUSÍADAS, 16

No mundo, poucos anos e cansados
vivi, cheios de vil miséria dura;
foi-me tão cedo a luz do dia escura
que não vi cinco lustros acabados.

Corri terras e mares apartados,
buscando à vida algum remédio ou cura;
mas aquilo que, enfim, não quer Ventura,
não o alcançam trabalhos arriscados.

Criou-me Portugal na verde e cara
pátria minha Alenquer; mas ar corrupto,
que neste meu terreno vaso tinha,

me fez manjar de peixes em ti, bruto
mar, que bates na Abássia fera e avara,
tão longe da ditosa pátria minha!

Luís de Camões


Na imagem: A Morte de Camões,
desenho de Domingos António de Sequeira

PESSOA E OS OUTROS, 3

Luís de Camões

Camões é Os Lusíadas. O lírico, em quem os inferiores focam a admiração que os denota inferiores, era, como em outros épicos de sensibilidade também notável, apenas a excedência inorgânica do épico.

Não ocupa Os Lusíadas um lugar entre as primeiras epopeias do mundo; só a Ilíada, a Divina Comédia e o Paraíso Perdido ganharam essa elevação. Pertencendo, porém, à segunda ordem das epopeias, como a Jerusalém Libertada, o Orlando Furioso, a Faerie Queene – e, em certo modo, a Odisseia e a Eneida, que participam das duas ordens –, distingue-se Os Lusíadas não só destas epopeia, suas pares, senão também daquelas, suas superiores, em que é directamente uma epopeia histórica.

A vastidão impressiva da fábula, que uma epopeia requer, buscaram-na os antigos e os grandes modernos já na lenda ou na história indirecta, já no Além. Em aquelas se fundamentam, de diverso modo, a Ilíada, a Odisseia, a Eneida, a Jerusalém de Tasso; na lenda absoluta, ou fantasia pura, o poema de Spencer e o Orlando; no Além – o Além pagão do Cristismo – a epopeia de Dante e a de Milton.
A Camões bastou a história próxima para lenda e Além. O povo, que cantou, fizera da ficção certeza, da distância colónia, da imaginação vontade. Sob os próprios olhos do épico se desenrolou o inimaginável e o impossível se conseguiu. Sua epopeia não foi mais que uma reportagem transcendente, que o assunto obrigou a nascer épica. Este Apolónio podia ter falado com seus Argonautas, este Homero ter ouvido da boca dos companheiros de seus Ulisses os terrores da caverna do Ciclope e a notícia imediata do encantamento das sereias. Em certo modo viveu o que cantou, sendo, assim, o único épico que foi lírico ao sê-lo. Essa sua singularidade, que é uma virtude, é, como todas as virtudes, origem de vários defeitos.
Resta dizer, de Camões, que não chegou para o que foi. Grande como é, não passou do esboço de si próprio. Os sobre-homens da nossa glória constelada – o Infante e Albuquerque mais que todos – não cabem no que ele podia abarcar. A epopeia que Camões escreveu pede que aguardemos a epopeia que ele não pôde escrever. A maior coisa dele é o não ser grande bastante para os semideuses que celebrou.
Fernando Pessoa
(publicado no Diário de Lisboa de 4 de Fevereiro de 1924)
Na imagem:
Luís de Camões, desenhado por William Blake

terça-feira, 9 de junho de 2009

SERRA D’OSSA REEDITA «O PLUTOCRATA» DE ORLANDO VITORINO

Acontecimento. Na próxima rentrée, a Serra d’Ossa Edições vai reeditar o livro O Plutocrata, da autoria de Orlando Vitorino, que o assinou com o pseudónimo de Ernesto Palma. A obra, originalmente publicada em 1996 pelas Edições Ledo, e cuja actualidade se mantém intocada, será prefaciada por Elísio Gala, do círculo dos Cadernos de Filosofia Extravagante.

PESSOA E OS OUTROS, 2

Resposta ao inquérito
«O mais belo livro dos últimos trinta anos»

A grande desvantagem estética do seu inquérito é ser a resposta tão fácil que nem podemos ter o prazer de duvidar da nossa sinceridade. Uma obra destaca-se tão afastadamente das outras que nem vale a pena fingir que temos hesitação na escolha. Mais vale confessar sinceramente que achamos valor a um contemporâneo.

Posto isto, chamo a atenção das pessoas criticamente competentes (a sua existência entre nós é uma hipótese da minha delicadeza) para o facto evidente de que a Pátria de Junqueiro é, não só a maior obra dos últimos trinta anos, mas a obra capital do que há até agora de nossa literatura. Os Lusíadas ocupam honradamente o segundo lugar.
Não há infelizmente dúvidas. – A Pátria sobreleva Os Lusíadas, 1.º, na perfeita organicidade e construção, na unificação e integralização dos complexíssimos elementos componentes, 2.º no poder puramente visionador e imaginativo, 3.º, na elevação, intensidade e complexidade do sentimento patriótico e religioso. E se Os Lusíadas vencem na sóbria solenidade da sua linha estrutural, a Pátria compensa-o com a sua superioridade no que simples poesia e pura forma. Posso mesmo acrescentar que, a meu ver, a Pátria forma, com o Fausto de Goethe e o Prometeu Liberto de Shelley, a trilogia de grandeza da poesia superlírica moderna.
Fernando Pessoa
(publicado em República, de 7 de Abril de 1914)

OS POETAS LUSÍADAS, 15



ALÉM-DEUS

I
Abismo

Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando –
O que é ser-rio e correr?
O que está-lo eu a ver?

Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é oco –
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo – eu e o mundo em redor –
Fica mais que exterior.

Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, ideia, alma de nome
A mim, à terra e aos céus…

E súbito encontro Deus.

Fernando Pessoa

segunda-feira, 8 de junho de 2009

PENSANDO À BOLINA, 17

Pedro Sinde
Cada homem é chamado a contribuir com a
sua imaginação para a redenção universal.
Álvaro Ribeiro, A Razão Animada


A imaginação redimindo o mundo
Há quem fantasie que devia ter uma vida contemplativa, isolada do mundo, na solidão, a louvar Deus, à imagem dos monges da montanha sagrada do Athos. Em certa medida, todos guardamos em nós secretamente essa nostalgia; qualquer coisa no fundo de nós sabe que o essencial no homem é justamente a contemplação.

É verdade que há vocações especiais, vocações puramente contemplativas, mas essas são as daqueles que vão para os Athos deste mundo, não como uma fuga do mundo para encontrar Deus, mas, pelo contrário, como um caminho para encontrar o mundo em Deus. Estes, porém, são poucos, muito poucos; e esse caminho é de uma dificuldade imensa.

Nós, os deste mundo, temos também uma função a cumprir, uma função igualmente árdua, precisamente porque estamos no meio do furacão. Deus não pôs os homens neste mundo para eles aspirarem a sair dele; também não os pôs para passarem o tempo a louvá-lo ou a pedir perdão.

O mistério da criação é incomensurável e Deus é maior do que as religiões – quero dizer que também há Deus e caminho para os que estão “fora” do mundo tradicional; hoje, não há tradições e as religiões desmoronam-se à nossa volta, estamos sós e desprotegidos, mas, ainda assim, Deus continua a abraçar toda a sua criação maternalmente e nem o inferno escapa ao seu olhar misericordioso.

Ele criou cada um de nós em especial, como “filho único”, trouxe-nos à existência, “existenciou” (como diz Ibn ‘Arabî) cada um de nós como um ser único e é por isso que cada um tem um caminho, o seu, para Deus, que tem no seu seio “muitas moradas”; uma das interpretações possíveis da alegoria do filho pródigo, a que Cristo se refere, parece destinar-se precisamente a este final dos tempos, em que o nosso caminho já não se faz dentro dos muros protectores.

Este mundo vale a pena, porque temos uma missão a cumprir nele. Se todos fingíssemos que não nascemos ainda ou que este mundo é uma ilusão onde não vale a pena agir, então estaríamos a empobrecer o mundo. É certo que este mundo não se confunde com o Absoluto, mas por ser relativo, nem por isso deixa de manifestar os nomes de Deus. Temos o dever de manifestarmos o nome que nos coube, devemos aumentar de ser o mundo, como dizia Leonardo Coimbra. Esquecemo-nos, frequentemente que o mundo é real e que não vivemos entre sombras: olha para o teu vizinho e lembra-te que ele é uma alma única que veio, como tu, a este mundo; é preciso que, de cada vez que o saúdas pela manhã, o vejas como Alguém tão real como tu, não deixes que a Medusa no teu olhar o transforme numa sombra, quando passas por ele e maquinalmente o cumprimentas.

Não sentes em ti o dom que o Criador te deu? Não sentes em ti o desejo de o realizar? Por que escondes debaixo da mesa a lâmpada de brilho único que podes ser? Não tenhas medo, porque és eterno e trazes em ti a semente criadora! Sabe receber com a direita e dar com a esquerda, como os dervishes de Rumi e que esse rodopiar seja a expressão da tua imaginação a contribuir para a redenção universal, como diz a epígrafe citada de Álvaro Ribeiro. Trazes no fundo de ti essa palavra, verbo seminal ou logos spermatikos, que deves semear: o teu verbo é a semente e a imaginação é a terra onde ela crescerá. A tua obrigação é criar, dar o que recebeste, ainda aqui como os dervishes de Rumi: o que recebem com a direita ao alto é para darem com a esquerda para baixo – não guardam para si o que recebem, não podem parar o movimento universal, a dança do mundo, eles são ponte ou pontifex: construtores de pontes entre o céu e a terra. O céu, inesgotável, quer dar e a terra, sedenta, quer receber. A sua união é perfeita: poderosa hierogamia. Tu és um sacerdote que se ignora como tal; chega o tempo de te conheceres: “conhecer-se a si próprio, diz Álvaro Ribeiro, é, efectivamente, conhecer-se como espírito.” E conhecer-se como espírito é saber-se eterno, criador e teóforo.
Com os olhos bem abertos para a profundidade misteriosa do mundo em que estás mergulhado, poderás ver aqui já, e não num adiado mundo futuro, o “outro mundo”, porque na realidade só há um mundo: esse que, estando aqui, não é, no entanto, apenas este.

OS POETAS LUSÍADAS, 14



PASSOS DA CRUZ

VI

Venho de longe e trago no perfil,
Em forma nevoenta e afastada,
O perfil de outro ser que desagrada
Ao meu actual recorte humano e vil.

Outrora fui talvez, não Boabdil,
Mas o seu mero último olhar, da estrada
Dado ao deixado vulto de Granada,
Recorte frio sob o unido anil…

Hoje sou a saudade imperial
Do que já na distância de mim vi…
Eu próprio sou aquilo que perdi…

E nesta estrada para Desigual
Florem em esguia glória marginal
Os girassóis do império que morri…

Fernando Pessoa

PESSOA E OS OUTROS, 1

Para a memória de António Nobre

Quando a hora do ultimatum abriu em Portugal, para não mais se fecharem, as portas do templo de Jano, o deus bifronte revelou-se na literatura nas duas maneiras correspondentes à dupla direcção do seu olhar. Junqueiro – o de Pátria e Finis Patriae – foi a face que olha para o Futuro, e se exalta. António Nobre foi a face que olha para o Passado, e se entristece.

De António Nobre partem todas as palavras com sentido lusitano que de então para cá têm sido pronunciadas. Têm subido a um sentido mais alto e divino do que ele balbuciou. Mas ele foi o primeiro a pôr em europeu este sentimento português das almas e das coisas, que tem pena que umas não sejam corpos, para lhe poder fazer festas, e de que as outras não sejam gente, para poder falar com elas. O ingénuo panteísmo da Raça, que tem carinhos de espontânea frase para com as árvores e as pedras, desabrochou nele melancolicamente. Ele veio no outono e pelo crepúsculo. Pobre de quem o compreende e ama!

O sublime nele é humilde, o orgulho ingénuo, e há um sabor a infância triste no mais adulto horror dos seus tédios e das suas desesperanças. Não o encontramos senão entre o desfolhar das rosas e nos jardins desertos. Os seus braços esqueceram a alegria do gesto, e o seu sorriso é o rumor de uma festa longínqua, em que nada de nós toma parte, salvo a imaginação.

Dos seus versos não se tira, felizmente, ensinamento nenhum. Roça rente a muros nocturnos a desgraça das suas emoções. Esconde-se de alheios olhos o próprio esplendor do seu desespero. Às vezes, entre o princípio e o fim de um seu verso, intercala-se um cansaço, um encolher de ombros, uma angústia ao mundo. O exército dos seus sentimentos perdeu as bandeiras numa batalha que nunca ousou travar.

As suas ternuras amuadas por si próprio; as suas pequenas corridas, de criança mal ousada, até aos portões da quinta, para retroceder, esperando que ninguém houvesse visto; as suas meditações no limiar;… e as águas correntes no nosso ouvido; a longa convalescença febril ainda por todo os sentidos; e as tardes, os tanques da quinta, os caminhos onde o vento já não ergue a poeira, o regresso de romarias, as férias que se desmancham, tábua a tábua, e o guardar nas gavetas secretas das cartas que nunca se mandaram… A que sonhos de que Musa exilada pertenceu aquela vida de Poeta?...

Quando ele nasceu, nascemos todos nós. A tristeza que cada um de nós traz consigo, mesmo no sentido da sua alegria, é ele ainda, e a vida dele, nunca perfeitamente real nem com certeza vivida, é, afinal, a súmula da vida que vivemos – órfãos de pai e de mãe, perdidos de Deus no meio da floresta, e chorando, chorando inutilmente, sem outra consolação do que essa, infantil, de sabermos que é inutilmente que choramos.

Fernando Pessoa

(publicado em A Galera, 5-6, de 25 de Fevereiro de 1915)

domingo, 7 de junho de 2009

PESSOA E OS OUTROS: ESCRITOS EM TORNO DA POESIA PORTUGUESA


Evocação. A partir de amanhã, segunda-feira, e até ao próximo sábado, dia 13, em que se comemora o 121.º aniversário do nascimento de Fernando Pessoa, os Cadernos de Filosofia Extravagante evocam o grande poeta, através da publicação de uma série de escritos da sua autoria, dedicados à poesia e aos poetas portugueses, de Camões a Mário de Sá-Carneiro, além de incursões no território extravagante da quadra popular e no domínio misterioso da Mensagem. Paralelamente, a poesia de Pessoa fará a sua aparição na rubrica Os Poetas Lusíadas.

OS POETAS LUSÍADAS, 13



O DOS CASTELLOS

A Europa jaz, posta nos cotovellos:
De Oriente a Occidente jaz, fitando.
E toldam-lhe romanticos cabellos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovello esquerdo é recuado:
O direito é em angulo disposto.
Aquelle diz Italia onde é pousado:
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se appoia o rosto.

Fita, com olhar sphyngico e fatal.
O Occidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 5 de junho de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 11

António Carlos Carvalho

Ouvi queixas de que não se tem falado praticamente nada sobre a Europa. Percebe-se facilmente porquê, o assunto não é nada fácil, está envolvido em muitas contradições, falhanços, utopias... e mortes – muitos, mesmo muitos milhões de mortos.
Para os Gregos, ainda hoje, a Europa é uma coisa grega (tal como os Jogos Olímpicos ou a democracia, por exemplo).
Para os que sabem alguma coisa de Grego, de Latim e de História da Antiguidade, a Europa é uma criação de Gregos e de Romanos.
Para os que estudam a História do Cristianismo, a Europa tem uma indesmentível marca cristã (e citam os mosteiros como locais de criação de cultura, por exemplo, ou a importância da Reforma e da Contra-Reforma).
Para os historiadores laicos, a Europa cimentou-se com as ideias da liberdade, igualdade e fraternidade e da separação entre a Igreja e o Estado.
Para outros, a Europa é a criadora da ideia de nação e de destino colectivo; para outros, ainda, foi a Europa que gerou todos os malefícios que depois exportou para outros continentes (colonialismo, escravatura, etc.)
E assim por diante.


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Fora dessas polémicas (e cada uma das referidas acima é altamente controversa), todos percebemos que a Europa é muito diversa em tudo. As diversidades saltam, aliás, à vista. A Europa do Mediterrâneo (onde dizem que ela nasceu realmente) é bem diferente, em tudo, da Europa do Norte; os Eslavos ortodoxos jamais se entenderão com os católicos romanos (ainda que todos se intitulem cristãos); os ingleses sempre olharam para o continente com suspeita ou desejo de domínio; a França ainda não desistiu do predomínio cultural que outrora teve; Portugal e as Espanhas sempre foram um mundo à parte no mapa europeu. Etc., etc. A lista de diferenças e diferendos é interminável.
Mas também foi neste espaço que nasceu a ideia, o conceito de Império. E ainda hoje há quem pense seriamente que a única possibilidade real de união europeia só pode ser realizada através de um Império – basta citar as últimas tentativas, as de Napoleão e de Hitler: é verdade que acabaram muito mal mas arrastaram consigo, voluntariamente, as esperanças de milhões de europeus, que acreditaram sinceramente nelas, e por elas tragicamente lutaram e morreram... Numa outra dimensão, a que o romance, a música e o cinema deram forma, tivemos o Império Austro-Húngaro, que ainda hoje deixa nostálgica muito boa gente (a este respeito não resisto a citar os livros de Claudio Magris, nomeadamente o extraordinário «Danúbio», ed. Dom Quixote, «Le Mythe et l’Empire dans la littérature autrichienne moderne»). Mas a realidade é que tudo isso acabou em 1914-1918 – e por essa razão Stefan Zweig escreveu um livro pungente intitulado «O Mundo de Ontem» e Joseph Roth escreveu um romance exemplar intitulado «A Marcha de Radetzky».
De que Europa então falamos quando dizemos «a Europa»?
E qual é a união europeia que se faz baseada apenas na moeda – o único valor que pode unir gentes, povos, nações, culturas, histórias tão diferentes, por ser realmente o único que eles aceitam como válido e comum...?
Na I e na II Guerras Mundiais, nesses conflitos a que alguns chamaram «guerra civil europeia», o factor decisivo veio da América (que Guénon designava como Extremo Ocidente), que também já tinha tido a sua própria guerra civil. De então para cá, a Europa, à toa, tem vindo a americanizar-se cada vez mais. Hoje, estamos suspensos de qualquer espirro ou adopção de um cão do sr. Obama, e não de qualquer gesto significativo de um «líder» europeu. Por isso há quem fale de «Império americano», o único que restaria e que não estaria previsto na chamada «profecia» de Daniel. E que não é certamente o Quinto Império de António Vieira ou de Menasseh ben Israel.
União europeia? Talvez esteja simbolizada, afinal e apenas, nos soldados desconhecidos dos nossos cemitérios e panteões. Aí sim, eles, europeus, ficaram unidos na morte e no anonimato.
Entretanto, toquem aí uma valsa dos Strauss, por favor... Sempre é preferível do que o pobre Beethoven, que também morreu desiludido.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

PENSANDO À BOLINA, 5

Pedro Sinde


Experiências com animais
Imaginemos os dois, o leitor e eu, que em vez de serem os homens a fazer experiências com animais, eram os animais a fazer experiências com os homens. Imaginemos que uma espécie de animais resolvera caçar homens, reproduzi-los (reproduzir-nos!) para realizar experiências "científicas". Tudo isto, é claro, porque a sua espécie estava ameaçada por uma estranha doença e necessitavam de encontrar a cura. Não podemos dizer que seria por razões humanitárias, mas por razões animalitárias.

desenho de Albrecht Dürer

O que faria o homem quando reparasse que os seus estavam a desaparecer enigmaticamente e descobrisse que os animais os tinham enjaulado, que lhes davam injecções com líquidos que lhes causavam uma dor atroz, que lhes implantavam orelhas nas costas e braços na cabeça?

O animal é visto como uma "coisa" ao serviço do homem. E o que é curioso é que aqueles que fazem estas experiências atrozes com os animais são exactamente os mesmos que defendem que os homens são apenas animais entre animais, par inter pares. Se o homem é apenas um igual entre iguais com o animal, então que direito o assiste nesse infligir de sofrimento inimaginável, invisível, mas bem existente? Os horrores de um laboratório científico... uma câmara de tortura!

Não há dúvida de que falta à nossa ciência uma orientação metafísica. Acalento a esperança secreta de que, no fundo, no fundo, eles não sabem o que fazem; possa assim alguém perdoar-lhes.

texto originalmente publicado no blogue Maranos

DIVULGAÇÃO

LISBOA - WALKSHOP LITERÁRIO
10 de Junho de 2009 - 15 horas
Conduzido por DUARTE BRAGA
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Com partida da GALERIA MATOS FERREIRA, sita no nº. 18 da Rua Luz Soriano, a ASSOCIAÇÃO AGOSTINHO DA SILVA leva a efeito na quarta-feira, dia 10 de Junho (feriado), um Walkshop Literário.

A unidade temática deste percurso é feita com base em figuras da Literatura Portuguesa e não só…, na sua maioria dos séculos XIX e XX da nossa vida literária, artística, filosófica e até política: Gomes Freire, Eça, Pessoa, Almada, Amália, Álvaro Ribeiro... Com este passeio a pé por Lisboa pretendemos contar as suas histórias e dos fenómenos a elas estreitamente ligados, e que são algumas das faces da enorme densidade do passado desta Cidade.
O encontro será às 15h00 horas no Bairro Alto, mais precisamente na Galeria Matos Ferreira. Depois de um desvio até à Rua do Alecrim, o grupo seguirá depois até ao Príncipe Real. A partir daí desceremos aos Restauradores, subindo depois ao Campo Mártires da Pátria, finalizando o percurso na Rua Gomes Freire.
As inscrições são limitadas. O seu custo é de EUR 15,00 (quinze euros). Os interessados podem-se inscrever através do Tel 21 323 00 11, do Tlm 96 295 37 22, do Email: mfgaleria@netcabo.pt ou simplesmente comparecer 15 minutos antes do início.
Haverá pausa para uma ginginha no Largo de S. Domingos.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

PALAVRAS QUE FAZEM VER, 12

[Álvaro Ribeiro, o criacionismo e o evolucionismo]

“A doutrina tradicional de que o homem foi criado por Deus à sua imagem e semelhança enuncia um mistério que nenhuma narrativa planificada no tempo, histórico e pré-histórico, jamais poderá explicar. Diz-nos a tradição que Deus criou não só a alma, mas também o corpo, do primeiro homem, o que nos leva a crer que o composto humano foi outrora dotado de uma perfeição e de uma santidade que não observamos nos nossos contemporâneos. Não nos obriga a doutrina tradicional a admitir a prioridade da matéria sobre a vida, nem a imaginar que o corpo do primeiro homem haja sido o aperfeiçoamento do corpo de outro animal, nem a transigir com qualquer variante da doutrina transformista.
A crença de que o homem nem sempre teve a presente configuração anatómica – crença indiscutível por métodos positivistas – garante, justifica e explica a doutrina evolucionista. O evolucionismo ministra assim o desmentido formal àqueles artistas plásticos que, por falta de imaginação e por excesso de ignorância, maliciosamente inscrevem a figura humana num círculo perfeito, para a fixarem nas condições estéticas da nudez apolínea. O homem primitivo dos artistas plásticos, reproduzido em esculturas, pinturas e gravuras, depois do Renascimento, além de não condizer com a tradição registada nas Escrituras Sagradas, obsta a que a crença passe para a ciência o iluminante conceito de evolução.
A arte cristã, esplendorosa na Idade Média, dá-nos ainda hoje uma admirável lição de antropologia filosófica. A figuração dos anjos, dos santos e dos monges, sempre vestidos de roupagens cujas linhas e cores entoam um simbolismo transcendente, aponta para a doutrina esotérica da primeira verdade. Ao cobrirem a nudez do corpo animado, os artistas cristãos não obedecem ao falso pudor do superficial moralismo; não há lutas de estética na oposição entre paganismo e cristianismo, entre a religião da dor e a religião do amor; inspirados, iluminados, doutrinados, os artistas subordinam uma realidade efémera a outra idealidade eterna.
A doutrina tradicional ensina que Adão foi criado directamente por Deus e formado por um elemento subtil que o texto bíblico designa por uma palavra susceptível de várias traduções. A criação do homem é, pois, um mistério, quer dizer, algo de essencialmente evasivo a qualquer modo da nossa representação intelectual. Descrever a criação do homem em termos de comparação grosseira com os fenómenos naturais, digamos, com fenómenos físicos e até mecânicos, equivale a demonstrar ignorância da transcendência e a pretender afirmar impiedade.
A queda, sim, é susceptível de representação figurativa e de intelecção mecânica. Ela significa o conceito de perversão, ou de razão pervertida, sem a mediação do qual não podemos opor-nos ao pessimismo que resulta da observação das desordens naturais. Ainda que a infracção seja expressa em termos de pecado, quer dizer, em termos literários de moralidade, para entendimento das pessoas que não vão além das fábulas simplistas, certo é que só a partir desse acontecimento sobrenatural nos é lícito falar de história.

(…)

Criatura de Deus, o homem é uma razão, mas uma razão animada. Os antropólogos não esquecem esta verdade quando procuram positivamente reconstituir a história natural do corpo humano. O que aos antropólogos repugna é a absurda confusão do evolucionismo com o transformismo, hipótese segundo a qual uma forma, ou alma, passa para outro corpo, ou para outro tipo de corpo, numa série cinzenta de metamorfoses de que o último e derradeiro termo seria a carne humana.
Vestígios de uma realeza perdida, ou de uma realidade perdida, podem ainda ser vistos nas diferenças que existem entre o homem e os outros animais. Cremos errado interpretá-los como sinais científicos de progresso ascendente na escala zoológica, quer dizer, de aperfeiçoamento realizado sobre o equivocamente chamado homem primitivo. Vemos, pelo contrário, nessas diferenças os símbolos auxiliares da imaginação transcendente, possibilidade infinita de religiosamente inteligirmos a figura e a forma de Adão.
Muitas semelhanças que existem entre o corpo dos outros animais e o corpo humano não constituem provas de filiação ou continuidade genealógica. As diferenças demonstram, porém, que o corpo do homem está adaptado a condições superiores às da vida actual. Esta descontinuidade, que é um segredo da Natureza, não permite que a génese do corpo humano seja integrada na genealogia transformista, porque exige logicamente uma hipótese suplementar, uma hipótese superior.
«O homem é um mamífero vertical», afirma Vialleton. Observemos a atitude erecta, a verticalidade da coluna vertebral, e a correspondente disposição do aparelho digestivo. Observemos também que o homem pode apoiar-se exclusivamente sobre os pés, tanto quando marcha como quando está parado, o que lhe permite conceder aos braços uma admirável liberdade de movimentos.
A mão do homem, se bem que semelhante à dos macacos, é dotada da propriedade de sobrepor o polegar aos outros dedos e, portanto, de exercer mais delicadas funções de digitação. O homem colhe os frutos das árvores para se alimentar, e a tradição nos diz ter sido esse o seu primeiro processo de alimentação, pelo símbolo e silogismo da árvore. Ao satisfazer o primeiro instinto biológico – o da nutrição –, o homem conserva ainda a digna postura que lhe permite olhar de frente, para cima e para longe.
A boca humana é de reduzidas dimensões, em consequência de os maxilares se caracterizarem de os maxilares se caracterizarem pela verticalidade, e a falta de prognatismo contribui favoravelmente para a beleza do rosto. O alimento entra na boca já partido pelas mãos, ou talhado por utensílios apropriados. A cabeça do homem não baixa à terra para procurar alimentos, espera pelos efeitos da agricultura, e da terra se distancia por intermédio dos braços.
No engenho de que o homem usa para que os alimentos inferiores subam à altura da boca, há simbolismo tão elevado como na sua marcha para o horizonte. O homem evita, tanto quanto possível, o trabalho que demasiadamente incline o tronco para a terra, o trabalho que o obrigue a um esforço muscular análogo ao dos mamíferos domesticados. O homem prefere um mister que lhe permita estar de costas direitas, trabalhar de pé ou sentado, mas com liberdade de movimento dos braços e das mãos.”
Álvaro Ribeiro
(excertos retirados de A Razão Animada, INCM, 2009)

OS POETAS LUSÍADAS, 12


LEGENDA


Não me peças esmola, que sou pobre,
E avaro do meu pouco,
Se mo pedem!
Não me tragas esmola, que sou rico,
Se penso na miséria
Que poderias dar-me!
Dar-te-ei, sem que mo peças.
Dá-me, sem que eu o saiba.
Expulsei os mendigos do meu Reino!
Cá, só amor gratuito.

José Régio

terça-feira, 2 de junho de 2009

DIVULGAÇÃO

Lançamento. O livro História dos Judeus Portugueses, da autoria de Carsten L. Wilke, será apresentado no próximo dia 4 de Junho, quinta-feira, pelas 18:30, na Livraria Almedina do Atrium Saldanha, em Lisboa. A sessão contará com a presença do autor e a obra será apresentada por Roberto Bachmann, Presidente da Associação Portuguesa de Estudos Judaicos. Mais informações no blogue da Ladina.

NO CORAÇÃO DA ARTE, 6

Cynthia Guimarães Taveira




A Beleza
Para os leitores talvez haja, por vezes, o desejo inconsciente de, ao entrarem numa livraria, encontrarem O Livro. O Único, Aquele Especial. O que tem o Todo. O que condensa as forças, as palavras, as orações, o alto, o baixo e o mais ou menos. O Livro de todas as coisas, de todos os seres e histórias terrestres e divinas. A verdade, em suma. Um leitor assim sabe que nunca o encontrará. Sabe que, por vezes, sonha com ele, mas, mesmo em sonhos, nunca o chega a conhecer verdadeiramente. Talvez uma página ou duas. Ou apenas a capa ou a contracapa. Sempre demasiado à superfície. Para o pintor existem belas musas envolvendo cada quadro: olhos verdes, azuis e negros, peles leitosas, pálidas e morenas, sedas pesadas leves e veludos sentidos com um simples olhar. Todas elas são belas mas, por detrás delas, está a ideia residindo no Ideal. A Ideia de Belo na arte muda pelos tempos e pelas gentes, mas, para um pintor, ela é a constante, inalcançável, preexistente, platónica e esquiva. Esquiva-se porque se dilui na multiplicidade do mundo como os temperos se diluem nos manjares. Etéreos e inesquecíveis e provocando o desejo de novos sabores sem que nenhum seja O Sabor. Um pintor não tem a Ideia de arte, tem a Ideia de Belo, um pintor não se senta num qualquer lugar na linha temporal da História da Arte e aí permanece alheio ao Belo. Isso seria a sua negação.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

UM APELO DA «NOVA ÁGUIA»

Angola. A propósito do lançamento aprazado para o próximo dia 12 de Junho, na União dos Escritores Angolanos, em Luanda, a Nova Águia difunde o apelo público que pode ser lido aqui.

COMO DIRIA O DENIS…

Porto. Inusitado para a época e para o lugar, é o que se pode dizer do intenso calor que se fez sentir na Cidade Invicta no passado sábado, dia 30. Já perto da meia-noite, persistiam 29 graus em plena Ribeira! Universalidades, primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante, acabara de ser apresentado no auditório do Clube Literário do Porto, a quem reiteramos a nossa gratidão.
Verdadeiramente, a jornada começara à tarde, com uma visita a essa grande senhora do pensamento pátrio que é Dalila Pereira da Costa. Na sua casa da Boavista, a escritora acolheu a comitiva extravagante com a afabilidade que lhe é proverbial e deu-nos conta de um sério problema, sem solução aparente, que a traz muito preocupada: o destino do riquíssimo espólio literário e bibliográfico de Sant’Anna Dionísio, presentemente abandonado na casa que foi do filósofo. Por uma daquelas coincidências que, afinal, o não são (e de que Cynthia Guimarães Taveira nos fala em Universalidades), na véspera, Sant’Anna acabara de ser evocado nesta página, através da publicação de algumas laudas clássicas que consagrou à memória do Porto, terra onde nasceu e morreu. Quererão o Porto e a sua edilidade retribuir-lhe em espécie?
À noite, no Clube Literário, esperava-nos uma sala bem composta. Pedro Sinde deu a conhecer o projecto da publicação, explicitando o modo como os Cadernos se inscrevem na tradição portuguesa, num percurso em que os marcos miliários citados foram a revista A Águia, o jornal 57 e os Teoremas de Filosofia. Desenvolvendo a tese da harmonia abraâmica (pela confluência das três religiões monoteístas que formam o pensamento português) e salientando a maneira peculiar dos portugueses olharem para o mundo e para os outros, Pedro Sinde elegeu ainda os aspectos mais relevantes das diversas colaborações que integram Universalidades, e, para deleite dos presentes, concluiu a sua intervenção contando uma lenda islâmica: depois de moldar Adão com o barro, Deus, com um pedaço que lhe sobrara, criou ainda uma palmeira, e, porque lhe continuasse a sobrar um pouco de argila, criou também a imaginação. Como quem conta um conto sempre acrescenta um ponto, Pedro Sinde continuou, inovando: depois de tudo o que Deus criou, sobrou ainda um novo pedaço de argila, com o qual nos foi possível colocar uma palmeira na capa dos Cadernos e dar largas à imaginação para engendrar todo o seu conteúdo. E, coisa espantosa, depois disso, ainda sobejou um pouco de barro, que, presume-se, estará nas mãos de cada leitor…
Por outra notável coincidência, também António Telmo havia destinado uma lenda ao auditório. No caso, tratou-se de uma narrativa de origem persa e inspiração gnóstica, que o autor do Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões começou por colocar em paralelo com o relato bíblico do filho pródigo, pelo filósofo associado à palavra extravagante, no sentido de estroina ou perdulário. O Canto da Pérola, assim se intitula a lenda, fala-nos de uma criança, filha de reis, enviada ao Egipto com a missão de para resgatar uma pérola, guardada no fundo do mar por uma serpente temível. Depois de desenvolver a narrativa, e de elucidar o seu fascinante simbolismo (em que a pérola adquire evidente significação espiritual), António Telmo mostrou como cada um dos autores de Universalidades procurou também, com a sua colaboração, recuperar a pérola que perseguia. E, à semelhança do que, no dia 21 de Março, sucedera em Sesimbra, brindou o público com a leitura de um dos dois poemas de Isabel Xavier dados a lume nas páginas dos Cadernos.
No domingo, o círculo extravagante derivou para Matosinhos, onde foi acolhido pelo Pedro Sinde e pela Lídia, para um magnífico almoço de convívio. Assim se demonstrava à saciedade o que o anfitrião afirmara na véspera, ao apresentar os Cadernos: estes são feitos por um grupo de amigos. Que, sem o saber, será talvez um bando de anjos, como diria o Denis…

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 10

António Carlos Carvalho

A Europa está imobilizada na minha rua, a dois quarteirões de distância. É um casarão feio e triste, abandonado, excepto pelos pombos que fazem dele poleiro para descansar e dali iniciarem novas incursões pelo bairro.

Falo do cinema Europa, que já foi casa de espectáculos diversos, palco de concursos televisivos e de programas de variedades, mas que depois fechou e aguarda um destino incerto. Ninguém lhe pega, embora todos reconheçam que a situação é vergonhosa. Um edifício sem destino, sem projecto, sem futuro.

Aqui, em Campo de Ourique, bairro de Lisboa onde convergem e convivem várias gerações, malha de ruas bem desenhadas, à escala humana, ruas sempre cheias de gente, mesmo aos fins de semana e feriados; local onde Gomes Freire de Andrade (um ilustre militar português assassinado vergonhosamente pelos «velhos aliados» ingleses) teve o seu regimento; bairro de onde Machado Santos (outro mártir das intrigas políticas no país dos tais «brandos costumes» que o assassinaram na noite da «Leva da Morte», de 19 para 20 de Outubro de 1921) saiu com um grupo de revoltosos para o episódio da Rotunda, em 5 de Outubro de 1910; bairro onde funcionou a Universidade Popular e em cujo jardim se ergue uma orgulhosa estátua da Maria da Fonte – neste bairro único de Lisboa, o Europa é uma mancha, um sinal da incapacidade para se voltar a dar vida a um espaço.

Cinema Europa: clique na fotografia para a aumentar

Na fachada, onde o nome Europa está inscrito em letras gregas, a Europa não se encontra sentada no dorso do touro Zeus: é uma jovem nua que parece passear com o seu touro numa via láctea de estrelas de pedra.

Quem sabe, talvez um dia destes, nós, os habitantes de Campo de Ourique, erguendo os olhos para a fachada, vamos descobrir que a Europa foi mesmo raptada pelo touro e levada para Oriente, tal como se contava no mito antigo.

E nesse dia talvez alguém se lembre que a Europa foi mesmo levada para Oriente por antigos portugueses que, consciente ou inconscientemente, se identificavam com aquele velho mapa da Europa em que esta aparecia representada como uma princesa ou rainha, de pé, tendo Portugal como cabeça. Creio que foi nesse mapa que Pessoa se inspirou para escrever aquela abertura de «Mensagem»: «A Europa (...) fita, com olhar esfíngico e fatal, / O Ocidente, futuro do passado. // O rosto com que fita é Portugal.»

O touro, esse, inspirou, nas civilizações do Mediterrâneo, a forma da letra A (Alfa ou Alef). Os alfabetos ficaram para sempre marcados por esse animal mítico, terrível, misterioso.

Mas, até que esse dia chegue, para mim, a Europa é apenas um casarão abandonado, habitado por pombos que outrora foram mensageiros.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

DA URBE E DO BURGO, 5

A Quinta Amarela

"Uma frondosa magnólia, ao lado de algumas salas de aula, quase se metia pelas janelas dentro. Era uma silenciosa ouvinte das lições de lógica, de filosofia grega, de história das religiões, de psicologia experimental que o hierático Newton de Macedo, ou o erudito Teixeira Rego, ou o eloquente Leonardo Coimbra (três homens mortos na pujança do talento, ao dobrar dos cinquenta) nos ofereciam, alternadamente, a certas horas. Tal era a estranha e tão discutida Quinta Amarela, sossegada moradia suburbana, rodeada de muros e arvoredo, ocupada, até 1910, por uma dúzia de freiras de não sei que Ordem e que uma década depois, mercê de um acto de certa audácia de um político-filósofo, se converteria em provisória sede da tão promissora Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Ali se conversava e estudava num ambiente por assim dizer de família, isento de doutorismo. Os professores eram todos novos e improvisados. Alguns, como o pesado e inolvidável autor da Nova Teoria do Sacrifício – autêntico sósia espiritual e somático de Sampaio Bruno –, eram genuinamente autodidactas que o «catalizador» da Faculdade havia ido buscar aos seus obscuros cacifos de trabalho, sem quaisquer respeitos humanos, persuadido como estava, e com profundo acerto, que um bom professor «nem sempre» precisa de passar pelas forcas caudinas da Sala dos Actos Privados ou da Sala dos Capelos.

fotografia colhida em Do Tempo e da Luz

Outros eram humildes professores do liceu de província. Tal era o caso de Hernâni Cidade, então simples professor do ensino secundário em Leiria.
Outros ainda – como Damião Peres, Ângelo Ribeiro, Newton de Macedo –, levara-os Leonardo consigo da rumorosa sala dos professores do liceu de Gil Vicente, apesar dos protestos dos guardiões das chaves da Sala dos Doutoramentos e até dos ressentidos assobios de muitos espíritos liberais que barafustavam contra a «falta de concurso» na improvisada escola de Humanidades do Porto.
À distância de meio século se vê hoje claramente quem tinha razão.
Aqueles que sustentam que o nosso país é tão pobre de ascetas de especialização humanística ou filosófica que dificilmente se pode constituir uma escola superior («uma única», sublinham) de Humanidades e Filosofia, ignoram, ou fingem ignorar, que o exemplo mais interessante, entre nós, de uma experiência de ensino (para não dizer antes: de convívio) especulativo superior, é justamente essa estranha aposta de improvisação docente que Leonardo Coimbra, com singular desassombro, jogou, em 1919, numa fugitiva passagem pelas cadeiras do Governo ao catalisar essa atmosfera de estudo, tão discreta e levitante, no velho e pesado burgo do Porto.
Aparentemente, a escola era frustre. A sua própria instalação suburbana, numa moradia de arquitectura simplória, parecia dar-lhe um certo ar de envergonhada. As carteiras eram mesquinhas, as salas exíguas, as cátedras quase ridículas. Por isso nas outras Faculdades se dizia com ar displicente: – «É a Faculdade das Tretas.» «É a capelinha de Leonardo.»
Claro está, na discutida Escola, nem tudo era Espírito puro, nem puro amor do saber, nem simpatia sem sombras. Havia também o seu quinhão de boémia e de diabolismo, para não dizer de banalidade e de rudeza; mas, o lado pior nunca serve para definir. Cada coisa (como dizia o velho Estagirita) conhece-se profundamente pela sua «enteléquia» e não pelos seus defeitos.
Na «aposta demiúrgica» de que resultou a «primeira» Faculdade de Letras do Porto, o que interessa ter presente é a sua «enteléquia» e não as suas mazelas.

*

Na verdade, o que houve de mais relevante naquela estranha experiência do ensino foi o indefinido encanto da pedagogia discreta de certos professores, a par do indefinido prazer de os ouvir na inesquecível atmosfera da boa vizinhança de um maciço de arvoredo habituado ao silêncio e à intimidade.

Se não fora a passagem, de vez em quando, dos carros eléctricos na rua contígua, em regra sossegada, o apito estrídulo, em mi menor, dos comboiozinhos da Póvoa que chegavam ou partiam da Boavista, ali ao pé, teríamos ali vivido verídicas «horas intemporais».

Dir-se-ia que a experiência de Platão (ou a do filósofo do Jardim e da Amizade) se tornara a repetir por virtude de um certo verbo de bom timbre e de uma dada respiração vegetal de sabor mediterrânico.

A grande distância, no tempo e no espaço, das libérrimas escolas gregas, voltava-se a ensinar e a aprender filosofia, livremente, na propícia proximidade de algumas árvores.

A majestosa magnólia, de carnuda folhagem e belas flores brancas de marfim, era a rainha. Ao seu lado havia velhas japoneiras que, pela Páscoa, se cobriam de camélias rubras e brancas; tufos de mirto e loureiro; maciços de alecrim; caneleiras de flores rubicundas e essência adocicada; festões e glicínias; dois ou três velhos castanheiros ao fundo, no extremo da antiga cerca e, pelo meio, conduzindo a diversos recantos, pacatas veredas flanqueadas de buxo que, a cada passo, eram estremunhadas por vivas discussões metafísicas (pois, na juventude, toda a discussão tem sabor metafísico) e, uma vez ou outra, por discretos idílios que, com o tempo, se converteriam em meia dúzia de casamentos felizes e dois ou três dramas camilianos (como foi a morte enigmática e nocturna do mais brilhante aluno do primeiro curso da Faculdade (1) ou a morte wertheriana de outro nosso condiscípulo, em pleno dia e em plena via pública).

*
Nesse tempo, para nós, o céu era profundo e o destino improvável. Ao longe, rente à copa do arvoredo, avistava-se uma fímbria azulada do mar. Alguns dos mestres, o Newton, sobretudo, não descolavam os olhos desse fundo. Durante as lições, a sua voz anasalada e monocórdica, correndo como um fio de azeite, fazia perpassar no nosso espírito lembranças indefinidas dos «físicos da Jónia», do «orfismo», dos «mistérios de Elêusis», mantendo-se inalterável, de perfil, com o olhar preso na longínqua orla atlântica da Boa Nova. Ao fim de alguns minutos, a aula decorria em transe, tal era a força estranha daquele impressivo afastamento do prelector, sempre de perfil, com os olhos fitos nos fragmentos de céu e mar que a ramagem da magnólia recortava.
Em presença de Leonardo, a experiência era outra. Suas aulas eram inteiramente diferentes. Eram lições de intensidade, portadoras de extraordinária força catalisante. O mestre não queria saber de quem o percebia ou seguia. Tão-pouco lhe interessava o «programa», o «regulamento» ou a mesquinhez da sala. Sua palavra erguia-se como se estivesse no cimo de uma montanha, face a face com a imensidade do céu e a do tempo. Ao lado, a magnólia ouvia em silêncio. Dentro de cada um, a ansiedade de compreensão e levitação ardiam também. As escaladas por vezes eram violentas. Tanto melhor. Embora não compreendendo tudo, sentíamos que o verdadeiro modo de ensinar cada um a encontrar o seu ritmo – era aquele mesmo."

Sant’Anna Dionísio

(texto integral de “A Quinta Amarela”, capítulo XXXIX de Da Urbe e do Burgo, Lello, 1971, pp. 259 e ss.)
____________
(1) Referimo-nos a Alberto Brás, cujo suicídio, ocorrido em circunstâncias jamais esclarecidas, ao fundo de um quintal da Rua do Almada, a horas mortas, consistiu profundo choque para toda a Faculdade, ainda incipiente, e na qual ele se revelara como personalidade de indefinidas virtualidades. Leonardo Coimbra, que o considerava e tratava como tal, tão impressionado se mostrou com a sua dramática morte que, na companhia de alguns íntimos, muito poucos, tentou, em dramático esforço metapsíquico, fazê-lo falar, estando já lívido e frio.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

A IDEIA DE PÁTRIA NO «57», 5

Pedro Martins




Pátria, razão e movimento
Relembremos a definição proposta pelo Manifesto. Nele se diz que uma pátria é “uma razão viva a mover-se para um fim, e não um aglomerado de interesses egoístas.”
Ao consignar, em Agosto de 1957, que a Pátria é uma razão, no mesmo lance em que nela divisa um espírito, uma alma e um corpo, o autor do Manifesto (presumivelmente António Quadros) sugere-nos uma aproximação terminológica à obra-prima de Álvaro Ribeiro, A Razão Animada, livro que viera a lume alguns meses antes. Deste modo, o 57 coloca a ideia de Pátria em franca analogia com o conceito de homem (já se viu que assim é), e, nessa medida, apresenta-a como um corpo com alma espiritual, para aqui se empregar a justa expressão de Pinharanda Gomes.
Enquanto razão, a Pátria é uma entidade espiritual. Razão é também razão de ser, ratio essendi – aquilo que dá o ser a um país; que o define, individualiza e identifica; e que, desse modo, confere sentido à acção do seu povo, tão certo ser a Pátria, na definição proposta, uma razão viva, uma razão que se move.
A Pátria move-se, no tempo, pela nação, que, sendo alma, é princípio de movimento. Manifesta-se a Pátria através daqueles que, nascendo (e morrendo), vão sendo a nação. Por isso, para o Manifesto, a Pátria é também “a longa fila de homens que vem do fundo dos séculos e vai para o fim dos séculos, onde já não haverá então pátrias porque os homens terão subido mais um degrau.” Eis a Pátria: os antepassados, os egrégios avós, os pais.
Sem pretender ser exaustivo, o Manifesto identifica quatro formas de manifestação da Pátria, que constituem uma gradação ascendente de manifesta inspiração alvarina. São elas a língua, a tradição, a escala de valores e a filosofia.
No seu livro sobre A Filosofia Política de Álvaro Ribeiro, Elísio Gala enuncia uma outra classificação dos “modos de expressão, existência e perduração” da Pátria. São eles:
– a língua – onde se manifestam os modos de conceber e pensar;
– a arte – onde se manifestam os modos de imaginar e sentir;
– e a história – onde se manifestam os modos de agir e viver.
E é por eles, diz o autor, que se acerta a relação da cultura com o culto. É que a ideia de Pátria está relacionada com a ideia de Deus. A Pátria é uma entidade intermediária e mediadora. Como tudo mais, depende de Deus; mas está acima dos homens, que, enquanto nação, lhe ficam vinculados pelas formas espirituais assinaladas. Dessa adstrição retiram, de resto, o sentido comum da sua acção. Assim se compreende que, n’O Brasil Mental, Sampaio Bruno afirme ser a Pátria “um princípio de solidariedade colectiva”.
Razão viva, a Pátria move-se, na história, para um fim: a redenção da humanidade. Não foi outro o corolário extraído da síntese com que o 57 rematou o enunciado do teorema relativo à Filosofia da História. Mais do que um telos, o movimento redentor persegue um escathon, um fim sagrado: redimir o homem, ente decaído, é realizá-lo na sua humanidade, cumpri-lo na sua enteléquia, religá-lo ao seu princípio, pela plena libertação espiritual, ao cabo da evolução cíclica. Assim se compreende que, n’O Brasil Mental, Sampaio Bruno afirme ser a Pátria “uma religião”.
Mediadora do humano e do divino, a Pátria é via. Por ela terá de passar quem quiser chegar a Deus. Não é outra a doutrina de um Pascoaes, n’A Arte de Ser Português. Mas já n’O Encoberto nos ensinara Sampaio Bruno que, na perpétua senda da luz, todas as pátrias são chamadas a dar o seu contributo redentor. Concertadas em harmónica colaboração, cada qual preserva, porém, a sua específica singularidade espiritual. Assim se compreende o propósito brunino da Unidade na Liberdade.
No derradeiro capítulo d’O Brasil Mental, o mesmo Sampaio Bruno, evocando a noite do malogrado golpe de 31 de Janeiro de 1891, diz-nos, em dado momento, que “o anjo-da-guarda da pátria, soluçando, escondeu o rosto, na dor, desesperada e alucinante, da derrota”. Quem puder pensar que se trata aqui de mera imagem literária, melhor fará em ponderar as sequentes laudas angelógicas d’A Ideia de Deus.
A cada povo é proposto um ideal diferente de realização da humanidade, escreveu Álvaro Ribeiro. Podendo ser inscrita no ideário brunino, a afirmação do filósofo portuense lembra, de modo irresistível, os conhecidos versos de Fernando Pessoa: As nações todas são mistérios / Cada uma é todo o mundo a sós, que encabeçam o poema “D. Tareja”, da Mensagem. Ciente de que anjo, pela etimologia, significa mensageiro, o leitor atento poderá, por certo, deduzir o que aqui ficou por dizer.

DA URBE E DO BURGO, 4

O amanhecer da Renascença Portuguesa e o seu crepúsculo

“(…)
O grupo promotor da chamada Renascença Portuguesa constitui um exemplo típico de uma geração de certo modo heterogénea mas, em dado momento, fortemente convergente na atitude de anseio de uma palavra que, taumaturgicamente, quebrasse a modorra do viver pátrio, erguendo de novo a alma da gente lusíada àquela atmosfera de gratuidade e de esperança quase messiânica que já noutras eras teria sido, por assim dizer, seu avatar.

Nesse indefinido ponto místico se fixava, nos melhores momentos de sintonização, a confraterna ansiedade desse agrupamento de homens novos tão diversos, mas fortemente ligados por um fremente propósito de acção catalítica.

Se se quiser entender, na sua mais íntima força espiritual tal movimento, ter-se-á de sentir vivamente que nessa plêiade de homens novos – poetas, tribunos, professores, artistas, militares, comerciantes – de tão diferentes índoles e idiossincrasias, latejava uma autêntica aspiração de apostolado.

E dizemos assim –, «de tão diferentes índoles e idiossincrasias» –, porque, na verdade, nesse agrupamento se cruzavam e associavam temperamentos de vigorosa inspiração idealista e eloquente (como Leonardo Coimbra e Jaime Cortesão) com alguns vultos de pacata compleição positiva ou fria formação científica (Teixeira Rego, Marques Teixeira, Augusto Martins), fazendo-se notar, de permeio, alguns outros de fortes impulsos combativos (Raul Proença e Manuel Laranjeira), poetas de singela inspiração lírica (Augusto Casimiro, Afonso Duarte, Mário Beirão), pedagogistas da puritana disciplina (António Sérgio), ao lado de discretos professores, ricos de bonomia, tranquilos e lhanos (Álvaro Sampaio, Coelho de Magalhães, Mário de Vasconcelos e Sá, Luís Cardim); individualidades nocturnas e tímidas (como Raul Brandão e António Carneiro), esquivando-se, em silêncio, entre os gestos e as palavras cortantes de um personagem de forte pendor pragmático (uma espécie de brasseur d’affairs), – o temido e imperativo Álvaro Pinto, o homem dos caixotins e das máquinas de imprimir, armadas, por artes do diabo, num escuso barracão, perante o pasmo dos poetas e filósofos que andavam na Lua e não percebiam como dali podiam sair – e saíam – os seus poemas em tão belas edições, de papel de linho…

*

Propositadamente deixámos de apontar entre esses homens novos e tão diferentes uns dos outros, mas solidários na solicitude com que procuravam atear e manter essa singularíssima «fogueira espiritual» que há setenta anos, em dado momento, surgiu, nãos e sabe como, no meio sonolento e húmido do Porto –, propositadamente deixámos de citar, íamos a dizer, a figura quase mirrada, somaticamente o vulto de menor figura, de voz cavernosa e perfil magríssimo, de olhos encovados e trejeitos semidemoníacos, frenético e febril, e que todavia, na sua aparente pequenez, seria um dos que mais contribuíam para erguer essa «fogueira» a alturas imprevisíveis.

O pintor António Carneiro, autor do ex-libris da Renascença Portuguesa, acima reproduzido, e o poeta Teixeira de Pascoaes

Queremos, enfim, referir-nos ao poeta Teixeira de Pascoaes.
Como S. Paulo, esse outro punhado de ossos e de nervos, enfermiço e raquítico, alucinado e alucinante, o poeta das Sombras e da Vida Etérea não surge logo no primeiro momento do apostolado da Renascença. Tal momento parece ter pertencido a Jaime Cortesão, a Augusto Casimiro e a Leonardo Coimbra, três vultos imponentes e distintos, pela ênfase, pelo quixotismo, pelo fulgor eloquente. Tanto assim, que, segundo alguns «genealogistas da Literatura», a Renascença Portuguesa teria nascido de um passeio dos três pelos arredores de Coimbra. Terá sido assim? Não o cremos. Tal certidão de baptismo afigura-se-nos mais apócrifa que a certidão das Actas de Almacave.
A aragem do Choupal de modo algum poderia dar uma «ideia-força» dessa natureza.
De raiz, a ideia geradora do que poderemos talvez designar o «apostolado de A Águia», é uma flor dialecticamente nascida da atmosfera húmida e do chão rochoso do Porto.
Um terreno, quanto mais duro e mais ingrato, mais propício é à aparição, aparentemente teratológica, de uma realidade prodigiosa.
Quem diria que das tabernas e ruelas lôbregas do Tamisa nasceria o talento singularíssimo da Marlowe, ou o génio imperecível do Autor do Hamlet? E quem diria que a mais estranha e a mais majestosa rainha das flores – a raríssima Vitória Régia – só aparece, de longe a longe, nos mais inóspitos e abafados recantos da Amazónia?
A obra enorme e prodigiosa de Camilo, por exemplo, – verdadeira réplica de uma Vitória Régia –, que é ela senão uma compensação e uma consequência, por assim dizer dialéctica, do meio, tão impregnado de vulgaridade, que o Romancista, com o seu terrível génio satírico, procurou redimir?
Não tenhamos a menor dúvida: a «ideia-força» de que seria necessária uma verdadeira aposta de espiritualização para que a alma do povo português de novo reencontrasse o seu rumo esquecido só poderia surgir num meio como este: o meio portuense, tão rico de dialécticos contrários.
Saber, com precisão, como foi, onde foi, como nasceu tal ideia-mística, não é fácil, nem tão-pouco importa perder tempo a indagar. As indagações fácticas, nestes assuntos, não servem para nada. O que importa é apreender ou vislumbrar o inefável sentido que moveria tantas pessoas diferentes a participar, embora por pouco tempo, de uma dada alucinação.”
Sant’Anna Dionísio
(excerto de “O amanhecer da Renascença Portuguesa e o seu crepúsculo”, capítulo XXXVI de Da Urbe e do Burgo, Lello, 1971, pp. 241 e ss.)

quarta-feira, 27 de maio de 2009

A IDEIA DE PÁTRIA NO «57», 4

Pedro Martins


O espelho eloquente
“Ubi libertas, ibi patria; onde a liberdade, aí a pátria”. A frase, inscrita por Sampaio Bruno numa das últimas páginas d’O Brasil Mental, presta-se a constituir penhor inequívoco do liberalismo que perpassa a sã doutrinação nacionalista e republicana da Escola Portuense. E, no entanto, quase meio século de odiosa ditadura terá contribuído sobremaneira para que muitos se recusem hoje a querer ouvir falar da ideia de Pátria e do conceito de nação.
Claro está que nem tudo deve ser atribuído a Salazar e ao seu estreito nacionalismo positivista. Avisadamente, a tese do teorema sobre a Pátria refere-se aos “chamados internacionalistas, democráticos e parlamentaristas”, cuja base eleitoral reside na noção de colectividade. O exegeta do teorema não está impedido de tomar duplamente tal substantivo basilar, considerando-o quer na sua acepção abstracta, quer na concreta.
Colectividade exprime a qualidade do colectivo e, nessa medida, opõe-se à individualidade, que é o todo do indivíduo, o conjunto das suas qualidades individuais. Colectividade, para o 57, é noção susceptível de designar o socialismo, tomado este com tal alcance que lhe permita abarcar o comunismo, a social-democracia e a democracia cristã. Não por acaso, Álvaro Ribeiro considerava a existência de um socialismo cristão a par do socialismo ateu.
A prevalência da noção de colectividade é a situação que hoje se verifica, visto que somos mandados por internacionalistas, democráticos e parlamentaristas. A despeito dos matizes, move-os a mesma hostilidade ao nacionalismo cultural e místico que culmina na ideia de Pátria.
Semelhante hostilidade é terrivelmente desagregadora. Ela tende a separar a nação da Pátria: combatendo a memória, desvirtuando o ensino, pervertendo a educação – suprimindo, em suma, os vínculos espirituais. E a degradar o território enquanto referência conformadora da nação (os que nascem num determinado território): enfraquecendo-lhe os contornos, pela diluição das suas fronteiras no perímetro da União Europeia; fragmentando-o pela criação de regiões político-administrativas, aliás pequenos estados cujas veleidades autonómicas passam até pelo estabelecimento de vínculos transfronteiriços com entidades congéneres; e desfigurando-lhe a paisagem pelo cosmopolitismo dos materiais e da traça arquitectónica. No transe de um tal esquartejamento, procede-se com frio rigor laboratorial à implosão do Estado-nação.
Num quadro de explosão migratória, e sob contínua pressão crematística, o futuro há-de mostrar até que ponto a aquisição da nacionalidade se irá reger razoavelmente pelos princípios clássicos do jus sanguinis e do jus soli, sendo certo que iniciativas recentes – a pretexto daquelas boas intenções que enchem o inferno – apontam, aqui e ali, em sentido diverso...
A quanto foi sendo dito oferece a realidade da indústria desportiva um espelho sumamente eloquente. Será bom não esquecer que os clubes de futebol, cujas equipas profissionalizadas podem hoje alinhar só com jogadores estrangeiros e – ou – naturalizados (as selecções, ditas nacionais, seguem timidamente pelo mesmo caminho), eram até há pouco apelidados de colectividades, aqui se tomando o substantivo na sua acepção concreta.

Segundo o 57, como se viu, será precisamente na noção de colectividade que os políticos internacionalistas, democráticos e parlamentaristas, como os que, presentemente, mandam em nós, se hão-de apoiar eleitoralmente. Possa a coincidência suscitar a meditação…

Entretanto, muitos daqueles clubes tornaram-se sociedades anónimas, que, como é sabido, constituem aglomerados de interesses egoístas, realidade que o Manifesto coloca nos antípodas da ideia de Pátria…

Inscrevendo-se na tendência, hoje progressiva e dominante, para a supressão das diferenças, a contínua desconsideração da realidade nacional equivale a uma perda de alma (visto ser a nação a alma que medeia o corpo da mátria e o espírito da Pátria). Consequentemente, tal desprezo uniformizador, gerado pelo ódio às formas, há-de implicar uma supressão do princípio do movimento, visto ser a anima aquilo que faz mover. E assim se demonstra como, no nosso teorema, o corolário da tese resulta rigoroso: sem a presença de uma alma, já não se pode actuar (o acto é movimento). Apenas agitar. E o que é que se agita? Poeira. Os ossos de um cadáver. O caso é de demência.
(continua)