terça-feira, 21 de agosto de 2012
FAZ HOJE DOIS ANOS...
Faz hoje dois anos que António Telmo partiu para junto da sua esfera celeste deixando nesta terra, para alguns, o seu rasto de cometa luminoso e, assim, continua presente nas memórias, nos escritos, nos corações e ainda, por uma espécie de milagre cósmico, em pequenos sinais, intuições, sonhos que acontecem, aqui e ali, como que indicando caminhos, pensamentos, obras, acções. Deixou-nos e não nos deixou jamais: eis o paradoxo de um ser humano excepcional. António Telmo, sempre...
segunda-feira, 23 de julho de 2012
EXTRAVAGÂNCIAS II, 6
A Dama
(dedicado aos homens que escutam...)
Cynthia Guimarães Taveira
O Amor da Dama é:
Incondicional
Atravessa os círculos dos mundos
Atravessa-os só para vir ter connosco
Nada mais lhe interessa
A não ser possuir-nos
Totalmente
Ela lê-nos, sabe-nos, conhece-nos até à raiz
Embala-nos, submete-nos, mata-nos
Dá-nos vida
Fragmenta-nos e enche esses fragmentos da sua
Própria substância
Une o seu coração ao nosso
Bate ao mesmo ritmo
É o mesmo coração por instantes
A Dama é:
Quem nos acolhe, nos escolhe, nos vigia
Nos cerca em becos sem saída
Nos fala pelas pessoas, atravessando-as
Ela é quem nos condena a um estranho exílio
Do mundo, das coisas, das pessoas,
Exílio de nós mesmos
Ela é quem nos tirou Tudo
E nos deu Tudo
O seu Amor é
Transbordante
Totalizante
Próximo
Forte
Sereno
Nunca nos deixa sós
E deixa-nos para sempre solitários
A Virgem deixa-nos
Num deserto em expectativa
Suspensos
Indefinidos
Prováveis constantemente
E aparece-nos em pequenos gestos
O Amor que deixa
Espalha-se através de nós
Nos outros seres.
Ela é o verdadeiro pó de projecção
Pó cósmico pairando a cada respirar
Ela gera Irmãos quando faz os seus filhos morrer
Ela é a Vida
A culpa e a redenção
O sorriso final
Que nunca morre
A nossa eternidade possível
A reunião de todos os sonhos
Tomados num cálice
A semente do início
Potência das potências
Ela a grande surpresa
Na noite
Na Verdadeira Noite
Ela forma o Dia no seu ventre
Ela dá-nos o sonho de um dia ver o Dia.
domingo, 15 de julho de 2012
SABEDORIA ANTIGA, 21
Ecce Homo?
Alexandra Pinto Rebelo
Neste texto colocarei algumas hipóteses de reflexão em relação ao Ecce Homo do Museu Nacional de arte antiga. É um quadro enigmático, de origens não menos misteriosas. Sabe-se apenas que é “proveniente dos conventos extintos”, de acordo com a sua ficha no MNAA.
O título que o acompanha, Ecce Homo, insere-o numa pintura de tema histórico bastante difundido. Pilatos, exibe Cristo à multidão, devidamente adornado com símbolos da realeza como sejam o manto púrpura e a coroa, tornada de espinhos. É um dos episódios de maior tensão nos Evangelhos canónicos. Pela primeira vez na, até aí, sua curtíssima história, a doutrina cristã está a ser exposta em meios hostis, sendo ridicularizada simbolicamente, fustigada pela dor física do próprio Cristo. Perante os nossos olhos, está a criar-se o arquétipo cristão da injustiça humana, expressa pela ferocidade extrema, podendo conduzir à morte dos que a defendem. Arquétipo, sem sombra de dúvida, Universal.
A postura do Ecce Homo do MNAA, parece afastada do centro de toda esta tensão. Cristo está só, como que em apresentação autónoma. O fundo completamente negro do quadro, remete-nos para uma espécie de interpretação latina dos fundos dourados dos ícones bizantinos. Queriam estes remeter o espectador para um tempo sagrado, fora do tempo comum. Este Cristo, também ele, parece projectar-se para um tempo, longe daquele proposto como histórico, afirmando-se mais como uma impressão do sagrado, do que propriamente como uma representação mais ou menos realista formada a partir da noção de janela ilusória proposta pelo Renascimento. Parte do seu rosto está oculto pelo manto, não revelando o fundamental olhar.
Se atentarmos na presença física de Cristo, reparamos na sua postura perfeitamente erecta, nas mãos cruzadas pela altura dos pulsos, estando o braço direito sobre o esquerdo, no inchaço na maçã do rosto, tornando-o irregular, na ocultação dos polegares, resultando isso na representação de quatro dedos apenas em cada mão. Adicionando o manto branco, que cobre quase todo o corpo, poderemos ter uma boa hipótese em relação à origem de tal imagem. Essa boa hipótese é o sudário, chamado, de Turim, onde a contestada figura de Cristo aparece com os mesmos atributos. O pano de linho esbranquiçado, exibe a imagem de um Cristo morto, de corpo perfeitamente vertical, mãos cruzadas pela altura dos pulsos, braço direito sobre o esquerdo, inchaço na maçã do rosto, tornando-o irregular, ocultação dos polegares. Dizem os patologistas estudiosos do sudário ser esta ocultação própria da crucificação, uma vez que, com o rompimento do nervo médio da mão, dá-se um voltear destes dedos para dentro, dando a ideia de que não estão presentes.
Terá sido esta imagem impressa no sudário, o modelo de algumas representações de Cristo, desde o Manuscrito Húngaro de Preces (1192) à imagem de Cristo ressuscitado no seu túmulo, no Très Riches Heures de Jean de France, em parte encomendado a Jean de Colombe por Carlos I de Sabóia, representante da casa nobre detentora do sudário até ao final do Século XX, altura em que a doou ao Vaticano. Segundo julgo, foi esta mesma imagem que serviu de modelo para a construção do Ecce Homo do Museu Nacional de Arte Antiga.
Poderemos, então, não estar perante um Cristo morto, mas um Cristo Vivo, ressurgido. Um outro pequeno enigma dentro do quadro, remete-nos para esta solução. Dezassete espinhos, atravessam o pano, ficando visíveis. Este número é referido no Evangelho de João, quando Cristo, depois da sua morte, aparece aos discípulos junto ao Lago de Tiberíades, na sua terceira aparição pós Ressurreição. Estes não tinham pescado nada na véspera. Ao aparecer-lhes, mais uma vez sem que o reconhecessem, Cristo pergunta-lhes se há alguma coisa para comer. A reposta é negativa ao que lhes é sugerido que lancem a rede para a direita. Lançam-na, ficando esta cheia de peixes. João reconhece, então, Cristo. O resultado da pescaria é contado: “cento e cinquenta e três” grandes peixes. 17 e 153, ocultam-se mutuamente. Manuel J. Gandra relembra-nos as contas precisas em Da Face Oculta do Rosto da Europa. Se somarmos todas as unidades entre 1 e 17, chegamos à soma de 153. Este número, então, é identificável com a terceira aparição de Cristo, numa das suas associações possíveis. Manifestação que termina a sua primeira passagem pelo tempo histórico, número transformado em medida perfeita de tempo divino. Perfeita deve ser, igualmente, entendida a sua actuação no espaço. Este Cristo exibe uma corda, unindo cabeça e mãos. Poderá querer referir-se à união entre o pensamento e a acção, ou entre a profecia e os factos acontecidos.
Aqui chegados, poderemos então perguntarmo-nos pelas marcas dos cravos nas mãos. Se nos é apresentado um Cristo ressurgido, assistindo nós a um dos maiores Mistérios do cristianismo, momento solene, perfeito, ocultado em parte por não nos ser permitido ver tudo, porque não a inclusão das suas feridas? Penso que, mais uma vez, a leitura dos Evangelhos Canónicos pode dar essa resposta. A imagem de Cristo não é facilmente reconhecida por todos aqueles que com ele conviveram. Tirando um ou outro episódio em que as feridas são mostradas como prova, sendo a de Tomé exemplar, não é essa a forma usual de o reconhecer. A forma é, quase sempre, qualquer coisa como uma intuição súbita. Talvez seja essa intuição aquela que, em primeiro e último lugar, nos é requerida ao observar esta imagem.
sexta-feira, 22 de junho de 2012
DIA 30 DE JUNHO....ACONTECE
Na Biblioteca Municipal de Sesimbra
Local: Núcleo Museológico da Capela do Espírito Santo dos Mareantes de Sesimbra
10.00
Protagonistas:
Jaime Cortesão e a Arrábida
Oradores:
António Braz de Oliveira – Jaime Cortesão e o “risco” da Renascença Portuguesa
Nuno Sottomayor Ferrão – A Renascença Portuguesa e o percurso político e historiográfico de Jaime Cortesão
Pedro Martins – Jaime Cortesão, A Renascença Portuguesa e o ensino da história pátria.
António Braz de Oliveira – Jaime Cortesão e o “risco” da Renascença Portuguesa
Nuno Sottomayor Ferrão – A Renascença Portuguesa e o percurso político e historiográfico de Jaime Cortesão
Pedro Martins – Jaime Cortesão, A Renascença Portuguesa e o ensino da história pátria.
intervalo para
almoço
15:00
Oradores:
Renato Epifânio – Jaime Cortesão e Agostinho da Silva
António Cândido Franco – A poesia de Jaime Cortesão
Renato Epifânio – Jaime Cortesão e Agostinho da Silva
António Cândido Franco – A poesia de Jaime Cortesão
intervalo
Elísio
Gala – O franciscanismo de Jaime Cortesão
Roque Braz de Oliveira – Jaime Cortesão e a Arrábida
Roque Braz de Oliveira – Jaime Cortesão e a Arrábida
intervalo
18:00
Local: Núcleo Museológico da Capela do Espírito Santo dos Mareantes de Sesimbra
Conferência A
Arquitectura do Convento da Arrábida, por Luís PaixãoRecital de
música e poesia, por Maurícia Teles da Silva
sexta-feira, 25 de maio de 2012
TEMPOS DE HOJE, 5
Caleidoscópio
Cynthia Guimarães Taveira
Quando o destino nos conduz para diversas mortes e, quando delas renascemos, a consequência é que o mundo passa a ser caleidoscópico. Caleidoscópico no sentido em que deixa de ter apenas uma dimensão. Quando nascemos apenas como corpo ele tem apenas uma dimensão: a cara da mãe surge-nos no berço a sorrir e ela é apenas uma cara que reconhecemos e que sorri. Não tem profundidades complexas nem níveis de entendimento. Os anos passam e a vida vai desdobrando-se em múltiplos sentidos. O caleidoscópio está sempre a girar e os desenhos são seres vivos que geram outros em sucessão, a partir de um centro. Para os que deixaram que a semente da Poesia se desenvolvesse dentro de si, facilmente a reconhecem tal qual o espírito que sopra sobre águas. Ela atravessa a cidade num passeio, ou o campo, ou as estrelas. O mundo é composto de Poesia. Para os místicos, para além dessa poesia, ele é composto pelas presenças que, mais do que pressentidas, se sentem. Para o Artista, para além dessa Poesia e dessas presenças, o mundo é composto de mudança, como disse o nosso Camões. O que ele vê é que presenças ancestrais, carregadas de poesia, o cercam e o amam, o possuem, a ele se unem para que a obra se faça. Quando Deus quer e o homem sonha, como escreveu o nosso Pessoa, o que existe é uma união entre o artista e o divino, núpcias apenas possíveis apenas pela Poesia ou pelo sonho. É num plano onírico de vigília que o mundo se apresenta como um caleidoscópio criativo. É possível cristalizar alguns momentos em arte. Subtilizar a matéria e materializar o subtil. Aquilo que o artista faz é apenas uma ínfima parte daquilo que ainda tem de ser feito. Como se potencialmente todos os momentos de um caleidoscópio girando eternamente fossem possíveis de agarrar, de se tornarem Ser, como se o mundo fosse um grande campo de borboletas mas só algumas fossem apanhadas, e assim cristalizadas pudessem, enfim, ser observadas na sua variedade e multiplicidade de cores e formas.
No filme A Festa de Babette de Gabriel Axel, a artista, uma cozinheira que transforma os alimentos em arte, a páginas tantas diz: “Um Artista nunca é pobre.” Frase que preenche todo o filme e todo o calor da cozinha onde graciosamente ela se move. Um artista nunca é pobre porque está sempre preenchido por essas presenças e essas escutas. O caleidoscópio brilha mais intensamente e move-se talvez mais rapidamente, uma vez que de alguma maneira a arte contribui para a verdadeira evolução do mundo. Tornando Seres todos os momentos em que o humano e o divino se encontram na Poesia e no Sonho.
Hoje, pensar e sentir assim, é considerado retrógrado e fantasista porque a Arte se tornou num aspecto lúdico, num jogo de palavras, cores, formas e sons. Pensa-se e efectua-se aquilo a que se chama arte com a ligeireza e a leviandade com que se chuta uma bola para longe. Na maioria das vezes os ateliers estão vazios de presenças, apenas o auto-denominado artista lá se encontra brincando com os pincéis, ou com as palavras num eco que é só silêncio oco. Perdeu-se na grande maioria dos casos a noção de divino, de sagrado. Recuperar essa dimensão é, também, recuperar uma companhia. Mas não é uma companhia fantasista como um “amigo imaginário” que apenas tem como função o nosso afastamento da loucura. Essa companhia tem uma existência tão concreta como a nossa. Tem uma vontade tão ferrenha quanto a nossa, obriga às lutas com o anjo, à discussão com ele, à procura de uma harmonia com ele. Para a psicologia, isto é uma psicose, tal é o grau de dessacralização com o qual o homem é confrontado nos nossos dias. Porém, esse mesmo psicólogo é capaz de admirar Dante, Camões, Pessoa, não fazendo a mínima ideia da complexidade e da dinâmica de vida que estão por detrás da criação. Quando Camões canta o Amor, canta a Dama amada, não canta uma fantasia infantil, canta o mais alto grau de Amor que humanamente conseguimos alcançar: todo esse amor é projectado para um plano divino e dele, em simultâneo, é seu produto. Se um psicólogo conseguisse entender isso transformar-se-ia num Camões em vida, com os seus altos e baixos e as suas viagens astrais entre terra e céu e não havia psicologia que lhe valesse, nem auto-estima que procurasse e a criação não mais apareceria como terapia para um melhor enquadramento no mundo. A criação apareceria como o único propósito do mundo e o olhar caleidoscópico não seria visto como fuga, remendo, catarse, escape mas sim como o mundo tal qual ele é, na sua riqueza original. Por isso, andarmos um passo atrás na nossa civilização é, sem que o saibamos, andar dois para a frente, ao contrário do que actualmente tendemos a fazer: dar um passo à frente andando para trás. Chegámos a um impasse de passos e toda a tensão sentida no Século XIX, entre um progresso dessacralizado e um passado que é só memória, permanece em pleno século XXI. O caleidoscópio, esse está sempre lá, à nossa espera, do nosso olhar e do nosso sentir.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
ESTE SÁBADO...
II ciclo de estudos em homenagem a António Telmo
O
legado da Renascença Portuguesa: livros e autores Março a Novembro de
2012
Biblioteca Municipal de Sesimbra
26 de Maio, 15 horas.
Colóquio Da Cartilha à Gramática
Oradores:
Ponces de Carvalho – João de Deus e a didáctica da Cartilha Maternal
Isabel Xavier – A poesia de João de Deus
Rodrigo Sobral Cunha – A Gramática Secreta da Língua Portuguesa
Apresentação das
Actas do IV Colóquio luso-galaico sobre a Saudade por Renato Epifânio
quarta-feira, 23 de maio de 2012
AFORISMOS, 137
Filosofia e arte são universais. Todavia, negar uma filosofia situada – a portuguesa, no caso que nos interessa – seria o mesmo que falar da não existência de uma música portuguesa, de uma arte portuguesa, de uma poesia portuguesa. O singular não tem que excluir o universal, pois este forma-se das relações daquele, um interessante casticismo, como lhe chamou Unamuno. Só pelo particular o vazio, que muitas vezes é o chamado geral, se desvanece para dar lugar ao ser, ao ser algo, tal como um corpo composto de funções e órgãos vários. A alma desse corpo, que o envolve e sustém, é a verdadeira universalidade que tudo toca, depois de preenchido o nada-geral, o homogéneo de coisa nenhuma, a universalidade que irmana e torna luminosas as particularidades.
terça-feira, 15 de maio de 2012
DIA 27 DE MAIO... ACONTECE
No próximo dia 27 de Maio, domingo de Pentecostes, realiza-se, a partir das 11h00, a 22ª Festa do Espírito Santo no Convento Velho da Arrábida, com organização da Associação Agostinho da Silva-Convento Sonho e Fundação Oriente-Convento da Arrábida. Neste dia serão lidos e cantados poemas de António Quadros e Agostinho da Silva e será prestada uma homenagem à escritora Dalila Pereira da Costa, falecida no passado dia 2 de Março. Estarão presentes diversas personalidades ligadas à Associação Agostinho da Silva, ao Círculo António Telmo, à Escola Aberta Agostinho da Silva, à Fundação António Quadros e ainda à Universidade de Évora.
domingo, 13 de maio de 2012
EXTRAVAGÂNCIAS II, 5
QUANDO O SOL BRILHA
Cynthia Guimarães Taveira
Facilmente isto se confunde com a ideia de Rémi Boyer de que, no jardim, não há diferença entre o “dentro” e o “fora”. Mas não se pode confundir. Nesse estado de “modos”, a sua causa é o estado da Pessoa enquanto no jardim não há Pessoa alguma. Não há ninguém. Há apenas uma consciência sem Pessoa. Os acontecimentos desenrolam-se para além da vontade ou do desejo. Os próprios acontecimentos se situam na esfera do Ser. É o momento das constatações e não das intervenções. Sendo que essas constatações são, enfim, a grande intervenção, o grande raio que cai do céu. Quando no jardim, não há diferença entre o “dentro” e o “fora”, isso não acontece por nenhuma obsessão ou ideia fixa. Isso acontece no próprio fluir dos acontecimentos. O jardim dialoga com o jardineiro, não num mero jogo de espelhos, mas num autêntico processo criativo em que a acção e a reacção são apenas Um. O mundo não responde ao “interno” como se fosse uma lua meramente reflexiva, nem o interno reage ou provoca o mundo como se fosse também uma lua passiva dos reflexos mundanos. Um mundo reflexivo é um mundo semi-morto porque implica o não-movimento como estágio de morte. No jardim está tudo em movimento porque lá se encontra a Vida. Há uma finalidade última, como há sempre uma finalidade num gesto de criação. Essa finalidade última une-se à causa primeira ao ponto de não haver distinção. Há verdadeiramente um caminho dentro do caminho. Um caminho de vida dentro de um caminho de morte. Esse caminho é deveras muito estreito e apertado vivendo, no entanto, na mais pura liberdade do gesto. É um caminho sem erro porque o único erro consiste, paradoxalmente, em sair para fora desse espaço de liberdade e de silêncio de que nos fala Rémi Boyer. Não há rectificações de modo a que o objecto coincida na perfeição com o seu reflexo. Porque não há reflexos. Não é um caminho iluminado pela lua. É um caminho iluminado pelo sol.
terça-feira, 8 de maio de 2012
REPORTAGEM...
Reportagem fotográfica do Colóquio "Regresso a Pascoaes" em:
http://circuloantoniotelmo.wordpress.com/2012/05/07/regresso-a-pascoaes-o-coloquio-em-imagens/
http://circuloantoniotelmo.wordpress.com/2012/05/07/regresso-a-pascoaes-o-coloquio-em-imagens/
quinta-feira, 3 de maio de 2012
CARTA ABERTA A PEDRO SINDE
Por Eduardo Aroso
Carta-aberta a Pedro Sinde sobre a sua comunicação Senhora da Noite – a imaginação divina, no Colóquio «Regresso a Pascoaes» (Sesimbra, 21-4-2012)
Sobre a sua intervenção intitulada Senhora da Noite – a imaginação divina, se não estivéssemos entre pessoas de pensamento, eu diria simplesmente gostei porque gostei, e tudo estaria justificado. Como não é o caso, devo dizer-lhe que fiquei impressionado pelo modo como o Pedro abordou o assunto, isto é, foi um poeta que falou de outro poeta, afinal o poeta que há em (ou que é) Pedro Sinde, e que eu já havia descoberto em O Canto dos Seres. Falou em perfeita afinidade e só assim se compreende o que disse sobre Pascoaes, nomeadamente na ideia da meia-noite, da manhã e da tarde, trazendo o inefável para o plano da comunicação para chegar a todos, é certo segundo a sensibilidade de cada um, porque creio que o que tenha havido no plano da razão terá sido captado, diria, de um modo mais uniforme.
Enquanto o Pedro Sinde falava do profundo sentido criativo que há na meia-noite, eu ia fazendo um certo raciocínio que gostaria de lhe comunicar, pois ele prende-se com outro ponto nuclear que nos motiva a todos e que é a quarta casa do horóscopo de Portugal, feito por Pessoa, e interpretado por António Telmo. Duas ou três palavras prévias para nos situarmos melhor: a 4ª casa (lar, família, ancestralidade, tradição, terrenos, estrutura psíquica ou “alicerces”), portanto uma casa de raízes, escura ou obscura, corresponde à meia-noite, opondo-se à 10ª casa (o meio-dia, a luz, a realização visível, o público, a autoridade instituída, o que é oficial). Eu que há já alguns anos me interesso pela astrologia, nunca havia reparado que se tivermos que associar o que se tem chamado filosofia portuguesa ou tradição portuguesa, será à 4ª casa, dado ser este um Movimento sempre “às escuras” no reconhecimento oficial dos meios académicos e culturais instituídos, assunto que podemos legitimamente atribuir à 10ª casa. Assim, a 4ª casa opõe-se à 10ª, mas o sentido de opor-se reveste-se de aspectos um tanto subtis, como vamos observar de seguida. Vemos assim que a tradição filosófica portuguesa e a filosofia oficial ou académica opõem-se, respectivamente, na mesma proporção e sentido que a 4ª casa do horóscopo se opõe à 10ª.
Mas vejamos o que nos diz António Telmo «Tudo quanto se pensa vaticinar para o futuro deve ser lido no quarto quadrante, com início no Fundo do céu (o nadir do horóscopo), ou seja, a quarta casa» (…) «o quarto quadrante do horóscopo é o oposto do segundo quadrante [ou seja, o que eu disse atrás, a 4ª casa opõe-se à 10ª, sendo que cada quadrante tem 3 casas, portanto a quarta parte da divisão dos 12 signos], aquele que define a época dos Descobrimentos tendo por termo Alcácer-Quibir e os Filipes. No Meio do Céu, ao alto [a 10 ª casa, isto é, o que está bem visível], está o trono simbólico de Portugal onde se sentou, ao findar do signo oceânico de Peixes, D. João, Mestre de Avis». Repare-se que não é só a característica de visibilidade que define a 10ª casa, mas também o apogeu ou máxima realização visível. Assim, na astrologia mundana corresponde, por exemplo, à casa da coroação de um rei ou eleição de um presidente da república; na astrologia pessoal significa o apogeu da carreira profissional.
Telmo contrapõe a este facto da 10ª, o trono do Mestre de Avis, a ascensão do socialismo na 4ª casa, o ponto oposto: «No Fundo do Céu (o nadir do horóscopo), que
corresponde ao ano de 1877, deu-se um acontecimento que, na altura, pode ter passado mais ou menos despercebido, mas que marca a orientação que o quarto quadrante imprime a tudo quanto, no domínio político, se passou até agora e se há-de vir a passar no futuro. Foi a fundação do partido Socialista». Prossegue António Telmo «estas conexões, por relação de opostos (do segundo quadrante com o quarto e das casas entre si, da primeira com a primeira, da segunda com a segunda *, à esquerda e à direita da linha zénite-Nadir) [ou seja a linha que vai da 10ª casa à 4ª] resultam da lei geral que faz do hemisfério inferior e nocturno a projecção, como num espelho em modo inverso, do hemisfério superior ou diurno» (…) prosseguindo o autor citando mais acontecimentos marcantes como exemplos.
Ora, é para as seguintes palavras de Telmo que eu gostaria de lhe chamar a atenção «…resultam da lei geral que faz do hemisfério inferior e nocturno a projecção, como num espelho em modo inverso, do hemisfério superior ou diurno». Se relacionarmos o que o Pedro disse no colóquio, quanto às possibilidades genésicas e primordiais da mística meia-noite em Pascoaes, a hora do caos em que tudo começa lentamente a ganhar forma (qual semente no escuro da terra que só pela manhã se vê), logo constatamos que não só o hemisfério inferior e nocturno é uma projecção, como num espelho em modo inverso, do hemisfério superior ou diurno, como (inversamente) o citado primeiro hemisfério, o nocturno, pode ser o arquétipo digamos assim, do segundo, o diurno ou superior. Ou seja, é a noite que fecunda o dia, do caos vem a obra, para que o dia, por sua vez, deixe o “sémen solar” que não arrefeça de todo a luz nocturna, sem o que haveria escuridão permanente e, consequentemente, morte.
No caso do socialismo (ligado à 4ª casa, segundo Telmo), não é ele que fecunda os acontecimentos luminosos da 10ª, é bem de ver, pelo contrário (por isso se lhe opõe), mas, e também segundo o sentido que o filósofo confere ao socialismo como dissolução total, sabemos que a 4ª casa é um fim e um recomeço, e enquanto recomeço é um útero.
Pelos exemplos apontados, creio que se compreenderá melhor a tal subtileza do sentido do aspecto de oposição astrológica de que lhe falei atrás. Os factores em causa, neste caso, o sentido das casas com os seus acontecimentos, devem sempre ser vistos como uma totalidade mais abrangente pois, por exemplo, nada significa dizer alto sem a noção de baixo, ou frio sem a noção de calor. A 4ª casa, sendo o inferno do horóscopo, no sentido do ponto mais baixo e escuro (rege também aos cemitérios, poços e escavações) é também, como disse, o útero de tudo, pois veja-se que a mãe está relacionada a esta casa e à Lua.
O que eu gostaria é que o Pedro, tomando a sua fecunda exposição do tema acima referido, reflectisse nestas relações, onde a meia-noite em Pascoaes parece ter o sentido uterino que é já a vitória sobre a dissolução ou caos, na liberdade feminina e divina de tudo recomeçar, já para não falarmos da observância dos ciclos. Peço-lhe que não entenda esta minha sugestão como “exortação de mestre” (pois em volta do mestre temos estado), mas de alguém que viu na sua comunicação do dia 21 de Abril, em Sesimbra, uma tremenda relação de Pascoaes com aquilo que podemos ler no horóscopo de Portugal.
* Há aqui um lapso que deve ser entendido mesmo assim, isto é, como lapso, pois António Telmo, até por descrições anteriores, vê-se que conhecia mais que suficientemente o assunto do grafismo do horóscopo. Quando diz que a primeira casa se opõe à primeira, queria dizer que se opõe à sétima, bem como a segunda se opõe à oitava.
Um abraço cordial
Eduardo Aroso
23-4-2012
AFORISMOS, 136
Eduardo Aroso
Há nas profecias do Bandarra de Trancoso e na hipergnose do Espírito Santo uma correspondência. Nelas convergem as promessas de realização e de revelação. Se, no primeiro, o tempo é, por assim dizer, a seiva da profecia “desviada” do tempo histórico, no segundo, sejam quais forem os desvios dos tempos, o erro se sublima em perfeição para novo rumo.
quarta-feira, 2 de maio de 2012
FAZ HOJE ANOS QUE NASCEU ANTÓNIO TELMO
“Em qualquer ponto da terra que eu me encontre estou no centro comum a ambos, pois a distância que me separa do horizonte é em todas as direcções a mesma e também é a mesma em qualquer ponto do Céu envolvente. No entanto, outro ser que me é exterior está mais à direita ou à esquerda, à frente ou atrás desse centro que eu ocupo. Mas eu sei que do seu ponto de vista ele também se supõe no centro. As duas perspectivas provêm da limitação do olhar e são um engano. Se eu supuser a extensão infinita em todas as direcções, então a centralidade de cada ser aparece como verdadeira e objectiva.
Nasce daqui a noção de um espaço infinito, uma extensão vazia infindável. Não somos capazes de imaginar esse espaço, de o figurar como uma imagem e daí chamarmos-lhe um «conceito». Todavia, é a imaginação que supõe mais a quantidade de espaço para lá do limite do meu olhar e mais ainda para lá, do mesmo modo que posso somar sempre mais uma unidade a um número dado.”
António Telmo, O Portugal de António Telmo, Guimarães Edições, 2010, pág. 117
domingo, 8 de abril de 2012
SABEDORIA ANTIGA, 21
Cristianismo debaixo de terra
Por Alexandra Pinto Rebelo
Os quatro evangelhos canónicos não são férteis no que diz respeito a referências ao mundo ctónico. Parece que este nível, tão actualizado no paganismo, é propositadamente silenciado. O interesse principal é o ir anotando feitos de Cristo, mostrando-o como o grande propósito. O que estes homens parecem dizer é que estão a assistir a uma (nova?) cosmogonia e a toda a mitologia que daí advém. É uma mitologia não escutada, ao contrário do habitual, mas exibida à sua frente. Estão a assistir a gestos primordiais, tendo isso mais importância do que tudo o resto.
Mateus será aquele que incluirá a marca ctónica mais forte: “ Então, o véu do templo rasgou-se em dois, de alto a baixo. A terra tremeu e as rochas fenderam-se. Abriram-se os túmulos e muitos corpos de santos, que estavam mortos, ressuscitaram; e, saindo dos túmulos depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos.” (Mt. 27,51-53)
O que Mateus parece indicar, com estas imagens marcantes e, porventura, assustadoras, é que, no período entre a morte e a ressurreição de Cristo, o nível terrestre e o ctónico ficaram, subitamente, sem delimitação. Mas esta falha temporária de fronteiras é vigiada, no entanto, por um poder superior. São somente os corpos dos santos aqueles que ressuscitam, levando a crer que estes, à semelhança de Cristo, apenas tinham a vida suspensa nos seus túmulos. A sua morte física seria, desta forma, uma mera ilusão. Um percurso necessário, em suspensão de sinais vitais físicos, para que se confirmasse a sua vitória sobre a morte.Aqui chegados, é impossível não fazer analogias com todo o simbolismo surgido com o aparecimento das sociedades agrícolas. Também as sementes, exemplos maiores de vida suspensa, são lançadas à terra, aí permanecendo até ao seu renascimento. Tal como a Lua, (desaparecida durante três dias antes de ressurgida – “A Lua é o primeiro morto”, segundo E. Seler) as sementes, durante todo o seu processo de oclusão debaixo de terra em morte aparente, reaparecerem devidamente transmutadas. Estes processos, observados e apreendidos, encaminham o ser humano para a evidência de que não existe morte. Torna-se mais legíveis, então, o vasto número de parábolas cristãs relacionadas com o mundo vegetal, pontes indicadoras da possibilidade efectiva de Ressurreição.
O gosto do cristianismo dos primeiros séculos por espaços debaixo do chão, será um encenar cíclico desta suspensão da vida. São construídas câmaras, mais ou menos extensas, sacralizadas sobretudo pelo deslumbramento, e mistério, do próprio processo. Aí, não só os “aparentemente mortos” são depositados, como têm lugar as refeições rituais dos vivos. Refeições festejando, ou solicitando a abundância, dependentes do próprio sucesso das fases agrícolas. Dependentes, pois, da esperança na sucessiva ressurreição das sementes.
Por esta altura, já o cristianismo deixara transbordar a sua latente vocação ctónica. A criação destes espaços reais, subterrâneos, possibilitava a cumplicidade simbólica dos vivos, no germinar das sementes, por proximidade. Em câmaras que, tal como os neófitos (pelo menos os Pessoanos), sabiam que não existia morte. Nem a da alma, nem a do corpo.
AFORISMOS, 135
Por Eduardo Aroso
Já se escreveu sobre o Erro de Decartes, outros querem ter demonstrado que a física quântica destronou erros de Aristóteles, autores vários fizeram livros sobre os Erros de Deus (!), sendo este o título de, pelo menos, uma das obras. Sem prejuízo do que a civilização cada dia aprende e esquece, os chamados seres humanos de “ponta” descobrem constantemente erros nos que os precederam, não havendo assim tempo para descobrir em tal actividade intelectual vestígios de erros de descobertas presentes e futuras.
sábado, 31 de março de 2012
FOTO-REPORTAGEM POR FILIPE NOBRE GOMES
SESIMBRA, 31 DE MARÇO (Biblioteca Municipal de Sesimbra)
A Renascença Portuguesa: Contexto, Panorama e Perspectivas
Maurícia Teles da Silva e Pedro Martins
A Renascença Portuguesa: Contexto, Panorama e Perspectivas
(da esquerda para a direita) Maurícia Teles da Silva, Pedro Martins, Cynthia Guimarães Taveira, Renato Epifânio, Miguel Real
Maurícia Teles da Silva
Cynthia Guimarães Taveira
Renato Epifânio
Miguel Real
sexta-feira, 30 de março de 2012
AMANHÃ HÁ FILOSOFIA AO VIVO EM SESIMBRA
Congeminações 2012
II ciclo de estudos em homenagem a António Telmo
O legado da Renascença Portuguesa: livros e autores
Março a Novembro de 2012
Biblioteca Municipal de Sesimbra
31 de Março, 15:00
Apresentação do nono número da revista NOVA ÁGUIA: Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?
intervalo
Colóquio A Renascença Portuguesa: Contexto, panorama e perspectivas
Oradores:
Miguel Real – A Renascença Portuguesa: uma visão panorâmica
Maurícia Teles da Silva – O movimento da Renascença Lusitana e a música de Óscar da Silva e Cláudio Carneyro
Cynthia Guimarães Taveira – A Renascença Portuguesa e as Belas Artes – Soares dos Reis e António Carneiro
quarta-feira, 28 de março de 2012
AFORISMOS, 134
Eduardo Aroso
Não se pode dizer que Deus não surja no caminho do ser humano. Este é que se não apresenta, como deve, ao seu Criador, esquecido da sua origem. É neste jeito de andar no mundo que o ditado popular «quem não aparece, esquece» pode ter um significado mais profundo. Quando Nietzsche propalou o seu dito «Deus está morto», vestiu a frase com a roupa do avesso.
quarta-feira, 21 de março de 2012
HÖLDERLIN PARA A PRIMAVERA
STUTTGART
A Siegfried Schmidt
I
Vivemos de novo uma alegria. Já cedeu a funesta secura,
E a crueza da luz deixou de queimar as flores.
A sala voltou a abrir-se e o jardim viceja,
E o vale, refrescado pela chuva, rumoreja brilhante,
Alto, cheio de plantas, aumenta o caudal dos ribeiros e as asas
Prisioneiras lançam-se de novo para o reino do canto.
O ar está cheio de seres alegres e a cidade, o bosque, está
Repleto, toda à volta, da satisfação dos filhos do céu.
O encontro é-lhes grato e espraiam-se uns por entre os outros,
Despreocupados, e nenhum é de menos, nem demais.
Assim o dispõe o coração e a graça de respirar foi-lhes
Predestinada e concedida por um espírito divino.
Mas os caminhantes seguem também a direcção certa e trazem
Abundantes grinaldas e cantos, enfeitam
O sagrado bastão com cachos e folhagem e cobre-os a sombra
Dos abetos; de aldeia em aldeia e de dia para dia passa a felicidade,
E como carroças atreladas e animais selvagens os montes
Avançam e o caminho suporta a carga apressando-se.
segunda-feira, 19 de março de 2012
EXTRAVAGÂNCIAS II, 4
O Olho
Cynthia Guimarães Taveira
A vida é um sonho. Sonhamo-nos uns aos outros. Sonhamos com teias e nós bem cerrados que não são mais do que o encontro dos sonhos uns dos outros. Os sonhos, que são a vida, permitem que nos encontremos nas esquinas dos acasos. Às vezes sonhamos que estamos tão próximos uns dos outros que, não só nos encontramos, de facto, como, por fim, Acordamos quando essa aproximação se torna Encontro. Os sonhos que sonhamos, as presenças que provocamos, são afinal, formas de abrir aquele olho que “às vezes dorme”.
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