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quinta-feira, 31 de março de 2011

O CAMINHO DO CAMINHO



Dupla Vida

Cynthia Guimarães Taveira

Sabia ser comummente dito que as mulheres tinham hoje mais trabalho que nunca, pois se dantes geriam apenas a família, agora geriam a carreira e a família num desdobramento que toca o sacrifício. Confessava de si para si que a carreira era apenas uma ilusão de prestígio, que no fundo nada mais era do que uma visão desfocada da ascensão aos céus. A família, por seu lado, era sempre um terreno movediço e difícil. Por um lado, de uma importância que tocava o sagrado, por outro, uma ilusão de identidade.

Ainda assim vivia entre dois mundos violentos e exigentes. Um dia seu era um acto de equilibrista num ténue fio de seda. De um lado as solicitações do trabalho, das horas a que deveria chegar com precisão a determinado local, dos papeis que tinha de preencher, dos ofícios, das iniciativas privadas e públicas, das consultas, das reuniões, das preocupações, dos mal-entendidos, das refeições que tinha de comer e preparar, dos empecilhos e “atrasos de vida”, da poluição, da solidão dentro do carro numa estrada deserta de alma, do barulho, da falta de estética, da falta de arte e de silêncio, dos impostos, da dívida pública que era apenas a divida particular dos maus gestores do e no estado, da crise, do esquartejamento provocado por terramotos e a nítida sensação de se encontrar na rampa final do tempo de uma civilização caduca e enganadora.

Do outro lado, outro mundo, carregado de apelos, sinais, exigências, coincidências, diabretes e anjos misturados nas mesmas faces, as solicitações da poesia e suas musas que o provocavam onde menos esperava, na fila do supermercado, na passagem por um jardim a caminho de um encontro mais-do-que-urgente com o contabilista. Musas belas que o envolviam em belas palavras e encantos e o puxavam para fora da realidade obtusa em que era obrigado a viver. As solicitações dos sinais e coincidências que não o largavam numa teimosia aplicada: atenta nesta imagem, vê como se repetiu ao longos dos últimos dias. Atenta nesta palavra, vê como repetidamente ela te aparece, fora de toda a lógica, pela voz de um amigo, pelo noticiário da televisão, por uma criança que passa e a diz. Caminha por dentro de ti e da tua história e não te atrevas a parar de caminhar, porque isso é o sono e o sono é um atentado contra o espírito. Gritava-lhe o universo de dentro e de fora nas horas mortas em que o mundo profano se cala, mesmo por poucos segundos que esse silêncio durasse. Gritava-lhe: sê aventureiro e não temas a morte! Olha para os cavaleiros antigos e para as suas lutas com o dragão. E ouve a voz das pedras, e lê este livro e mais aquele porque está ligado ao anterior, e cria, desenha, corrige, pensa e repensa, volta atrás, faz o mais possível uma arqueologia interior e projecta-se num tempo sem tempo, ou num tempo com todo o tempo. E morre, morre, actua como se fosses uma criança, a derradeira criança do mundo, pulando nas pedras pretas e brancas num jogo de xadrez a quatro dimensões.

E vê os símbolos e desvenda-lhes a alma, mas não faltes ao trabalho e às reuniões e ao pagamento da segurança social, e vai buscar o teu amigo que precisa de boleia. E dorme e deixa-te ir nos sonhos que não são sonhos, e renasce todas as manhãs se faz favor, com dores ou sem elas, com dúvidas ou sem elas. (as dores são a dúvidas do corpo).

E balançava no fio, assim, periclitante, dia após dia, não sabendo bem qual o mundo mais forte e qual aquele pelo qual haveria de responder quando estivesse perante a sua própria consciência projectada num céu infinito de estrelas. Assim era a sua vida dupla, rica e opulenta, sem miséria, contemplando toda a miséria do mundo.

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