(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



sábado, 22 de janeiro de 2011

UM FOTOGRAFO A DESCOBRIR...


Fotografias de Fernando Jorge, na Biblioteca Municipal de Alcochete numa exposição intitulada "Tu-Transições". Até 26 de Março. Vale a pena ver.
Horário: 3º Feira - das 15.00h às 21.00h
de 4ª Feira a Sábado - das 10.30 às 19.00h
Biblioteca Municipal de Alcochete
R. Professor Leite da Cunha I
Tel. 212 349 720

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 49



António Carlos Carvalho

João Villaret subiu ao céu dos actores há 50 anos, no dia 21 de Janeiro de 1961. Meia hora antes de morrer dizia a Vasco Morgado: «Ainda havemos de montar grandes espectáculos». No seu último teatro, o Monumental (também ele desaparecido, para nossa vergonha), nessa noite já não se representou o último quadro de «Boa Noite Betina»: Paulo Renato anunciou a morte de João Villaret e pediu que se substituíssem os aplausos no final por um minuto de silêncio em memória do «maior actor do teatro português».

O corpo do artista foi para a Basílica da Estrela, onde os muitos que lá foram prestar a última homenagem se admiravam por ver o actor de cabelos brancos -- tinha-os pintado dessa cor para criar a personagem principal de «A Raça», o filme de Augusto Fraga que já não teve tempo de fazer… O funeral saiu dali para o talhão dos artistas do Cemitério dos Prazeres, acompanhado por uma multidão de vinte mil pessoas. «No enterro, não se ouvia uma mosca, tal era o respeito que lhe tinham», segundo o testemunho de Rui de Carvalho. Nessa época ainda não havia esse bárbaro costume dos nossos dias, de se bater palmas nos enterros, certamente aplaudindo o eficiente trabalho do Anjo da Morte…

Palmas, e muitas, recebeu-as João Villaret em vida, como lhe era devido, nos palcos dos teatros D. Maria II, Trindade, São Luís, Avenida, Variedades, Tivoli, Monumental, em Lisboa, mas também nos teatros do Porto e de muitos outros lugares do país, incluindo Madeira e Açores, e também Angola, Moçambique e S. Tomé, e ainda no Brasil e na Argentina. A todos esses lugares levou a presença da língua portuguesa sob as formas do teatro e da poesia -- a poesia que ele dizia como mais ninguém, antes ou depois dele. (José Régio confessou uma vez, depois de o ouvir no teatro Sá da Bandeira, no Porto: «Eu não sabia que era assim a minha “Toada de Portalegre”…»)

Ao longo de trinta anos, disse cerca de trezentos poemas, de cento e quarenta autores, sobretudo portugueses, mas também brasileiros e alguns franceses. A sua preferência ia para Fernando Pessoa , António Botto (que lhe apresentou o próprio Pessoa), José Régio, Mário de Sá Carneiro, Camões, Florbela Espanca, Camilo Pessanha, Carlos Queirós, Miguel Torga.

E para aqueles que não o ouviram, ao vivo, nos seus muitos recitais de poesia por todo o País (incluindo a Penitenciária de Lisboa, para os presos, numa noite de Natal), Villaret ofereceu-lhes depois poesia dita em directo na televisão, a partir do final de 1957 e até 1960. Para muitos de nós (eu era então um miúdo mas jamais me esquecerei desses momentos de espanto), era a revelação da força da palavra poética (mas também da arte de contar histórias) trazida para dentro das nossas casas, interpelando-nos directamente, pessoalmente.

Um homem diante de uma câmara, sentado ao lado de uma mesa com papéis, livros e um telefone, como se estivesse no escritório de sua casa. «Boa noite, senhores telespectadores», dizia Villaret, de óculos na mão, que usava para ler um ou outro texto maior, e que pousava para dizer um poema ou para nos contar uma história carregada de ironia ou de ternura. A maior simplicidade, que hoje nos parece impossível, para verdadeiros momentos de magia em televisão (bem longe da actual noção de «entretenimento»). Quando dizia (interpretava) um poema, a câmara focava-o de perto, com um halo luminoso a iluminá-lo por cima, o seu rosto enchia o ecrã -- e nós ficávamos ali, presos ao encantamento das suas palavras, ou das palavras de outros que tornava suas e nossas… desejando que nunca acabassem.

Retomando tradições muito antigas, Villaret lembrava-nos, de uma maneira exemplar, que a poesia existe para ser dita ou cantada, não apenas para se ler em livros…
Poesia viva, interpretada intensamente, apaixonadamente, arrebatadamente -- arrebatando-nos com ela.

Hoje, ao fim da tarde, no programa «Portugal em Directo», a RTP1 presta-lhe a merecida homenagem. Seria bom que também retirasse daí a lição óbvia: a de que é possível fazer outro tipo de televisão num país de invejosos que ainda não aprendeu o que significa genuína admiração -- uma árvore delicada que precisa de ser plantada e bem tratada. Por todos.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

NOS DIAS 14 E 15 DE FEVEREIRO SERÁ ASSIM...


NO DIA 8 DE JANEIRO, PELOS REIS, FOI ASSIM...






Alguns nomes presentes: Elísio Gala, Mário Rui, Avelino de Sousa, Pedro Sinde, Pedro Martins, António Carlos Carvalho, Teresa David, Cynthia Guimarães Taveira, Carlos Aurélio, Roque Brás de Oliveira, Carlos Vargas, Maria José Albuquerque, José Paulo Albuquerque, Inácio Balesteros, Luís Paixão, Paulo Santos, Pedro Ribeiro.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 7



O estranho mundo de Assis e as imagens

Alexandra Pinto Rebelo

Não pode deixar de causar espanto a sucessão de fenómenos místicos acontecidos em Assis, no tempo de S. Francisco. É certo que sempre podemos duvidar da sua existência e atribuí-los a invenções movidas pela fé de um ou outro monge justificando os meios com os fins. Mas, de facto, parece-me que qualquer coisa de muito intenso e fora do habitual se passou naquela terra, no séc. XIII. Já fui por duas vezes a Assis e, não tendo eu um fascínio particular por S. Francisco (o que poderia influir na minha interpretação), assisti a gestos únicos de devoção e até de comoção religiosa para com o espírito do lugar que muito dificilmente se repetem em qualquer outro templo cristão. Certa vez assisti, por exemplo, na sala onde está o túmulo de Francisco, à entrada de algumas dezenas de turistas japoneses. Já os observei noutros locais e sei como se comportam. São muito educados e respeitadores, calados e reservados em termos de expressões faciais. Todos eles se transformaram quando entraram naquela sala. Houve um não sei quê que os tocou profundamente. Um a um dirigiram a sua face para o local onde está o túmulo e fizeram uma profunda e sentida veneração budista. Nenhum deles fez o gesto do sinal da cruz, não sendo, portanto cristãos. Este facto comoveu-me profundamente. A mim e a alguns portugueses que por ali se encontravam. Parece que o tal espírito do lugar, ou da terra embebida da memória de tudo o que aconteceu, é superior a todos nós cristãos ou não, ao próprio Francisco, à memória dos seus irmãos, ao nosso S. António, dobrando-nos a espinha em posição de prostação, enchendo-nos os olhos de lágrimas como resposta mais imediata e explosiva a algo que nos excede.

No Florilégio, antologia de milagres atribuídos a S. Francisco e aos seus, podemos perceber alguns desses milagres, ou hierofanias que aconteceram no tempo de Francisco. A maior parte, eram experiências intensas, vividas por S. Francisco, S. Clara, por um ou outro irmão. Experiências individuais, portanto. Hoje em dia reconhecemos facilmente os estados místicos que são aí descritos. Mas também existiam as hierofanias partilhadas por um grupo de monges, ou até pelos habitantes de Assis e arredores. Durante alguns anos, a comunicação entre mundos foi intensa, sendo a parte visual muito vívida e importante. Num dos episódios, Francisco visita Clara. Ambos partilham uma refeição quando, conversando sobre Deus, entram em êxtase, com os olhos e as mãos erguidos para o Céu. As pessoas de Assis, desconhecendo o que estava a acontecer, viram todo o convento e o bosque que o circundava, em chamas. "(...) parecia-lhes que um único braseiro ocupava a praça, a igreja, o convento e o bosque." Acorrem todos ao local, na tentativa de apagar o fogo. Quando chegam, vêem apenas Francisco, Clara e os companheiros em êxtase, tendo concluído que se tratava de fogo divino. São inúmeros os exemplos da importância do olhar, em Assis. As hierofanias desenvolviam-se num tecido inseparável de imagem e palavra. Outro exemplo, é o célebre sermão de Santo António aos peixes que António Vieira, como bom barroco, construtor de olhares, irá aproveitar para o seu texto. Peixes juntos a outros peixes, escutando um monge que com eles fala, é uma imagem forte que dificilmente se esquece.

Ao contrário do que se pode supor, estes monges, visitados regularmente por anjos e demónios, não se fecham em contemplação. São pessoas de acção. Fazem igrejas, são peregrinos, dão sermões ilustrativos à porta das igrejas.

Assis representa uma nova forma de ser-se cristão. A acreditar-se nos fenómenos místicos, Assis representa, ao mesmo tempo, uma nova forma de comunicação, mais intensa, mais frequente, mais agitada, mais orientada para o visual e para a palavra simples, longe dos grandes tratados filosóficos e do peso teórico de Roma e Bizâncio, longe da grandes revelações divinas, daquelas que faziam livros acabados e, logo, problemáticos.

O quadro acima apresentado é de 1235, do pintor Berlinghieri. Foi feito poucos anos após a morte de Francisco. Obedece a um programa estético bizantino, onde o símbolo é o mais importante na representação. Muito haveria a dizer sobre isto. Quem conhece um pouco a história de Assis compreende que este tipo de representação não coincidia em nada com aquilo que se tinha passado, com aquilo que importava deixar documentado. O fundo dourado, por exemplo, surgia como uma espécie de pano de fundo, de cortina, eliminando todos os conceitos de espaço e tempo, dando um valor mais sagrado à coisa representada. Isso não servia para Assis. Era quase a sua anulação. Aos monges importava-lhes afirmar “foi aqui e agora que isto aconteceu”. Da mesma forma, o desenho austero das figuras, apelando a uma imobilidade simbólica, não se coadunava com a agitação franciscana. Roger Bacon traçará o novo programa estético da Ordem. As suas indicações para a “pintura do natural” constituirão a grande proposta do Renascimento e barroco até à perfeição de Caravaggio.

Giotto será o primeiro a figurar os acontecimentos de Assis. Serve-se da figuração tridimensional, utiliza os gestos correntes, o desenho da arquitectura de uma cidade do séc. XIII e XVI de Itália. Subitamente a pintura é projectada para a vida quotidiana tal como o fora todo o mundo divino.


PONTES




Lima de Freitas sobre a palavra "meditação":

“Conviria aqui abrir um breve parêntesis para esclarecer o sentido deste termo - meditação - no contexto do pensamento religioso da Índia. Não se trata, com efeito, do sentido corrente da palavra. Aquele que contempla o iantra não medita de maneira “intelectual”, procurando simplesmente indagar o que representa a imagem e porquê, ou estabelecendo cadeias de associações de ideias a partir da imagem. Importa, ao invés - e de um modo dificilmente definível na nossa linguagem lógica e dualista -, estabelecer uma espécie de passividade activa, uma receptividade atenta mas esvaziada de todos os pressupostos, desprovida de impaciência de intuitos bem determinados. A verdadeira meditação (dhyana) implica uma rigorosa aplicação desprovida de de curiosidade mental, uma total e serena disponibilidade, uma concentração única liberta de todas as cadeias associativas automáticas ou voluntárias. Nessas condições, extremamente difíceis de realizar, é eventualmente possível verificar-se a emergência de uma modalidade inteiramente nova de compreensão, simultaneamente vibrante e serena, como uma maravilhosa claridade intuitiva, espontânea, capaz de penetrar a diversidade das coisas e de aí descobrir uma secreta unidade primordial onde se dissolvem os conflitos de opostos, as contradições do discurso, os nódulos opacos onde se congestionava a teimosia da ignorância (avydia).”

Lima de Freitas in “O Labirinto”, Edições Arcádia, 1975, pág. 269


Dalila Pereira da Costa sobre as condições de vinda do êxtase:

“Ele vem-nos sempre como uma chamada, súbita, mais que uma confirmação. Sempre um começo, nunca um fim. Sobretudo, nunca se assemelhando a uma recompensa, ou ligando-se, mesmo de longe, a qualquer coisa como a um mérito próprio; ou mesmo a uma distinção de puro e impuro. E assim, esta consciencialização, não irá originar um estado de possível expectativa, de espera? Quando, o que aparece como uma das condições mais necessárias da sua vinda, é precisamente nada esperar? Nada procurar, ou mesmo querer? Ainda menos, um qualquer esforço em sua direcção. Pois o que há nesse momento que imediatamente o precede, é unicamente um estado de presciência, ou de premonição da sua fatal e irrevocável vinda, aqui e agora: Mas que faz já parte dele mesmo, que já é o seu começo, como a aurora é já o dia. E então, o que há é unicamente um estado de simples receptividade. Que é simples abandono, ausência de esforço da nossa parte. E durante esse precioso momento, na sua total plenitude, um estado consciente do nosso lado, não seria de mais? Não seria esta posição uma intervenção? Intempestiva, que pesaria demasiado nesse momento, nessa vinda do Sagrado? Ele tão poderoso, imperecível, mas tão frágil. E de uma essência (e pela sua vontade?) que só se deixa ver num fugidio instante, mas nunca olhar fixamente, perscrutar. Poderoso e delicado: assim é que também só se deixará ver. E se haverá gesto, ou atitude possível (ou legítima) em face dele, no seu conhecimento, será unicamente um tentativa de o cercar. E um esperar que nos mostre, nos deixe ver, o que nunca tínhamos suspeitado nesta vida: o nunca visto.”

Dalila Pereira da Costa in “A Força do Mundo”, Lello & Irmão - Editores, 1972, pág. 49

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 118


A Nuvem

Cynthia Guimarães Taveira

Vagueando por entre canais televisivos, antes fossem os de Veneza, eis que encontro amantes de livros em conversa. Parei para ouvir. Falavam das novas tecnologias -- as tecnologias são sempre novas, acabadas de nascer, só no canal História é que, de vez em quando, falam das velhas mas, por regra, as que interessam são as novas, belas, prometedoras e infalíveis. Os livros dentro de um e-book estavam sendo apresentados como uma maravilha: podíamos transportar um biblioteca inteira debaixo do braço e, em vez de ter de erguer o mesmo braço, num esforço pesado querendo contrariar a força da gravidade, para passar a página, bastava um toque, digital, caminhando-se, assim, de página em página, de uma forma muito mais fácil, muito mais cómoda. O problema, no entanto, segundo disseram, estava na queda, como se o problema não estivesse sempre na queda: estou aliás convencida de que, há muitos anos atrás, a força da gravidade deveria ser muito menor do que é hoje, menires, pedras do Egipto, pirâmides americanas poderiam ser erguidas com mais facilidade. Enfim, o problema estava na queda porque, ao que parece, o filho de um desses amantes de livros tinha deixado cair ao chão um e-book e, assim, muito mais rapidamente do que o incêndio da biblioteca de Alexandria, o alegre conversador tinha perdido uma biblioteca inteira não tendo o e-book sobrevivido aos 30 centímetros que, segundo as suas palavras, o separavam do chão. Imediatamente o apresentador pegou num livro e, deixando-o cair à mesma altura, demonstrou que um livro normal era bastante mais resistente. Ironias…
Mas o melhor ainda estava para vir: os aficionados da grande tourada que são as novas tecnologias poderiam, com um serviço novo (claro, novo) da Google, possuir uma nuvem. E o que é uma nuvem? Uma nuvem é um espaço na Internet onde se guardam livros e também toda a espécie de documentos. Na nuvem podem conviver lado a lado os nossos papéis, as nossas facturas mensais, as nossas fotografias de infância, os nossos apontamentos, os nossos livros, iria mesmo mais longe, a nossa casa. Finalmente temos uma casa nas nuvens. Pensei de mim para mim: e se chover? Cai-nos a casa em cima?
Dizia também uma amante de livros: “as novas tecnologias vão permitir às crianças aceder de uma forma muito mais lúdica aos livros” e, com aquela alegria de menina marota, ergueu vitoriosa o seu e-book e mostrou-nos como podíamos brincar com as imagens ilustradas da Alice no País das Maravilhas mudando-as de sítio. Fiquei deveras triste por já ser grande: quem me dera poder ir ao Museu de Arte Antiga e brincar com aquelas imagens todas: colocar o Santo Antão em cima do Paráclito dos Painéis, eis o meu sonho!
Enfim, ao passarmos a ter livros nas nuvens a realidade torna-se também muito mais nebulosa ao ponto de falarmos erradamente: um e-book não é um livro, é outra coisa. Um e-book não é uma biblioteca, é outra coisa, um e-book ilustrado não é uma ilustração, é outra coisa. Chamem-lhe o que quiserem mas não lhe chamem livros porque não são. Um livro é um objecto feito de papel e tinta. Tem páginas, tem forma, tem peso e costuma estar dentro das casas, das livrarias ou das bibliotecas e as nuvens estão no céu.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 6



Alexandra Pinto Rebelo

Existiu um certo embaraço em relação à construção de algumas imagens desde o início do cristianismo. Essa falta de à vontade teve vários motivos. Entre os principais, encontramos a proibição bíblica "(...) não deves fabricar imagens esculpidas de qualquer coisa semelhante àquelas que estão no céu, acima, ou na terra, abaixo". (Dt. 5,8). Outro motivo forte, era o repúdio completo pelas formas de culto pagãs que atribuiam às estátuas de culto um valor hierofânico, isto é, eram o lugar onde o divino se manifestava activa e quotidianamente.

As primeiras imagens não tinham como objectivo atrair orações ou venerações. O seu objectivo era oferecer uma referência visual a uma história bíblica central para os valores cristãos. A figura do Bom Pastor, por exemplo, não era um retrato de Cristo mas uma metáfora expressando as qualidades de Cristo como condutor de almas. Os cristãos divergiam dos seus vizinhos pagãos por evitarem um certo tipo de imagens, não por evitarem imagens em geral. Quando o retrato sagrado passou a ser uma representação recorrente, o problema voltou a colocar-se de uma forma mais intensa. Como era possível representar a essência de Deus, visto que se tentava representar o irrepresentável?

João Damasceno argumenta então, no séc. VIII, a favor da imagem. Para ele, aquilo que se representa não é a essência de Deus visto que isso é uma impossibilidade. Não se representa o invisível, mas aquilo que se fez visível. De facto, o Deus do Antigo Testamento torna-se carne com Cristo. De alguma forma torna-se Ele Próprio imagem. A proibição do Antigo Testamento refere-se, então, a esse primeiro momento, em que Deus é só essência irrepresentável. Deus não poderá proibir a representação icónica a partir do momento em que se torna visível, perceptível como figura.

Quem negar os ícones, nega, ao mesmo tempo o mistério da encarnação.

O texto de Damasceno irá tornar-se uma referência até ao séc.XV.

VAI ACONTECER...


(clique sobre a imagem para ampliar)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

POEMA DE UM AMIGO


na foto António Salvado

ESPERANÇA

Tu és de sempre como o tempo,
tu és de longe como o espaço!
Súplica de cada momento,
falas – se o ânimo quebrado
nos enregela o pensamento.

Reapareces na tristeza
de uns olhos baços perseguidos
e és bem mais alta que a beleza!
Âncora, os teus ganchos são vivos
gumes de sol e de certeza!

Deixa-me, ó luz, acreditar
que um dia não serás precisa:
que foste apenas a passagem
para a real e definida
forma de que és agora imagem!

ANTÓNIO SALVADO

Nota – António Salvado (professor, poeta, prosador e tradutor) nasceu em Castelo Branco, a 20 de Fevereiro de 1936. Poeta que tem cantado, como raros o têm feito, a axial região da Beira-Baixa. Não obstante este «espírito de lugar», sempre revelou pendor universal, atestado nas dezenas de obras, quer originais quer de tradução, labor que o poeta costuma designar por verter. Poesia fecunda – a sua marca singular - que adivinha todas as redenções pelo amanhã da humanidade. Mas também uma voz que não esquece e sabe recuperar os perenes ecos antigos, plasmada em linguagem que muito tem enriquecido a Língua Portuguesa de palavras e expressões a que já nos desabituaram os que escrevem, na actualidade. Lírica de uma intensidade que não renega o tempo, mas que dele se quer livre, ou seja, na exaltação e também na sublimação dos sentidos.
Desde que começou a publicar, em 1955, assim tem sido o percurso de António Salvado, ao longo de cinquenta anos de vida literária. Muitas são as figuras que se têm referido à sua obra, desde Teixeira de Pascoaes e J. Gaspar Simões a Natália Correia e Pinharanda Gomes, entre muitos outros de várias sensibilidades e quadrantes do pensamento. De uma carta do poeta de Amarante, dirigida ao então ainda jovem poeta de Castelo Branco, podemos ler: «Meu querido amigo: Trato-o assim, pois considero da minha família todas as pessoas que amam a minha obra. Assim ela mereça esses amores! Trabalhe! E que a Musa de Orfeu o não abandone, é o que mais desejo!» (Teixeira de Pascoaes, 1951).

Festa dos Reis Magos, 2011
Eduardo Aroso

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

OS REIS...



«Os Reis Magos e a Tradição Portuguesa»

O texto de Álvaro Ribeiro com este título, publicado na revista Cidade Nova, em Junho de 1955, saiu antecedido pelas considerações seguintes, da autoria de Afonso Botelho, segundo informa Pinharanda Gomes:

“Vai para cinco anos que um grupo de amigos se reúne, em casa de um deles, para conversar sobre filosofia. O tempo que decorreu nada significa por si. Não consolida a esperança que o grupo se mantenha nem garante mais uma manifestação da filosofia portuguesa. Começa, porém, a significar alguma coisa este decurso do tempo, sabendo-se que, em cada aniversário, no dia de Reis, alguém fala sobre esse tema, enquanto se celebra em ambiente de família a festividade, comendo-se o Bolo-Rei, repartido por todos.
É a prenda encontrada que determina o orador do ano seguinte.”

In “Álvaro Ribeiro - Dispersos e Inéditos - II (1954/1960), pág. 145

António Telmo foi o continuador desta tradição. Este ano, sem ele, mas com a sua memória presente e real, o grupo de Filosofia Extravagante reúne-se dia 8 de Janeiro, em Santana (Sesimbra), no restaurante Angelus, pelas 13 horas, com Bolo-Rei, claro, e conversa filosófica adequada.

sábado, 1 de janeiro de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 5



Alexandra Pinto Rebelo

Já conheci pessoas que, por conhecerem meia dúzia de símbolos esotéricos, achavam que tinham chegado a qualquer lado de diferente que não fosse apenas o conhecerem meia dúzia de símbolos esotéricos. Bem pior do que isto, foi já ter conhecido pessoas que, conhecendo meia dúzia de centenas de símbolos esotéricos se deixavam reverenciar pelos outros, aqueles que apenas conheciam um punhado. Mas em todos esses esotéricos superiores, existe um momento de falta de prudência, em que conseguímos ver no seu olhar a desilusão por saberem que, afinal, estão mais longe "daquilo" do que quando começaram. As prateleiras das nossas livrarias estão cheias de livros escritos por estas pessoas. Ser-se considerado um esotérico, em certos círculos, dá prestígio e dinheiro.

Os símbolos esotéricos são, sobretudo, uma linguagem. Tal como todas as linguagens, não são a coisa em si mas antes códigos a que se lhe referem. Antes dos símbolos há que conhecer o seu referente pois, de outra forma, eles não nos servirão para grande coisa. Posso decorar mil palavras de árabe mas se não souber o seu sentido, elas não me servem de nada. Experimente dizer "Salam ali cum" a um falante. Receberá como resposta um sinal facial de espanto e a resposta "Ali cum salam". Se repetir muitas vezes a experiência vai compreender que ali está qualquer coisa de simpático. No entanto, isso não é falar árabe. Pode decorar até várias frases e pronunciá-las a um não falante daquela língua. Verá que o convence com alguma facilidade de que domina uma língua exótica.

Confesso que tenho uma grande dificuldade em relação à linguagem alquímica. Não consigo perceber nada, a nível simbólico, daquilo que se passa. Por vezes pego num livro com uma imagem e começo a descrevê-la a uma amiga que, ao contrário de mim, parece que fala alquimiano desde que nasceu. A minha performance é mais ou menos assim: "Está aqui um homem com uma espada erguida na mão. Parece que vai matar um ovo grande que está em cima de uma mesa. Não sei porquê, pois o ovo tem aquele ar inocente de todos os ovos e não parece ter feito mal ao senhor. Deve estar muito frio nesta terra. O senhor esqueceu-se e vestiu uma saia curta. Por isso teve de pôr toda a lenha que tinha em casa na lareira e ainda foi pedir mais alguma emprestada aos vizinhos." Estas descrições pertencem ao meu reportório de bom humor. Assemelham-se muito, agora que penso nisso, às descrições do Ocidente feitas pelo chefe índio no livro Papalagui. A minha amiga ri-se porque, ao dominar intuitivamente esta linguagem (e por a conhecer bem por a ter estudado), já não a consegue percepcionar sem um sentido imediato. A minha interpretação literal, acrescentada aqui e ali com um pouco de imaginação, proporciona-lhe um género de humor idêntico àquele com o qual as crianças nos presenteiam. Grande parte do seu encanto, aliás, provem do facto de ainda não dominarem bem os códigos culturais da sua etnia. Desta forma é fácil quebrarem as convenções que para nós já estão completamente adquiridas e mecanizadas, abrindo-lhes uma brecha poética ou humorística.

O melhor do caminho é outra coisa, sendo apenas privilégio de alguns. Refiro-me a conhecer directamente "aquilo" ou os vários "aquilos" que não se conseguem reproduzir com as nossas linguagens habituais. Depois, então, ir reconhecendo os vários símbolos que os tentam exprimir, sendo cada um deles limitado à sua maneira, claro. Se não fossem limitados dar-nos-iam uma representação completa e isso, pela natureza de ambos (do "aquilo" e sua simbolização), é impossível. Depois, então, é deixarmo-nos deliciar com a capacidade que outros antes de nós tiveram na tentativa de exprimir o inexprimível. Lembro-me de certa vez me ter maravilhado por os monges budistas serem chamados de "aqueles que descobriram o caminho de casa". Eu tinha tido aquela sensação sem palavras mas nunca tinha conseguido dar-lhe um nexo semântico e sintáctico.

Com isto tudo não quero dizer que os símbolos devam ser postos de parte. Eles têm o seu lugar. Pertencem ao nosso património cultural, ao nosso património artístico que seria infinitamente mais pobre sem eles. Pertencem ao melhor que o ser humano conseguiu fazer e muitos deles até são o resultado de uniões perfeitas entre mundos que por vezes se tocam. Mas, apesar, de tudo, são apenas símbolos. Trata-se do coração aberto com um canivete numa árvore e não a experiência do Amor em si. O que no fundo quero dizer é que é possível conhecer os "aquilos" directamente sem esperarmos deslumbrados por ouvir os relatos de outros que, a maior parte das vezes, nem lá estiveram. Por muito belas que sejam as imagens que mostram, por muito coerentes que sejam as palavras que usam.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

RAZÃO POÉTICA, 9



OS REIS MAGOS
(in A História de Jesus, de Gomes Leal)

Nas torres, olhando os astros,
que viajam pelos céus,
Os Reis Magos viram rastros
do avatar de um grande Deus.

Leram em livros profundos,
que a Caldeia e Assíria têm,
que estava a descer dos mundos
um deus a Jerusalém.

Cheios de assombro, à janela,
mudos ficam os seus lábios!
De pé olhando uma estrela,
velam noites os reis sábios.

Não querem mais alimento,
nem com rainhas dormir.
Não tomam ao trono assento!
Não mais volvem a sorrir!

Somente olham, sem cessar,
a branca estrela brilhante
como o ceptro dominante
do rei que vai a reinar.

Abraçam a esposa amada.
Dão as chaves aos herdeiros.
Mandam vir seus escudeiros,
Os seus bordões de jornada.

Despejam os seus erários,
cheios de alvoroço imenso.
Carregam seus dromedários,
d’ouro, de mirra, de incenso.

Passam rios e cidades
cheias de estátuas guerreiras,
palácios, campos, herdades,
cisternas sob as palmeiras.


Seguem a luz do astro belo,
que as estradas lhes clareia,
até chegar ao castelo,
do rei que reina em Judeia.

Chegados ao rei cruel,
que de Herodes nome tem,
bradam: «O Rei de Israel
nasceu em Jerusalém?...»

Fica assombrado o Tetrarca,
Diz-lhes tal nova ignorar.
- «Mas, em nome da Santa Arca,
voltai, reis, ao meu solar!»

Seus olhos ficam sombrios:
vê perdido o seu tesouro,
soldados, terras, navios,
da Judeia o ceptro de ouro!

Tomam os reis seus bordões
Levantam as suas tendas.
Carregam as suas of’rendas.
Demandam novas regiões.

Passam rios e cidades
cheias de estátuas guerreiras,
palácios, campos, herdades,
cisternas sob palmeiras.

Passam colinas, rebanhos,
campos de louras searas,
quando a lua faz desenhos
no chão das estradas claras.

Passam o quente areal
que a palmeira não conforta.
Eis que a estrela pára à porta
de um decrépito curral.


Descem dos seus dromedários,
cheios de pó, os reis sábios.
Descarregam seus erários.
- Mas estão mudos seus lábios.

Rojam as barbas nevadas
Sobre o deus que adormecera.
Com as mãozinhas rosadas
Da Mãe nos seios de cera.

Seus olhos sentem assombros
e nadam cheios de choro.
- Rasgam seus mantos dos ombros.
- Dão-lhe mirra, incenso e ouro.

Esquecem sua nação,
mais seus carros de batalha.
- Seus ceptros rolam na palha!
- Seus diademas no chão!

E erguendo seus olhos graves,
perguntam então – olhando
as pombas voando, em bando,
os aldeões, mais as aves:

«É este o rei dos senhores?
Tábua da Lei das rainhas?
Por archeiros – tem pastores.
Por pajens – as andorinhas.»

GOMES LEAL

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 117


"Observando para lá de cá" por Margarida Cepêda, 2009

Cynthia Guimarães Taveira

Arcos e pontes das nossas idas
Desdobram-se nos rios densos e difíceis
Em veias expressivas
Marcam a nossa condição
De fronteiras intransponíveis

Arcadas, portais, portas
Em edifícios de pedra fria
Níveis de uma graça ou de um sonho
Construídos num só dia

Espaço marcado pela esfera
Que se ergue a metade do que somos
Quis Deus ver-nos em gomos
Em saudade, em rito de espera

Arcos, portais e dias
Erguidos em terras inesperadas
Dimensões em pedra gravadas
Demandas e etapas ultrapassadas

Escadas, arcadas e portas
Marcam a história da nossa alma
Arcos dentro de arcos
São os círculos das esferas visíveis
Erguidos pelo dom do arcano
Em que a outra metade
Vive e pensa noutro plano

Arcos, escadas, abóbodas
Rosáceas e vitrais
São o plano dos templos
Dos futuros irreais
Que deslizam e se erguem
No hemisfério que cada um guarda
Esse que é a outra metade
Da metade que nos ampara

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 116



NATAL ARDENTE *

Eduardo Aroso

No descampado do mundo
Chocam-se os corações
Pelas ruas carregadas de sinais,
Ou estranhas direcções.
O galo canta ao vento agreste
E aos pesados madrigais
Onde ouvidos soltam lágrimas
Na difícil partitura comovente.
Só no céu frio de Dezembro
Fora do tempo e nele vendo
Clareia eterna a sarça ardente!

Natal, 2010

* Poema enviado pelo autor a alguns amigos. Para os outros, aqui fica esta simples mas fraterna dádiva natalícia.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

DESEJOS DE UM BOM ANO



Para o próximo ano...

Desejamos um excelente ano de 2011 para os nossos leitores e colaboradores.

Desejamos o impossível, ou não:
Que um batalhão de anjos nos envolva e nos fale ao ouvido
Que os nossos corações brilhem na sua presença
Que consigamos escutar as mensagens
Que as consigamos decifrar, sobretudo...
Que a pouco e pouco os homens percebam
Que as suas almas são importantes para Deus
Que se multipliquem gestos de ternura
Que se multipliquem momentos de paz
Que nos invada o amor absoluto
Que assim se dê uma reviravolta na esperança
Que tudo mude para melhor
Que haja um grande milagre
Impensável
Irreversível
Surpreendente
Benevolente
Consequente

Boas Festas!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

CURSOS



Novos Cursos do MIL

Inscrições (até à 1ª sessão de cada curso): Curso IV, 40 euros; Curso V, 65 euros; Curso VI, 40 euros (direito a Certificado de Participação)
MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO (www.movimentolusofono.org) ; CONTACTO: info@movimentolusofono.org (967044286)

SEDE: Sociedade da Língua Portuguesa, Rua Mouzinho da Silveira, 23, 1250-166 Lisboa ; NIB: 0036 0324 99100004336 09; NIF: 509 580 432

IV
CICLO "PROBLEMÁTICAS EM ESTUDOS PORTUGUESES" (1)
(Da 2ª metade do séc. XIX ao início do séc. XXI)

1. Cesário Verde: Tradição; Tendência artística; A temática da oposição;
Influências literárias
2. Fernando Pessoa/Alberto Caeiro:
A poética da não-filosofia reflexiva ou da filosofia não-reflexiva
3. João de Araújo Correia: A arte de Contar a vida
4. José Saramago: A ficção/O fantástico na intervenção cívica romanceada

António José Borges
4 sessões, a partir de 12 de Janeiro (até 2 de Fevereiro), às quartas (18h30-20h00)

V
FINANCIAMENTO DE PROJECTOS CULTURAIS ATRAVÉS DE PATROCÍNIO E MECENATO

Objectivo:
Conhecer as metodologias e os processos necessários à angariação de financiamento através de Patrocínio e Mecenato Cultural.
Destinatários:
Organizações culturais públicas ou privadas: associações, cooperativas, fundações, estudantes, artistas e todas as pessoas interessadas em obter informação sobre Financiamento de Projectos Culturais através de Patrocínio e Mecenato.
Metodologia:
As sessões serão maioritariamente divididas em períodos expositivos e de debate, com recurso a "casos de estudo" e exercícios, Encoranjando-se os formandos a desenvolverem uma proposta/dossier de patrocínio ou mecenato ao longo do curso bem como à sua discussão/apresentação.
Materiais Pedagógicos e certificado:
Será entregue um Manual completo do curso, bem como declaração de participação no curso. É igualmente disponibilizado o acesso online a documentação em formato digital sobre Marketing da Cultura e Patrocínio/Mecenato.

Rui Matoso
15 horas (5 sessões de 3 horas),
Segundas e Sextas-feiras, das 18h30 às 21h30. Início: 10 Janeiro Fim: 24 Janeiro

VI
LER NAS PEDRAS

... E se fosse possível aprender a ler não apenas as letras do alfabeto mas também os elementos de leitura das nossas capelas, igrejas, mosteiros, conventos, monumentos de pedra -que os seus constru tores, há tantos séculos, con ceberam como autênticos livros de pedra?

Durante quatro sessões, sem sairmos daqui, mas vendo imagens e reflectindo sobre elas, vamos viajar no tempo e no espaço deste Portugal que tão mal conhecemos, tentando decifrar as mensagens escritas nas pedras dos monumentos da chamada Pré-História e das arquitecturas Românica, Gótica e Manuelina – correspondentes a três fases fundamentais da nossa História.
E talvez seja possível acabar por descobrir que nem tudo vem nos livros das nossas bibliotecas, esses outros livros feitos de pa pel e letras de tinta…
As letras das pedras contam-nos outras histórias, feitas de imaginação e de sonhos ainda não concretizados.

Primeira Sessão: Relação entre os monumentos megalíticos e os monumentos das artes consideradas históricas. Arte Românica em Portugal.
Segunda Sessão A arte Românica em Portugal e a sua linguagem própria, surpreendente de imaginação, em relação com os Bestiários medievais e com as influências orientais.
Terceira Sessão A arte Gótica, a luz e o movimento das pedras para os céus.
Quarta Sessão Síntese da arte Manuelina num momento de refundação do país.

As sessões serão ilustradas mediante a projecção de imagens dos monumentos, que fazem parte da colecção particular do formador. Assim, sem sairmos do mesmo lugar, viajaremos no tempo e no espaço...

Objectivos: Chamar a atenção para o nosso património construído an tigo – capelas, igrejas, conventos, mosteiros, com exemplos no Norte, no Centro e no Sul -, geralmente mal conhecido, e cujas pedras têm inscritas mensagens importantes para todos nós, sejamos ou não religiosos. A intenção deste curso breve é ensinar «a ler as pedras» desses monumentos.
Destinatários: Todos aqueles, sem limite de idade, que sintam curiosidade em tentar perceber o que esses monumentos representam, sobretudo o que significam aqueles portais, aquelas escul turas, aquelas estranhas gárgulas, os desenhos daquelas ar quitecturas, os homens que os construíram de tal modo que ainda hoje estão de pé, tantos séculos depois. A linguagem deles.

António Carlos Carvalho
4 sessões, a partir de 11 de Janeiro (até 1 de Fevereiro), às terças (19h00-20h30)

VII
CONTOS QUE CURAM

Como utilizar os contos como ferramenta de mudança
Comum às diversas culturas, as histórias e a sabedoria popular oferecem informações sobre regras e conceitos e ilustram a fantasia milenar dos povos, permitindo o desenvolvimento de conceitos, valores e habilidades na resolução prática de conflitos.
Mediante as histórias, preconceitos, ressentimentos e mesmo as resistências são reduzidos, promovendo a mudança educativa das pessoas, em contexto terapêutico, escolar laboral ou mesmo familiar.
Como mediadores entre as pessoas (terapeutas e pacientes, líderes e equipe, docentes e discentes, membros da mesma família e/ou casal), permitem que o ouvinte se identifique, e, assim, fale de si, das suas dificuldades e dos seus conflitos, e dos seus desejos, pois o conto não “ataca” diretamente – nem a ele nem aos seus conceitos ou à sua auto-estima.
Essa mudança de posição ajuda à reinterpretação de conceitos e, sobretudo, ampliá-los, numa relação com os outros.

Conteúdo programático
1. Apresentação:
a. Levantamento de conhecimentos prévios dos participantes;
b. Apresentação e consulta conjunta do programa de formação;
c. Partilha de bibliografia, histórias e autores conhecidos.
2. Introdução à teoria das histórias:
a. Alguns modelos explicativos sobre as histórias;
b. Padrões interculturais nas diversas histórias;
c. As funções das histórias.
3. As histórias na prática:
a. Que história pode ser utilizada em que contexto;
b. As histórias na educação;
c. As histórias nas organizações;
d. As histórias na psicoterapia;
4. Avaliação final:
a. Avaliação dos formandos, através da seleção de um contexto ou um caso, real ou fictício, utilizando uma determinada história, justificando a escolha;
b. Avaliação da atividade formativa, através do preenchimento de ficha escrita de avaliação do curso, dos conteúdos, dos módulos e do facilitador pelos demais participantes;
c. Debate final sobre a atividade formativa, aspectos a melhorar e temas a aprofundar.
Objectivos do curso
No final do curso, os participantes irão estar munidos com um depósito superior de histórias que deverão ser capazes de utilizar em contextos diversos (educativo, organizacional e/ou psicoterapêutico), no momento oportuno.

Destinatários
Profissionais e estudantes e das áreas de diversas áreas, num número mínimo de 10 participantes inscritos no curso.

Sam Cyrous
4 sessões, a partir de 13 de Janeiro (até 3 de Fevereiro), às quintas (16h00-20h00)

Sam Cyrous (shcyrous@gmail.com) é Psicólogo, Mestre em Psicoterapia Relacional e membro da International Academy for Positive and Cross-Cultural Psychotherapy, fundada por Nossrat Peseschkian, criador do modelo de Psicoterapia Positiva e Transcultural e especialista na utilização de histórias como ferramentas psicoterapêuticas.

sábado, 18 de dezembro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 115



O EQUÍVOCO DA CHAMADA «MORTE DA EUROPA»

Eduardo Aroso

«A esperança na salvação do mundo pela Europa nada tem a ver, no espírito de Carlos Aurélio, com finanças ou economia. Como a ciência económica nada tem resolvido até agora, das duas uma: ou a ciência económica não é ciência ou aqueles que dedicaram toda a vida a estudá-la ainda não conseguiram penetrar nos seus misteriosos segredos».
Do prefácio de António Telmo à obra Mapa Metafísico da Europa, de Carlos Aurélio (ed. Fundação Lusíada)

É curioso começar por observar que não se diz a morte da Ásia, ou a morte da África, quando actualmente se repete incessantemente a morte da Europa. Só o que nasce pode perecer. Assim sendo, é caso para perguntar se os dois primeiros continentes, imunes à degeneração, ainda não vieram à luz do mundo (!), ou se estão todos bem de saúde, de modo a não sofrer da dita fatalidade. Ou existe algo do nosso continente que não pode escapar a essa implacável lei natural?
Não me parece que a Europa de Bach e de Beethoven, de Gaudí e de Rodin, de Victor Hugo, de Camões e de Dostoiévski, de Leonardo da Vinci e de Rafael, de Newton e Einstein, de Kant e de Hegel, possa morrer definitivamente, como se as obras destes pioneiros não servissem para mais nada. Se nos interrogarmos se a Europa das ciências e das humanidades se encontra, há já muito, diluída por outros continentes, é evidente que a resposta é fácil. Mais difícil é apurar o que de melhor da cultura europeia tem ajudado ao desenvolvimento de outros povos, no contraste actual de certa barbárie feita com as cinzas daquilo que o velho continente não superou, ou que outros aproveitaram em avassalador materialismo. É certo que, ou por premeditada e obscura intenção de alguns autores, ou pela ligeireza informativa e cariz político com que se fazem certas notícias, tem-se decretado a morte do nosso continente. Mas, seja como for, se houver morte da Europa, a esta só lhe resta renascer de si mesma. Isto pode não passar pela cabeça de muitos, como não passou ao tempo do Renascimento que, depois do Direito Romano e da teologia da Idade Média, ainda nasceria de novo para o ideal grego nas suas várias manifestações.
Seria numerosa, se mencionada, a lista de grandes construtores do mundo ou espíritos da Grande Obra. O que nos legou uma Maria Montessori, um S. Francisco de Assis, uma Joana d’ Arc e um Bandarra, serão ainda um sol do futuro, ao contrário de muitos meteoros do presente que nos caem em cima, tapando-nos o céu que guarda estrelas muito mais perenes. A haver “cadáver” Europa só pode ser o da sociedade de negócios, em partes desiguais, chamada C.E.E., que já não usa aquela típica sigla S.A.R.L. (sociedade anónima de responsabilidade limitada). Não tem havido, sobretudo nos últimos tempos, a responsabilidade dos sócios maioritários para com os restantes, desabando, como consequência, sobre milhões de seres que, apesar de existir uma UNESCO, observam impavidamente a mutilação das culturas regionais e nacionais com a perda do melhor que cada povo tem: o seu casticismo e singularidade. Por outro lado, vêem desaparecer a chamada classe média, a única que pode proporcionar a formação das elites no cultivo da alta cultura, como garante civilizacional. Nisto tudo impera o domínio obscuro através da tecnologia a que também se chama globalização, não sei se igual ou diferente daquela no tempo do Império Romano que utilizou o latim como “instrumento de ponta”.
Seria pouco razoável admitir que a História da Europa não tem traços negros, fragilidades várias, corpo de civilização sujeito ao mesmo que um ser humano tem, a partir de certa idade: o de partir facilmente uma perna ou um braço ou estar sujeito a outras mazelas próprias dos anos. Todos sabemos que muitos europeus cultos de séculos passados acreditavam que certos povos indígenas mais se assemelhavam a bestas de carga do que a seres humanos, homens do velho continente, da sociedade e da política, e representantes eclesiásticos que também tiveram as suas “guerras santas”, com mais perdão, diga-se, do que aquelas que, passados vários séculos, hoje ainda se fazem, num tempo que devia ser outro, mais à frente e mais acima. Se a tecnologia, para o bem e para o mal, globalizou o mundo ao arrepio dos navegadores portugueses que o ligaram e deram a conhecer muito antes, os que hoje exploram o planeta e o injectam de perversidade, sejam europeus ou não, e, directa ou indirectamente, lhes terá servido o Direito Romano e o que Platão e Newton legaram, ainda terão de abrir os velhos livros, se não se quiseram extraviar ainda mais. De modo nenhum para voltarem a fazer comboios a vapor ou outro engenho ultrapassado; não, por certo, os livros de economia que estão praticamente desactualizados a cada ano que passa, mas para perceberem que a Vida encontra-se na Vida, numa (re) leitura ao jeito de quem, por exemplo, olha vezes sem conta o deslizar de um belo rio, numa manhã de primavera, e nunca se cansa de o fazer.
Ainda que toda a experiência seja bem precioso e inalienável quando assimilada, pouca sabedoria o futuro imediato poderá retirar desta sociedade de negócios chamada C.E.E., já com sucursais em todos os continentes, que, afinal, e paradoxalmente, não emprega os seus sócios (leia-se os muitos filhos, havendo apenas lugar para os afilhados). Essa falange europeia – felizmente não toda – orgulhosa, jacobina e sobretudo plutocrata, terá ainda de aprender muito com Eckhart e Leibniz, inspiradores de filósofos, pensadores e até (pasme-se) de cientistas do mundo quântico, ao mais alto nível. Aprender ainda com o primeiro ecologista do planeta, o místico S. Francisco de Assis, livre de dinheiros em bancos, de política corrupta e sindicalismo rasteiro. O seu sentimento - mais que sentido - ecológico não se preocupava com difusas “diversidades actuais” e “ordenamentos territoriais”: o Amor é que ordenava (ordena), verdadeiro sustento de tudo, do homem inteiro na natureza toda, a sensível e a transcendental, bem patente no imortal poema que nos deixou. De tal modo este Amor foi grandioso que a ciência natural lhe deve grande impulso, para já não falarmos da despojada audácia dos franciscanos (e não outros) que iam nas primeiras naus portuguesas da demanda, factos históricos estes bem observados pelo nosso Jaime Cortesão.
Se esta Europa de sempre não pode morrer, há-de ter cirurgia plástica e limpeza interior e externa do corpo, isto é, adoptar um outro paradigma que deponha humildemente o ideal grego, no sentido filosófico (não propriamente a cultura helénica), acrescido de tudo o que o velho continente fez de alquimia civilizacional ao longo das épocas; erguer a luminosa esperança no altar das mais altas expectativas: humilde e laborioso, de justeza mais que de justiça, e de fraternidade mais que de sociabilidade.
É consolador verificarmos que na Europa de hoje há assistência médica mais eficaz e imediata a um sem-abrigo, se compararmos com a ajuda dada a um acometido de peste ou lepra, em séculos passados. Porém, isso não pode ser emblema de orgulho e descanso de consciências, pois nascemos e vivemos no tempo que é o tempo de cada época. A questão é saber se esse sem-abrigo tem alguém que lhe dê uma palavra de consolo (já que o que é oficial não consola ninguém) nas paredes bem limpas e desinfectadas de um hospital, e se a Europa das massas letradas, que sobem nas estatísticas de mestrados, doutoramentos e outras qualificações, ainda sabe o que foi a Europa, no que ela se tornou e o que ela ainda pode vir a ser. Se nos ativermos unicamente aos resultados que nos dão nas televisões, das habituais mostras de inquéritos, concluiremos sem dúvidas que a esmagadora maioria nada sabe do velho continente, nem sequer, provavelmente, o nome do rei-fundador ou do primeiro presidente da república da sua nação.
Assim como Fidelino de Figueiredo viu «As duas Espanhas», o geógrafo antigo Al-Rasis desenhou duas Ibérias, a dos rios que correm para o Mediterrâneo e a dos rios que correm para o Atlântico, também nós podemos ver duas Europas, não já a eslava e a do ocidente, mas a dos alicerces de perenidade, de sinal bem visível no Renascimento (Fénix sobre todos os escombros) e a Europa-Sociedade que hoje fabrica “escravos de ordenado mínimo” e alguns capatazes bem pagos. Uma dessas duas Europas, a da maquilhagem que se desfaz depois da recepção e da festa dos convivas da dita sociedade, é a sombra tétrica da verdadeira que não pode perecer na sua inteireza.

Quase Solstício de Dezembro, 2010

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 48


Baobá Rei (árvore de Moçambique)

António Carlos Carvalho

«Ladainha dos Póstumos Natais»:

«Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito»


David Mourão-Ferreira, in «Cancioneiro de Natal»

Veio-me à memória este poema, na noite passada, depois de receber abruptamente a notícia da morte de Carlos Pinto Coelho, com quem partilhei, durante nove anos, a aventura do «Acontece» -- um telejornal cultural diário, e que foi barbaramente assassinado por um ministro mentiroso e vil, em 2003, com pretextos meramente economicistas (já nessa altura…), ainda por cima sem fundamento algum. Uma mentira descarada e pomposamente ministerial.

Lembrei-me deste poema por razões óbvias mas também porque, quando o David (com quem eu tinha trabalhado em «A Capital») adoeceu, e nós soubemos disso no «Acontece», o Carlos pediu-me para preparar uma peça que devia entrar no ar quando se soubesse da morte do poeta.
Mas eu tinha acabado de encontrar o David na rua, com sinais evidentes da doença (era uma sombra dele próprio, mas ainda teve forças para me dizer, com um sorriso débil: «Estou resistente, não desistente…») e recuei, aterrado com a presença da morte a pairar por ali. Não consegui fazer nada, falhei como jornalista e como consultor do programa -- a verdade é essa.

Porque continuo a pensar que a morte não é uma coisa «natural», que temos de aceitar com resignação: é, sim, um absurdo e um mistério, perante a qual só podemos tomar uma atitude de silêncio impotente. Sei que agora se tornou moda bater palmas nos enterros (chegámos a isto…) como se aplaudíssemos a vitória da Morte. Mas eu sou do tempo dos funerais feitos em silêncio, reverente e comovido.

E depois veio mesmo o Natal, o primeiro de muitos outros, em que deixámos de ver o David em qualquer lugar, excepto no lugar guardado na nossa memória.

E agora chega o Natal em que já não vejo o Carlos, nem ouço a sua voz ao telefone, nem leio as suas mensagens…

Termina assim este ano mortífero, em que perdi, primeiro, três gatos, criaturas também amadas; depois o meu Pai; a segui o António Telmo; e agora o Carlos.
(Aqui a memória traz-me um outro título, terrível, do Vergílio Ferreira: «Onde Tudo foi Morrendo»).

O Homem é realmente como uma Árvore: também ele nasce, cresce (para os Céus, mesmo quando não acredita neles), dá frutos e depois apodrece ou cai de repente no chão, ceifado por um golpe de vento, por um tornado.

A minha floresta tem cada vez mais clareiras, e o sol que entra por elas já não me aquece.

Só me consigo aquecer com a única resposta possível à morte: a vida, o amor -- que é tão forte como a morte, conforme nos ensina o «Cântico dos Cânticos».

Agora tenho também de pedir a Deus que chame a alma do Carlos para junto de Si, que o faça beneficiar da sua Luz -- bem diferente das luzes dos palcos, da iluminação dos estúdios de televisão, das ilusões que inventamos neste mundo.

Assim seja.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

SABEDORIA ANTIGA, 4



Alexandra Pinto Rebelo

Foi-me mostrado, desde sempre, que o mundo clássico, isto é gregos e romanos, tinha um sentido religioso um pouco perturbador.
Aquela gente, capaz de escrever verdadeiros monumentos tais como a "Íliada" ou a "Eneida", referências literárias de uma Europa que ainda não se cansou de as estudar; capaz de lançar alicerces fortíssimos tais como o conceito de democracia, os preceitos da filosofia, da história, do direito e tantos outros; poetas-intérpretes tão sublimes da alma humana que, até hoje, ainda usamos os seus mitos como legendas grandiosas da nossa pequenez tais como o "complexo de Édipo", a "caixa de Pandora", o "calcanhar de Aquiles"; artistas tão surpreendentes que, passados quase mil anos de silêncio, conseguem ressurgir em indicações estéticas para o Renascimento... aquela gente, dizia, que fez tudo ou quase tudo em grande o que uma grande civilização pode fazer, tinha apenas um instinto religioso primitivo, ramalhete de terrores inspirados pelas severidades atmosféricas e de loucuras desculpadas pelos estados psicóticos induzidos.
Nesta leitura há qualquer coisa, então, que não encaixa. Não é necessário pensar muito para compreender que a antiguidade clássica foi julgada pelos vencedores, ou seja, pelos cristãos. Pela segunda vez na história reforçava-se a ideia de que só existia um deus verdadeiro. A minha expressão "reforçar a ideia" é, claro, um eufemismo. Existindo só um deus, todos os outros se tornavam falsos, por seu decreto. Os adoradores dos outros, podiam tomar vários adjectivos desde os mais simpáticos como patetas, aos mais benevolentes, como iludidos, até aos mais perigosos, como heréticos. Estes adjectivos mais perigosos eram geralmente acompanhados de uma acusação que levava à morte. O percurso até ela era, geralmente, muito humilhante, perturbador e doloroso.
Pretendo com tudo isto deixar só uma pequena nota, por hoje. em relação à religião clássica. Aquela gente que a praticava tinha exactamente os mesmos instintos religiosos de todos os povos. Os seus deuses funcionavam tão bem como os de quaisquer outros. Torna-se comovente para nós, hoje, lermos as suas inscrições nos templos. Podermos partilhar dos seus desejos íntimos, do seu louvor, dos seus desabafos para com os seus deuses é uma espécie de bênção.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 114


Caravela
Cynthia Guimarães Taveira

Foi a caravela
Que tudo viu
Seus olhos de proa
Foram quem tudo sentiu
De braços erguidos
Em jeito de velas
Furou ventos, marés
Ouviu os sentinelas
Foi a caravela quem sentiu o frio
Sua madeira tosca
Rangendo nos passos do mar
Ergueu-se acima da onda
Voou, deixando a espuma a dançar
Foi a caravela a esperar
Pelos homens de braços cheios
Vindos de longe para embarcar
Foi ela quem contou
Os sóis dos dias
As estrelas, as gotas de mar
Foi ela quem soube
De melhor porto para orar
E quem conheceu os homens
Pelo seu cantar
Foi ela quem nos disse
Onde podíamos amar
E trocou o nosso coração vivo e quente
Por si mesma, no seu lugar

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

ENIGMAS, 3


"Melancolia" de Dürer

Rectas e mundos paralelos
David R. Nelson, fisíco da Universidade de Havard, resumiu do seguinte modo o impacto dos cristais de simetria pentagonal no pensamento teórico:

"Sobre certos aspectos, esta descoberta fez, em relação a uma das ciências físicas, aquilo que a descoberta da geometria não euclidiana tinha feito, em relação às matemáticas: demoliu um axioma e dissipou uma certa presunção. Criara-se o hábito de pensar que as linhas paralelas nunca se encontravam e que os cristais tinham de ser bem educados e apresentar, sempre, estruturas periódicas. Pois bem, agora sabemos que as linhas paralelas, de facto, se encontram sobre uma esfera e que os cristais icosahedral phase possuem estruturas ordenadas, mas não periódicas"

in "515, O Lugar do Espelho" , Lima de Freitas, Ed. Hugin, 2003, pág. 351

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 113



APOCALIPSE DE URGÊNCIA
Eduardo Aroso

Ao Pedro Martins

Eis que se fazem outras as mesmas coisas
Onde do lume da terra já são as bocas
Puras renascidas na palavra do Espírito Santo.
Das águas do presente sem memória
Há frescura subindo como as manhãs
Às estrelas mais altas irradiando.
Eis a mão de Deus no afago
Da tarde dourada nunca vista
Para o silêncio das nocturnas sinfonias
Onde nascem flores no pântano da solidão.

Crianças de sorriso cintilante,
Ó anjos intocáveis,
Bússolas de todo o dia,
Delas ninguém se distrai.
Eis que se fazem outras as mesmas interrogações
Na inquietação do tempo equidistante
E a chuva ácida quando cai
Traz o mel das constelações.

Meu berço sem hiatos,
Nave de todas as horas,
Fénix de todas as provações,
Sou o simples vento dos prados,
Boca límpida de todas as orações.
Plantarei uma espada como árvore
Virada à alma dos homens
Que se venderam e vendaram nesta geração,
Para que sintam definitivamente o verde
E os actos subindo, talo fresco de bondade,
E a graça virgem ansiada das águas
Do primeiro dia da Criação
Ainda vindouro para a verdade.

3-11-2010

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

ACONTECEU...



Realizou-se no dia 3 de Dezembro, na Escola Superior de Educação Almeida Garrett, em Lisboa, a primeira tertúlia que inaugurou o CELAS – Centro de Estudos de Lusofonia Agostinho da Silva. Subordinada ao tema «Educar, para quê?», foram oradores o Prof. Paulo Borges e Eduardo Aroso. Na sessão estiveram presentes algumas dezenas de pessoas: alunos, professores e outras pessoas. A sessão encerrou-se com um apontamento musical em guitarra portuguesa e guitarra clássica, respectivamente por Álvaro Aroso e Eduardo Aroso, com peças originais do primeiro. O CELAS, no âmbito da Escola Superior de Educação de Almeida Garrett, tem como “patrono”, o poeta e incansável Prof. Carlos Carranca, docente daquele estabelecimento de ensino.

SABEDORIA ANTIGA, 3



Eça e os sinais de reverência

Alexandra Pinto Rebelo

A maior parte dos portugueses limita-se a ter "conversas de corredor" sobre os autores portugueses no ensino secundário. Não há tempo para se aprofundarem questões, para considerar o escritor uma pessoa inteira e, como tal, nada semelhante a um único bloco coerente. Eça é um positivista, tenta-se retirar disso as provas mais do que batidas em "Os Maias" e ponto final.

A minha formação universitária é em literatura. Foi só num dos últimos anos do curso que me apresentaram os outros Eça. Aquele inicial, romântico, mais tarde reunido num volume com o cómico título de "Prosas Bárbaras"; o jornalista que, tendo à porta do prédio o paquete esperando a sua crónica para ser publicada no jornal e que, não tendo nem texto nem ideia do que iria escrever, resolveu arrasar o bei (governante) de Tunes, capital da Tunísia; o jovem viajante, escrevendo páginas emocionantes sobre a sua viagem ao Egipto; o homem religioso que, quase no fim, escreve sobre a vida de santos.

Há dois momentos da sua vida que considero comoventes para nós enquanto leitores. Leitores sobretudo da personalidade de um escritor. O primeiro momento é descrito por Raul Brandão no seu livro "Memórias", ocorrido na viagem que Eça faz ao Egipto acompanhado pelo seu futuro cunhado, o Conde de Resende. Ambos assistem à missa no túmulo de Jesus, em Jerusalém. Eça, profundamente emocionado pela situação, cai de joelhos em reverência. Quando o Conde de Resende levantou os olhos, dois ou três mil peregrinos tinham imitado aquele impulso emotivo, ajoelhando-se da mesma forma.

Outro episódio, mostrando o mesmo sentido de devoção profunda, é nos relatado pelo próprio Eça de Queirós, em "In Memoriam", colectânea de textos publicada em 1896 em memória de Antero de Quental. O testemunho de Eça tem o título sugestivo de "A um génio" que era um santo. Descreve como, andando em Coimbra, ainda estudante, numa noite macia de Abril ou Maio avistou sobre as escadarias da Sé nova um homem, de pé, que falava. "O homem com effeito cantava o Ceu, o Infinito, os mundos que rolam carregados d´humanidades, a luz suprema habitada pela ideia pura(...)". Deslumbrado, o jovem Eça toca o cotovelo de um camarada que lhe murmura entre gosto e pasmo: "- É o Antero!..." Sentados nos degraus da igreja, outros homens embuçados, escutavam, em silêncio e enlevo "como discípulos". "Então, (...) destracei a capa, também me sentei n'um degrau, quasi aos pés de Anthero que improvisava, a escutar, n'um enlevo, como um discípulo. E para sempre me conservei assim na vida."

sábado, 4 de dezembro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 112


Portugal
Cynthia Guimarães Taveira

Perdeste a memória
e a esperança
Perdeste a glória e o desejo
Perdeste a honra e a espada
Perdeste o mar e o sonho
Perdeste o esquadro e o compasso
Perdeste a juventude
e o sentido da diáspora
Perdeste as naus no grande mar
Perdeste a voz e o cantar
Perdeste a esmola de Deus
Perdeste o dom e o sacrifício
Perdeste os tesouros e os sorrisos
Perdeste a alma na lama
Perdeste a alegria e o sabor
Perdeste o saber e o ardor
Perdeste os filhos que hão-de vir
Perdeste a lança e o pendor
Perdeste a vitória e o dragão
Perdeste a virgem e o anjo
Perdeste a viagem a fazer
Perdeste a veste azul da bandeira
Perdeste a força da maré
Perdeste o gesto do sol posto
Perdeste o encanto do sol a nascer
Perdeste os cabos da dor
Perdeste a esperança no amor
Perdeste os poetas sem pudor
Perdeste a revolta de saber ser
Perdeste os cravos e o sangue
Perdeste Cristo nas escadas
Perdeste as escadas dentro de ti
Perdeste o rasto da serpente
Perdeste a caça ao outro mundo
Perdeste a graça
Perdeste a língua
Perdeste o escudo
Perdeste o nome
Perdeste tudo

Perdeste?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

É NOTÍCIA...

NO PRÓXIMO SÁBADO, ÀS 15:00, NA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE SESIMBRA
Lançamento da edição fac-similada da 1.ª série da revista A Águia, com a chancela da Al-Barzahk, com a presença do editor M. N. Vieira. Apresentação de Pedro Martins.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 111




(RE) CRIAR UM MITO PORTUGUÊS
Eduardo Aroso

As contradições do predomínio do pensamento lógico-racionalista, que ainda persiste, só poderão resolver-se, ou pelo menos atenuar-se, pela (re) criação de um mito. Fernando Pessoa disse que a sua maior ambição era a de ser criador de mitos. Natália Correia respondendo, de algum modo, ao apelo do surrealismo, escreve na antologia de poesia que organizou dedicada a esta corrente artística: «Não se trata de reabilitar os mitos legados pelo passado, mas de restabelecer as forças que nutriam a consciência mítica, utilizando-as para consumar o parto difícil de um mito moderno que a nossa época exige como única solução possível para as precárias condições de vida que nos oferece». Assim, à autora parece essencial o sopro ou espírito do mito para incubar um outro na contemporaneidade, o que acaba por ser o reconhecimento de algo presente na Tradição.
Enquanto que nesta primeira década do século XXI, que Natália Correia já não chegou a viver, o sentido do precário, de que nos fala, está quase todo ele atolado nas condições de sobrevivência alimentar, habitacional e pouco mais, já na sua época – que não foi substancialmente diferente da actual - a criadora de versos entre a ousadia lírica, a ironia e o mítico, reclamava outras condições de vida para a precariedade dominante, ontem como hoje, no sufoco do compulsivo pensamento lógico-racionalista.
Se (re) criarmos um novo mito que tenha o Sol como o maior herói de sempre, dispensador de alimentos, saúde e elevada inspiração para tudo o resto que a vida requer, é possível que ajude a solucionar o grave problema da chamada sustentação social. Assim, no presente mundo em que os habitantes vivem mais anos que no passado, eliminadas muitas doenças pelo científico aproveitamento solar e desenvolvimento da medicina, e na possibilidade de a idade gerar sabedoria, talvez a renda da casa, electricidade e algo mais estejam pagos.
Mas também não seria despicienda a ideia de um mito marítimo. E por que não um contra-mito? Bastaria que o sentido do medo e do não agir, na figura do Adamastor, se volvesse um Anjo luminoso. Mas esta é uma impossibilidade manifesta, a de haver apenas uma das partes, isto é, um contra-mito que não suponha um mito. Como se verá de seguida, temos tido esse contra-mito, face a face, por certo mais renhido em determinados momentos da nossa História. Tanto o ensino oficial como a grande maioria dos intelectuais portugueses têm recusado o mito do Desejado, embora ele subsista nos subterrâneos da nossa psique. Esta atitude, que vem de longe, foi-se estratificando na sociedade portuguesa, de tal modo que hoje temos uma egrégora que ronda as instituições: a da atitude imediata de obstrução, a do não, a do «isso é muito difícil», a de preencher mais um papel, corporizando assim um estado de espírito que, face a uma ideia ou projecto (sobretudo se for de índole portuguesa) logo surjam indesejados.
E, tal como entre todas as tradições mitológicas onde o pano de fundo é a eterna luta das forças das trevas contra as forças da luz, podemos conceber entre nós (não terá já existido desde o distante passado?) o confronto entre o Adamastor e o Arcanjo de Portugal. Mas não nos iludamos: apesar de vencido, o inimigo volta sempre, para provação do vencedor. Daí também o sentido destes tempos de decadência de Portugal. Resta-nos a esperança de que no combate entre as hostes das trevas e as da luz, somos e sempre seremos lusíadas!
Num ciclo já dilatado, em que Portugal foi descendo aos infernos ou corredores mais escuros da existência (fase involutiva do mito) só a luz solar - cujo prenúncio pode ser de novo um espiralado voo de águia (quem sabe se, desta vez, a imediata captação energética através da alma!), poderá ser redenção para tanta escuridão. Mas não tem sido a falta de claridade o pior dos cenários, pois na ausência há sempre ecos de alguma presença, mas a humilhação e a dilaceração provocadas à pátria portuguesa, cuja alma está hoje aturdida e por isso impedida de escutar e compreender as palavras de Agostinho da Silva: «o tempo que vivemos, se for mesquinho, amesquinha o eterno."

Eduardo Aroso
Outubro 2010

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 47


(Fotografias de Alberto Peixoto)

António Carlos Carvalho

Folheando papéis velhos (guardo poucos recortes do que escrevi nos jornais), encontrei um texto publicado exactamente há trinta anos. Lembrei-me então de visitar o hospital onde Fernando Pessoa morrera quarenta e cinco anos antes -- o Hospital de S. Luís dos Franceses, na rua Luz Soriano, em Lisboa. Levava comigo, como guia, a biografia de Pessoa escrita por João Gaspar Simões, em que este descrevia os últimos dias do poeta neste mundo.

Nessa reportagem descobri então a folha numero 13 do livro de registos do hospital, referente a Novembro de 1935. Lá encontramos assinalada a entrada de «Monsieur Fernando Pessoa» no dia 29, tendo recebido o número de ordem 1351. E a data da morte, 30. Segundo o mesmo registo, a sua estadia no hospital custou quarenta e cinco escudos. O funcionário de serviço não registou a sua morada, como fazia a todos os doentes -- porque se esqueceu? Porque não houve tempo para tal? Ou porque não havia ninguém para lhe dar essa informação? No entanto, o mesmo livro regista que este doente morreu de «cólica hepática»

Descobri também que, segundo rezava a tradição desse hospital, Pessoa tinha morrido no quarto número 30, situado no terceiro andar. Claro que esse quarto já não apresentava o mesmo aspecto que tinha nessa altura. Sofrera obras, tinham-no pintado de outra cor, tinham retirado os móveis antigos, substituindo-os por outros mais modernos e funcionais. Mas, seja como for, «alguma coisa», não sabia bem o quê, ficara ali, permanecia entre aquelas quatro paredes.

E então descobri ainda uma estranha coincidência: nesse mesmo quarto, trinta e cinco anos depois, em 1970, viria a morrer também Almada Negreiros, amigo de Pessoa…

Nunca mais me esqueci disto. E agora sinto algum reconforto reencontrando este recorte amarelado de jornal. Como se o passado nunca passasse realmente, na memória dos lugares, das coisas, das pessoas.

domingo, 28 de novembro de 2010

SABEDORIA ANTIGA, 2


Os olhos de Cabíria
Alexandra Pinto Rebelo

É de 1957 o excelente filme de Fellini, "As Noites de Cabíria" (no original, "Le Notti di Cabiria").
Cabíria vive num dos mundos pelo qual todos nós preferimos passar ao lado. Vive numa casa tosca, num subúrbio inenarrável da cidade de Roma. Prostitui-se, ganhando com isso algum dinheiro que vai pondo de parte. O local onde se mostra, juntamente com outras cúmplices de infortúnio, é um complexo de ruínas do antigo império romano.
Cabíria tem o sonho de encontrar alguém que a ame. Passa, por acaso, num velho teatro que apresenta, nessa noite, um espectáculo de ilusionismo. Cabíria entra e é escolhida por entre o público para ser parte integrante daquilo que se vai passar. Cabíria é hipnotizada, revelando perante uma plateia cheia de desconhecidos, que dela se riem, o seu sonho inocente.
No fim do espectáculo, um homem vem ter com ela. Oferece-lhe um café. O homem, tal como Cabíria, tem um olhar cansado, tão cansado, mas capaz ainda de algum brilho. Começam a encontrar-se com alguma regularidade. Ambos vivem num exílio da sociedade comum, exílio esse escolhido ou não (talvez nem os próprios saibam. E nós, saberemos?). Crescem os sorrisos e o brilho. Ao fim de algum tempo planeiam casar e comprar um pequeno negócio. Cabíria vende a sua casa tosca, levanta todo o dinheiro junto até então. Encontram-se num restaurante agradável fora de Roma, com vista sobre um lago. Cabíria leva um rolo enorme de notas, tornadas em símbolo que se metamorfoseou. Eram elas o resultado da sua vida de excepção, pela negativa, representando agora a base para o início do sonho que se irá cumprir. Mas cumprir-se-á?
O homem sugere-lhe ver o pôr-do-sol à beira do lago (ideia tão antiga esta do Sol se pôr, incorrecta, é certo, mas poética). Leva-a até ao topo de uma arriba. A testa dele sua demasiado. Compreendemos que algo está errado, muito antes de Cabíria. Ela tem os olhos ainda cheios de paixão. Escorrega, quase caindo. Nesse momento pressente o que aconteceu, o que acontece, o que vai acontecer. Os seus olhos mantêm a forma da paixão, mas são atravessados de dor, enchendo-se de lágrimas.
Com este texto apenas queria chegar aqui, onde cheguei: a este olhar de Cabíria. É um olhar humano, perfeitamento coadunado ao nosso plano humano. Há uma mulher tornada feliz que, no momento em que pressente a desilusão, junta dois sentimentos díspares no mesmo olhar. No entanto, este olhar também pode ser elevado ao plano civilizacional. Todos nós, os do Sul da Europa, ou de uma forma mais extensa, os do Mediterrâneo, compreendemos bem isto. O olhar de Cabíria são os nossos sonhos interrompidos. O olhar de Cabíria são as ruínas pelas quais passamos diariamente, representando a morte daquilo que foi projectado. Não me refiro só aos sonhos de um Cristianismo puro, aos de um Islão doce, aos dos Descobrimentos ou àquele do V Império do mundo. Refiro-me também aos sonhos mais práticos e mais recentes de uma sociedade justa, com emprego, baseada no mérito e no humanismo.
Este é o último sonho da Europa que está, agora, pleno das lágrimas de Cabíria. Qual será o final? Não falei dele propositadamente. O do filme é fácil de ver. O da Europa do Sul, logo se verá.

EXTRAVAGÂNCIAS, 110


Portugal sonhado
Cynthia Guimarães Taveira

Hoje acordei com um sonho estranho e com uma confusão paradoxal. Sonhei com a essência de Portugal. Era uma arriba que se elevava do mar praticamente na vertical. Uma arriba comprida para cima. Incrustada na arriba, em pedra branca, ligeiramente translúcida com laivos subtis de âmbar, estava esculpida uma cara de criança aí com uns três anos de idade. Essa cara era a proa de um barco e esse barco era Portugal. Não era uma jangada de pedra, era um enorme barco. A expressão da criança que havia sido esculpida era tão forte como o mar (nela havia determinação, inocência e uma certa violência contida). A criança, que era a alma de Portugal, tinha exactamente as mesmas propriedades que o mar. Do sonho ficou-me a lição: Portugal era, no seu âmago, todo virado para fora, Portugal era de natureza marítima, Portugal não era uma jangada de sobreviventes, era um barco imponente, carecendo de movimento.
O paradoxo é este: como é que estando a imagem de Portugal tão afectada pela miséria, pelo desnorte, pela corrupção, pelos sucessivos maus tratos de que é alvo se vai ter um sonho destes? Como é que o sonho tem a capacidade de retirar o excesso e de se ficar apenas com a essência? Com que mundos paralelos lidamos? Só somos saudáveis nos sonhos e esses sonhos são reais. Inesquecíveis pela concentração de mensagens, verdadeiros trampolins no espaço e no tempo, imprescindíveis se amamos a vida, irmãos gémeos da nossa alma, encobertos pelo sono. Mas estão lá.