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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

PONTES




Lima de Freitas sobre a palavra "meditação":

“Conviria aqui abrir um breve parêntesis para esclarecer o sentido deste termo - meditação - no contexto do pensamento religioso da Índia. Não se trata, com efeito, do sentido corrente da palavra. Aquele que contempla o iantra não medita de maneira “intelectual”, procurando simplesmente indagar o que representa a imagem e porquê, ou estabelecendo cadeias de associações de ideias a partir da imagem. Importa, ao invés - e de um modo dificilmente definível na nossa linguagem lógica e dualista -, estabelecer uma espécie de passividade activa, uma receptividade atenta mas esvaziada de todos os pressupostos, desprovida de impaciência de intuitos bem determinados. A verdadeira meditação (dhyana) implica uma rigorosa aplicação desprovida de de curiosidade mental, uma total e serena disponibilidade, uma concentração única liberta de todas as cadeias associativas automáticas ou voluntárias. Nessas condições, extremamente difíceis de realizar, é eventualmente possível verificar-se a emergência de uma modalidade inteiramente nova de compreensão, simultaneamente vibrante e serena, como uma maravilhosa claridade intuitiva, espontânea, capaz de penetrar a diversidade das coisas e de aí descobrir uma secreta unidade primordial onde se dissolvem os conflitos de opostos, as contradições do discurso, os nódulos opacos onde se congestionava a teimosia da ignorância (avydia).”

Lima de Freitas in “O Labirinto”, Edições Arcádia, 1975, pág. 269


Dalila Pereira da Costa sobre as condições de vinda do êxtase:

“Ele vem-nos sempre como uma chamada, súbita, mais que uma confirmação. Sempre um começo, nunca um fim. Sobretudo, nunca se assemelhando a uma recompensa, ou ligando-se, mesmo de longe, a qualquer coisa como a um mérito próprio; ou mesmo a uma distinção de puro e impuro. E assim, esta consciencialização, não irá originar um estado de possível expectativa, de espera? Quando, o que aparece como uma das condições mais necessárias da sua vinda, é precisamente nada esperar? Nada procurar, ou mesmo querer? Ainda menos, um qualquer esforço em sua direcção. Pois o que há nesse momento que imediatamente o precede, é unicamente um estado de presciência, ou de premonição da sua fatal e irrevocável vinda, aqui e agora: Mas que faz já parte dele mesmo, que já é o seu começo, como a aurora é já o dia. E então, o que há é unicamente um estado de simples receptividade. Que é simples abandono, ausência de esforço da nossa parte. E durante esse precioso momento, na sua total plenitude, um estado consciente do nosso lado, não seria de mais? Não seria esta posição uma intervenção? Intempestiva, que pesaria demasiado nesse momento, nessa vinda do Sagrado? Ele tão poderoso, imperecível, mas tão frágil. E de uma essência (e pela sua vontade?) que só se deixa ver num fugidio instante, mas nunca olhar fixamente, perscrutar. Poderoso e delicado: assim é que também só se deixará ver. E se haverá gesto, ou atitude possível (ou legítima) em face dele, no seu conhecimento, será unicamente um tentativa de o cercar. E um esperar que nos mostre, nos deixe ver, o que nunca tínhamos suspeitado nesta vida: o nunca visto.”

Dalila Pereira da Costa in “A Força do Mundo”, Lello & Irmão - Editores, 1972, pág. 49

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