
Instituto de Filosofia Luso-Brasileira
Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.


À MUDANÇA DA VIDA

Eduardo Aroso 
Cadernos de Filosofia Extravagante
: Universalidades
O Plutocrata + Universalidades
(preço promocional: € 15,00)



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António Telmo
71 – O homem: rei da Criação, ou aio da Criação?Para que o leitor não perca no caminho da leitura todo o sentido do que dizemos torna-se necessário dar algumas prévias informações, na hipótese de esse leitor não as ter já antes adquirido.
Com efeito, pertencem hoje ao domínio público certos dados exteriores da kabbalah hebraica, segundo os quais o Livro Sagrado terá vários sentidos sobrepostos em profundidade, do literal até ao anagógico, só apreensível este último por quem souber pensar as letras como significantes, senão como significados, trocando-as entre si, combinando-as em novas palavras, numerando-as, elevando-as até à ideia que elas representam. É um processo análogo ao apresentado por Platão no Crátilo. Os modernos linguistas nunca referem o Sepher Ietzirah ou o Sepher Hazzohar – o Livro da Formação e o Livro do Esplendor –, onde se expõe aquela doutrina, mas, dado o prestígio de Platão, o Crátilo não pôde ser escondido e, por isso, tem sido apresentado como a divina comédia da linguística antiga.
Os kabbalistas, apoiados no ensinamento contido naqueles dois livros hebreus, forneceram como chave de interpretação anagógica aquilo a que eles chama a Árvore Sephirótica. Representam-na habitualmente pelo esquema da figura 1.
figura 1: clique na imagem para a ampliar. Na figura faltam dois traços, que deveriam ligar a sephirah 1 à sephirah 2 e à sephirah 3.
São dez números e vinte e dois caminhos ligando-os uns aos outros; tantos como as letras do alfabeto hebraico. Segundo os kabbalistas, Deus manifestou-se ao mundo, que criou, formou e fez, por meio desses dez números e das vinte duas letras. Ao mundo da Emanação, constituído pelas três primeiras sephiroth, segue-se o mundo da Criação, formado pelo segundo triângulo, o mundo da Formação (terceiro triângulo) e por fim o mundo da Acção, o décimo número.No seu aspecto numérico, a Árvore Sephirótica corresponde exactamente à tetrada pitagórica, aos quatro primeiros números que somados perfazem dez, o número da totalidade completa em si. É no Crátilo que se encontra o mesmo ensinamento relativo às letras.
Era inevitável que tão estranha concepção viesse a ser considerada uma expressão da mentalidade mística, incomparável com a sóbria seriedade de uma verdadeira teoria da língua, à qual se pretende dar um fundamento científico. No período do romantismo, ainda houve linguistas que tentaram atribuir significados às letras e aos fonemas. A ligação da origem das línguas feita por Herder às onomatopeias e interjeições deve-se talvez às sugestões provindas da kabbalah. Todavia, Ferdinand Saussure acabou definitivamente com as pretensões de certos linguistas ao considerar completamente arbitrária a relação do significante com o significado. Curiosamente, foram os estruturalistas, que se dizem discípulos ou continuadores de Saussure, que encontraram a sua ideia de estruturas fonéticas e de traços distintivos na própria kabbalah. Benjamin Lee Worf declara ter recebido o primeiro, decisivo e sério impulso no livro do teósofo Fabre d’Olivet, A Língua Hebraica Restituída, e nas árvores de Noam Chomsky é possível ver a remota projecção da árvore sephirótica.
De tudo isto se falará adiante. Para já, o que nos importa é verificar que a língua portuguesa se desenvolve, como aliás todas as línguas, sobre dez elementos simples, que, por sua vez, se desdobram em vinte e duas consoantes, exactamente os dois números que organizam a árvore sephirótica.
O leitor perguntará: como dez elementos e vinte e duas consoantes? É isso que nos propomos em seguida mostrar.
Diga-se primeiro o que se entende por «elemento».
A designação de «elementos» dada por Platão e restantes filósofos gregos às letras do alfabeto encontra-se também no Sepher Ietzirah. Elementos e não fonemas. Dizem os historiadores da linguística que os antigos gramáticos não distinguiam as letras dos fonemas. É completamente falso. Platão, por exemplo, distinguia-os tão bem que só considera fonemas as vogais. Aconselha no Filebo, como se estivesse a criticar os foneticistas do século XIX, que se procure determinar a indefinida variedade sem termo da voz humana. Entre o uno do som e o seu múltiplo, deve-se sim pelo contrário determinar os grandes géneros que, segundo ele, são três: o das vogais, o dos áfonos e um terceiro constituído por sopros e vibrações. Esta divisão corresponde à dos vários mundos indicados na árvore sephirótica, como veremos depois. É, em termos modernos, a das oclusivas (B, D, G, etc.), das fricativas (F, V, X, J, etc.), das vibrantes (R, L, etc.), e a das vogais.
Como dissemos, só as vogais são vozes. Para a consoante ser fonema, tem de apoiar-se numa vogal. Em si não tem som, é um elemento puro, um simples e um indivísivel. Será por esta mesma razão que o alfabeto hebraico é constituído só por consoantes, vinte e duas.
Está aqui uma noção decisiva. De se aceitar ou não como princípio da língua o elemento, depende a orientação da linguística. Os modernos, para os quais a matéria-prima de uma língua é o fonema e não o elemento, isto é, que consideram a sílaba a unidade mínima, desenvolveram um tipo de «ciência» radicalmente diferente, que fatalmente viria a subordinar a linguística, vendo nela um capítulo da semiótica, tal como foi definida por Saussure. O homem, diz-se então, pode utilizar fonemas, ou desenhos, ou cores, ou qualquer outro sistema de sinais para comunicar o que pretende comunicar. As línguas são espécies de um género que é a linguagem, le Langage.
Se, porém, é um indivisível ou um invisível que constitui o fundamento material da palavra, o homem não o utiliza, fala-o. É dele que a palavra emerge. Não é o outro que a linguagem vai colher para lhe dar sentido. Ele é o próprio sentido e, por isso, tudo se passa como se não tivesse sentido nenhum.
(continua) António Telmo
excerto fac-similado da carta de Álvaro Ribeiro: clique na imagem para a aumentar
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Amanhã, será aqui publicada uma carta inédita de Álvaro Ribeiro, dirigida a António Telmo aquando da publicação, na revista Escola Formal, do artigo Gramática Secreta da Língua Portuguesa, que esteve na origem do livro homónimo, de 1981, que o desenvolve, e que viria a ser integrado em Filosofia e Kabbalah, de 1989. A publicação da carta antecede, de muito perto, a do próprio estudo de António Telmo, que, durante a próxima semana, será dado à letra de forma nesta página. O editor permite-se chamar a atenção do leitor para a carta do filósofo da razão animada. Nela se revelam as ressonâncias que o escrito do discípulo causou no espírito do mestre. Mas a missiva vale também como um importante documento, porventura surpreendente, porventura impressionante, decerto indispensável a quem se dedique à feitura da história da filosofia portuguesa.




Álvaro Ribeiro (excerto retirado de A Razão Animada, INCM, 2009)
Cá em Portugal há, ou antes, havia, porque se zangou e com razão com o país, alguém que tentou fazer o mesmo, associando à arte a vertente da educação pela natureza. Falo obviamente de Maria João Pires, mais do que uma grande pianista, uma mulher vinda de um futuro que nada tem a ver com o futuro que nos querem impor. É claro que Maria João Pires deve ter sido considerada pelas nossas elites políticas (que estão sempre associadas a outras elites artísticas altamente duvidosas) como sendo uma excêntrica, uma louca e quiçás uma patetinha. Fazer uma casa no meio de nada, num meio rural e interior, onde as crianças podiam ser educadas nas artes e no respeito e amor pela natureza, não mereceu qualquer resposta de aprovação ou qualquer incentivo que se notasse por parte de abutres que nada percebem sobre a condição humana. E a visionária, tal como Agostinho da Silva, partiu para o Brasil porque lá há espaço e ainda há quem sorria perante as ideias loucas de um futuro diferente.A Orquestra Sinfónica da Juventude Venezuelana Simón Bolívar, sob a direcção do maestro Gustavo Dudamel
Aguardando a queda do touro, após a estocada
Mas a minha pergunta fazia sentido, com ironia e tudo, porque bem sabemos por cá (pelo menos alguns de nós) que os brasileiros transformaram «stock» em «estoque», ignorando que «estoque» é uma «arma branca comprida e direita, de forma prismática e que só fere com a ponta», como diz o dicionário. E também sabemos, ou começamos a perceber, que o tal (des)Acordo é uma cedência às normas que os brasileiros inventaram – e que nós, obedientemente, vamos aplicar a partir do próximo ano, para honra e glória da língua portuguesa, claro. Ou seja, vamos agora assistir – ver, ouvir e ler – a muitas mais destas verdadeiras estocadas na língua comum, dadas na arena triste dos jornais, das legendas dos filmes e das séries, dos textos da Internet e dos próprios livros. Um dia destes só nos restará, para não nos indignarmos muito mais, ler apenas o que se publicou antes da instauração desta ditadura. E, como em todas as ditaduras, a palavra de ordem é – RESISTIR!


Eduardo Aroso
(clique sobre o nome dos autores para saber mais)
Alexandre Teixeira Mendes: Poética (e configurações) marrana(s)
António Carlos Carvalho: A noz
António Telmo: A identidade religiosa de Luís de Camões; Carta a Pedro Martins
Avelino de Sousa: Neve (sonho); Um galo a Asclépio; Livre interpretação do mito de Teseu e o Minotauro
Cynthia Guimarães Taveira: Coincidências
Elísio Gala: Repensar o problema da filosofia portuguesa
Isabel Xavier: Dois poemas
Luís Paixão: Os templos do pensamento português
Maria do Resgate Almadanim: Carta ao professor
Paulo Júlio Guerreiro dos Santos: Páginas de autobiografia espiritual
Pedro Martins: Uma heresia de Pascoaes
Pedro Paquim Ribeiro, sob o pseudónimo de Fuas Paquim: Para o preâmbulo de um estauto senatorial
Pedro Sinde: Harmonia abraâmica: o triplo anel ou a herança de Portugal
Rodrigo Sobral Cunha: Sê, para que tudo seja (o som abstracto)
O desenho da capa é da autoria de Carlos Aurélio.
O interior dos Cadernos tem ilustrações de Cynthia Guimarães Taveira e fotografia de Tiago Sobral Cunha.
Os Cadernos estão à venda nos seguintes locais:
CALDAS DA RAINHA
Livraria 107
LISBOA
Associação Agostinho da Silva; Galeria Matos Ferreira
MONTEMOR-O-NOVO
Livraria Fonte de Letras
PORTO
Clube Literário do Porto
SETÚBAL
Prima Folia; Livraria Culsete; Livraria Universo
O p.v.p. é de 10 euros.
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