(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



segunda-feira, 6 de setembro de 2010

REENTRAR NA «CATEDRAL», 2



Tempo

Isabel Xavier

Já dissipada está a ficção do tempo
A morte enrolou-se a cada instante
A noite mais longa transporta no vento
Um coro de estrelas em prece distante.

É a hora da penumbra da manhã
Única em que Deus ainda visita o mundo
Todas as restantes horas são a vã
Memória alada de um distúrbio fundo

E há uma profunda melancolia em redor
Não sei se eu a crio se vem ter comigo
Sei que o próprio espaço constrói arredores
Subúrbios indistintos do meu ser, fascínio…

Desconfio às vezes que a loucura é isto
Ouvir-me e em mim outro que fala
Espelho de mim mesma, à vida conquisto
Mas só no destino em que a morte cala

O distante próximo de cada momento
Nada que é completo, vazio de opostos
Do que não chega a ser, o pressentimento,
Suores da alma a alheios olhares expostos

Não sei se do que a alma padece o corpo sabe
Nem se do que o mundo sofre a alma sente
Sei que o vento sopra, a chuva chove e o sol há-de
Romper a noite com sua luz quente!

16 DE SETEMBRO: HOMENAGEM A ANTÓNIO TELMO NA BIBLIOTECA NACIONAL


Lisboa. Nesta sessão, a partir das 18:00, será apresentada a obra O Portugal de António Telmo, organizada por Rodrigo Sobral Cunha, Renato Epifânio e Pedro Sinde, “um livro de homenagem, que o autor teve ainda a oportunidade de contemplar”, segundo uma nota do grupo Babel.
Participam na sessão Pedro Sinde, Renato Epifânio, Rodrigo Cunha e ainda o escritor Miguel Real e o filósofo Pinharanda Gomes. O Portugal de António Telmo inclui textos inéditos do filósofo, dois dos quais fac-similados, fotografias, e testemunhos de outros autores como Orlando Vitorino, num total de 356 páginas.

domingo, 5 de setembro de 2010

O CAMINHO DO CAMINHO, 15

Cynthia Guimarães Taveira


Alegoria da Justiça
, de Albrecht Dürer


A respiração da justiça
Nascera com o estranho dom de sentir no corpo tudo o que se passava no seu país. Se colasse um mapa do seu país ao corpo coincidiam. O país era o seu próprio corpo. Não sabia porque tal tinha acontecido. Nascera fora desse país mas depressa, ainda com meses, fora obrigado a voltar pelas mão do destino. O destino não permitia que ele vivesse numa outra pátria. E assim, por estranhos acasos, um dia deu-se conta de que tudo o que acontecia no seu país de alguma forma tinha reflexos no seu corpo. Se havia um atentado, uma sabotagem com políticos que morriam e que, com a sua morte, mudavam o rumo do pais, logo o seu corpo entrava em choque sem razão aparente. A taquicardia iniciava-se num bailado descompassado e, por horas, não sentia outra coisa sem ser o coração a bater. Achava estranho este fenómeno. Ser português implicava sempre esta ligação ao corpo? Perante situações de injustiça a que assistia sentia-se cegar momentaneamente, e a ira tomava conta dele, ao ponto de perder a razão. A injustiça provocava-lhe a cegueira da justiça. Uma espécie de abismo que se abria perante ele, com nenhuma sabedoria oriental, capaz de morrer como um herói celta por uma causa, num ápice, numa entrega absurda. Sofria de tremores sempre que um político ganhava as eleições e dava com ele a culpabilizar o povo que, bem vistas as coisas, não era culpado de nada a não ser de se deixar manipular facilmente. Por outro lado, sempre que assistia a um acto extraordinariamente doce, sensível e humano do seu povo, desfazia-se em lágrimas de amor. Chorava convulsivamente sempre que um gesto de solidariedade genuína, de entrega ao próximo ou distante acontecia. Via ali a origem de um mundo novo, como um nascimento, um parto para a verdadeira luz. Mas erguia-se nas tabernas sempre que, juntos, os homens bebidos apontavam o dedo a quem não conheciam senão através dos ecrãs, numa espécie de vício nacional inquisidor. Erguia-se com vontade de lutar com todos eles. Amava a justiça e não o sabia. Por vezes sentia-se mesmo a justiça. Aconteceu-lhe um dia, fraco em tamanho e em corpo, erguer-se perante skinheads, e tentar agredi-los nessa justiça cega. Era uma ira sofrida. Porquê detestar um negro só porque é negro? Porquê esse ódio gratuito e diabólico? Porque é que o ódio dos outros o fazia ter ódio também? Seria isso justo? Por mais que digam que não, dizia de si para si, a justiça está ligada à vingança, só ela pode repor as coisas no seu lugar. A justiça, aliada à vingança, era o contraponto da injustiça. Os próprios Templários sabiam-no. Mas, dentro dele, e do seu corpo que era o seu país tinha a certeza serena de uma coisa: no fundo, bem lá no fundo da sua alma não poderia nunca julgar ninguém. Nunca teria todos os factos, nunca poderia ver todas as nuances da alma, nunca poderia ter uma perspectiva de todas as circunstâncias, contextos e condições, nunca saberia o “como” de entrar no coração dos homens. Nunca seria justo, porque justo só o era Deus. No entanto, o seu coração pulsava sempre quando assistia a uma injustiça. De onde viria esse valor? De que raiz divina provinha essa espontânea vontade de repor as coisas nos seus lugares e de elevar a verdade acima da mentira? Afinal, também a justiça era um enorme mistério, um segredo camuflado no reflexo dos espelhos da consciência. A respiração da justiça oscilava entre pólos de consciência. A justiça era um ser vivo, autónomo, belo, perigoso, que sendo de todos não era de ninguém. Assim como o amor. E Portugal era um corpo sensível como um dente-de-leão levado pelo vento: ora a caminho da sua destruição, ora a caminho do céu, da sua sublimação.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 91


Crónica quarta da beira-mar
Eduardo Aroso

Atirar um papel para o chão ou lançar uma garrafa vazia para um sítio impróprio é um acto que revela tanta falta de civismo como um autarca que atira para o fundo da gaveta um requerimento de um cidadão respeitável que quer ver a sua vida andar para a frente. A cena viu-se ontem aqui na praia. Um rapaz não esteve com meias medidas: depois de ler, atira o jornal para a areia, quer, depois, o vento o levasse ou não. Isso era assunto de metereologia!

Afonso Botelho
Nessa noite – porque tinha trazido o livro comigo para uns dias de férias – começo a reler o mundo admirável do civismo que Afonso Botelho descreve na sua obra Origem e Actualidade do Civismo, edições Terra Livre, 1979. Tão admirável como desejável a problemática do civismo, conceito mais amplo que a actual cidadania, que parece contentar-se com pouco. Jaime Cortesão enfatizava que civil é aquele que sabe que existe o outro e, por isso, respeita-o no pleno sentido.

Civismo tão necessário como água para apagar os fogos que calcinam o corpo físico da pátria, cuja alma não sabemos onde se encontra: se no céu, se no inferno, ou num nirvana de onde nada diz. Num tempo em que quase todo o cidadão se deita com a culpa de que não sabe do seu ofício e daí por uns dias já tem que fazer outra acção de formação (às vezes formatação), deveria este ímpeto ser aproveitado no ano do centenário da república, para profícuas leituras sobre o civismo e depois aulas práticas em qualquer lado, o que para além do alcance cultural, dado o estado da sociedade, seria uma obra de misericórdia. Começando por aqueles que se sentam na assembleia constituinte até ao povo mais simples.

Aqui fica a sugestão. Em vez de se pagar aos que fazem discursos mais ou menos oficiais nestas comemorações dos 100 anos, melhor seria que as entidades disponibilizassem um pacotinho, ou, mais simplesmente, organizassem uma antologia de textos de figuras que tanto meditaram e escreveram sobre o assunto. Entre outros: Jaime Cortesão, António Sérgio, Agostinho da Silva, o citado Afonso Botelho, o já esquecido e ainda há não muito tempo falecido, Alçada Baptista, e aqueles, felizmente ainda entre nós, como é o caso de Pinharanda Gomes, por exemplo, na obra Meditações Lusíadas, onde se lê cruzado ou em linha recta, as múltiplas implicações do civismo enquanto estado de espírito, como os antigos o entendiam na polis e na urbe, e, neste caso, na terra lusíada onde o civismo é susceptível de se confundir com o sentido religioso do espaço.
Agosto de 2010

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

REENTRAR NA «CATEDRAL», 1


Catedral
Isabel Xavier

Quero escrever este poema
Como quem cumpre um ritual
Achar, nas palavras, a pureza
Anterior ao pecado original.

Como quem eleva acesa vela
Sobre hóstias de palavras consagradas
Saber de entre elas, aquela
Que insondável, única, bela
À luz de mistério que o vitral revela
Revele verdades reveladas.

Quero escrever este poema
Como quem cumpre um ritual
Dizer a palavra que devolva
A pureza da água baptismal.

Entre revoltas nuvens de incenso
Desvendar o simbólico local
Onde, além do Ser, além do Tempo
Se separa o Bem e o Mal.
Nas forças, orando, invocadas
Busco o primeiro sentido das palavras
Aspiro a verdades inspiradas.

Quero escrever este poema
Como quem cumpre um ritual
Descobrir, no Verbo, a beleza
Com palavras construir a catedral.

EXTRAVAGÂNCIAS, 90


Nos 100 anos da República como estão a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade?
Evocando o Sesimbrense Virgílio de Mesquita Lopes*
Luís Paixão
2.ª parte [leia aqui a 1.ª parte]
Coincidente com a divulgação da tríade acima referida, no período republicano vivia-se também em Portugal o advento do positivismo de Augusto Comte, que foi pensado e ensinado principalmente pelo ilustre patriota e presidente da Republica Teófilo de Braga, passadas que estavam as obscuras idades teológicas e metafísicas da humanidade. Perseguia-se cegamente o teísmo, em muitos casos por rancor à memória dos terríveis actos da inquisição e divinizou-se a Humanidade e a República numa espécie de deusa feminina de belo perfil com um barrete frígio, mais próxima das Senhoras do Ó ou das deusas da fertilidade, do que das Virgens católicas. A nova religião estava instituída. Num país mariano e panteísta, a substituição foi fácil. A divulgação da obra de Henri Bergson oposta ao positivismo, com a importância dada por alguns dos membros da geração da Renascença Portuguesa à intuição intelectual, ainda estava no seu começo, não chegando a ser a devida, pelo triunfo da geração da Seara Nova e do racionalismo de António Sérgio.
Neste ambiente de turbulência ideológica e, simultaneamente, de esperança de redenção, muitas foram as almas generosas que se entusiasmaram e entregaram as suas fortunas e vidas ao ideário patriótico e republicano.
Virgílio de Mesquita Lopes, que muito justamente tem hoje o seu nome inscrito numa rua que atravessa o coração da vila de Sesimbra, foi uma dessas almas. Maçon de grau 33
[1]; Grande Tesoureiro do Grande Oriente Lusitano no período do Grão Mestre Magalhães Lima; Presidente da Câmara Municipal de Sesimbra, de 1913 a 1917, pelo Partido Democrático republicano, num período extremamente difícil da vida do País: o envolvimento na 1ª Grande Guerra, a fome, o poder da rua, as lutas internas dos republicanos entre democratas, evolucionistas, unionistas e monárquicos (na época apenas tolerados). Num período de enormes dificuldades económicas, Mesquita Lopes soube segurar o leme da Câmara, vindo a executar parte das obras de abastecimento de água potável à vila de Sesimbra (lembre-se a Fonte Nova situada no largo com o mesmo nome). Homem da razão prática, progressista e activo, viveu o tempo de abertura à sociedade e de exposição pública do Grémio Lusitano, em sessões de beneficência ditas brancas, onde participavam todas as famílias no exercício da virtude da generosidade. Cabe aqui referir o seu papel na resolução da epidemia da pneumónica que assolou Sesimbra no período da guerra, e que foi debelada pela contribuição decisiva de um homem seu contemporâneo e amigo, o Dr. Aníbal Esmeriz, o qual veio a falecer por contágio, num episódio de santidade civil tão raro e que revelou o mais alto espírito de liberdade, igualdade e fraternidade. Nas cerimónias fúnebres, quem fez o discurso in memoriam foi Virgílio Mesquita Lopes, num registo apartidário e humanista que muito revela da grandeza do seu carácter e das suas qualidades como ser humano, e do qual não posso deixar de transcrever alguns elevados trechos ilustrativos[2].
Mais tarde, já depois de ter sido Presidente da Câmara, veio a envolver-se num projecto de desenvolvimento do distrito, que dirigiu: a linha de caminho de ferro Tejo-Oceano-Sado (também uma tríade!) que ligaria Cacilhas, Sesimbra e Setúbal. Por razões que escaparam à sua vontade e que se devem à deslealdade de alguns amigos próximos, e também ao estado de balbúrdia das instituições que exerciam o poder no País, o projecto não se chegou a realizar, tendo ficado apenas pela colocação de umas primeiras linhas em Cacilhas. (Hoje, passados quase 100 anos, ainda só existe a ligação a Setúbal). Por esta razão, a família de Mesquita Lopes vem a perder todas as suas posses e, no alvor da implantação da ditadura do General Gomes da Costa, é preso e condenado ao degredo na ilha do Sal. Um conjunto significativo de pessoas das mais diferentes origens e dos mais diferentes credos interessaram-se pela situação e, in extremis, quando Virgílio já estava na fila de embarque, é-lhe conseguido o indulto, sendo absolvido. É nesta altura que escreve um texto de agradecimento, no qual, perante a possibilidade da perda objectiva da sua liberdade, os valores da igualdade e da fraternidade sofrem uma ascensão para um plano ético onde se verifica que, afinal, a fraternidade, numa hierarquia insuspeitada, também abrange os inimigos políticos (na resolução do seu caso, a intervenção de um aristocrata terá sido decisiva), e não apenas os do seu partido, que, por sinal – e sem, por pudor, os referir –, foram alguns dos que o traíram:
“Mal pensava eu que ao atingir esta altura da vida, teria de pôr o meu coração a sangrar de agradecimento nas mãos de centenas de pessoas, no número das quais avultam os dos meus inimigos políticos.
A minha prisão a que por falsas e desleais denúncias fui submetido ultimamente deu-me ensejo a conhecer a magnanimidade de pessoas que, inúmeras pessoalmente, por telegramas, por cartas e por outras formas me protestaram a sua amizade ou muito simplesmente a sua cativante simpatia.
As horas amargas do encarceramento sobretudo as do Domingo 20 do corrente, domingo magro, em que já estava na formatura para embarcar, nunca mais as olvidarei; e por este mesmo motivo as demonstrações de afecto e de carinho que recebi trazem-me a alma a transbordar de gratidão.
Nunca a política me serviu para meu lucro pessoal.
Não me faltaram oferecimentos e alguns de incontestável valor.
Renunciei a conveniências e servi sempre princípios.
Se incomodei amigos foi para servir amigos que, para mim, contem mais do meu esforço do que do favor alheio.
A situação penosa em que me encontrei, trouxe-me revelações e desenganos. Gentes a quem nada fiz encheram-me de atenções; pelo contrário outros me fizeram o vácuo…
Não lembrarei estes.
Para todos os que se lembraram de mim, vai neste momento renunciando a todo o partidarismo, quero ser e ficar só republicano., a minha mais viva gratidão.
Á Ex.mª.Camara Municipal de Cezimbra protótipo da dignidade administrativa; às agremiações aos amigos e aos antigos correligionários; aos inimigos políticos; á Direcção da Companhia Tejo- Oceano-Sado, etc. aqui fica o meu cumprimento de profunda e sincera gratidão já que não posso fazer pessoalmente
...
Obrigado, muito obrigado.
Lisboa 28 de Fevereiro de 1927

Não obstante o carácter discreto deste escrito, considerei ser a sua divulgação uma exigência, porque muito do que está expresso neste agradecimento deveria servir de guia para a actividade política em Portugal, e para as gerações que hão-de vir a exercer o poder.
____________
* Versão integral do artigo recentemente publicado no jornal SUL. Foi um dos últimos escritos que António Telmo leu.
[1] A ave que aparece desenhada no avental deste grau é o Pelicano alimentando as crias com o seu sangue, o qual, como se sabe, tem altíssimo valor simbólico.
[2] “Era em Março de 1914. As lutas políticas eram acesas, referviam em Cezimbra. Vivos estão quasi todos os contendores e não é aqui o momento para apreciar prélios dêsse período agitado, em que a propósito de tudo e de nada se desencadeavam furias tremendas.
“Sei bem que tive de lutar com atrictos de vulto e influencias de pezo para nomear o candidato que melhores provas apresentou para a vaga deixada pelo Sr. Dr. Sá e Melo.
“Trabalhando só e exclusivamente pelo bem e pelo engrandecimento de Cezimbra não procurei saber da cor política do pretendente; eram elevadas as classificações académicas, as mais elevadas de entre todas as que concorriam; as informações sobre a honorabilidade não podiam ser mais lisonjeiras, e então não hesitei um ápice, na escolha do medico. A 24 do referido mês e ano a Comissão Executiva nomeava o Dr. Esmeriz medico municipal, e o Senado Camarario confirmava em 11 de Abril a nomeação feita sendo a posse conferida quatro dias depois.”
O trecho que acabo de transcrever, retirado do folheto intitulado Consagração Póstuma em homenagem aos falecidos mutualistas Srs. Dr. Antonio Anibal de Araujo Esmeriz e José Bastos (Lisboa, Minerva Lisbonense, 1923), ilustra bem o superior sentido da Liberdade que norteava a acção de Virgílio de Mesquita Lopes. Do mesmo documento, tenha-se ainda presente um outro extracto, pelo qual facilmente se infere a importância que atribuía aos três valores da tríade:

“Porque o Dr. Esmeriz, pelos sacrifícios da sua enorme dedicação ao serviço dos miseraveis, constitue um alto ensinamento para a sociedade, e é como que um convite a iguais altruismos, ficando o seu nome um simbolo, e a sua memoria uma saudade.
“A sua presença á beira de um leito inspirava, pelos bons modos do medico, aquela confiança, aquela esperança, que não curando o doente o alivia imenso, deixando-lhe a impressão de que não morrerá.
“Cumpriu ele a sua missão de medico como se para esta carreira o tivesse levado o pendor da sua vocação, quando a verdade é que a maior ambição na sua mocidade, e uma grande pena que o acompanhou pela vida adiante, foi o não ter podido seguir a carreira de uma arma superior do exercito, por via da sua débil constituição fisica.
“Mas porque caracteres de boa tempera são-no em qualquer ocasião e sempre, o medico só porque voluntariamente o foi, jamais perdeu de vista o que devia a si e aos outros, no cumprimento rigoroso das suas obrigações profissionais. Se fôra militar, honraria a farda pela pratica das virtudes que a honra da nação requere; foi medico, e adaptando-se, integrando-se no seu nobre oficio, pobres e abastados, todos tiveram ensejo de conhecer a mais bela alma servindo a mais humanitária profissão.”

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

PEDRO BAPTISTA GONÇALVES DIXIT

Ao Prof. António Telmo - a memória perene de Portugal



António Telmo - o ancião de Estremoz deixou-nos ontem.
O Prof. é como aquele que busca a Regra de Ouro. Não lhe importava, como o verdadeiro guerreiro, se a morte é o resultado da batalha. O que importa é se há algo genuíno na acção.
Na nossa última conversa, em Estremoz há um mês precisamente, falámos longamente sobre a influência dos alimentos na saúde. Ele explicou-me o que estava a passar, e de como simplesmente aceitava aquela "fase da vida" e estava a tratar-se com meios que achava adequados, tendo recusado abordagens violentas.
Quando lhe falei dos sumos que uso há longo tempo, ele recordou-se de alguém estrangeiro que tinha conhecido e que nem sequer comia pois alimentava-se do Sol.
Vejam:http://arautodofuturo.wordpress.com/2009/09/16/sun-gazing/
Ele era mesmo assim: um dia chegados à rua onde morava, escutámos o Tejo (o seu Serra da Estrela) a ladrar, ele explicou com os olhos a brilhar: " Escutou Pedro? O Tejo sentiu a minha presença: para ele todos somos cães e eu serei o chefe da matilha" Rimos juntos com a visão do mundo do Tejo...
Estaremos juntos para honrar a sua presença por aqui, do nascimento à morte, na Vida que como o Prof. escreveu: "palavra que não tem contrário", e acrescento, continua sempre, como diz nesse site “Jamais houve um tempo em que eu não existisse, nem você… nem há um futuro no qual deixaremos de existir”.
Nunca esquecerei os concelhos que ele me deu sobre a educação de crianças, o livro "O horóscopo de Portugal" e afinal a presença brilhante que mais do que nas palavras escritas confirma a genuinidade delas e brilha para sempre. Como a de Agostinho da Silva.
Este blog é a minha resposta ao desafio que me fez: "Tem de escrever, pois se o faz para si porque não partilha com quem quiser ?". Um jovem sempre contagiante foi quem eu conheci na sua pessoa, Prof. António Telmo. Obrigado.
PS: António Telmo foi autor de extensa obra, entre ela "A História Secreta de Portugal".para saber mais: http://filosofia-extravagante.blogspot.com/

EXTRAVAGÂNCIAS, 89

Nos 100 anos da República como estão a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade?
Evocando o Sesimbrense Virgílio de Mesquita Lopes
Luís Paixão

A Cidade é a expressão física da Politica. Esta afirmação poder-nos-ia levar muito longe na identificação dos males e dos bens da vida em sociedade e da sua correspondência na fisionomia, nas feridas ou nas cicatrizes da urbe. Não é esta, contudo, a intenção do presente escrito. Quero apenas, e por agora, deter-me nalguma toponímia ligada à Republica, para vos dizer ao que venho:
A I República, não obstante todas as vicissitudes, está bem expressa em Lisboa, em Setúbal e noutras cidades – nas designações de ruas, praças, avenidas e edifícios. Sejam elas evocativas de datas: Rua 31 de Janeiro, Avenida 5 de Outubro, Rua 2 de Abril; ou de figuras notáveis: Almirante Reis ou Cândido dos Reis, Braamcamp, Elias Garcia, dos Combatentes ou, por ultimo, da própria República em Lisboa e em Sesimbra (antiga Rua Direita) e dos seus valores: as várias avenidas da Liberdade. Estas designações estão presentes nas conversas do dia-a-dia dos cidadãos, apenas por razões de orientação, porque poucos serão aqueles que sabem os acontecimentos que evocam, os feitos das figuras públicas ou o verdadeiro sentido dos valores ou instituições nomeados. Pelo que me diz respeito, sou mais favorável à designação dos valores ou ideias universais, como por exemplo as referências nas ruas medievais às virtudes teologais. Estes nomes, que existem no centro antigo da cidade, deixaram de fazer parte do léxico de muitos dos jovens que já nasceram nos bairros periféricos, com os seus centros comerciais, e circulares CREL ou CRIL, perdendo, infelizmente, a possibilidade de lhes ocorrer as perguntas iluminantes: O que aconteceu de importante nesta data? Quem eram e por que eram notáveis?
O que significam aquelas palavras, aqueles conceitos?
O movimento centrifugo que levou ao aumento da população nas periferias das cidades e à consequente desertificação do centro, e ao qual Lisboa, Setúbal e outras cidades não escaparam, conduziu àquilo que modernamente se designa por efeito “donut”, forma que é de certo modo o inverso da esfera e que evoca um preocupante vazio no centro. Ocorre-me a primeira frase de um poema de David Mourão-Ferreira a propósito de Lisboa: “Capital! Ó Capital! Capital decapitada”. Seja ela capital de um País ou de um distrito.
Entre a baixa do Marquês de Pombal com as suas ruas Augusta, da Prata e do Ouro de altíssimo valor simbólico, e a rotunda onde se entrincheirou e combateu Machado Santos nos dias 3 e 4, comemorando a vitória no 5 de Outubro de 1910 existe a avenida da Liberdade, valor que, com outros dois, faz parte dessa tríade luminosa da LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE tão do agrado dos republicanos. Já por várias vezes me interroguei onde estariam as duas outras avenidas que faltam: será que ficaram pelo caminho, será que existiram e lhe mudaram os nomes ou será que houve uma súbita e conveniente amnésia? Qualquer que tenha sido o caso, não deixa de ser relevante que a tríade haja sido amputada de dois termos, o que retira sentido ao que ficou, porque nenhum deles pode ser vivido e pensado sem os outros dois.
Por centelha patriótica à laia dos primeiros republicanos, não posso deixar de realçar que a criação desta tríade de carácter cristão foi atribuída pelo ilustre escritor francês Osvaldo Wirth ao português Pascoal Martins, obscuro judeu de modesta profissão (reparava carruagens), autor de um luminoso e difícil livro que se intitula Tratado de Reintegração dos Seres Viventes…, editado entre nós em 1979 com tradução e prefácio de Manuel J. Gandra nas Edições 70. Esta obra de carácter completamente espiritual parte da constatação de que homens e mulheres são anjos caídos e aspiram nas suas vidas, como o titulo indica, a esse estado idílico e inicial vivido no Paraíso.
O autor, nascido em 1715 (?) e falecido em 1779 em Port au Prince, já adulto saiu de Portugal com destino a França, provavelmente em busca de melhor vida. Passou uma má temporada em Toulouse, e fixou-se depois por um longo período em Bordéus, onde foi muito bem recebido e fez escola, vindo a exercer significativa influencia nos meios intelectuais e da maçonaria franceses atraindo discípulos e prosélitos, entre os quais estão nomes como Saint-Martin, o abade Fourier, Balzac, Joseph de Maistre e o muito ilustre maçon francês da cidade de Lyon, Jean Baptiste de Willermoz. Terá criado uma ordem designada por Les Elus Cohen, que virá a ter decisiva influência na criação da maçonaria cristã do Rito Escocês Rectificado, da qual terá feito parte o nosso ilustre mártir, o General Gomes Freire de Andrade.
Segundo estes dados biográficos, não estava seguramente no espírito do nosso Pascoal Martins a utilização das palavras da tríade para propósitos ou bandeiras de divulgação de estreito positivismo ou materialismo. Com efeito, quanto à liberdade, ficou em muitos casos limitada aos seus aspectos mais grosseiros: à autorização da acção, do apetite, ao movimento físico, à expressão. Pouco se pensou, se essa liberdade de expressão era porventura expressão dessa mesma liberdade. Esqueceu-se quão difícil é a liberdade emotiva, de coração limpo, sujeitos que estamos muitas vezes à antipatia, à inveja, ao ciúme, à tristeza e quão difícil é a liberdade de pensamento, presos que estamos no preconceito, na ignorância e na estupidez.
Quanto à igualdade, a realidade desmente a abstracção aritmética, porque nunca poderemos pôr entre dois indivíduos o sinal de igual. Poderão os regimes tentar tornar o estatuto do ter com menos diferenças, mas esta louvável redução das diferenças não deve ser extrapolada para o estatuto do saber ou do ser, porque, naturalmente, aqui lidamos com as diferenças e qualificações do que é inato, da sorte de cada indivíduo e também do que ele virá a obter da vida por mérito, talento ou génio. A igualdade só é possível de raciocinar perante alguém que nos é transcendente. A adopção exclusiva deste ideal retirado da tríade harmónica originou os regimes totalitários ditos de esquerda que têm vindo a soçobrar no Ocidente nas últimas décadas.
Quanto à fraternidade, que vive intimamente ligada com as duas outras, é a linha horizontal, o grande abraço entre os seres humanos, que cruza com a vertical da liberdade e da igualdade, sendo impossível meditar neste valor sem se pensar na irmandade, na família natural, porque é daqui que partem os conceitos, as vivências e, também, a certeza das dificuldades em torná-la possível e efectiva na humanidade. Caim, Abel e Seth estão presentes em cada momento. Se a humanidade deverá caminhar para uma grande irmandade, onde estão? Quem são? Os progenitores, os encarregados de educação dessa grande família?
A resposta a cada um.
(continua)

terça-feira, 31 de agosto de 2010

OS LUGARES, 10


Convento de Cristo
(Tomar)
Eduardo Aroso

Nave de pedra, manto luminoso.
Outra maior às vezes se anuncia:
Alma, ovo, velada geometria.

Sonhar vem de cima,
Destino incerto.
No sinal, a chave
Do futuro perto.

O verbo se conjuga,
E o tempo templário
É ele quem madruga.

JESUS CARLOS DIXIT


Nenhum lugar é sem sombra
Para António Telmo, Mestre Hermético
O Mestre sentou-se à beira do caminho, e disse:
– Cheguei ao final da minha jornada. Adeus.
– Os discípulos, que o seguiam, olharam incrédulos e perdidos.
– Mestre, mas este lugar parece igual a qualquer outro! – Era quase um coro de desânimo.
– E é.
– Não compreendemos.
– Não há nada para compreender. Estou velho, tenho as pernas cansadas, e vou ficar debaixo desta sombra até que a morte me leve. – O Mestre cerrou os olhos, e encostou as costas ao tronco rugoso da árvore.
– E nós? Que faremos? – Era quase um coro de almas danadas e sem rumo.
– Sigam a vossa vida, e respeitem-na. Não façam mal a ninguém, e procurem o Espírito em todas as coisas... numa pedra, nos vermes que limpam o mundo.
– Mestre, e por qual caminho deveremos prosseguir? – Replicou um dos discípulos num tom altissonante de príncipe herdeiro que procura o reino.
– Escolham um. Este era o meu caminho.
– Mestre, e como saberemos a quem seguir? – Murmurou o mais franzino de todos.
– Como souberam seguir-me? Adeus. Deixem-me repousar.
– Mestre, e que diremos ao mundo? – Implorou hesitante aquele que parecia um camponês.
– Digam que nenhum lugar é sem sombra.

22 de Agosto de 2010
Jesus Carlos

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

OS LUGARES, 9


Toada do pinhal de Leiria
Eduardo Aroso

Antes do pinhal de Leiria
Já o mar, o mar bramia.
Ninguém sabia acalmá-lo,
Só el-rei, el-rei sabia.

Antes do pinhal de Leiria
Já o amor, amor havia,
Quem sabia assim cantá-lo,
Só el-rei, el-rei sabia.

Nasceu o pinhal de Leiria,
Já uma nau, uma nau havia.
O que iria descobrir,
Só el-rei, el-rei sabia.

Cresceu o pinhal de Leiria,
Mas o vento já havia.
Dos moinhos do poema
Só el-rei, el-rei sabia.

Depois o pinhal de Leiria
De el-rei nome teria.
Lavrou bem nosso futuro.
O porquê ele sabia!

JAIME CORTESÃO, 50 ANOS DEPOIS,10



“A hombridade ibérica degenera, com frequência, na exacerbação anárquica do eu, no individualismo feroz, na indisciplina, na soberba e no ponto de honra, na inveja e na maledicência, vícios mais comuns aos habitantes da meseta, menos plásticos, mas que estão longe de ser alheios aos Portugueses. (…)

“A hombridade pode conduzir igualmente à intolerância fanática e afirmar-se com violência e crueldade. O carácter terrivelmente afirmativo do ibérico tinha que levá-lo às exacerbações inumanas da Inquisição. Esse espírito permanece e permanecerá latente, como vírus endémico, em todas as nações ibéricas. É o reverso fatal de uma das suas maiores virtudes.
“Se a hombridade é a fonte dos maiores defeitos do ibérico, e, em especial, do castelhano, seu representante mais directo, a plasticidade degenera no português, em proporção maior, nos vícios correspondentes: a maleabilidade levada até à abjecção, à hipocrisia e ao conformismo sem limites. Foi por isso também que a Inquisição fez mais estragos nas almas em Portugal do que na Espanha; e o fanatismo aliado à baixeza pesam ainda hoje como a pior das heranças e das ameaças sobre os Portugueses.
(…)
“Todavia é na base do denominador comum da hombridade, que melhor podemos estabelecer a diferença entre o castelhano, isto é, o ibérico puro, e o português. A hombridade ibérica, agreste e seca, leva à expressão crua da realidade e por isso ao sarcasmo e ao drama; essa mesma hombridade, quando temperada pela inquietação e a amorabilidade portuguesa, deixa de entrever o real sob o véu da idealidade, e leva ao lirismo, à novela pastoril, à elegia e à epopeia.
“A hombridade ibérica, individualista e fechada em si mesma, leva ao humanismo introvertido do solitário, à exploração do mundo interior: a Cervantes e ao D. Quixote, a Calderon e aos dramas da honra. A hombridade portuguesa, inquieta e amorosa, leva ao humanismo extrovertido, à fusão do homem com o mundo exterior da Natureza e dos homens; a Fernão Mendes Pinto e a Camões.
“Mas Camões, o épico e o lírico, como o Cervantes novelista, são os dois maiores símbolos desses dois modos da hombridade e do humanismo.
(…)
“Se antes de Camões, falamos de Fernão Mendes Pinto, humanista crítico e precursor de Cervantes, é apenas porque a epopeia culmina e define pelo génio a história de Portugal até ao seu tempo, tal como nós a compreendemos: Portugal deu aos homens a consciência física do planeta e a consciência da unidade moral da Humanidade. Os Lusíadas são o poema da comunhão do Homem com o Universo. Por sua vez, o D. Quixote representa o seu austero exame de consciência e o reajustamento com as realidades novas. Em Os Lusíadas o homem alarga-se a todo o mundo; no D. Quixote reflui sobre si próprio.
(…)
“Dissemos que Os Lusíadas são o triunfo, ou melhor, a epopeia do Quixote e das nações-Quixotes; e o Quixote a tragicomédia dos lusíadas, isto é, das nações hispânicas, forjadas na escola da Cavalaria. Se quisermos agora traduzir esta antinomia em experiência peninsular, poderemos acrescentar: em 1580, ano da morte de Camões, três anos depois seguido no túmulo por Fernão Mendes Pinto, D. Quixote perdia a independência em Portugal, a favor do realista e grão-Sancho do Escorial, que passou a dominar toda a Península."
Jaime Cortesão
in O Humanismo Universalista dos Portugueses, pp. 272-277.

OS LUGARES, 8


Luso
Eduardo Aroso

Pela tua fonte
Se percebe, sem filosofia,
Que há um paraíso qualquer,
Pois do pesado e térreo monte
Brotam pingos de leve e serena melodia...

Luso, antiquíssimo nome que a nós veio,
Do longínquo tempo a deslizar nas fragas.
É que o mágico verbo, saliva fresca,
É ele que nos tenta!...
Que difusa memória
Ou líquida respiração dos deuses
É essa com que ainda nos alimentas?!

domingo, 29 de agosto de 2010

JAIME CORTESÃO, 50 ANOS DEPOIS, 9

“A que vinha e que significado podia ter esta cerimónia de Coroação do Imperador?
“Quando nos lembramos de que o problema máximo da política na Idade Média foi o da investidura, ou seja da coroação do imperador da Alemanha, a cuja família pertencia a Rainha Santa, prerrogativa que o Papa reivindicava como sua, própria e exclusiva, mas que os soberanos e os espirituais lhe negavam; e que esse conflito esteve particularmente aceso ou reaceso nos fins do século XIII e começo do seguinte, torna-se evidente que a cerimónia, logo tão rapidamente estendida a todo o Reino, representava, e não podia deixar de o ser, o mistério litúrgico dum culto que negava a autoridade do Supremo Pontífice, por consequência herético, e que, ao contrário, proclamava a supremacia triunfante do poder civil.
“E como explicar essa rápida difusão no País, então sob a influência dum sentido de vida laico e civilista? Só uma Ordem religiosa de acordo com esse espírito a poderia ter levado a cabo. E outra não havia senão a dos Franciscanos. Uma prova temos desse facto. A única província de Portugal, onde não encontramos rasto do culto do Espírito Santo, sob a forma de Império, é a de Trás-os-Montes, também aquela onde nos séculos XIV e XV a Ordem dos Franciscanos menos influiu. O que vale dizer que a heresia dos espirituais teve larga difusão em Portugal.
"Mais tarde a Igreja esforçou-se vitoriosamente por incorporar à ortodoxia o culto do Espírito Santo, facto de que já existem seguros indícios na segunda metade do século XV. Mas ganha então um significado que já não entra nesta época e nesta lição.
"Heterodoxo, o culto do Espírito Santo, sob a forma que acabámos de descrever, devoção máxima do povo português durante os séculos XIV, XV e XVI, constitui o prólogo religioso, mas herético, dos Descobrimentos. O descobrimento duma verdade nova implica, por via de regra, a negação dum dogma. No acto de descobrir existe sempre, em potência, uma heresia e uma fé nova. Neste caso, heresia contra a ciência da Antiguidade, que reduzia o diâmetro do Planeta, considerava o oceano inavegável e a zona tórrida inabitável; heresia contra o espírito de confinamento e quietismo anterior a São Francisco; e contra a crença de que a Terra era apenas um lugar de expiação; fé nova na bondade da vida terrena e na excelência da Natureza; no dever de identificar-se com o espírito divino e criador; e em que, no plano da humanidade, descobrir o mundo era a segunda criação.
“Agora podemos definir o sentido da cultura em Portugal no século XIV, como sendo laico, até prescindir da intervenção da Igreja na realização do casamento; civilista, até negar ao Papa o direito da investidura e democratizar a coroação; experimental e expansionista, pelo espírito de dúvida e a negação da autoridade dos Antigos, princípios que presidiram aos primeiros descobrimentos atlânticos – enfim, sentido geral e solidário pela mesma tendência da ciência, do direito, da literatura, das artes plásticas e da religião.
“Um mesmo e único impulso de vida, conexo entre as suas várias formas, impele a Grei. É um protesto que vem do fundo dos séculos, e ora se torna voz de comando nas naves descobridoras; ora meditação científica sobre os problemas de marcar o ponto no mar largo e nas longínquas terras descobertas; ora dá sanção legal à entidade civil, própria e livre do indivíduo; agora no Amadis encarna o poder de excedência e de aventura isenta e heróica, e proclama a santidade do amor humano; logo toma do cinzel, invade o templo com uma rajada de vida laica, humaniza a divindade e aponta à curiosidade dos homens o selvagem, símbolo dos mundos por descobrir; e, enfim, entre malicioso e profético, arranca às mãos do Papa a coroa do Império, para sagrar com ela o trabalho e a liberdade dum culto popular e próprio, que dá sanção religiosa às tendências expansionistas de toda a Grei.
“E foi, levado por esse mesmo e livre impulso, crítico e experimental, que os Portugueses, partindo ídolos, mas ardendo nas chamas do Espírito sagrado, embarcaram para iniciar a maior façanha dos povos do Ocidente: o descobrimento do Mundo e a unificação da Humanidade.”
Jaime Cortesão
in Os Factores Democráticos na Formação de Portugal, pp. 199-202.

OS LUGARES, 7




Marão
Eduardo Aroso
Mil varandas
Feitas sobre pedras ou caravelas;
Madrugadas escorrendo mel,
E pássaros, muitos pássaros
Imaginários e reais
- Seiva aberta, asas eternas,
Versos de Pascoaes!

SÁBADO, 4 DE SETEMBRO, ÀS 21:30, EM SÃO BARTOLOMEU DE MESSINES

Poesia. A Sociedade de Instrução e Recreio Messinense, em S. Bartolomeu de Messines, acolhe, no próximo sábado, dia 4 de Setembro, pelas 21:30, uma sessão de poesia, a propósito do livro Catedral, de Isabel Xavier. A apresentação da obra estará a cargo de Carlos Vargas (Director da Caixa Agrícola de S. Bartolomeu de Messines, patrocinadora da iniciativa), da autora e de Carlos Aurélio, autor da capa e das iustrações de Catedral.
Originalmente publicado em 2002 com a chancela dos Teoremas de Filosofia, Catedral estará aqui em destaque no próximo mês, através da revisitação de um conjunto de poemas escolhidos pela própria Isabel Xavier. Paralelamente, publicaremos na rubrica Razão Poética o escrito que o livro então motivou a António Telmo.

16 DE SETEMBRO, ÀS 18:00: SESSÃO DE HOMENAGEM A ANTÓNIO TELMO NA BIBLIOTECA NACIONAL


Lisboa. Nesta sessão, a partir das 18:00, será apresentada a obra “O Portugal de António Telmo”, organizada por Rodrigo Sobral Cunha, Renato Epifânio e Pedro Sinde, um livro de homenagem, que o autor teve ainda a oportunidade de contemplar. Participam na sessão Pedro Sinde, Rodrigo Cunha e ainda o escritor Miguel Real e o filósofo Pinharanda Gomes.“O Portugal de António Telmo” inclui textos inéditos do filósofo, dois dos quais fac-similados, fotografias, e testemunhos de outros autores como Orlando Vitorino, num total de 356 páginas.

EXTRAVAGÂNCIAS, 88

Crónica terceira da beira-mar
(Ou a ligação Figueira da Foz - Estremoz)
Eduardo Aroso

Na manhã de 21 de Agosto, encontrava-me eu no lugar onde sempre vou quando estou de férias à beira-mar: um pequeno miradouro lá para os fundos de Buarcos, quase no Cabo Mondego. De espaço agradável e recatado, foi, para mim, com o tempo, moldado em lugar, à custa de tanto o cotear, de estar ali sentado.
Tinha eu acabado de tirar da bolsa a tiracolo a Gramática Secreta da Língua Portuguesa, de António Telmo, para mais uma leitura, uma revisão que parece nunca ser definitiva. Mas, desconhecendo o porquê (agora sei), dei comigo a olhar o mar até à linha última do horizonte; a partir daí continuava na imaginação… Em vez de começar a reler a referida obra – uma espécie de pedra-angular da nossa linguística que os construtores (linguistas oficiais) têm rejeitado – eu pensava vagamente em não sei quê onde, subitamente, também se cruzou uma memória, à maneira de uma gaivota que se atravessasse ali no miradouro à minha frente. Recordava uma das agradáveis viagens a Estremoz, com os companheiros Raul Traveira e Manuela de Azevedo. Mas agora palpitava em mim a pungência do tempo, realidade, embora eivada de subjectivismo, a que nenhum ser vivo escapa. Mas como nada é em vão na Natureza, atravessava-me a ideia de ciclo, seja o de uma vida, um projecto, uma civilização, e que os movimentos dos corpos celestes tão bem elucidam; basta olhar para o ciclo lunar, o mais curto, por isso mais perceptível. À tristeza de haver fim, juntava-se a alegria de que (assim é também o fruto) a semente é a esperança feita verdade da continuação. Na Obra da Criação não há fins definitivos, pois seriam contrários à essência do Amor.
De repente, ouço as badaladas do sino da Igreja de Buarcos. É meio-dia. Já em casa, consultando o blogue Filosofia Extravagante, leio a notícia que confirmava o meu pressentimento. À minha volta, fez-se uma espécie de nevoeiro. Por momentos, os objectos e alguns gestos corporais deixaram de ter sentido, tão envolvido eu estava numa nuvem que parecia conter apenas a suprema importância da comunhão dos espíritos. Nesse dia, à hora do pôr-do-sol, voltei ao miradouro. Fui lá para lançar estas palavras:
Suavemente pelo mar
Numa casquinha de noz,
Envio esta oração
Direitinha a Estremoz
.
Intencionalmente, sobre o mar sem fim que é português, dirigidas a um pensador português, por isso universal, que se manteve fiel a si mesmo e a Deus, e que acreditava (acredita) – como nos diz no final da sua História Secreta de Portugal – que «face à acção sobre as consciências individuais e pela montagem de sucessivas barreiras no plano do ensino » (…) «resta apenas uma saída: a de ficar só, completamente só em si mesmo e a de nessa solidão se manter firme, não cedendo um ponto». António Telmo não terá cedido nunca e, felizmente, pelo menos quanto aos que o acompanhavam, na mesma comunhão «com a pátria, com os seus», nunca esteve só.
O filósofo deixou o seu corpo físico nas vésperas desta Lua Cheia, quando o nosso satélite, transbordando de luz, culmina nos primeiros graus de Peixes, signo regente de Portugal, iluminando mares, rios, montanhas e planícies. Há seres que nos marcam e obras que nos iluminam.
Agosto de 2010

sábado, 28 de agosto de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 87


Do Futuro da Filosofia Portuguesa: Breve Nota (em Memória de António Telmo
)
Renato Epifânio

“Se admitirmos que o homem é, de algum modo, a sua circunstância – a circunstância orgânica (a par de outras, a família, a sociedade, etc.) é a Pátria ou a Nação.”(1)
O homem não é, ou não é apenas, uma “pura abstracção”, mas um ser concreto, universalmente concreto, um ser que, de resto, será tanto mais universal quanto mais assumir essa sua concretude, a concretude da sua própria circunstância. Dessa circunstância faz axialmente parte a “pátria”, isso que, segundo José Marinho, configura a nossa “fisionomia espiritual”(2). Nessa medida, importa pois assumi-la, tanto mais porque, como escreveu igualmente Marinho, foi “para realizar o universal concreto e real [que] surgiram as pátrias”(3). Ainda nesta esteira, propõe-nos Marinho a distinção entre “universal” e “geral” – nas suas palavras: “O geral tem âmbito mais restrito e insere-se na prossecução de conceitos, o verdadeiro universal está já numa relação da intuição para a ideia e vincula o singular concreto e indefinível com o uno ou o único transcendente.”(4). Daí, enfim, a sua expressa defesa de uma filosofia situadamente portuguesa, não fosse esta “dirigida contra o universalismo abstracto e convencional de escolásticas e enciclopedistas em que têm vivido"(5).
Esta é, contudo, apenas uma possibilidade, não, de modo algum, uma inevitabilidade, nem sequer, muito menos, uma obrigação. Não se trata aqui, com efeito, de instituir um “serviço filosófico obrigatório” de forma a garantir a existência da “filosofia portuguesa”. Esta existirá apenas enquanto existir pelo menos uma pessoa que, de forma inteiramente livre, se assuma na dupla condição de “filósofo” e de “português”.Que cada um de nós dê pois, se quiser, o passo em frente…

____________
(1) Francisco da Gama Caeiro, in AA.VV., Ao Encontro da Palavra: homenagem a Manuel Antunes, Lisboa, FLUL, 1986, p. 40.
(2) Estudos sobre o pensamento português contemporâneo, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1981, p. 19.
(3) Cf. O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra e outros textos, “Obras de José Marinho”, vol. IV, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2001, p. 502
(4) Filosofia: ensino ou iniciação?, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Centro de Investigação Pedagógica, 1972, p. 45.
(5) Cf. Filosofia portuguesa e universalidade da filosofia e outros textos, “Obras de José Marinho”, vol. VIII, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2007, p. 553. Essa é, pelo menos, a sua “interpretação”: “…minha interpretação arranca de um sentido da filosofia nacional para uma singularidade de pensar mais autêntica e para uma universalidade mais verdadeira, filosofia [que] se não demonstra por meio de juízos e afirmações, mas por um pensamento que tenha em si próprio o cunho da autêntica universalidade (…).” [ibid., p. 352].

EXTRAVAGÂNCIAS, 86


António Telmo*

Rodrigo Sobral Cunha


Escrito no dia da sua morte
e lido junto à campa
(Estremoz, 21-22 de Agosto)

Escreveu Goethe que é necessário um lustro para acontecer alguma coisa relevante na nossa vida. A mostrar que não é bem assim, vou dizer três palavras acerca dos primeiros cinco anos da vida de António Telmo.
Em primeiro lugar mencionarei que a sua alcunha, em rapaz, era “o chinês”; chamavam-lhe assim por causa do desenho dos olhos celígenos para o horizonte. Mencionarei em segundo lugar que por essa época fez os seus primeiros ensaios de fisga (pois foi um exímio atirador de fisga, tendo chegado a desafiar um aluno rebelde já enquanto professor em Estremoz). E em terceiro, referirei os octógonos que tinha o hábito de desenhar nas paredes, utilizando para isso ervas (como se pode ver numa fotografia do livro cujo título junta o seu nome ao de Portugal).
O primeiro dado, a alcunha, “o chinês”, ligar-se-á ao orientalismo de António Telmo, que se pode resumir assim: é o sol da alma que faz mover o sol cósmico. Um poente é um acontecimento transcendental. Poderíamos falar também da ligação à Flor de Oiro que houve no filósofo da razão poética portuguesa, mas basta dizer que a pneumografia que António Telmo fez de Camões – no texto “A identidade religiosa de Luís de Camões” – é também um texto autobiográfico.
Do segundo dado – a habilidade na fisga –, decorre o sentido da concentração relativamente ao movimento através da forma do Y. Daí à caça das imagens vivas e desta à altanaria metafísica são três passos que experimentam o inteiro Y. Mas que passos! Caminhamos simultaneamente com um pé no ar, ou no céu, e o outro na terra. Embora a dado momento cumpra pôr os dois no céu; e decerto, reaprender a caminhar ao ritmo da própria luz. Através do centro do Y da fisga ordenava o futuro neopitagórico criacionista o seu mundo. Rodando-a nos quatro sentidos, sintetizava em imaginação a forma octogonal, enquanto sublimava o alvo (no fim, a cruz templária de Portugal).
Na imagem do octógono se fundem a terra (simbolizada no quadrado) e o céu (simbolizado no círculo), como o ilustra ainda a própria linguagem, que em muitas línguas liga ao número oito a palavra noite. Entrando na arquitectura manuelina, com suas árvores de pedra que tocam as estrelas, aproximamo-nos do mistério de Portugal.
Assim o recordou o nosso filósofo, cujas asas se soltaram agora em direcção ao oitavo céu – o da ilha onde todos nos reunimos.
____________
*Este escrito de Rodrigo Sobral Cunha será publicado no próximo número da revista NOVA ÁGUIA, em homenagem a António Telmo.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 85

Joana
Cynthia Guimarães Taveira

Quem és tu, Joana? Misteriosa mulher, talvez feia, talvez bonita. De onde vens? Quem te trouxe assim nas asas do vento? Serás de Ontem ou de Amanhã, serás princesa ou vagabunda? Uma imagem de alguém, um alter ego tímido? Quem és? Porque nos interrogas em jeito de humilhação pública? Que mal te fizemos? Que silêncio é o nosso que não suportas? Porque dizes que falamos para o nosso umbigo pois se um blog é coisa pública e nunca fechámos as portas a ninguém nas nossas palestras nem nunca recusámos um livro a quem o desejava e nunca voltámos costas a quem nos procurava? Que se passa? Será que nos conheces? A Filosofia Portuguesa não é propriedade de ninguém. Acontece, assim como a respiração. Acontece quando se trocam impressões, quando se escreve, quando se poetiza Queres um sistema filosófico, Joana? Procura-o nas terras de Kant onde os filósofos também servem para acertar relógios…
Joana, deixa que te diga que não há Quinto Império sem Pátria, que não há demanda sem centro difusor, que o acordo Ortográfico é perigoso para a língua porque deixa de haver um tronco que dá origem aos ramos, que a cultura que em Portugal vivemos, desde o bacalhau com batatas até Fernando Pessoa é a matéria-prima do nosso pensar, que a geografia nos molda a alma como a a arquitectura nos pode mudar o estado de espírito. O Império do Espírito Santo não se faz do dia para a noite, se o queremos já corre-se o risco de uma globalização que é o oposto do Império. Quem anuncia a morte de Portugal é quem anuncia a morte da própria terra que pisamos e, enquanto esta não for engolida pelo mar, há sempre Sintra, há sempre o Marão. Quem anuncia a morte da Filosofia Portuguesa anuncia a morte dos habitantes desse território porque pensar faz parte do homem. Porventura julgas que António Telmo nada aprendeu com os pescadores de Sesimbra? Enquanto houver portugueses, se Deus quiser, há-de haver sempre alguém com amor pela sabedoria. Não vês Joana, não pudemos ir para a rua com bandeiras e manifestações, de nada serve o mediatismo das nossas acções, dos nossos pensamentos pois eles não tentam vender uma imagem, eles estão situados na esfera do Ser, mais próximos do Espírito do que da televisão. Que queres, Joana sem umbigo? Que defendamos aquilo que não necessita de ser defendido porque simplesmente existe? O Miguel Real está desencantado com o país, quem não está? Andamos tristes. A nossa resistência está na vivificação da memória dos que já partiram, nas nossas leituras, nas nossas conversas, nas nossas palestras, nos nossos pequenos e humildes textos que vamos escrevendo. Queres nomes como o de Teixeira? Queres um génio nacional já? Não o peças a nós, pede-o a Deus, porque a Filosofia Portuguesa não é propriedade de ninguém e bem lá no fundo só a Deus pertence. Joana, não sejas tímida. O pouco que fazemos, assinamos, no pouco que dizemos revelamos a nossa face. Sê assim, como nós. Assina o que escreveres, se escreveres eventualmente...E quando falares revela a tua face. Estamos certos que és bonita e não vens por mal. Até sempre, Joana.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 84


A Viagem do Cavaleiro
João Tavares

O cavalo ajaezado saudou-o
Levantando a mão,
Era uma manhã
Final de Verão.

Fez uma suave vénia
À nobre estirpe do Cavaleiro
Que o olhou sereno
Encantado nas lantejoilas.

Segurou-lhe a rédea entrelaçada
Afeiçoou o estribo de oiro que pendia
Pé no firme, perna em arco
Ei-lo assentado na sela lavrada.

Vaia dada, rédea soltada
Partem ambos para viagem longa
Luzem as lantejoilas, por intervalos
Acena o Cavaleiro de mão feliz.

No horizonte azul voa um falcão.

EXTRAVAGÂNCIAS, 83



Mortes

Pedro Martins

Miguel Real já tinha escrito, há não muito, um livrinho intitulado A morte de Portugal. Veio, agora, anunciar A morte da ‘Filosofia Portuguesa’, num artigo de imprensa que, por coincidência, ou como sinal, saiu a lume quatro dias depois de António Telmo ter partido deste mundo. Bem intencionado que sou, terei de admitir que a proximidade dos dois acontecimentos ficou porventura a dever-se à observância de um critério editorial infeliz da parte de quem, há muito, dirige um jornal com poder, mas sem alma.
A despeito da fúria lusicida que vem revelando, a Miguel Real foi, segundo parece, concedida a distinção, nada despicienda, de falar publicamente numa sessão de homenagem a António Telmo, a ter lugar, a título póstumo, na Biblioteca Nacional, no próximo dia 16 de Setembro, por ocasião do lançamento de O Portugal de António Telmo, sorte de legado espiritual que nos foi deixado por aquele que nunca hesitou em proclamar-se, com todas as letras, nestes tempos do fim, como “nacionalista místico”, em reiterado exercício de fidelidade ao magistério de Álvaro Ribeiro e José Marinho.
Dito isto, desengane-se desde já quem me puder supor entre aqueles que antevêem para Miguel Real um caminho árduo e estreito, desenhado como um dilema pelas sombras da hipocrisia e da hostilidade (e a memória aviva-me exemplos), na sessão a haver no Campo Grande. Não. O mais provável é que o plumitivo, ao que me dizem pessoa afável e cordata, venha, uma vez mais, a enredar-se no labirinto da sua imensa incompreensão.
Por muito que a alguns possa custar, pôr entre comas a Filosofia Portuguesa, como ontem o fez Real, não permite, de modo nenhum, significar que ela esteja comatosa (ou moribunda, ou defunta). Nem o seu estado de saúde pode, de resto, relevar do concerto enfatuado de umas quantas vontades. Nisto, como em tudo na vida, vale o velho dito de sabor judaico que manda conhecer as árvores pelos frutos. A colheita é sempre, e só, no futuro – e o mais é com Deus, verdades que desconheço se Miguel Real estará em condições de aceitar.

EXTRAVAGÂNCIAS, 82

The man who tells
Renato Epifânio
António Telmo
The man who told, who tells
To me, to us

How Portugal was
How Portugal is
How Portugal will be

And how wonderful is
The Portugal
Of António Telmo

EXTRAVAGÂNCIAS, 81

António Telmo
Isabel Xavier

Acabara de arrumar uma caixa de fotografias quando reparei que separara duas delas: uma do meu pai, a última a ser-lhe tirada antes de morrer (alguns dias antes, apenas); a outra de António Telmo, de quando veio às Caldas lançar o livro de poemas Catedral, de que sou autora. Agarrei em duas molduras que tinha em casa: coloquei as fotografias nas molduras e coloquei as molduras lado a lado, sobre um móvel da sala.
Só então tomei consciência do que estava fazendo: juntando a imagem do meu pai (já falecido) à de António Telmo. Senti uma inquietação, o coração acelerou-se no meu peito, como se tivesse aí acabado de abrir uma ferida que ainda não sarou. Passados dias soube pelos amigos aquilo que as minhas mãos já “sabiam” e me haviam “dito” quando executaram aqueles gestos: António Telmo estava muito doente.
Agora voltei a ficar órfã. É assim que me sinto e a dor é tão funda que ainda não sou capaz de falar do António Telmo sem falar de mim, sem falar do que sinto, sem conjugar os verbos na primeira pessoa do singular. Mas sei que alguma vez deixará de ser assim.
Para mim, os lutos duram, as lágrimas ainda me hão-de correr pelo rosto muitos dias. Mas também serei capaz de sorrir quando me lembrar de como ríamos os dois facilmente, de como António Telmo me disse graças até à última vez que conversámos ao telefone (“Não desligue, Isabel! Gosto tanto de a ouvir, de ouvir o tom da sua voz!” dizia-me após um longo ataque de tosse).
Então eu contava-lhe o que andava fazendo. Contava-lhe que retirara de casa muitas coisas: móveis, objectos de toda a ordem e que lá estavam a mais; contava-lhe que assim tinha muito mais espaço… E o António Telmo, maroto, numa alusão à tendência de simpatia ou conversão ao Islamismo que alguns amigos vinham manifestando ultimamente: “Tenha cuidado, Isabel. Veja lá se isso é apenas o começo de um processo e qualquer dia fica só com tapetes em casa, também…” E ria, ria, e eu acompanhava-o nesse riso. E isto passou-se dois dias antes de eu partir para Estremoz para velar e sepultar o seu corpo, que a mão amiga da morte quis libertar do sofrimento que tão estoicamente, tão heroicamente, viveu. Um exemplo até ao fim.
Ainda bem que a Vida me fez conhecer, conviver e aprender com António Telmo. Ainda bem que ele quis que eu o acompanhasse nos seus últimos dias na Terra deste modo tão caloroso e amigo.
Vejo agora que, no ano passado, no poema que escrevi saudando o António Telmo pelos seus 82 anos, os verbos estão conjugados na primeira pessoa do plural: ainda bem! Vamos ser nós, os amigos, a valermo-nos uns aos outros! (“Quem é que a Isabel acha que são verdadeiramente os meus amigos?”)

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 80

A saudade sem sítio para pôr
Carlos Aurélio

25 de Agosto de 2010
Pelo dia de S. Luís, Rei de França e padroeiro dos animais que hoje se abençoam

Aos amigos do nosso Amigo

Partiu o nosso Amigo, agora depois da luta e da inquietação por Deus e por Portugal, agora que está na paz ou na Ilha dos Amores onde já avista Camões, e Álvaro e depois Orlando e Agostinho e sei lá mais quem, talvez o próprio Veloso correndo às ninfas entre o alvoroço que a todos reúne.
Nas vésperas da sua partida, sexta-feira passada, passei a tarde frente à Ilha do Pessegueiro em Porto Covo e, nessa Ilha, sem que ambos o soubéssemos estava também o Hélder Cortes que para lá foi montado num cisne branco a fazer de barco. O que fomos lá fazer os dois na mesma tarde desconhecida a essa ilha de pêssegos que Camões diz serem os frutos da Pérsia com os quais António Telmo desfrutou Os Lusíadas? Eu não sei, apenas de lá trouxe umas sandálias novas (modelo Pescador) que calcei até ao cemitério de Estremoz, e isto depois de sabermos que ele afinal havia zarpado para a Ilha dos Bem Aventurados. E de lá nos escuta, ampara, conversa…
Escrevo aos amigos do nosso Amigo porque não sabia onde pôr as saudades de vinte e cinco anos de aprendizado e luta, de comunhão aos saltos e também de sublimes momentos de pensamento e ousadia. Que homem extraordinário passou por nós! Que cometa ou estrela nos tocou de mansinho, leve e fulgurante como a luz que faísca e perdura! Porque nos calhou esta fortuna?

Aqui somos.
Um abraço, António, que com a tua fisga atiraste tantas pedrinhas às janelas do céu. Estamos-te gratos pela pontaria.

Post Sriptum

Seguem três anexos:

1 - Uma foto do António Telmo de 1995 tirada no meu atelier rodeado de lenha, de livros, do mapa de Portugal e de uma construção em cartão do Mosteiro da Batalha;

clique na imagem para a ampliar

2 - Vai também um texto que li no JL de hoje, jornal que já não comprava há muitos anos. Gastei nele dinheiro na expectativa de ler algo sobre a partida do António Telmo e afinal fiquei foi a saber que havia morrido a Filosofia Portuguesa. Nesse texto Miguel Real transcreve de Paulo Borges o quanto a esfera armilar é «perfeição, plenitude, totalidade e infinidade», tudo substantivos grandes com os quais concordo.

clique na imagem para a ampliar

3 - Como antes das férias e da Ilha do Pessegueiro eu estava a preparar o V Quadro da série de X sobre “Uma Ave-Maria na Ilha de Camões”, e como nesse preparo prévio havia pintado a Virgem, Vénus e a Esfera Armilar, aqui segue também esse guache, e isto porque me custa chegar ao longe sem passar pelo que me é perto, não sei vislumbrar a esfera sem ser de um ponto situado e de dentro dela, sou incapaz de intuir a plenitude fora da filosofia e da terra onde Deus me pôs. Tudo isto será limitação minha, de gente rude que frente a uma ilha apenas sabe comprar um par de sandálias…

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 44

António Carlos Carvalho

Primeiro foi o meu Pai, que partiu a 14 de Junho.
Agora foi a vez do António Telmo, que nos deixou num Agosto verdadeiramente de fogo, de destruição, de mortes.
E o António Telmo foi o único Sábio que tive a oportunidade de conhecer -- na tradição judaica, que prezo e venero sem me ser dado a ela pertencer, o Sábio é mais importante do que o Pai. O ideal seria que Pai fosse também um Sábio, mas isso…
E agora, o que fazer deste duplo vazio?

Inevitavelmente, veio-me à memória esta resposta, em forma de história ou conto exemplar (como o António Telmo gostava de escrever) registado por Elie Wiesel ao falar da tradição dos Hassidim:
«Quando o grande rabi Israel Baal Shem-Tov via que uma desgraça se tramava contra o povo judeu, tinha por costume ir-se recolher num certo lugar da floresta; aí acendia uma fogueira, recitava uma certa oração e o milagre realizava-se, afastando a desgraça.
Mais tarde, quando o seu discípulo, o célebre Maguid de Mezeritsch tinha de intervir junto do céu pelas mesmas razões, dirigia-se ao mesmo lugar na floresta e dizia: Senhor do universo, presta atenção. Não sei como acender a fogueira, mas sou ainda capaz de recitar a oração. E o milagre realizava-se.
Mais tarde, o rabi Moshe-Leib de Sassov, para salvar o seu povo, ia também para a floresta e dizia: Não sei como acender a fogueira, não conheço a oração, mas consigo localizar o lugar e isso devia ser suficiente. E era suficiente e o milagre realizava-se.
Depois chegou a vez do rabi Israel de Rizsin afastar a ameaça. Sentado na sua cadeira, segurava a cabeça entre as mãos e falava assim a Deus: Sou incapaz de acender a fogueira, não conheço a oração, não posso sequer encontrar o lugar na floresta. Tudo o que sei fazer é contar esta história. Isso devia bastar. E bastava.»
(Comentário de Elie Wiesel: «Deus criou o homem porque gosta muito de histórias».)

EXTRAVAGÂNCIAS, 79




O Dia
Cynthia Guimarães Taveira

Despediram-se do amigo, tristes, entristecidos, com tristeza, tristemente e saíram tristonhos do cemitério. Um deles disse: -- Que a nossa amizade não acabe. E, já agora, a filosofia também não. Vamos beber um café e, depois, almoçar.
Assim fizeram aqueles amigos sob o sol escaldante, olhando para trás no caminho, em direcção ao cemitério que, estranhamente, e ainda ouvindo as palavras do amigo que deixavam, se transformava a pouco e pouco num lago sereníssimo. Águas refrescando o deserto do Alentejo.
Sentaram-se numa mesa que de tão comprida parecia medieval e, ainda trocavam as primeiras conversas quando, uma borboleta, chocantemente decidida, entrou pela sala e percorreu todos os lugares da mesa, e ainda aquele reservado para o amigo que tinha partido. “É a Psiquê“, ouviu-se. “Sim, é a Psiquê do nosso amigo“. E ela esvoaçava, interessada, curiosa, irrequieta, questionando as nossas fisionomias, os nossos gestos e o que estávamos a comer. A borboleta queria saber tudo e era o espírito de António Telmo. Até ao fim da refeição, lá esteve, acompanhando os seus amigos. Não os abandonando, não perdendo pitada do que acontecia. Recordaram-se as palavras de Nicolau Breyner: “No Alentejo tudo é possível”. Quando alguém morre o espírito do lugar vivifica-se.
Se nós soubéssemos pairar com uma ironia alegre sobre o mundo,
se nós soubéssemos voar e ver a terra toda com olhos de falcão,
se nós soubéssemos do lago que fica no coração do Alentejo,
se nós soubéssemos caçar a verdade por entre os arbustos da ilusão,
se nós soubéssemos da força dos toiros quando enfrentam o medo,
se nós soubéssemos dos mundos que deslizam sobre este,
se nós soubéssemos do diálogo com os anjos,
se nós soubéssemos rir do inevitável,
se nós soubéssemos reunir o aparentemente disperso,
se nós soubéssemos desenhar octógonos com a nossa própria vida,
se nós soubéssemos dar à luz as palavras vivendo dentro de outras,
se nós soubéssemos criar os nossos próprios mestres interiores,
então sim, seríamos dignos de alguma da Luz que brilhava em António Telmo. Tentemos pois, em sua honra, saber de todas estas coisas do céu e da terra.

EXTRAVAGÂNCIAS, 78


António Telmo
Eduardo Aroso

Alguém correu a cortina
E a cadeira ficou vaga.
Mantém-se o lugar sereno
Na viagem que não acaba.

Fica sempre o intervalo
No que a vida traz e leva.
Neste dia de Agosto
Na minha alma neva.

No talo húmido da morte
A flor foi o destino.
E voltamos à pergunta
Dos tempos de menino.

21-8-2010

terça-feira, 24 de agosto de 2010

ANTÓNIO TELMO, SEMPRE

TOMÉ NATANAEL

Leva nas mãos o arco
E às costas o violino
Grande como um barco.

A música é maior do que o menino.

Mas sem esforço ou cansaço
O leva pela estrada e o infinito
É à distância de um só seu passo
Descuidadamente finito.

A música não pesa
Nem o som que conduz
Por isso a estrada é um rasgo de luz.

António Telmo

terça-feira, 17 de agosto de 2010

UMA BREVE PAUSA...

...até ao próximo dia 24.

EM SETEMBRO....

clique na imagem para a ampliar