(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



terça-feira, 21 de julho de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 23

Pinharanda Gomes
O testemunho de um (seu) leitor
Pedro Sinde
Pinharanda Gomes é uma alma que não precisou de Universidade porque é universal, não precisou de Faculdade porque já é dotado dela. Num tempo em que a Universidade se opõe à Cultura – segundo a acepção de Álvaro Ribeiro de que só é cultura aquilo que pressupõe um culto – nada haveria a aprender por uma alma que se situa tão longe, tão acima, do que hoje nomeamos de Culture (à francesa ou à americana). Que difícil e heróica batalha a de permanecer, tão discretamente, erguido num meio tão hostil, que não reconhece nada do que no seu território nasce, como uma mãe que rejeitasse o filho à nascença por não o reconhecer como seu!
Sabemos que a batalha só termina quando o inimigo se apodera do estandarte; graças a Deus, o estandarte permanece intacto, pois eles não sabem reconhecê-lo. Por muito que atinjam os porta-estandarte, não sabem reconhecer o estandarte. E, hoje, este está distribuído por homens valorosos que bem o guardam. Seria (?) fácil ceder; ceder um ideal para conquistar um lugar no Ensino, ceder outro para conquistar um lugar na Política, ou outro para conquistar um lugar na Igreja. Difícil é permanecer e dar a sua vida, consciente de uma missão mais elevada do que um mero posto social: a missão hoje faz-se pela omissão.
Há algo que desde sempre me intrigou: o que leva um homem a escrever milhares de páginas? É claro que a mesma pergunta poderia ser feita quando um homem escreve apenas três páginas ou três linhas; mas quando escreve milhares de páginas, tem de haver um motivo muito forte que sustente essa dedicação. Seria interessante descobrir, pela dedicação, a indicação que supra ou subjaz à escrita.
Se, perante a obra de um romancista que escreva muito mas apenas para entreter o leitor – e dizemos entre-ter como quem diz reter –, fizermos essa pergunta, a resposta é fácil de ver, pois pelo fruto se vê a árvore; e o motivo aí jaz ou subjaz de modo mais ou menos obscuro e quase sempre de modo subconsciente ao romancista.
Este não é o caso de alguém que escreva consciente de que se remete a um público escasso, pois não busca notoriedade ou, pelo menos, não a busca primacialmente. O motivo que rege a sua escrita tem, portanto, de ser necessariamente outro. O caso de Pinharanda Gomes parece ser este, pois escreve no seio de uma comunidade, onde impera uma ambiência que não faz ressonância com a ideia que preside aos seus escritos, e onde, para além disso, esta ambiência aparece de modo desarmonioso. É o que se passa num mundo, num país, numa pessoa que, como um rio, corre impetuosamente – e cada vez mais impetuoso é o seu correr – para a tão ansiada foz. O caminho porém, para Pinharanda, não é o da foz mas o da nascente.
Pinharanda é efluente de um ribeiro: e só por um manso ribeiro pode o homem ascender com menos esforço à nascente, à fonte de onde ele brota; se ­dizemos com menos esforço, é porque a ascensão requer sempre esforço, o esforço que se oponha à natural ou artificial queda que, artificial ou naturalmente, vivemos ou nos deixamos viver.
Mantenhamos a pergunta que fizemos acima e procuremos no estilo da sua escrita. Se interrogarmos esse estilo, segundo o preceito alvarino de que a aquisição de estilo próprio demonstra a maturidade, a independência e a liberdade do escritor, se interrogarmos pelo estilo, dizíamos, teremos de reconhecer que ele nos dá a sensação nítida de que se oculta por trás dele um espírito inquieto – ainda em sentido alvarino.
O seu estilo rigoroso, quase ascético, na busca constante do étimo, remetendo a Filosofia à Filologia, oculta, mais do que mostra, a inquietação de quem se esforça por ir à fonte da palavra, do sentido. Não poderíamos, contudo, adjectivar a sua escrita de clara. O esforço pelo rigor e pela sobriedade, que obriga o leitor a seguir gradativa e evolutivamente a sua leitura, com a intenção de desbastar na palavra aqueles apêndices com que a degenerescência da língua a encobre, acaba, todavia, por tantas vezes apor-lhe outros tantos apêndices.
É precisamente este ponto que me intriga e que tantas vezes tem suscitado em mim uma outra questão: o seu estilo, de uma racionalidade ‘excessivamente’ abstracta, funciona como um leito que orienta um rio, um ímpeto místico, que, de outro modo, seguiria desgovernado? Ou, pelo contrário, é uma prisão, uma barragem que se impõe a si mesmo alguém que, assustado, sente o ímpeto desse caudal profundo?
A questão é arrojada, mas honesta, pois a formulo tantas vezes na leitura dos seus livros. Se o que eu interrogo aqui é arrojado, seria, todavia, desonesto responder, ter a pretensão e a rudeza de analisar, retalhando. A questão que levanto refere-se à Vida, à Vida com v maiúsculo, àquele ímpeto que o homem oculta em si, àquele fogo divino cuja percepção, intuição ou visão nos pode lançar no temor e no tremor ou, pelo contrário, impelir a altas e valorosas conquistas. Poucos são aqueles que dele se apercebem e menos ainda aqueles que a ele reagem e respondem com a coragem devida e pedida. Da leitura dos seus livros decorre sempre, para mim, a sensação de que Pinharanda tem essa veia mística. Mas toda a questão estaria em saber, aceitando este pressuposto, se há a assumpção dessa veia, regularizando assim o caudal que, de outro modo, correria, anárquico, quer dizer, sem um norte; ou então se há na sua atitude uma defesa que, assim, não deixasse o caudal correr livremente, com aquela liberdade de que o espírito é dotado, soprando onde quiser. Pinharanda aparece-me, está visto, como o coração de místico cuja cabeça recusa; recusa, tenho a impressão, porque sente a força, o ímpeto, a verdade e a luz com que esse ‘lado’ de si o habita. Estará a minha impressão certa?
Entre a vastíssima obra de Pinharanda Gomes, por entre a sua espantosa erudição, há algo de essencial para lá das questões históricas, linguísticas e filosóficas, e é a esse algo, inapreensível para mim até hoje, que me refiro. Há algo que rege a sua obra de serviço e sacrifício a uma Pátria tão ingrata, nesta fase de obscurantismo, em que os homens, que ainda restam "de pé no meio das ruínas" (segundo a expressão de Julius Evola, retirada, creio, de Ernesto Jünger), vivem isolados aqui e ali em ilhas: a época é de defesa – a cada época a sua estratégia.
Estou convencido de que em algumas páginas intensas, profundas e fecundas como grão de mostarda, esta dúvida teria resposta por parte de Pinharanda. É um pedido que aqui faço publicamente, um pedido de um texto que retivesse nitidamente o núcleo e só o núcleo do seu pensamento; não uma síntese, essa o leitor que a faça, mas aquela essência que as palavras tantas vezes cobrem mais do que descobrem.

Um exemplo
O que viu o seu espírito na teologia da saudade? Que porta se abriria em Portugal por uma Igreja que desse ao povo o que é do povo, como quem dá "a Deus o que é de Deus"? O nosso povo é saudade, e como saudade sente a presença e a simultânea ausência de Deus. Caberia ao clero profundar este tema, dar-lhe vida, enchê-lo de alma. Mas qual clero?
Seria essa a direcção que poderia apontar uma teologia que reconhecesse a Saudade na Trindade, naquela "tripartição em que ela é factor ôntico (inerente a algum ser), factor cósmico (inerente ao ser no mundo enquanto universo) e factor antropológico (inerente ao ser do homem no mundo). Essa tripartição advoga uma comunicação entre as três partes, comunicação que não há necessidade de colocar fora do acto pelo qual melhor entendemos efectuar uniões de substâncias diferentes, a religião" (daquele livro com o modesto título Introdução à Saudade, de Dalila Pereira da Costa e Pinharanda Gomes, Porto, 1976, p. 197). Como não reconhecer aqui uma analogia com as Três Pessoas da Santíssima Trindade?
E como não reconhecer a Parábola do Filho Pródigo na justificação dada por Pinharanda à frase acima citada? "A legitimidade do juízo é inquirível mas verificável: nenhuma individuação se garante sem prévio ou posterior recurso a uma unição; não há singularização sem primado universal. Na singularidade dos singularizados veremos o exercício da liberdade e, na universalidade do universalizador, veremos a ideia da autoridade, ou do que é simplesmente autos, sem necessidade de se buscar a si mesmo e, por conseguinte, de se interrogar em liberdade, uma vez que, no supremo autos, a verídica autoridade se confunde com a verídica liberdade." De facto, na parábola, o pai permanece na sua casa, e é o filho, "singularizado", que parte em busca de si mesmo, exercendo a sua liberdade, ainda não a verídica liberdade (ou talvez já...), a essa reconhece-a ele, paradoxalmente, no regresso a casa disposto a servir o pai como escravo. Esta parábola magnífica, interpretada à portuguesa, vê o impulso da saudade tendente à unição, não só na necessidade que o filho sente de regressar, mas também na necessidade que ele sente de partir, quer dizer, na necessidade de singularização. E Pinharanda dá-nos a confirmação logo de seguida: ''Neste contexto, a suidade é intercessora da singularidade e da universalidade, é o vínculo que torna possível a religação das mesmidades e das alteridades à unidade que as identifica, e onde as singularidades assumem o principal critério de unicidade e de universalidade."
Vemos na saudade essa ânsia escatológica, a chave para a redenção ou reintegração dos seres. E isto é diferente da interpretação teológica alemã, francesa... é a nossa interpretação, a nossa forma de cumprir individualmente o universal.
Pinharanda, que sabe isto muito bem, é um autor no qual é evidente o esforço pela revivificação da Tradição dentro do contexto católico romano, a que muitos portugueses se têm oposto, de resto. Para isso tem recorrido ao estudo aprofundado dos autores portugueses, desde muito antes da fundação da nacionalidade, onde já imperava o "espírito do lugar". Neste esforço não tem descurado o estudo da influência de outras tradições que por cá têm passado (como a judaica e islâmica, embora com juízos problemáticos, por excesso de zelo) e deixou-nos esse trabalho, de uma erudição raras vezes vista, nos volumes da História da Filosofia Portuguesa. Este estudo do passado tem, para mim, interesse pelo que pode apontar de futuro: que indicação nos é dada pelo trilho (ir)regular que temos seguido? a dissolução que vivemos apagará todos os vestígios e pistas deixados nesse trilho para que o novo dia se realize? que direcção seguirá o nosso Portugal?

segunda-feira, 20 de julho de 2009

OS POETAS LUSÍADAS, 24



[da série Nocturnos]

SONETO À LUA

Ó lua, Ó lua! quantas vezes, quantas,
Ungindo os montes d’um clarão bendito,
Vestes de branco as árvores e as plantas,
Tiras o crepe às rochas de granito!

Além, detrás das serras te alevantas,
E, descrevendo a curva do infinito,
Tombas do mar nas águas sacrossantas…
Pálida noiva desse leão maldito!

Banhas de luz, com o teu rosto humano,
Os que passam a noite sobre o Oceano,
Quase perdidos, n’um baixel sem mastros…

E eu que leio no azul, como um Caldeu,
Não compreendo esse alfabeto, – o céu,
Sem ti, letra maiúscula dos astros!

Leça, 1885

António Nobre

domingo, 19 de julho de 2009

RAZÃO POÉTICA, 3

Pinharanda Gomes, o Filósofo Autodidacta*

«Há, para além do natural e do social, do herdado e do partilhado, um jardim secreto onde ninguém entra, a não ser o próprio homem. Mesmo em Igreja, cada homem tem um modo de dialogar com o seu Deus, onde a igreja não entra: o fiel tem a sua vida de comunidade eclesial, onde a igreja entra e ensina; mas há, no íntimo do homem, um local onde só ele e Deus sabem o que importa. É a vida pessoal inalienável. É o miolo do sobrenatural»

PINHARANDA GOMES


O Filósofo Autodidacta do andaluz Abuchafar Abentofail é a história de Hay Benyocdan, o misterioso mestre de Avicena, contada aqui como a de um homem abandonado, após ter nascido, numa ilha deserta de outros homens, cujo espírito atingiu os mais altos conhecimentos especulativos, tendo por primeira e única mestra a gazela que o amamentou. No plano do conhecimento instrumental, o seu itinerário foi em tudo semelhante ao que arqueólogos e historiadores imaginaram para a humanidade: progressiva entrada na civilização por sucessivos aperfeiçoamentos da adaptação ao meio, passando pelas fases que o raciocínio deduz para que a investigação no terreno as confirme. Há só uma diferença: a criança era de ascendência régia, se não divina, inconfundível com o antropóide imaginado pela arqueologia por evolução da matéria.
Teixeira Rego era um autodidacta como autodidacta é Pinharanda Gomes, que o biografou. Causou escândalo nos meios universitários coimbrões ter sido posto por Leonardo Coimbra na Faculdade de Letras da Universidade do Porto a ensinar algumas disciplinas fundamentais. Do ponto de vista universitário, um autodidacta é um analfabeto. Pinharanda Gomes nunca foi chamado a ensinar na Universidade, nem até na Universidade Católica, apesar da sua perfeita ortodoxia e da sua obra monumental. Também é certo que, na Universidade actual, não há nenhum Leonardo Coimbra.
O homem primitivo foi também imaginado por Teixeira Rego como um autodidacta. Aprendeu tudo por si próprio, até o falar, reagindo ao meio e reflectindo. Tivemos que esperar muitos milénios até que viesse a fundar a Universidade e a tornar-se um inimigo dos autodidactas, isto é, de si próprio. Todavia, pelo caminho que assim tomou, parece que se impediu, como veremos, de atingir conhecimentos tão altos como os de Hay Benyocdan.
Não se vê, pela leitura do livro de Pinharanda Gomes sobre Teixeira Rego, se o biógrafo aceita ou não a doutrina do biografado sobre as origens da humanidade. Deve, porém, tê-lo seduzido pelo que nela se envolve da doutrina de Moisés no Génesis. Teixeira Rego situa o antropóide, que descreve coberto de pêlos, feliz entre os outros animais e fruindo dos frutos, no centro do Paraíso. A descrição do homem primitivo não condiz, como se vê, com a de um homem feito à imagem e semelhança de Deus. Uma trapalhada, em que se enreda o seu pensamento e o do seu biógrafo.
Pior do que isto é quando vem dizer-nos que o antropóide perdeu o estado paradisíaco em que vivia por ter cometido um crime horrível, o de ter morto um animal e comido a sua carne. A palavra que, no Génesis, as traduções dizem designar a maçã significa de facto carne. Em consequência deste acto, caem-lhe os pêlos, transforma-se num homem mais à nossa imagem e semelhança e, de frugívoro que era, passa a carnívoro.
O desejo de se querer conciliar o ensino bíblico com o ensino científico, neste caso com o evolucionismo materialista, leva forçosamente a estes disparates. Pinharanda Gomes, enquanto expunha a doutrina de Teixeira Rego, deve ter pensado em Teillard de Chardin, pois não reagiu opondo-lhe qualquer objecção:
«O aparecimento da Nova Teoria do Sacrifício provocou surpresa e originais comentários. Basílio Teles, em seu rigorismo ascético, mostrava dificuldade em entender o emaranhado da floresta de enganos em que o amigo se metera. Bruno, afoito mas precavido, numa fase de ascensão para a ideia de Deus em sua transcendente pureza, evitou dar parecer, por andar molestado. Teófilo Braga, em seu positivismo, adianta que Teixeira Rego deveria ter descrito as três fases nutritivas da Religião: o mito do Éden, ou religião ctoniana; o mito da Serpente, ou o rio gelado; e o mito do Fruto Perdido (sic), ou da bebida fermentada. Não tinha que fazer isso, o autor do livro, para quem a Religião só surgiu após o Pecado Original, sendo, por isso, uma das provas da queda. Segundo a lógica, Rego estava mais certo do que Teófilo: só há Religião por ser necessário re-ligar algo que se cindiu. Só há Renascença por importar nascer de novo.”
Será isso. Só há religião por ser necessário re-ligar algo que se cindiu. Mas, no passar do antropóide ao selvagem e do selvagem ao homem, cindiu-se alguma coisa do divino? A Religião é uma Renascença, um nascer de novo em quê? No antropóide?
Terá reparado Pinharanda Gomes num dos textos de Teixeira Rego que escolheu para figurar no fim do livro, onde ele chama a atenção para “a serpente e esse alimento proibido que foi a causa da civilização e da ciência, esse alimento que foi a origem de todo o mal mas que foi também a origem de todo o bem”? E, se reparou, terá recordado ao mesmo tempo as palavras de Jesus Cristo no Evangelho aos discípulos, “sois Deuses”, que repetem as palavras da serpente no Paraíso?
Não podemos saber se reparou, porque os autodidactas, crescendo e aprendendo sozinhos na sua ilha, têm segredos. É pena, porém, que não tenha explicado melhor o silêncio de Sampaio Bruno sobre o livro do “discípulo amado”. “A ideia de Deus em sua transcendente pureza” era assim tão oposta ao mistério redentor da Encarnação que levasse o filósofo a preferir calar-se, “por andar molestado”, a ter de dizer “não” a uma doutrina que punha no comer carne a origem de todo o mal e de todo o bem?
Teixeira Rego exerce sobre Pinharanda Gomes um fascínio irresistível. Sente-se irmanado com ele no seu autodidactismo. Protesta. Diz que Teixeira Rego não foi um autodidacta. Teve como mestres Basílio Teles e Sampaio Bruno, assim como ele, Pinharanda Gomes, teve Álvaro Ribeiro e José Marinho… e a Igreja, onde floresceu o seu espírito à semelhança do de Hay Benyocdan naquela ilha paradisíaca donde não precisou de sair para conhecer todo o Universo e, através dele, Deus. (...) ler mais

sábado, 18 de julho de 2009

NOS 70 ANOS DE PINHARANDA GOMES, 6

“Da Revolução[1]

Portugal vive entre duas tradições. Reaccionária, uma, revolucionária, outra. É reaccionária a tradição do Sebastianismo. É revolucionária, a tradição dos Descobrimentos. D. Sebastião perspectiva a decadência, o cativeiro e o desterro, não obstante o seu carácter messiânico. Os Descobrimentos perspectivam a ascendência, a liberdade, e a conquista da terra prometida.
A Portugal importa, nesse caso, suplicar pela vinda do novo Infante de Sagres, cuja missão será a de descobrir a Índia ideal. Sebastião simboliza o desejo de domínio, o Infante simboliza o propósito do descobrimento. Aliás, a missionação portuguesa assentava numa missionologia de testemunho. O modelo inspirava-se de S. Francisco: não se trata de ir por esse mundo converter, tornar igual a mim. Trata-se de ir por esse mundo e de viver segundo a vida de Cristo. A seguir, à curiosidade dos povos perante esse modo de vida, responder: “– Vinde e vede.” (Jo, I, 39). Deixando a quem vem, e a quem vê, o direito de escolha, a liberdade de opção. O conversor não é o apóstolo. Ele é tão somente o testemunho do que tem o poder da conversão pela graça. Não nos restam dúvidas, com tudo isso, que a revolucionária missionação portuguesa foi possessa da reaccionária missionologia da Europa central e nórdica, que nos ensinou a vender o Cristianismo como quem vende chapéus. Lugar para a diferença: a missionologia portuguesa define-se como um modo de estar; a missionologia europeia define-se como uma tecnologia de promoção. Quais, nesse caso, as duas pernas do testemunho português ao mundo? Um, a presença, dois, o diálogo. Corolário: a oração pelos simples, a apoteose dos “pobres de Espírito”. Pobres de Espírito são os que amam o Espírito, e só esses estão em condições de santidade.”
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“Talant de bien faire [2]
Sob os ataques cruzados das instituições e do próprio Estado, que incarna a anti-Pátria, sedento que se acha de sorver os bens do povo, qual quadrilha lançada, pela calada da noite, sobre os bens do povo; sob as traições da hipocrisia instituída em serviço público; à filosofia portuguesa, situada, na condição adversa de Portugal, incumbe uma prática de santificação. Com efeito, em Portugal, a filosofia, além de filosofia, é santa. Porque sofre as condições do ergástulo, porque padece as afrontas do insulto e da ignomínia, porque é um valor marginal.

Na adversidade da situação, a filosofia tem serviços a cumprir e serviços a prestar. Em primeiro lugar, ser filosofia contra tudo e contra todos, mesmo quando os suportantes hajam de pagar impostos pelos quais vivem os inúteis. Em segundo lugar, proceder à rediagnose das linhas de apuramento sapiencial que se constituem como paradigmas do essencial: o messianismo fundamental – seja ele revelado em múltiplas formas: messianismo, atlantismo, sebastianismo, astralédia, Quinto Império; seja ele revelado na forma informal e universal da saudade e da esperança. Em terceiro lugar, renovar com actualidade – força de acto, para aqui, e para agora – as grandes orientações das vias septiviais: saber falar, saber pensar, saber escrever, saber calcular, saber viajar, saber medir e saber harmonizar. Em quarto lugar, oferecer ao mundo do nosso tempo a grande visão da enciclopédia e, por fim, propor uma nova classificação de todas as ciências. Tudo se faz com esperança de fazer. Nada se faz com desesperança. A filosofia portuguesa chama-se Elpídio – homem da esperança. “O Desterrado”, imagem salutífera de Portugal, devida a Soares dos Reis, tem o torso curvado para a terra, a cabeça abatida, mas os olhos reviram-se para o céu das ideias. O carácter elpídico da filosofia há-de santificar o pensamento filosófico no desterro de Portugal.
Para esse pensamento nunca se proporá uma figura abatida e desgraçada, demitida e triste, D. Sebastião. Há-de propor-se uma figura em cujo perfil se tenha configurado a coexistência da filosofia teórica, da filosofia poética e da filosofia prática. Uma figura de ascensão e de expansão, o Infante Dom Henrique. O vindouro “Infante de Sagres” é carisma de criação, de ascensão e de expansão. Ele se propõe, imagem positiva, à ditadura decadentista dos sebastianistas, que nos querem tristes e desarmados, para melhor nos explorarem, em nome de coisas que eles ignoram o que sejam. Com o Infante de Sagres, o Espírito passará.
Deixemos passar o Espírito…”
Pinharanda Gomes

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[1] «Portugal, Possível e Impossível», in Entre Filosofia e Teologia, Lisboa, Fundação Lusíada, 1992, p. 199.
[2] «A Filosofia na Terra do Desterro», in Entre Filosofia e Teologia, Lisboa, Fundação Lusíada, 1992, pp. 267-270.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

NOS 70 ANOS DE PINHARANDA GOMES, 5

“Anagnose do Mestre
[1]

Anagnose significa revisão, o acto de olhar de perto, em repetitivo exercício. Se há sinónimos, como Aristóteles ensina na gramática elementar, anagnose constitui o puro admirar, que, para os efeitos do magistério, significa trazer, isso que se admira, “na melhor companhia das nossas almas”.
O filósofo distingue-se por quanto amar a verdade, o que supõe a companhia interior do espírito de verdade, a permanente anagnose (vigília e oração) dos caminhos e dos itinerários que a ela conduzem, por forma a evitar a ilusão e, ainda mais, propondo-se um fim – a rectificação da mente segundo o espírito da verdade. Razão animada, o filósofo sucumbe aos desvios da condição humana. Em palavra cifrada: o anjo está sempre contemplante do espírito de verdade, sempre admirante da verdade do espírito. O homem, algumas vezes, sai do caminho para a estrada do desvio, insensato ou inconsciente, quando conjectura que, pelo desvio, evitará a agónica transposição da porta estreita. Esta estreita porta é irreversível em filosofia. Inevitável. (…) A filosofia não é um curso; é uma via mística, uma forma peculiar da via mística. Subir a montanha propõe-se ao filósofo qual a imagem querigmática da sua professio vitae: procurar a estreita vereda que conduz à estreita porta; evitar as estradas do desvio; não retirar os olhos do contemplum para o contemptum. (…) A filosofia decide-se numa vida, é uma “carreira”, (permaneo, ficar até ao fim), e constrói-se como casa viva dentro da própria filosofia. É mansão, casa (permansio, do verbo permaneo). Casa de portagem do conhecer como saber, e do saber como conhecer, palestra da educação permanente. Nunca se chega a ser sábio. (…) Na communio magistral de Álvaro ecoava (ecoa, porque o espírito do pensamento permanece para sempre) a lição leonardina – contribuir, com a modéstia de uma tese, para a arquitectura final de uma obra a realizar pela humanidade é, pelo menos está perto de ser, filosofia. Via sacra, decidida desde o princípio do tempo, que é coincidente com o princípio do pensamento. Prisão e naufrágio, referências dos tópicos situativos da filosofia: (…) Entre a prisão do saber convencional e o naufrágio nas águas do erro, a filosofia exerce uma jurisdição, sem a qual jurisdição, também não é filosofia: a liberdade. Por esta se evade da prisão, por esta se salva do naufrágio. (…)

Álvaro Ribeiro

O que nesta concentrativa anagnose nos aparece hoje (…) é a pessoa do mestre, individuação singular do magistério – o castigo, a disciplina, a correcção, a doutrina, a arte de pesquisar, o método, enfim, o cilício da professio philosophiae. Emendar, tirando do desvio, castigar, corrigindo o erro – o castigo dirige-se ao erro e ao mal, não ao errante, nem ao mal jacente – supõe amor. O primado do amor é indiscutível na posição magistral de Álvaro Ribeiro: o mestre é o amante, o discípulo é o amado. Não obstante, o mestre é também o amado e, o discípulo, o amante. Só que não se amam um ao outro, mas ambos amam um mesmo outro, que não vem a ser nenhum deles. Isto garante ao discípulo a liberdade de ser discípulo, de se separar, que é o verbo inerente a discípulo. E garante de igual modo ao mestre a felicidade de ver o discípulo separar-se dele, como o filho se separa do seu pai. Se não se separasse, não nasceria, não seria filho. O amor magistral exerce-se como amor paternal, o amor discipular exerce-se com amor filial. O coração deste amor recíproco chama-se lealdade. O pai, que é mestre, transmite a disciplina ao filho, que é discípulo. O mestre obriga-se ao bom conselho. Não engana o discípulo, salvo se achar oportuno sujeitá-lo a teste, a tentação, para ver se o discípulo está como espera. Se achar que o discípulo sucumbe à tentação, revelando imaturidade, ingenuidade, ou inocência, e que ainda o não pode largar de sua mão, o mestre permanece. Volta ao princípio. Inicia a isagoge e progride na repetição do caminho. Nunca é tarde para repetir o caminho que leva à porta estreita do espírito de verdade.
O mestre é uma razão para o discípulo. “A razão vai à frente da alma para a iluminar.” A razão é mestre da alma. Em Descartes, a razão é uma balança. Em Álvaro, a razão equivale a uma luz. Metáfora, sem dúvida, mas metáfora de luz, se não for endeusada.”
Pinharanda Gomes

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[1] «Anagnose do Mestre», in Leonardo, Revista de Filosofia Portuguesa, Ano I, nº 2, Lisboa, Junho de 1988, pp. 14-15.

NO CORAÇÃO DA ARTE, 12

Cynthia Guimarães Taveira

A Cor
Não há uma cor. A cor não é singular, uma cor é sempre mais outra e outra que se adivinha. Toda a matéria é diversa no seu íntimo assim como essa película fininha de cor que a cobre. A cor é apenas uma veste próxima, ou não, desse real íntimo. O pintor acerta os tons, afina a alma do que pinta com a cor que lhe induz. Isola e agrupa átomos de sentido. Corporiza o perfume dos sentimentos e acentua as cores uma nas outras até ao ponto mais próximo da alma que capta.
Todo o mar tem a sombra do abismo e as asas feitas de espuma do céu. Todo o mar tem uma ideia descendo vertiginosamente desde esse céu até à ponta do pincel. Todo o rigor está em aceitar isso ou não. Todo o saber está em ver isso ou não. Todo o amor está, ou não, em fechar os olhos e ver de novo essa imagem precisa, por dentro, na nossa tela interior. Contemplar é ir para muito além, tão além que o real se desvenda na sua verdadeira alegria: cores sobrepostas, sobre cores sobrepostas, até à última camada de luz, até ao centro do coração.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

NOS 70 ANOS DE PINHARANDA GOMES, 4

“Sofrimento e Ascese[1]
A ideia sofre no corpo que é, para ela, a ideologia? O corpo da ideia é a palavra no ciclo da linguagem e, a linguagem, é o conjunto de membros da ideologia. Por isso, a ideia sofre na ideologia, como o espírito sofre no corpo do homem. Encontramo-nos dentro de uma casa que fica desajustada. Há muitas moradas, mas a morada do espírito é quase prisão. (…) A ideia sofre tanto no corpo da ideologia, como o espírito sofre no corpo da criatura. Está nela, em viagem, não em evolução, mas a viagem é infindável. Porque anelamos o instante de plenitude ou de vazio, se não for para darmos a viagem por finda?
O sofrimento é, em princípio, uma desarmonia entre o hábito e o habitante. Habitante é o espírito, hábito é o corpo; habitante é a ideia, hábito é a ideologia. Ao que parece, feitos um para o outro, o corpo surge de baixo, enquanto o espírito surge de onde quer que seja. (…) Sofrimento é desarmonia. A ascese ilumina o sofrimento, qual fogo na escura noite. Está longe de se identificar com o milagre, com a alêteia e com o apocalipse. É, apenas, o convite para lá. (…) O sofrimento surge quando, à brisa que vem das águas, o corpo se move para respirar o pneuma e apreender o espírito, esse que queima. (…) O corpo não pode adormecer, sob pena de, dormindo, deixar que o espírito passe, sem o visitar. O ideal seria lograr, em nós, o encantamento da princesa dormente. Veio o príncipe, beijou-a, e a princesa acordou para todo o sempre. O que da princesa nos diferencia é não sermos pura alma, sempre viva e animada (anima) mas impura razão e, a razão, dorme sobre o irracional. (…)
No trânsito do sofrimento para a ascese, o bordão é filosofia. Filosofia que, radicalmente adversa ao funcionalismo profano da história e do humanismo, nem é ciência, nem religião; nem só teologia, nem só cosmologia, nem só antropologia; nem polimento e encanto da chateza eruditiva. Mas filosofia. Amor da sabedoria, impulso. Filosofia que, nas dificuldades da acção, e nos compromissos que a ideologia lhe exige, se manifesta como Boécio (A Consolação da Filosofia) antevia, ou imaginava: «O que incumbe (à filosofia) é abrir o caminho, para que mova a razão à sua vereda, e se dilate na noite mais sombria.» Ah, sim, que a ascese segundo a razão é autenticamente mística e sem mistura. É uma ascese tão dolorosa quanto é dolorosa a dor situada. Surge como um outro sofrimento, insituado, que parece envolver-nos todos, e magoar, com agudas picadas, cada mícron de todo o corpo. Leva-nos a partir de consagrado momento, a evitar toda a espécie de lugares-comuns; a desprezar todas as sugestões da opinião; a estimar a fecunda ignorância, enquanto se desconfia da mais qualificada erudição. Põe-nos diferentes do outro, por vezes, contra o que habita o outro, ou seja, a ascese pela filosofia significa a possibilidade milagrosa de sofrer pelo espírito. A garantia de autenticidade de ascese pela filosofia há-de verificar-se quando o filósofo for assassinado. Quando a sociedade o convidar a desaparecer, por violência sobre o habitáculo corporal. O que assinala como deve estar o filósofo avisado acerca da ciência humana: a ciência humana rejeita a verdade da filosofia. Se a não rejeitar, talvez importe interrogar se o recto caminho estará a ser seguido. A rejeição assume-se em formas diversas: ódio, perseguição ou indiferença e silêncio. Em ambos os casos, a arma da liquidação da filosofia funciona. Ou por assassinato, ou por emparedamento vivo. Cumpre saber que espécie de tratamento a sociedade usará, para, prevenidos e revigorados pela ascese, melhor se afrontar a inquisição final.
A catarse há-de começar pelo princípio, a saber: filosofia não é coisa para ensinar, é culto a iniciar. Uma liturgia da razão, uma ascese da alma, uma teologia do espírito.
O que se torna significativo. Professores de filosofia admitem que ela se encontra na esfera da impreferência do público, acorrente às ciências humanas. O fenómeno denuncia que, sob a crise da filosofia, é a crise de espírito que se anuncia. Tem agora, o filósofo, a vantagem derradeira, qual seja – amar o amor do saber, sem risco de fazer dele um produto de consumo. Que o filósofo não consuma a filosofia. Que a filosofia consuma o filósofo.”
Pinharanda Gomes
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[1] «Do Unir», in Pensamento e Movimento, Porto, Lello & Irmão - Editores, 1974, pp. 170-173.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

NOS 70 ANOS DE PINHARANDA GOMES, 3

“As Crianças ao Deus dará [1]

Em cada Outubro, milhares de crianças e de jovens são lançados nas escolas, como lenha a forno. O fenómeno é mais do que o efeito de um propósito de os pais de fazerem, de seus filhos, uns homens. O fenómeno resume-se, no acidental, tornado essencial, na preparação para o emprego – no começo da luta pela vida.
São milhares de crianças, efectivamente iguais na juventude e nas necessidades, mas terrivelmente diferentes em tudo o mais. (…)
Todas essas crianças necessitariam, na melhor das vidas, um mestre por cada uma, um pai por cada uma, um educador à medida de cada uma. Esse mestre, esse educador, é o pai, é a mãe, ou deveriam sê-lo; mas o sistema não o permite. (…)
Assim, todas essas crianças, medidas pelo único metro da moderna pedagogia, são lançadas nas escolas como objectos aprendizes. Perdem o nome, passam a ter um número; a família perde peso na sua emotividade, e o contrabalanço é feito por novas amizades, e outros interesses. E o que recebem não é um fluido que lhes encha a alma; é a obrigação de se prepararem para saber fazer. A condição operária antes da condição humana. Salvo o tempo lectivo (…) todo o resto do tempo ficam entregues a si mesmas. (…) E, paradoxalmente, na era das ciências pedagógicas, as crianças não encontram, nas escolas, os necessários pedagogos.
Aliás, reina por aí uma notável confusão (…), já se comete o erro de confundir pedagogia e didáctica e, por consequência, de tudo referir à pedagogia, pondo a didáctica de fora. É preciso rever os conteúdos das palavras.
Na antiga cidade de Atenas, as famílias livres mandavam os seus filhos ao liceu, isto é, à escola, que, em geral, ficava afastada do lar familiar. O liceu tinha um professor, o didacta, ou seja, o que ensinava esta, aquela, ou todas as disciplinas.
As ruas de Atenas não eram, naquele tempo, sossegadas, e as crianças que iam sozinhas de casa para a escola corriam certos perigos, como o de serem atacadas, raptadas, ou induzidas a maus costumes. Para evitar tais causas e os óbvios efeitos, as famílias contratavam os serviços de um escravo de confiança (…) que tomava a seu cargo levar a criança à escola e, depois, de ir buscá-la (…) o pedagogo (…).

Ora, hoje, ouvimos falar em pedagogia a propósito de tudo, e até em pedagogia das ciências, como se as ciências necessitassem de pedagogia.
Do que as crianças necessitam é de didáctica, isto é, de quem as ensine, e não de quem as leve à escola. Mais, a pedagogia e a didáctica não se aplicam às ciências, mas às pessoas, ou seja, pedagogia para as crianças das escolas, ou dos liceus, de, didáctica, para os alunos das escolas, liceus, oficinas e universidades.
Todos os anos, ao mesmo tempo, as autoridades lançam nas escolas centenas de professores. (…) Às escolas chegam os professores humanistas, os que visam fazer de cada criança um funcionário e, alguns, poucos, que olham para dentro das crianças, e nelas projectam a vontade de criar um homem em cada uma (…), e a todos as crianças têm de ouvir e atender (…) [dando] a tolerância, a humildade, a submissão a um corpo de didactas não raro incoerente e contraditório. (…)
Quando as ciências pedagógicas não eram ciências, as funções dos pedagogos eram preenchidas (…) pelos Preceptores e Prefeitos [alguns dos quais confundiram] prefeitura com policiamento. Ora, o Prefeito é um Puericultor, alguém que não deixa as crianças ao «deus-dará», mas as orienta, as assiste, as ensina, as ocupa eficazmente nos tempos livres, e cria grupos de interesses objectivos, e estabelece harmonia e amizade, onde seriam de esperar a desarmonia e inimizade.
Ora, as escolas actuais puseram de parte a função prefeitural [substituída] pelos Contínuos, cuja missão é mais a de defender a escola contra os abusos das crianças, do que de defender as crianças contra os abusos das escolas. (…)
Pretende-se que as crianças cresçam desinibidas, e sem complexos. (…), mas outros complexos e frustrações as intimidam e que decorrem do facto de um crescimento sem apoio, de um amadurecimento sem amor, de uma puberdade sem assistência, de uma iniciação ritual extemporânea, de uma vivência sem Modelo e sem exemplo, logo destinadas a operários ou a técnicos, sem que ninguém se preocupe com os seus seres de homens e de mulheres. (…)”
Pinharanda Gomes

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[1] «Interpelação e Consolação do Triste Reyno da Luzitaina», in Meditações Lusíadas, Lisboa, Fundação Lusíada, 2001, pp. 181-182;

PARA LER



Ecos. Na Nova Águia, uma brevíssima reflexão de Casimiro Ceivães sobre a Anotação Pessoal de António Carlos Carvalho, hoje aqui publicada.

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 18

António Carlos Carvalho

Pelo aniversário, a Cynthia ofereceu-me o último livro do José Gil. Percebeu que eu me tinha interessado pelo livro, apresentado em conversa com o autor na SIC Notícias, e resolveu fazer-me a surpresa. Nem ela nem eu prevíamos que fosse, afinal, tão pouca coisa.
Apesar do título apelativo, «Em Busca da Identidade – o desnorte», não passa de um livrinho insignificante. Pela dimensão (62 páginas, muitas delas em branco ou quase – mas às vezes uma única página numa certa obra vale 200 numa outra ...) e sobretudo pelas ideias e pela forma.
Não vou fazer aqui uma recensão. O livrinho não merece tanto. O seu autor, doutorado em filosofia pela Universidade de Paris, onde também ensinou antes de vir fazer o mesmo para a Universidade Nova de Lisboa, tem mostrado o seu interesse pelo Portugal de hoje. Esta última obra debruça-se sobre o que considera como «doença da identidade»: «Somos portugueses antes de sermos homens – eis a doença da hiperidentidade que nos corrói.» E depois analisa em traços rápidos o caso clínico português com a ajuda do psicanalista Sandor Ferenczi. Aliás, o texto refere apenas autores estrangeiros (Michel Foucault, Antoni Negri, Gilles Deleuze, Jacques-Alain Miller, Jean-Claude Milner) e nenhum português (Pessoa é referido apenas de passagem).

Lendo estas poucas páginas do que poderia ter sido uma conferência ou um texto para ser lido em colóquio, pensei mais uma vez que não creio ser possível reflectir filosoficamente sobre Portugal sem a ajuda da nossa História (do que ela mostra e do que esconde) e sem uma visão interior desse ser espiritual que é a nação. Uma visão que seja realmente *ver* e não apenas *olhar*.
E é de olhares estrangeirados, forasteiros, como o que este livrinho mostra, que eu estou farto, confesso. Sejam eles de influência francesa ou de imitação americana, esses olhares que nos percorrem anedoticamente, cheios realmente de ideias feitas, nunca entendem (como o poderiam fazer se não falam realmente português?) o que Pessoa nos tentou dizer – gritando ao que restava da nossa alma – há 75 anos: Portugal ocultou-se, é ele o verdadeiro Encoberto. Isto que temos hoje é apenas um simulacro, uma casca, uma máscara (uma «persona») de comédia que já nem graça tem. E o povo que por aqui ainda habita, por não ter podido emigrar, alimenta-se apenas de imagens, de fantasmas animados num ecrã.

terça-feira, 14 de julho de 2009

NOS 70 ANOS DE PINHARANDA GOMES, 2

“A Filosofia na Floresta de Enganos[1]

Filosofia portuguesa é uma tradição actual de curiosidade que as imagens leonardinas definem. O que Álvaro Ribeiro, portuense emérito, e figura maior de asceta e de filósofo – ele corporiza a ascese filosófica na sequência de uma linha de vida que decorre de Amorim Viana a Leonardo Coimbra, via Sampaio Bruno – o que, dizíamos, Álvaro Ribeiro propôs não é mais, nem menos, do que esta simples regra: filosofia portuguesa é o acto de filosofar em português, com toda a carga de existenciais que o português transporta para o acto de filosofar. Como a ave, que tem asas, e voa e, não obstante, tem pés, e anda. Dir-se-á que tais predicados inerem a todo o filosofar, seja ele filosofar onde for. Irrecusável a premissa, ela permite uma audição: a universalidade do vinho não obsta ao próprio que é isso, e não aquilo – o vinho do Porto.
A filomatia, actual na periergia do filósofo, transcorre entre vários riscos, quais esses que significamos na imagem “floresta de enganos”. Apetente da verdade, inquirente do que é, e não deixa de ser, porque é, a filosofia aprende à sua custa. Sabe, mais depressa ou mais devagar, que terá de percorrer a floresta de enganos até ao fim, esse momento em que achará a bela adormecida, que despertará no calor do seu beijo. A filosofia beija a sabedoria e a sabedoria desperta. Tal como o criador beijou a matéria-prima e esta despertou nas formas criadas. Em todo o caso, já sabemos, e nem interessa repeti-lo, que é da filosofia o dever de atravessar, sem se enganar, a floresta de enganos. O que interessa sublinhar é outro fenómeno, cifrado este na imediata demissão da filosofia quando, sem querer ter iniciado um percurso, logo se abandona ao que, não sendo necessário engano é, todavia, factor de retardo, dificuldade na prossecução do itinerário da mente para a verdade. A crença, a ideologia, o economismo, podem dificultar o ascenso da filosofia. De um modo geral, a crença fixista, a ideologia militante, e o economismo absorvente, são estruturas de culturas grupais que, dentro deles, não permitem outra liberdade que não seja a da dissolvência na ética grupal. Os partidos políticos portugueses não são correntes de ideias. Na sua face evidenciada são correntes de interesses. Os partidos políticos portugueses, ainda quando substanciados numa delida estrutura ideológica, todos eles existem como vozes de grupos económicos. Consideram a questão de mandar (ter o poder à mão) e o dilema de ter (possuir as coisas). A ideologia e o economismo fecham as portas ao ser pensante, impotenciam a filosofia. A vida filosófica não floresce em tais estufas. A vida filosófica, respira espírito, pneuma, ar puro, o mais puro do vento. A poesia também sofre aí análogos tratos de polé. O economismo e o ideologismo recusam, já a filosofia, já a poesia. Quando seria chegado o tempo do “Supra-Camões” verificou-se um regresso da poesia portuguesa ao estado de impotência, pois desde Fernando Pessoa que a poesia portuguesa não voltou a dispor de análogo momento de aleteia poética. O oculto Camões, tal como o oculto Infante de Sagres, não têm cidadania. Ou talvez se achem em purgatório que é, por agora, e também, o lugar concedido aos heróis, aos homens honrados, e aos santos. As celebrações oficiais de algumas figuras da Pátria tresandam a hipocrisia. Algumas outras servirão para atribuir verbas do orçamento público às clientelas partidárias. O povo cala, mas a filosofia já aprendeu – pelo menos isso aprendeu – que o poder político põe e dispõe. O povo vota, o povo paga, o povo trabalha, o povo geme, o povo sofre, o povo paga de novo, quantas vezes forem precisas! Pagará funções cuja utilidade, ou ignora, ou não sabe justificar. Da sua utilidade económica, ética e social não há, porém, efectiva e convincente notícia. Em Portugal, a filosofia sufoca, tal como o povo. Em Portugal, os que podem sufocam os que sabem! A cracia é carcereiro da arquia. Muitos ambicionam a vida financeira, alguns cobiçam a vida política, raros desejam a vida filosófica. A crueldade do dizer é agora justa: a filosofia não tem lugar na polis.”
Pinharanda Gomes
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[1] «A Filosofia na Terra do Desterro», in Entre Filosofia e Teologia, Lisboa, Fundação Lusíada, 1992, pp. 181-182.

O CAMINHO DO CAMINHO, 1

Cynthia Guimarães Taveira
O choro, a cascata e a luz
Uma amiga holandesa disse-me ter chorado convulsivamente pela noite fora. Infeliz não era. Depressiva também não. Disse-me que não sabia porquê mas nessa noite não conseguira parar de chorar. Como se chorasse por tudo. Por nada. Olhei-a espantada. Senti que era capaz de fazer o mesmo. Senti mais. Que deveria fazê-lo. E lembrei-me que talvez algumas pessoas ainda conseguissem ser humanas ao ponto de chorar numa só noite todas as lágrimas que não caíram durante anos. Mas o mundo é mundo e também símbolo e sonho. Lágrimas que guardamos, reservadas, lágrimas de sal, lágrimas de vida, enfim. O arrependimento dos mais pequenos detalhes extraviados do bom caminho. O arrependimento do bem que deixámos de fazer. O arrependimento até das acções mais inocentes e insignificantes mas demasiado fúteis para constarem no livro da alma. O arrependimento dos filmes dramáticos que vimos, das histórias que escutamos e lemos. E sim o arrependimento da História da humanidade, das barbaridades que partilhamos enquanto espécie. E ainda o arrependimento da nossa insignificância e da nossa incapacidade de explorar todas as nossas possibilidades, até ao limite, até ao fim. O arrependimento da ausência de absoluto num mundo hermeticamente fechado sob si próprio. O arrependimento é afinal tão próximo de tudo: desde a formiga que se esmaga sem querer, à responsabilidade de tendermos a ser anjos voadores de espírito infinito.
Todo o choro numa noite, não com gritos de angústia, mas sim acompanhado pela consciência do difícil acto de devolver tudo aos seus lugares, de repor o irreparável, de ensimesmar a vida até aí vivida para a devolver em lágrimas.
Temos duas cascatas nos olhos (espelhos da alma) e, quando choramos, choramos mais do que por apenas uma única coisa. Se alguém nos morre choramos de saudade, de arrependimento, de memórias, momentos, perfumes, toques, cheiros. O choro é plural e vem sobre a forma de cascata. Apenas no homem. Mas que cascata é essa que connosco vive?

“O filósofo grego Heraclito já tinha observado isto: num mesmo rio, jamais é a mesma água que corre; observação que ele colocava na base da teoria sobre a evolução perpétua dos seres e sobre o paradoxo do pensamento que tende a imobilizar as coisas que se movem em definições fixas. (…) o movimento descendente da cascata significa igualmente o movimento da actividade celeste, proveniente do motor imóvel”[1]

E ainda, na árvore sefirótica Kether, a coroa, simboliza “Eu sou“, e é dito dela ser uma luz que jorra perpetuamente, sem princípio nem fim, como uma cascata…
Há luz, afinal, nessa tristeza, a mais celeste que podemos conhecer. Enquanto há choro, há esperança.
Não é em vão que duas cascatas jorram dos nossos olhos. É nesse arrependimento que reside a verdadeira memória da humanidade. As lágrimas são uma arqueologia de Deus num movimento inverso ao do arrependimento, porque também elas são sempre mais do que uma única coisa, o sal da vida…
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[1] Dicionário dos Símbolos, Jean Chevalier e Alain Gbeerbrant - entrada para cascata.

PARA LER: MEMÓRIA DE ANTÓNIO QUADROS




Efeméride. Oportunas lembranças, as de Renato Epifânio, na Nova Águia, e de António Quadros Ferro, na página dedicada à memória de seu avô: se vivo fosse, António Quadros faria hoje 86 anos. Para ler: aqui, aqui e aqui.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

NOS 70 ANOS DE PINHARANDA GOMES, 1

“Das Palavras[1]

Todas e cada uma das palavras que constituem as línguas, são palavras e, por isso, criaturas significantes e significativas, que existem, criadas por necessidade. As palavras não se substituem umas às outras, cada uma existe em si e por si, com natureza, valor e função inalienáveis. O argumento que enuncia a regra – não há sinónimos – vale ou tem valência aqui: nenhuma palavra é significada por uma outra fora dela, ou existente a par dela. Cada palavra designa, indica, demonstra e ou significa um ente, seja esse ente de natureza eidética, conceptual, material, sensível ou insensível, formal ou informal. À realidade da palavra equivale a realidade do ente por ela designado. Assim: à palavra água equivale uma natureza objectiva, a mesma água; e à palavra bruxa equivale uma natureza objectiva, a mesma bruxa. Tudo depende, neste último caso, de compreender, por adequada definição, o que seja bruxa como ser. Pode não passar de um conceito, de uma noção, de uma imagem superativa, mas bruxa existe tal como a palavra a identifica.

Nenhum ser é dito por outro ser. Pode, no mínimo, oferecer dele uma breve, ou ilusória, ou instantânea aproximação. Assim: passou uma forte ventania, mas Deus não estava na ventania; sobreveio um terramoto, mas Deus não estava no terramoto; ergueram-se colunas de fogo, mas Deus não estava no fogo; e, por fim, perpassou uma suave, murmurante brisa, e parece que Deus estava na brisa. O episódio acha-se na vida do profeta Elias (I Reis, 19, 11), e também nos serve para entender (isto é: para entrar dentro, in-tendere) que o estar pode oferecer uma aproximação ao ser, mas que o estar não é o ser. Estar alegre não significa necessariamente ser alegre, e também o estar em Deus não significa ser Deus, nem Deus estar em significa esse em ser Deus.
A palavra Natureza pode, mediante prévia isagoge, dar-nos uma aproximação à ideia de Deus-criador; mas a palavra Natureza não substitui a palavra deus. Num plano mais acessível: a palavra bonito não substitui a palavra belo, nem a palavra belo se compadece com bonito.[2]
Cada nome é uma ideia. Cada ideia exprime-se ou acha-se expressa num nome. Abandonamos agora a questão muito antiga, mas ainda insolvida, de saber se a ideia emerge do nome, ou se o nome emerge da ideia. A economia humana cria palavras porque precisa delas. Se não precisasse não as criava, e, por recurso à polivalência das palavras, cada língua teria meia dúzia delas, e não mais. Ora, as palavras são entes singulares, criaturas vivas (sujeitas ao crescimento e à morte, como toda a criatura situada nos limites da geração e da corrupção) e têm vida própria: a sua vida, e não a de outra palavra, ou de outras palavras. Cada palavra vive, coabita e convive com todas as outras palavras. Até as antónimas (bem e mal, claro e escuro, Deus e o Diabo…) coabitam e jogam umas com as outras, umas a favor de outras, umas contra outras, mas jamais se fundem ou confundem. A menos, claro, que se ignorem as artes de diferenciação ensinadas na homofonia, na homografia, na univocidade, na equivocidade, na paronimidade e noutras subtilezas com que espreitamos o que as palavras valem por dentro. O que limita o valor das palavras é, muitas vezes, a limitação situativa do humano.
A palavra canto, ouvida por um pedreiro, significa canto da casa, ouvida por um músico, significa o que se canta, e assim por diante. No entanto, o filósofo, ouvindo a palavra, tem o dever de lhe identificar desde logo todas as acepções, para que se saiba de que se fala. Aristóteles, mestre dos que sabem, e que ora não é mestre de ninguém, revelou a tekné nos seis livros do Organon, e de modo particular nos Analíticos, Tópicos e Elencos. Tudo o que se julgue poder acrescentar é pura ilusão, ou falta de modéstia. O que todos temos dito, desde Aristóteles, é o que ele disse, por outras palavras e outras frases. Quem sabe, então, se dizemos o que ele disse?”
Pinharanda Gomes

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[1] «Portugal, Possível e Impossível», in Entre Filosofia e Teologia, Lisboa, Fundação Lusíada, 1992, pp. 191-192;
[2] Em português, bonito (…) é um diminutivo: bonus, bonum + ito, que vem a dizer bonzinho, ou pequeno bom, não sendo, nem sequer, parente de belo. Bonito é da esfera da Bondade, belo é da esfera da Beleza.

"O CAMINHO DO CAMINHO": UMA NOVA RUBRICA DE CYNTHIA GUIMARÃES TAVEIRA

Novidade. É já amanhã que se inicia a nova rubrica de Cynthia Guimarães Taveira nesta página. O Caminho do Caminho é o seu título, e será publicada em paralelo com a muito apreciada série No Coração da Arte, que a autora aqui vem mantendo há alguns meses. Sobre O Caminho do Caminho, Cynthia Guimarães Taveira adiantou-nos as palavras que se seguem:

“É uma rubrica que nasce de uma evidência vivida: o sonho cruza-se com a realidade. Noite e dia desaparecem, dentro e fora eclipsam-se, realidade e ilusão são duas abstracções voláteis e inseguras quando esses mundos se cruzam e algo de mais sólido nos é dado. Sonhar com um pássaro na janela e acordar pela manhã com um pássaro na janela... nem sonho, nem realidade, apenas a verdade. Sonhamos pela noite, às vezes sonhamos durante o dia. Esses sonhos tocam o real quotidiano, quer nas acções, quer nas coincidências. Sonhamos quando lemos textos alquímicos e uma cascata de símbolos invade a noite interior. Disfarçamos mal quando olhamos um rosto e lhe procuramos a alma numa espécie de pensamento que já é voo sonhado. O sonho não tem rédeas como o pensamento. Toca absurdo numa franqueza que se dá bem com a verdade. Certas frases, lidas em certos livros são carruagens poderosas que nos levam em direcção ao pensamento mais pleno. Aquele que está em sintonia com o coração. O "Caminho do Caminho", é esse outro que se nos desvenda a cada passo. Esse mundo tornado mágico pela frescura dos novos olhos. Esse que nos dita a alma e nos forma, transformando-nos vigorosamente, sem "à partes" que distraem ou vícios que nos oprimem. O "Caminho do Caminho" é aquele da liberdade. Nós, sinceros, perante Deus e o mundo.”

PENSANDO À BOLINA, 7

Pedro Sinde


Os esotéricos
Chama-se mentira ao acto de falar sobre aquilo que não sabemos. Visto desta perspectiva, o homem é naturalmente mentiroso e pouco mais é do que isso, porque, no fundo, nada sabe do mundo em que vive e passa todo o tempo numa tagarelice fantasista.
A mentira atinge a sua mais irónica perversão entre as pessoas ditas "espirituais", que gostam de "esoterismo". Falam de "corpos astrais", de "mundos paralelos", "reencarnação", "chakras" e organizam a sua vida em torno disso. Não deram ainda o primeiro passo na nobre doutrina da autognose e falam como se soubessem tudo, tudo explicando por um ou dois termos da moda: energia e vibração. Um e outro são utilizados num leque de acepções tão vasto que neles cabe qualquer coisa; e como neles cabe qualquer coisa, servem para explicar tudo.
Passam horas a meditar; mas que coisa é meditar? São incapazes do mínimo gesto de bondade, de olhar atentamente o outro e ver o que ele necessita; vivem fechados no seu umbigo, a que chamam, deleitados, o chakra do plexo solar, se não lhe derem um outro qualquer nome hindú ou chinês difícil de pronunciar.

António Carneiro, Crepúsculo

Agora mesmo o sol, pondo-se, chegou ao horizonte depois de ter estado escondido por uma longa faixa de nuvens. A luz laranja cantou subitamente o seu hino fulgurante, ígneo; quase é possível ouvi-la. Magnífico!

Deixemos, pois, esses astrais, quando temos aqui mesmo o astro. Deixemos as literatices e olhemos para o mundo magnífico em que estamos. Em vez de uma meditação, façamos uma oração e que ela não seja um pedido, mas apenas um agradecimento. Já temos tudo connosco, não precisamos de mais; pelo contrário, precisamos é de menos, porque o que temos a mais não nos deixa ver.
texto originalmente publicado no blogue Maranos

domingo, 12 de julho de 2009

NOS 70 ANOS DE PINHARANDA GOMES

Homenagem. O filósofo e historiador Jesué Pinharanda Gomes celebra 70 anos de vida na próxima quinta-feira, 16 de Julho. Os Cadernos de Filosofia Extravagante, congratulando-se com a efeméride, comemoram-na com a publicação, já a partir de amanhã, e até sábado, de uma série de escritos deste notável pensador da filosofia portuguesa. A escolha dos textos coube, aliás, ao próprio Pinharanda Gomes, em estreita colaboração com Elísio Gala, do círculo dos Cadernos, circunstância que muito nos honra. A Elísio Gala fica ainda a dever-se a coordenação desta série e o respectivo trabalho editorial.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 22

Às Moscas
Pedro Martins

Grande, negra, perturbante, a varejeira sobrevoou a nova sala do Museu de Évora, onde o majestoso políptico flamengo da Vida da Virgem se encontra exposto à admiração da grei. Ante a investida alada, o garoto, sete anos desarvorados em cinco réis de gente, deu um pulo, desceu os degraus que formam um pequeno anfiteatro e, com o boné de pala em riste, procurou dar caça ao insecto. Nessa altura, a funcionária circunstante tomou-se de brios e foi no encalço da mosca minaz. Ignoro a sorte que decidiu a refrega, se a houve: voltei costas ao magnífico retábulo quinhentista e dispus-me a percorrer as outras galerias da pinacoteca, agora valorizada por incontáveis trabalhos de restauro e investigação.
Entre nós, há por certo museus maiores e museus mais ricos (se esta última, benévola palavra se presta à nomeação de um ror de penúrias). Mas o acervo eborense, notavelmente ecléctico por mor do legado de Frei Manuel do Cenáculo, oferece raro panorama da pintura antiga portuguesa (entre o secreto Grão Vasco e o luminoso Sequeira, descobre-se, com surpresa, uma tela de André Gonçalves, A Sagrada Família, que quase desmente a pobreza pictórica do Barroco nacional). E isto a par da colecção de arte estrangeira, pouco menos do que impensável num museu regional, onde avultam os círculos de Gerard David, Guido Reni ou Rembrandt, e nomes ilustres como Morales, Teniers ou Avercamp. Há ainda o caso ímpar, mas equívoco, de Álvaro Pires de Évora, pintor português de nascimento, mas escolar italiano, ao modo aurífero de Siena.
Reaberto há poucos dias, o museu ressurgiu de um hiato: cinco anos de obras que custaram uns quantos milhões de euros. No sábado, ao começo da tarde, apesar da boa nova, e a despeito dos tesouros que guarda, não teria sequer uma dezena de visitantes nas suas salas. Há ali história, arte e pensamento que implicam a Nação – mas os portugueses vão perdendo os derradeiros vínculos à Pátria. Às vezes, percebo que nos tornámos uma gente crassa, e lembro-me daquela senhora, então Ministra da Cultura, que, vai para dois anos, afirmou haver demasiada arte portuguesa nos museus nacionais (ou coisa que o valha: cito de memória, está bem de ver). Com a violência de um insulto, tudo fica irremediavelmente no seu lugar. Tudo, ou quase…

No sábado, por várias vezes surpreendi Joaquim Oliveira Caetano, o entusiástico director do museu, vagueando pelas salas desertas. Inconfundível nos seus óculos de massa, reconheci-o por semelhança com a fotografia que o Público dera à estampa na segunda-feira anterior, dia da reabertura, amplamente divulgada em quatro páginas daquele jornal. Não sei o que o levaria a estar por ali, naquele dia, àquela hora: se uma dedicação tenaz, extremada ao ponto humílimo de suprir a falta manifesta do pessoal vigilante; se o maravilhamento de quem contempla na obra acabada a realização criadora de um sonho antigo; se a natural expectativa de uma afluência ridente, no primeiro dia de lazer desta nova era.
Revisitava a galeria da pintura portuguesa mais tardia, quando a funcionária zelosa se abeirou do seu director:
– Talvez o senhor doutor pudesse tratar da mosca que está ali pousada…
Eu ia jurar – quem saberá dizê-lo? – que era a varejeira, a grande mosca negra que perpassou o início desta crónica. Estava pousada na ombreira de uma janela, que a remodelação da galeria terá acrescentado à área de exposição. Resoluto, o director dobrou em quatro o jornal que estava a ler (era ainda o Público, mas afianço que se tratava da edição desse dia), deu dois passos em direcção à janela e, de um salto, desferiu sobre o insecto o golpe fatal que logo o deitou por terra.
Acaso haveria melhor remate para este relato? Cuidei que houvesse. E, com os bodegóns de Josefa de Ayala a dois passos, não resisti à chalaça pronta:
– Mais uma natureza-morta, hein?!
O director endossou-me um leve sorriso e afastou-se do local, não sem antes evocar a parecença da sua lide com o gesto famigerado de Barack Obama, que matou uma mosca durante uma entrevista televisiva. E eu, impenitente do humor fácil, dei comigo a pensar que este homem notável estava, ainda e sempre, à altura das circunstâncias. Mesmo num museu às moscas.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 21

Carta para António Carlos Carvalho

Pedro Sinde

Meu caro amigo

Escrevo-lhe esta carta no dia do seu aniversário, porque me ocorreu, ao pensar em si, uma parte essencial do trajecto que me tem acontecido percorrer. Como não importa nada daquilo que me diga respeito pessoalmente, só o vou evocar aqui para o lembrar a si.
Estamos em 1993 (há 16 anos!). Numa brochura sobre a Feira do Livro do Porto aparecem vários testemunhos pessoais, mais ou menos anódinos, sobre a relação com os livros. Um desses testemunhos, no entanto, chama-me imediatamente a atenção por causa do título: “Cinco caminhos para a sabedoria”. O nome do autor: António Carlos Carvalho. Apesar de nunca ter ouvido falar nesse nome, aquele título e a fotografia que o acompanhava fazia antever qualquer coisa de inusitado. E foi verdade. Sem exagerar, posso dizer que a minha vida mudou nesse dia.

Qualquer coisa imediatamente ressoou em mim, como se no fundo de mim alguma coisa soubesse que nos conhecíamos de “outros lugares”. E era certo, certíssimo, apesar de aqui nunca nos termos encontrado. Depois o texto. Também aí não sei dizer bem o que era, mas a familiaridade era a mesma. Desse texto, houve dois nomes que retive: René Guénon e Isaac Bashevis Singer. Do primeiro, li imediatamente O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos. É impossível voltar-se atrás depois de se ler Guénon, o que ele faz é impossível desfazer; logo porque nos toca em lugares do espírito (não tanto da alma) ou do intelecto que de pronto reconhecemos como verdadeiros, como intemporais. Ali encontrei, finalmente, o que de algum modo tendia a saber sobre estes tempos, mas que não tinha trazido à consciência. Compreendi porque é que me sentia “desenquadrado”. A impressão com que se fica é aquela que têm os loucos: eu achava que estava mal, mas afinal descobri que é o mundo todo que está errado! É este nosso tempo que está errado ou, melhor dito, ele, na verdade está a decorrer exactamente como o previsto e, por isso, cumpre-se como idade de ferro que é. É claro que este veneno inoculado por Guénon, acaba por ser matizado e é claro que com o tempo percebemos que Guénon, sendo uma figura essencial e até providencial para os nossos tempos, não é, no entanto, um “deus” e, como também tem alma, também se engana e precipita em alguns juízos. Mas nada disto retira valor à bênção que é o existir um homem destes com uma missão análoga à da sirene dos faróis.
De seguida, li, encomendado no calhamaço que era o catálogo manual da Livraria Leitura (no tempo em que não havia internet), Symboles de la Science Sacrée. Quando recebi o postal a avisar da chegada do livro, naturalmente faltei às enfadonhas aulas de “filosofia”, fui levantar o livro e “saltei” directamente para o café Ceuta para o devorar com o entusiasmo que caracteriza as primeiras descobertas. Um pouco mais tarde, viria a repetir-se esta impressão com a descoberta dos livros de António Telmo; mas esta seria outra história. Através do Reino da Quantidade tinha sentido este mundo como um inferno, com o Symboles senti a pureza e a sabedoria resplandecente da criação. Senti, como os adeptos de Zoroastro ou do evangelho de S. João, que a criação estava a ser tomada pelos filhos da treva. Se lhe conto isto, não é para falar de mim, como lhe disse, mas para que veja a importância que algumas sugestões suas puderam fazer numa alma em busca.
Pensei, nessa altura, que alguém que recomendava autores deste tipo devia saber “mais coisas”. Saí da minha timidez para ir à sua procura no DN. Mas também isto seria já outra história. Estas palavras são apenas de gratidão e para lhe lembrar que, se muitos projectos seus estão por cumprir, muitos outros cumpriu sem que disso tivesse talvez consciência – todavia, Ele sabe mais e por isso melhor do que nós decide quais os nossos projectos a cumprir, ainda quando deles não temos consciência.

Aceite o abraço grato do
Pedro Sinde

quarta-feira, 8 de julho de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 17

António Carlos Carvalho

Faço hoje 62 anos. Na verdade, o tempo é veloz: nem dei pela passagem dos anos, não os sinto a pesar-me cá dentro. Mas sou obrigado a fazer balanços, sobretudo negativos, destes anos. Tantos sonhos desfeitos, tantas desilusões, tantos projectos falhados ...
Ironia da História: antigamente, este era o Dia da Marinha, assinalando a partida de Vasco da Gama para a Índia, com a sua descoberta (ou reconhecimento oficial) do caminho maritimo para esse Oriente perdido. Hoje, este é apenas o dia de um aniversário de alguém cuja viagem para Oriente nunca passou de um sonho.
Lembro-me então de um vizinho nosso, peninsular, Yehudah (Judah) Halevi (1075-1141), que dizia: «O meu coração está no Oriente e o meu corpo no extremo do Ocidente.»
Este médico, poeta e pensador religioso, autor do célebre «O Kuzari», sonhava visitar a Terra de Israel, mas morreu a caminho, em Alexandria. A sua obra é essencial para entendermos o pensamento filosófico e religioso medieval na Península Ibérica, como explicou exemplarmente um dos seus maiores estudiosos: Jacob Gordin.
Por coincidência, este erudito de origem russa, depois exilado na Alemanha e em França, onde foi mestre de Léon Askénazi, morreu há 62 anos, em 23 de Agosto – em Lisboa, para onde a família o trouxera, na esperança de o salvar da sua grave doença, com o auxílio de um especialista português.
Só há pouco tempo descobri esta mente brilhante, os seus escritos, a sua obra como mestre semeador de ideias.

Também só há pouco tempo descobri realmente a obra de outro poeta oriental, o japonês Issa Kobayashi (1763 - 1827), aquele que escreveu:

«Uma gota de orvalho

A vida Uma gota de orvalho
E contudo ...»
~
«Imperfeito este mundo

E contudo

Recoberto de flores»

~

«Neste mundo
Caminhando por cima do inferno
Contemplo as flores»
~
Ontem, estranhamente a caminho de um funeral, descobri um campo semeado de girassois, em plena Lisboa.
... E dei por mim a pensar que, apesar de todas as dores e lamentos, há sempre um «e contudo» que nos incita a continuar, a sermos curiosos até ao fim. Esse «e contudo» pode assumir a forma de uma simples mas esplendorosa flor.
... E lembrei-me da «divisa» do staretz Silouan do Monte Athos: «Guarda o teu coração no inferno e não desesperes».
... E afinal de contas sempre vou fazendo algumas descobertas, aqui ao pé de casa.

terça-feira, 7 de julho de 2009

NO CORAÇÃO DA ARTE, 11

Cynthia Guimarães Taveira



As Vestes
Klimt na fotografia veste um bata comprida e suja. Porém, pinta tecidos elaborados, dourados, ricos. As vestes de trabalho dos pintores assemelham-se ao hábito simples de Francisco de Assis. As vestes deles deveriam estar em exposição como a de São Francisco. Porque impressionam pela verdade. É dentro delas, normalmente largas, que os frágeis corpos se agitam. Elas guardam a memória da renúncia ao mundo pela imposição da criação de novos mundos. Todos os êxtases foram por essas fibras de tecido sentidas. As manchas de cor ficaram impressas como escórias de um fogo purificante. Os silêncios que ficam entre os compassos do pincel são essa distância que vai de mancha em mancha. Elas são o avesso do pintor e o seu suporte. O artista é um vagabundo planando acima do mundo. O centro e a periferia do círculo feito com o corpo. É impossível pintar sem dançar. É impossível pintar sem estar à vontade com o seu próprio corpo, sua primeira matéria-prima. Só soltando o corpo o pincel se solta. Só sabendo voar, a ave voa.


segunda-feira, 6 de julho de 2009

OS POETAS LUSÍADAS, 23

[da série Nocturnos]

NOCTURNO

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento…

Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento…

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!

Antero de Quental

sexta-feira, 3 de julho de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 16

António Carlos Carvalho

Uma das vantagens de mudarmos livros de uma casa para outra e de os voltarmos a arrumar nas estantes é a de se «encontrar» obras que andavam perdidas entre outras ou no labirinto da nossa memória. Aconteceu-me agora, por exemplo, com a edição de 1931, da Faculdade de Letras do Porto, de «Estudos e Controvérsias», segunda série, de José Teixeira Rego.

O exemplar, algo manchado pelas marcas do tempo, tem uma dedicatória do autor, embora o nome do contemplado não seja referido: «Ao meu querido amigo e ilustre colega, em testemunho da mais alta consideração – oferece José Teixeira Rego.»

Se bem me lembro, devo ter comprado este livrinho há uns 30 anos, ao alfarrabista Almarjão, no Bairro Alto. No tempo em que eu utilizava as horas de descanso para folhear livros antigos nos alfarrabistas daquela zona, onde então trabalhava.

Passo os olhos por este exemplar para ver que sublinhados fiz – e os que faria agora. É um exercício meramente pessoal, em que avalio os meus interesses de ontem e de hoje.
Curiosamente, pouco tenho a acrescentar. Já na altura me tinha apercebido do excepcional interesse desta colectânea de estudos, aliás entretanto reeditada em 1990 por Pinharanda Gomes na Assírio & Alvim, num volume que reúne a primeira e a segunda séries, «A Literatura Portuguesa da Idade Média e do Século XVI» e textos dispersos.
Há 30 anos como hoje, o que me tocou e toca é a extrema atenção dada por Teixeira Rego às figuras e às obras de Sampaio Bruno, seu amigo e mestre, e sobretudo de Samuel Usque (com quem teria «aparecido pela primeira vez, com magnificência, o estilo pictural na literatura portuguesa» e que teria influenciado Camões e Fernão Álvares do Oriente), Gaspar Frutuoso, Sá de Miranda e Bernardim Ribeiro – neste último nome leu Teixeira Rego o anagrama de Juda Abarbanel ou Abarbinel e teve dúvidas de que ele fosse o autor dos «Diálogos do Amor».
«Para prova de que de algum modo o estilo da “Menina e Moça” andava na família de Juda, seu pai Isaac Abarbanel, tendo fugido para Espanha por ocasião da conspiração do Duque de Bragança, escrevia no prefácio de um seu livro: «Vivia eu tranquilo na casa que tinha herdado de meu pai...», passagem que ainda recorda o começo da “Menina e Moça”».
Teixeira Rego realça também as semelhanças entre a obra de Bernardim e a «Crónica do Imperador Clarimundo» de João de Barros – ambos usam jogos com letras, anagramas, e as semelhanças são de tal sorte que «ou Barros se inspirou em Bernardim ou este em Barros». «Entre esses nomes fantásticos que aparecem no Clarimundo um há que nos deve merecer atenção: é o de Arminer de Buda. Este nome é... o anagrama de Bernardim Ribeiro».
Tal como Teixeira Rego escreve num outro estudo, «a literatura portuguesa, mormente a do século XVI, está tão cheia de confusões, fraudes, omissões, casos de crítica que pode afirmar-se que, a propósito das mais simples circunstâncias, surgem problemas em regra insolúveis, ou pelo menos de uma solução dificílima.»
Lembremo-nos que esse século XVI é o de Camões, Bernardim Ribeiro, Samuel Usque, Cristóvão Falcão, João de Barros, Diogo do Couto, Damião de Góis, Sá de Miranda, Gaspar Correia, Gil Vicente, Jorge Ferreira de Vasconcelos, Jorge de Montemor, Fernão Álvares do Oriente, Fernão Mendes Pinto.
E, claro, o século em que a Inquisição se instala entre nós, para nossa desgraça.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

PENSANDO À BOLINA, 18

Pedro Sinde

O homem que assobia
Creio que em todas as terras há um “homem que assobia”. Ele passa nas ruas, sempre de humor equânime, mãos nos bolsos, passo vagaroso e, invariavelmente, a assobiar. É como se nada o afectasse, como se tudo sempre estivesse “bem”. Olhando, dir-se-ia que estamos, coisa tão rara que é fonte de inveja constante, perante um homem feliz. Por que razão assobiará aquele homem? Há um aqui onde vivo que vejo, de longe a longe, a passear (é, pelo menos, o que parece) junto à praia; não olha para nada à sua volta, o olhar está dirigido para um vago e remoto horizonte e assobia continua e ininterruptamente. Gosto de o ver passar. É impressionante, convenhamos…

Um destes dias, ao fim da tarde, regressava eu do trabalho para casa, ele sentou-se no metro num lugar perto de mim. Sempre o mesmo olhar, sem se fixar em ninguém nem em nada, a não ser de passagem; o assobio, lá estava, mesmo dentro do metro e sem reparar em quem estava à sua volta. Enquanto o observava discretamente, sondando que tipo de alma era aquele, ia magicando numa espécie de “homem-pássaro”. E o assobio ressoava. “Será que ele está a pensar em alguma coisa, ao mesmo tempo que assobia?” – ia cogitando, enquanto observava a expressão do olhar sempre tentando sondar por onde vagueava aquela alma. E o assobio ressoava. “É como se fosse mesmo um pássaro” e a ideia era bela. E o assobio ressoava. Parece, no entanto, haver um quê de indiferença, uma certa fixação “egoica”, por assim dizer, uma capa com que aquela alma se protege do mundo. E o assobio ressoava. Indo mais longe, parece haver um fundo de medo, um medo subconsciente, “primitivo” e ocorrem-me aqueles homens que só sabem estar com outros contando anedotas ou aqueles que só falam de doenças. E o assobio… No fundo, são pessoas medrosas que se envolvem numa capa colorida, como o anedotário, escura, como o doençário, ou musical, como o assobiário.
E o assob… Irra!, que o assobio irrita! Não se pode estar ao pé de um homem destes. Entranha-se-nos aquela melodia num lugar da alma e fica por ali a zunir dias a fio!
É bela a ideia do “homem que assobia”, o “homem-pássaro”, mas a sua presença é insuportável. Nós apreciamos muito o longe, mas não suportamos a presença uns dos outros: enviamos dinheiro para os desgraçados de África, mas não damos a mão ao mendigo ao nosso lado; adoptamos um “oriental”, mas não o filho do vizinho; gostamos muito de “espiritualidade”, mas não mudamos de vida por causa dela. Nós amamo-nos uns aos outros, certamente, mas só quando pensamos nisso, mas só de longe. Creio que a “queda” nos separou e tornou possíveis frases como esta de Sartre, ao dizer que o “inferno são os outros”. Esta frase corresponde com exactidão ao ponto máximo de decadência do ser humano; Hitler ou Estaline concordariam inteiramente com Sartre, não é curioso? Sim, Sartre diria que, apesar de serem “inferno”, precisamos dos outros para cumprirmos o nosso projecto existencial, mas também os dois criminosos, à sua medida, “precisavam” dos “outros”. É este o aspecto negativo do “heterogéneo” em que vivemos e, por isso, Sampaio Bruno sabia que o homem aspirava no seu íntimo ao “homogéneo”, mas, ao contrário do francês reticente, Bruno afirmava que o “eu” é o último Satã: o inferno, portanto, somos nós; só enraizada em nós qualquer mudança pode haver, por transmutação do demónio que somos em homem e do homem em anjo.
E o assobio que agora não me deixa…