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terça-feira, 4 de agosto de 2009

OS PRIMEIROS PASSOS DE ALADINO

Antecipação. Com a devida vénia, aqui se (re)toma, do blogue da Nova Águia, a

Apresentação de A Verdadeira História de Aladino e a Lâmpada Maravilhosa (Zéfiro/ Colecção Nova Águia) de Rodrigo Sobral Cunha, com prefácio de António Telmo, ilustrações de Carlos Aurélio e posfácio de Pedro Sinde.

O lançamento deste livro que envolve alguns nomes do círculo dos Cadernos de Filosofia Extravagante está previsto para o próximo Outono. Diz quem o leu que é uma obra notável e surpreendente.

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“É certo que, para estas matérias, podemos detectar uma espécie de magos confabuladores, alcandorada nos anéis do tempo, que vai contando a história (como o tal árabe cristão a Galland, este aos outros e por aí fora), de preferência cada vez melhor: ponto acrescentando a ponto, espiralando a linha do tempo e assim melhorando o conto, mas sempre a partir de uma mesma essencial verdade que pulsa em segredo aqui e ali na história. Mas muitas outras vezes a história é cada vez pior contada, ponto a ponto se suprimindo o conto, desfazendo em recta a espiral do tempo, até o essencial sentido (aquele que faz a duração vital da narrativa) ficar escondido como uma lamparina na mais profunda das cavernas. Tais pactos de confabulação, como os de Galland e Hannâ Diyâb, reproduziriam assim à escala o processo milenar que fez andar As Mil e Uma Noites da Índia à Pérsia e ao Egipto, com os nomes de Salomão, Alexandre Magno, os Cruzados, ou Dhinazad e Xerazade (filha da noite, em arábico), nas caravanas que pernoitam à roda das fogueiras donde saem génios e criaturas dos outros mundos que há neste. Quanto àqueles cujas vozes e os gestos deram vida às Noites muito para além das vidas dos seus reais protagonistas, até nós, refere o barão de Hammer Purgstall esses confabulatores nocturni, narradores noctívagos que Alexandre ouviu e que Eduardo Lane (tradutor das Mil e Uma Noites) disse que eram uns cinquenta no Cairo de 1850, conforme recorda Borges; e isto sem subestimar os mercadores a quem se deve, na observação de Walter Benjamin, a afinação das astúcias com que o contador de histórias do ciclo das Mil e Uma Noites capta a atenção do seu auditório. Naturalmente, há evidências de ordem vária: ao gosto da arqueologia positiva e da filologia, por exemplo, encontrou o egiptólogo húngaro Ernõ Gaál um manancial considerável para a história de Ala Al-Din em papiros egípcios helenísticos e romanos (II-IV d.C.), situando-a depois da conquista árabe do Egipto pelo século VII e relacionando-a com a prática do roubo de túmulos no Egipto. Mas é dentro da própria história que a coisa que está fora dela se passa!” (A Verdadeira História de Aladino e a Lâmpada Maravilhosa, § 9)

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“Que os extremos se tocam, vê-se particularmente bem no caso da tradução, com a traição e a tradição, como é sabido, pois o tradutor pode ser textualmente ou oralmente o traidor ou o servidor da tradição. Mas nem só. Pode acontecer-lhe estranhamente que, transmitindo, traia o tradutor a causa e outras vezes, ao contrário, traindo-a, transmita a causa. Tal é a sina do traditor. O que Galland diz, pois, sobre o assunto é que aquele que descobre Aladino era um mágico africano, que se aplicara ao seu mister – a magia – desde a juventude e que depois de aproximadamente quarenta anos de encantamentos, de operações de geomancia, de sufumigações e da leitura de livros de magia, chegara enfim a descobrir que havia no mundo uma lâmpada maravilhosa, cuja posse o tornaria mais poderoso que qualquer monarca do universo. Por uma operação de geomancia o mágico toma conhecimento do local do tesouro dos tesouros. A lâmpada encontra-se num lugar subterrâneo no meio da China, completamente inacessível, excepto para Aladino (que por isso passa a estar no mapa estratégico do geomante). Desloca-se então ao local, próximo do qual vive não por acaso Aladino. O mago, além de conhecedor das artes do fumo, é também fisionomista e lê no rosto do formoso Aladino “tudo o que era absolutamente necessário para a execução do que motivara a sua viagem”, segundo afiança o narrador gaulês.” (A Verdadeira História de Aladino e a Lâmpada Maravilhosa, § 12)

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“Nem toda a riqueza do sultão, acrescida da do seu grão-vizir e demais homens ricos do reino, era suficiente para acabar uma só das janelas do palácio de Aladino, manifestamente uma das maravilhas do mundo. Como é evidente, o problema não era apenas de ordem técnica, pois nem mesmo os melhores ourives e joalheiros do reino (manifestamente decadente) conseguiam compreender a ordem de subtileza artística em jogo. (Não sabiam sequer distinguir jóia de joie, que é como quem diz o trigo do joio!). É que se aquele palácio podia fazer-se da noite para o dia e durar pelos séculos fora, podia igualmente desfazer-se do dia para a noite. O que explica que a janela imperfeita, não na arquitectura mas na ornamentação de diamantes, rubis e esmeraldas, fosse completada com um estalar de dedos de Aladino, com a lucerna ao alto. Xerazade escapa ao régio imposto diário sobre a beleza mantendo o rei (seu marido) acordado; pois onde uns cortam, põem outros e à história das decapitações contrapõe ela uma verdadeira narrativa: com pedraria da árvore da vida temperou Aladino a sua moradia. Sem a boa conselheira, portanto, o reino afundar-se-ia nas trevas (sem ouvidos para a múrmura fala de Xerazade, soam as decapitações na Europa). De variedade quase infinita, como é bom de ver, são os materiais para edificação e os melhores não estão propriamente à mão. “Os grandes feitos da arte, observou Ruskin, são tornados possíveis quando as almas dos homens se encontram como as jóias nas janelas do palácio de Aladino, puras por igual as pequenas gemas e as grandes, sem precisar de cimento, mas sim da harmonia das suas facetas.” (A Verdadeira História de Aladino e a Lâmpada Maravilhosa, § 47)

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“Fora de portas da cidade, o mágico africano levara Aladino muito para lá dos amplos arredores com casas e palacetes de belos jardins, desaparecendo aos poucos qualquer sinal de presença humana e alargando-se o horizonte em plena extensão. Um lagarto contornou uma rocha procurando sombra. Aladino, que nunca andara tanto na vida, sentiu-se exausto de tão longa caminhada.

– “Tio!” – perguntou ao falso irmão de seu falecido pai o alfaiate Mustafá: “Aonde vamos? Só vejo descampados e montanhas e nem uma árvore já! Se continuarmos, não sei se terei forças para regressar à cidade!”

– “Coragem, sobrinho!”, respondeu-lhe o falso tio na persecução do seu estratagema; – “quero mostrar-te um jardim que excede de longe todos os que viste até hoje; está próximo, ainda que não te pareça, mas quando lá chegares hás-de me dizer o que seria não o teres visto depois de estares tão perto dele! Enche-te de coragem, Aladino, pois já és um homem! Levo-te a um sítio maravilhoso, perto do qual todas as riquezas dos reis deste mundo são coisa de crianças!”
Convencido, reergueu-se o ânimo a Aladino e dirigiu-lhe então o magrebino doces palavras, para lhe tornar mais leve o caminho e contou-lhe histórias de encantar, ora verdadeiras ora falsas, entretendo-o, rumo ao fim secreto que o trouxera da extremidade da África ao Oriente extremo. E para Aladino não perder o ritmo, o mago tirou de um saco hermeticamente fechado um fruto carregado de ritmo: uma laranja marroquina. Abriu-a ao meio, mostrando-lhe a geometria octangular daquele fruto e deu-lhe a provar o sabor da matemática convidando-o a transformar a geometria que ali via em energética aritmética, saboreando-a de modo a ficar a saber inteiramente ao que sabe a laranja (“toda a vez que não encontrares geometria na laranja, como a decagonal ou outra, é porque ela não presta”). E o africano, viajado como era, falou-lhe pausadamente de outras terras: primeiro, daquelas onde vivera – Índia, Pérsia, Arábia, Síria, Egipto – e depois, das que atravessara, por exemplo a maior floresta do mundo, a taiga da Sibéria, com seus silêncios e seus sons. Falou-lhe moroso dos costumes dos outros povos: por exemplo, como os aborígenes australianos cantavam os caminhos, como repetiam passo a passo desde o Tempo do Sonho os cantos primordiais da Criação, onde foi dado nome às coisas, e como cada homem fazia o seu caminho ritual de amplas extensões, lugares e viventes segundo uma música de versos sagrados que era também um mapa para encontrar os passos dos irmãos desde o Início. E disse-lhe mais verdades acerca do povo das andorinhas e do povo dos girassóis e ainda de certos povos do mar. Ensinou-lhe também um provérbio mourisco: “Aquele que não viaja desconhece o valor dos homens”.

E nisto chegaram ao pé de uma montanha, ao fundo de um vale deserto. Soprou uma brisa desconhecida no rosto de Aladino. O mago parou a estudar atentamente uma rosa-do-deserto.

– “É aqui!”, exclamou de olhos rebrilhantes como sóis negros. – “Repousa um instante e prepara-te, Aladino, pois estás à beira de ver coisas extraordinárias e desconhecidas dos mortais; e quando as vires, hás-de me agradecer teres testemunhado maravilhas tais que olhos humanos nunca viram!” (A Verdadeira História de Aladino e a Lâmpada Maravilhosa, § 51)

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“Para entrar na gruta, isto é, para levantar a pedra que tapa a entrada, Aladino, diz-lhe o mágico, deve invocar o nome do seu pai e do seu avô, isto é, deve invocar os seus patriarcas. Nessa invocação, podemos ver o sinal da ligação à cadeia dos antepassados, que é condição necessária para que o neófito possa encontrar aquele “poder” primordial, simbolizado pela lâmpada. A esta cadeia de ouro se chama em língua árabe, no sufismo, silsila. Podemos aqui lembrar, agora, que Cristo desce ao limbo dos patriarcas ou dos pais (limbus patrum) para os resgatar, mas esse acto de resgatar contém em si necessariamente um outro: o de reatar a cadeia dos profetas, seus patriarcas ou ancestrais, até à origem adâmica, em que o último se liga ao primeiro ou o mais baixo ao mais alto ou o de baixo ao de cima. Trata-se, de algum modo, de estabelecer a relação com a sua silsila: de resto, não deve ser por acaso que S. Mateus se dá ao trabalho de referir, logo no início do seu evangelho, a ascendência de Cristo. Os sufis fazem o mesmo para comprovar a validade da sua iniciação, pois todas as silsilas válidas vão dar ao profeta Maomé, daí recuando, profeta a profeta, até Adão. […] Ainda em relação aos patriarcas de Aladino, convém ter presentes estas duas etimologias: o nome do seu pai, Mustafá, significa “o eleito” e Aladino significa “a glória da religião”. Ora, o filho do “eleito” é, portanto, a “glória da religião”. Não nos é dito o nome do seu avô, talvez porque simbolize aqui a origem da sua origem.”

Pedro Sinde (Posfácio)

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“Aladino permaneceu na caverna durante três dias (sexta-feira, sábado e domingo) que – coisa ainda não inteiramente notada – são os dias santos das três religiões abraâmicas, aquelas que, segundo Álvaro Ribeiro confluem na formação do pensamento português. Se a interpretação iniciática que Pedro Sinde fez do Aladino estiver correcta, a passagem de Ruskin pode bem ilustrar a unidade interna, e transcendente, com que a gnose da tradição lusíada, pelo prisma da imaginação criadora, cingiu os três monoteísmos.”

Pedro Martins

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“O mágico negro foi lá [China] que adivinhou Aladino e a sua lâmpada e veio de extremo a extremo da terra até ao Império do Meio, para, uma vez de posse da lâmpada, poder dominar o mundo, fazer dele o seu globo, uma farsa macaqueada do Quinto Império. No momento exacto em que estava prestes a consegui-lo, uma criança negou-lhe esse poder. Aladino não lhe entregou a lâmpada. Pouco foi preciso depois para que nesse mesmo mundo, que é o nosso, reinasse a Bondade e a Beleza.

E também a Verdade, porque tudo será um Milagre da Luz.”

António Telmo (Prefácio)

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