(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



domingo, 8 de abril de 2012

SABEDORIA ANTIGA, 21


















Cristianismo debaixo de terra

Por Alexandra Pinto Rebelo

Os quatro evangelhos canónicos não são férteis no que diz respeito a referências ao mundo ctónico. Parece que este nível, tão actualizado no paganismo, é propositadamente silenciado. O interesse principal é o ir anotando feitos de Cristo, mostrando-o como o grande propósito. O que estes homens parecem dizer é que estão a assistir a uma (nova?) cosmogonia e a toda a mitologia que daí advém. É uma mitologia não escutada, ao contrário do habitual, mas exibida à sua frente. Estão a assistir a gestos primordiais, tendo isso mais importância do que tudo o resto.
Mateus será aquele que incluirá a marca ctónica mais forte: “ Então, o véu do templo rasgou-se em dois, de alto a baixo. A terra tremeu e as rochas fenderam-se. Abriram-se os túmulos e muitos corpos de santos, que estavam mortos, ressuscitaram; e, saindo dos túmulos depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos.” (Mt. 27,51-53)
O que Mateus parece indicar, com estas imagens marcantes e, porventura, assustadoras, é que, no período entre a morte e a ressurreição de Cristo, o nível terrestre e o ctónico ficaram, subitamente, sem delimitação. Mas esta falha temporária de fronteiras é vigiada, no entanto, por um poder superior. São somente os corpos dos santos aqueles que ressuscitam, levando a crer que estes, à semelhança de Cristo, apenas tinham a vida suspensa nos seus túmulos. A sua morte física seria, desta forma, uma mera ilusão. Um percurso necessário, em suspensão de sinais vitais físicos, para que se confirmasse a sua vitória sobre a morte.
Aqui chegados, é impossível não fazer analogias com todo o simbolismo surgido com o aparecimento das sociedades agrícolas. Também as sementes, exemplos maiores de vida suspensa, são lançadas à terra, aí permanecendo até ao seu renascimento. Tal como a Lua, (desaparecida durante três dias antes de ressurgida – “A Lua é o primeiro morto”, segundo E. Seler) as sementes, durante todo o seu processo de oclusão debaixo de terra em morte aparente, reaparecerem devidamente transmutadas. Estes processos, observados e apreendidos, encaminham o ser humano para a evidência de que não existe morte. Torna-se mais legíveis, então, o vasto número de parábolas cristãs relacionadas com o mundo vegetal, pontes indicadoras da possibilidade efectiva de Ressurreição.
O gosto do cristianismo dos primeiros séculos por espaços debaixo do chão, será um encenar cíclico desta suspensão da vida. São construídas câmaras, mais ou menos extensas, sacralizadas sobretudo pelo deslumbramento, e mistério, do próprio processo. Aí, não só os “aparentemente mortos” são depositados, como têm lugar as refeições rituais dos vivos. Refeições festejando, ou solicitando a abundância, dependentes do próprio sucesso das fases agrícolas. Dependentes, pois, da esperança na sucessiva ressurreição das sementes.
Por esta altura, já o cristianismo deixara transbordar a sua latente vocação ctónica. A criação destes espaços reais, subterrâneos, possibilitava a cumplicidade simbólica dos vivos, no germinar das sementes, por proximidade. Em câmaras que, tal como os neófitos (pelo menos os Pessoanos), sabiam que não existia morte. Nem a da alma, nem a do corpo.

AFORISMOS, 135


Por Eduardo Aroso

Já se escreveu sobre o Erro de Decartes, outros querem ter demonstrado que a física quântica destronou erros de Aristóteles, autores vários fizeram livros sobre os Erros de Deus (!), sendo este o título de, pelo menos, uma das obras. Sem prejuízo do que a civilização cada dia aprende e esquece, os chamados seres humanos de “ponta” descobrem constantemente erros nos que os precederam, não havendo assim tempo para descobrir em tal actividade intelectual vestígios de erros de descobertas presentes e futuras.


sábado, 31 de março de 2012

FOTO-REPORTAGEM POR FILIPE NOBRE GOMES

SESIMBRA, 31 DE MARÇO (Biblioteca Municipal de Sesimbra)
A Renascença Portuguesa: Contexto, Panorama e Perspectivas

(da esquerda para a direita) Maurícia Teles da Silva, Pedro Martins, Cynthia Guimarães Taveira, Renato Epifânio, Miguel Real

Maurícia Teles da Silva


Maurícia Teles da Silva e Pedro Martins


Cynthia Guimarães Taveira



Renato Epifânio



Miguel Real



sexta-feira, 30 de março de 2012

AMANHÃ HÁ FILOSOFIA AO VIVO EM SESIMBRA












Congeminações 2012
II ciclo de estudos em homenagem a António Telmo

O legado da Renascença Portuguesa: livros e autores


Março a Novembro de 2012
Biblioteca Municipal de Sesimbra

31 de Março, 15:00

Apresentação do nono número da revista NOVA ÁGUIA: Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

intervalo

Colóquio A Renascença Portuguesa: Contexto, panorama e perspectivas

Oradores:
Miguel Real – A Renascença Portuguesa: uma visão panorâmica
Maurícia Teles da Silva – O movimento da Renascença Lusitana e a música de Óscar da Silva e Cláudio Carneyro
Cynthia Guimarães Taveira – A Renascença Portuguesa e as Belas Artes – Soares dos Reis e António Carneiro

quarta-feira, 28 de março de 2012

AFORISMOS, 134













Eduardo  Aroso

Não se pode dizer que Deus não surja no caminho do ser humano. Este é que se não apresenta, como deve, ao seu Criador, esquecido da sua origem. É neste jeito de andar no mundo que o ditado popular «quem não aparece, esquece» pode ter um significado mais profundo. Quando Nietzsche propalou o seu dito «Deus está morto», vestiu a frase com a roupa do avesso.

quarta-feira, 21 de março de 2012

HÖLDERLIN PARA A PRIMAVERA















STUTTGART

A Siegfried Schmidt

                                            I

Vivemos de novo uma alegria. Já cedeu a funesta secura,
     E a crueza da luz deixou de queimar as flores.
A sala voltou a abrir-se e o jardim viceja,
     E o vale, refrescado pela chuva, rumoreja brilhante,
Alto, cheio de plantas, aumenta o caudal dos ribeiros e as asas
     Prisioneiras lançam-se de novo para o reino do canto.
O ar está cheio de seres alegres e a cidade, o bosque, está
     Repleto, toda à volta, da satisfação dos filhos do céu.
O encontro é-lhes grato e espraiam-se uns por entre os outros,
     Despreocupados, e nenhum é de menos, nem demais.
Assim o dispõe o coração e a graça de respirar foi-lhes
     Predestinada e concedida por um espírito divino.
Mas os caminhantes seguem também a direcção certa e trazem
     Abundantes grinaldas e cantos, enfeitam
O sagrado bastão com cachos e folhagem e cobre-os a sombra
     Dos abetos; de aldeia em aldeia e de dia para dia passa a felicidade,
E como carroças atreladas e animais selvagens os montes
     Avançam e o caminho suporta a carga apressando-se.

Hölderlin, Friedrich, Elegias, Assírio & Alvim edições, 1999, pág. 57


segunda-feira, 19 de março de 2012

EXTRAVAGÂNCIAS II, 4



















O Olho

Cynthia Guimarães Taveira

A vida é um sonho. Sonhamo-nos uns aos outros. Sonhamos com teias e nós bem cerrados que não são mais do que o encontro dos sonhos uns dos outros. Os sonhos, que são a vida, permitem que nos encontremos nas esquinas dos acasos. Às vezes sonhamos que estamos tão próximos uns dos outros que, não só nos encontramos, de facto, como, por fim, Acordamos quando essa aproximação se torna Encontro. Os sonhos que sonhamos, as presenças que provocamos, são afinal, formas de abrir aquele olho que “às vezes dorme”.

sábado, 17 de março de 2012

RECORDAR...ANTÓNIO TELMO













Por sugestão de Paulo Santos recordemos:


«[…] O Mesmo E O Outro
Os verdadeiros iniciados são os filósofos.[...] só a filosofia é iniciática. Se há filosofia que o não seja […] [é] a que se aprende nos livros e só neles […]

Os alquimistas, que designavam a iniciação por arte régia[...] não consentiam que o nome de filósofo fosse dado a quem não conhecesse os régios segredos da sua arte. Os súfis, que não são místicos, como confusamente se escreve e diz, mas sábios iluminados que atingiram os mais altos graus de iniciação, exigiam dos discípulos uma profunda preparação de sete anos nas sete disciplinas filosóficas, antes de os lançarem nas experiências subtis que conduzem gradualmente à epoptia, a perfeita contemplação de Deus. Tal o caso, no supremo exemplo, de Ibn Arabî. É muitas vezes lembrada a sua advertência, onde o mais venerável dos mistagogos muçulmanos afirma que filosofia sem iniciação a nada conduz iniciação sem filosofia leva à imbecilidade, advertência que, se não as identifica uma com a outra, as necessita mutuamente.

O engano neste ponto essencial teve o seu início, no Ocidente, na oposição que o Renascimento, sobretudo italiano, criou entre Platão e Aristóteles, com a intenção mais ou menos velada de atacar a Igreja Católica que adoptara o segundo como filósofo de apoio à sua dogmática teológica; e os ocultistas românticos do[s] século[s] XVIII e XIX chegaram ao extremo de afirmar que o discípulo grego representa perante o mestre grego a oposição ao ocultismo. Em termos menos secretos tal oposição surge constantemente na filosofia livresca e cultural marcando toda a diferença entre misticismo e racionalismo. José Marinho escreve longas páginas no intuito de desfazer o engano […] o racional e o irracional são limites moventes, cuja profunda relação se dá onde quer que o espírito se assume como verdadeiro pensamento.

A oposição que se diz existir expressa nos textos de Aristóteles não é entre os dois filósofos, mas entre platónicos e aristotélicos. Decorreu a cisão […] sem inspiração hermética […] sem assumir a qualidade de hermenêutica […] [como dizia Marinho:] «Hoje se tornou de novo possível, pela adequada hermenêutica dos textos, vermos filósofos […] pensarem o mesmo de diversos modos.» A teologia católica, fazendo da teologia de Aristóteles sua serva, ditou a separação, quando os seus adversários recorreram a Platão para, contrapondo-o ao discípulo, proporem formas de actividade espiritual onde o conhecimento pela fé e pela imaginação dispensa o dogma e se assume como filosofia. Aqui convém distinguir imaginação de fantasia e, sobretudo, lembrar a distinção decisiva entre fé e crença […] A fé do Evangelho, que move montanhas e que tem o seu equivalente no pensamento germânico na vontade mágica dos seus filósofos é, para o nosso pensador, traduzindo São Paulo, a garantia estável de que pode esperar-se a possibilidade de volver o íntimo e seguro olhar para tudo quanto é secreto.

Aristóteles foi, durante vinte anos […] ouvinte de Platão. Só quando este morreu, fundou escola própria, o Liceu, talvez movido por profundas incompatibilidades com os condiscípulos. De resto é o que necessariamente acontece sempre. Todo o ensino vivente, e não o ensino de uma tradição morta, vai criar nos discípulos do mestre que o transmite formas singulares e distintas de convívio com a verdade, por tal modo que, ao dar-se o desaparecimento terrestre do pólo visível desse ensino surgem divergências entre eles e até oposições onde por vezes se perderá a relação com a unidade invisível que parecia garantida pela presença espiritual do mestre, na recordação ou por processos mais elevados. Foi este, entre nós, o caso da escola de Leonardo Coimbra. Homens como José Marinho, Álvaro Ribeiro, Sant'Ana Dionísio, Delfim Santos, Agostinho da Silva, para só citar os cinco mais distintos, criaram obra própria e singular, onde está mais ou menos presente o espírito de Leonardo, mas nem sempre se têm entendido no plano da acção menos inspirada.

Se o discípulo, como se diz, tende a matar o mestre, de acordo digamos com o paradigma trágico e iniciático, é para o integrar em si e na nova ideia que lhe foi dado individualmente anunciar. O conflito, se chegar a dar-se, é sempre entre os condiscípulos. Quanto não é absurdo aceitar que Aristóteles, tendo sido conduzido pela mão de Platão aos mais altos graus da filosofia ou da iniciação, tenha esperado pacientemente longos anos pelo momento em que pôde dizer não! Só a completa ignorância do que é a filosofia, enquanto portadora de um ensino esotérico, pode levar a afirmar o que é uma rigorosa impossibilidade.

[…]

Valete Frates»
págs. 175-179 in Telmo, António, Congeminações de um Neopitagórico, Zéfiro, Sintra, 2009.

segunda-feira, 12 de março de 2012

MANIFESTO PARA OS DIAS QUE CORREM


Agora
que a soberbia e o fanatismo andam de mãos dadas na Casa de Portugal;
que o individualismo egótico se compraz no afã do proselitismo;
que quem se serve dos epigramas não hesita sequer em recorrer a núncios;
que os mestres, logo que partem, se vêem forçados a seguir, submissos, os discípulos conjecturais;
que a pretensão da gravidade hierática encobre o rigor de um clericalismo extreme;
que a estreita baia do método parece servir de corpete ao livre assomo do espírito;
que a incómoda evidência dos textos clássicos é negada até à amputação;
que se chega ao ponto de se julgar moralmente os supostos irmãos espirituais;
que se confunde a plasticidade amorável do universalismo português com a abjuração do rijo cerne da hombridade;
que um estranho modismo exótico, contrário à herança gloriosa e romântica das pátrias, aparece alçado a cânone do pensamento português;
é preciso lembrar que o fundador da filosofia portuguesa, como Álvaro Ribeiro escreveu, foi Sampaio Bruno, que a si mesmo, n’A Ideia de Deus, obra-prima da maturidade, se definia como um “jacobino”, ali onde nos lembra que as ideias, ao invés dos sentimentos, não mudam.
Falemos então de ideias, de uma tradição de pensamento sempre dedicada ao outro, que é o povo, e maiormente a nação, esse substrato da pátria portuguesa.
Falemos de uma escola – a da Renascença Portuguesa – cujos mentores (Pascoaes, Leonardo, Cortesão, Pessoa) fundaram as Universidades Populares, se opuseram ao Estado Novo, defenderam os pedreiros livres e a democracia, sofreram a prisão, partiram para o exílio, tudo em nome do povo e daquela liberdade que algum dia o há-de poder libertar.
Falemos, pois, de uma escola em permanente compromisso com a vida, facho que os continuadores, Álvaro Ribeiro e Agostinho da Silva, tão bem souberam transportar.
Falemos de António Telmo, propugnando a humildade e a atenção ao outro na sua autobiografia espiritual, esse escrito derradeiro – note-se, derradeiro – em que tão pouco entusiasmo revela perante os caminhos habituais.

Falemos de agora em nome do futuro.

Luís Paixão
Pedro Martins

quarta-feira, 7 de março de 2012

COMENTÁRIO A UM COMENTÁRIO...





A PROPÓSITO DE UM AFORISMO MEU SOBRE PEDRO SINDE E DE UMCOMENTÁRIO *

Eduardo Aroso

«Caro Eduardo: se me permite uma crítica, não me parece muito feliz o aforismo relativo ao Pedro Sinde, nem pelo aspecto do oculto nem pelo aspecto da serpente. Há nos escritos dele uma luminosidade que desoculta e uma visão certeira de um falcão que em nada lembram um serpentear... (João Pedro Secca)».
Antes de mais, pedindo licença ao autor deste comentário para reproduzi-lo, gostaria de dizer que só pelo facto da extensão da minha resposta o trago aqui. Começo por lhe dizer que, a propósito dos meus aforismos, ao verter na escrita o que vai em mim, exponho voluntariamente a minha pequenez humana. Creio que quem ousa escrever aforismos pisa sempre o terreno da dificuldade, senão mesmo da impossibilidade de, em poucas palavras, expressar a essência de uma obra ou pensamento de um autor (não vem agora ao caso a última conversa que tive com António Telmo, ao telefone, que foi precisamente sobre os aforismos de um modo geral e das minhas incursões, em particular). Prossigamos, portanto.
Não é minha intenção qualquer ímpeto de lição, sabedoria e muito menos de mestria, presumida ou assumida. Aliás, já tenho afirmado que, almejando a minha inteira realização em Deus, não sou (nem espero ser) mestre de ninguém, e ao mesmo tempo, e de certo modo, acalento a possibilidade de ser mestre de mim mesmo. Tenho tido a ventura de gostar de aprender com pessoas humildes do Povo (como diria Agostinho da Silva, aprender com analfabetos!) e com outros (que é bom de ver quais são) cuja aproximação se faz naturalmente, isto é, pelo semelhante que atrai o semelhante, no conflito dos contrários.
Mas vamos ao aforismo em causa, relativo ao Pedro Sinde «O oculto serpenteia nele». No resumo dos resumos, repare que eu não explicitei minimamente QUAIS OS MOVIMENTOS DESSE OCULTO. Como certamente sabe, na palavra oculto (tive o cuidado de não escrever ocultismo, o que poderia dar outro sentido à frase) podemos entender – sem querer ser aqui intencionalmente dualista – o bem ou o mal, e é bom lembrar que a própria Bíblia, numa conhecida expressão de Cristo, nos convida a ser «sábios como as serpentes e inofensivos como as pombas». É claro que, no caso em apreço do aforismo sobre Pedro Sinde, só podemos entender o lado luminoso, e assim sendo, quando eu utilizo a forma verbal «serpenteia», digo em potência que em Pedro Sinde há movimento, e se é serpentino é movimento de totalidade. Quando a serpente se desloca não vai em linha recta; segue ora à direita, ora à esquerda (Pessoa, entre outros, lembrou-nos bem deste importante pormenor). Porém, na analogia com o pensamento, e ao contrário do ziguezaguear caótico de qualquer corrente materialista, é um movimento que apesar de horizontal (mecânico), no plano do espírito é como que em espiral. É, assim, susceptível simbolicamente de ser um caminho de totalidade, cujo cumprimento depende apenas do discípulo. É o caminho que pode representar – ora ciclicamente, no discípulo, ou num constante assumir o que se poderia chamar via alquímica de simultaneidade – a razão e o coração; o pensador e o místico; o masculino e o feminino. Em resumo, «serpenteia», no meu aforismo, sugere movimento de totalidade. No caso de Pedro Sinde, recorrendo à metáfora, faz dele como que o caule que a seiva percorre, intensa e promissora, na certeza de haver (ou ser) primavera. É claro que, na abundante dificuldade do aforismo não pode haver farto rigor.
Nos livros de Pedro Sinde O Canto dos Seres e Teoria Nova da Antiguidade, embora sendo obras muito diferentes tanto na temática como na abordagem, há neles, sem dúvida, e utilizando as palavras do João Pedro Secca, «luminosidade que desoculta». Contudo, na tal compleição contrastante dos referidos livros não pretendo dizer que correspondem aos extremos do ziguezague serpentino.
Tomando a parte final do seu comentário, não sei se o voo do pensamento do Pedro Sinde é de falcão, de pomba ou de águia. Nisto, vamos inevitavelmente até à esfinge, talvez mais enigmática que a própria vida serpentina, pois é bem maior a complexidade constitutiva dos seus elementos. Tomando algo da simbologia da esfinge, poderá o voo de Pedro Sinde ter, por exemplo, uma asa de pomba, a outra de falcão e os olhos de águia? O futuro o dirá. Se considerarmos esta (nem tanto paradoxal) hipótese, não estamos nem a negar a esfinge, nem a anular a afirmação de Pessoa «o nosso destino é sermos tudo», nem a negar o meu modesto aforismo. O mais oculto disto tudo - isto sim, bem mais oculto – é que, a existir essa condição, só poderá haver voo numa atmosfera que lhe corresponda.
1 de Março de 2012


segunda-feira, 5 de março de 2012

CANÇÃO TRADICIONAL, JOANINA DE LIBERDADE...















As pombinhas da Catrina,
andam já de mão em mão,
foram ter à quinta nova,
ao pombal de S. João.

Ao pombal de S. João,
ao quintal da Rosalina.
Minha mãe mandou-me à fonte,
eu parti a cantarinha.

Ao passar o ribeirinho,
água sobe e água desce,
dei a mão ao meu amor,
não quiz que ninguém soubesse.

Se tu és o meu amor,
dá-me cá os braços teus,
se não és o meu amor,
vai-te embora, adeus, adeus.

Por ser o pombal tão estreito,
e asas termos pr'a voar,
nós voamos com tal jeito,
que não qu'remos já voltar.

Se alguém nos vê passar,
diz: que lindos que eles são;
nós não queremos já voltar,
mas andar de mão em mão.

Sem ter beira nem patrão,
o voar é nossa sina.
- vão andar de mão em mão,
as pombinhas da Catrina.

sábado, 3 de março de 2012

ADEUS DALILA












Devo-te a vida

Cynthia

sábado, 25 de fevereiro de 2012

SABEDORIA ANTIGA, 20


Os Cinco escudetes no Brasão Português

Alexandra Pinto Rebelo

É curiosa a chamada de atenção de Maria de Lourdes Rosa, na sua obra Santos e demónios no Portugal medieval, em relação ao significado dos cinco escudetes no brasão de Portugal.

Na segunda redacção da Crónica de 1344, lê-se: “E, despois que el rey e o cardeal ouverom todo seu preyto firmado, e ao tempo que lhe avia de mandar a carta, como já ouvistes, desvestyosse el rey de suas vestiduras e disse: - Querovos mostrar, dom cardeal, em como eu som herege. E entom lhe mostrou todas as feridas que ouvera em seu corpo, dizendo e assignando quantas e quaaes feridas ouvera nas batalhas e quaaes nos combates e quaaes nas entradas das villas que tomara aos mouros”.

Este episódio refere-se ao encontro de D. Afonso Henriques com o Cardeal enviado por Roma para fundamentar o seu direito ao Reino. Despindo-se, D. Afonso mostra ao Cardeal as feridas por si sofridas nas várias batalhas pela posse de Portugal. No corpo do Rei, as cicatrizes formam uma espécie de mapa sagrado do território, mitificado pelas chagas. Esta identificação mística, quase, do corpo do Rei com o Reino é a sua sacra justificação para o direito às terras conquistadas.

Ao que parece, esta versão circularia oralmente ainda em vida de D. Afonso Henriques, tendo aparecido em textos escritos de meados do séc. XIV a fins do séc. XVI. Em 1380, o Bispo de Lisboa, D. Martinho, apresenta a mesma justificação ao rei de França, Carlos V: os escudetes estão assim dispostos no brasão de Portugal, visto representarem as cinco feridas que o rei recebera no seu próprio corpo, com a mesma disposição.

A identificação do corpo do guerreiro com as suas armas é muito conhecida. Pelo menos desde a Alta Idade Média era costume, aquando da morte de um nobre (querendo isso dizer, por tradição, guerreiro), as suas armas, ou seja, o seu brasão, ser invertido, quebrado, ou ocultado por uma faixa negra. Ainda há uma dezena de anos, talvez, assisti à ocultação de um brasão que encimava a porta principal de uma casa senhorial, através de um pano preto, pela morte do seu proprietário, em Castelo Branco.

Nesta versão da história, existe uma primeira identificação bélico-mística do corpo do Rei com o do Reino. Na guerra tornada Santa, as feridas surgem no corpo de Afonso, tal como estigmas. Estigmatização obtida, não pelo êxtase, mas pela espada, prova corporal, a única, possivelmente, condizente com a classe guerreira. A segunda identificação, consistirá na representação dessas mesmas feridas no brasão.

Daqui resulta um triplo movimento: Cristo – Rei/Reino – Brasão. Mas a lógica deste movimento é um pouco diferente daquela que nos é habitualmente apresentada.

As chagas do brasão português não serão, desta forma, uma imitação directa daquelas de Cristo. Neste triplo movimento, existem elementos desdobrados ou multiplicados. Afonso será aquele que se torna eleito pela sua gesta, num acto de confirmação (ou eleição) depois da auto-eleição. O seu corpo, desdobrar-se-á, igualmente, entre o corpo-nação, mapa de batalhas físicas, históricas, e aquele coincidente com o corpo-universo de Cristo. As chagas, em escudete, terão então um duplo remetente: o do corpo físico da nação, subsumido no corpo do primeiro Rei, e o de Cristo.

Voltando ao início do movimento triplo, Cristo será, nesta lógica simbólica, também ele desdobrado: a sua quíntupla representação física, adquirida como representação de escatologia universal, projecta-se agora, em imagem e poder, sobre um reino material em particular, Portugal.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

NO PRÓXIMO SÁBADO...







COLÓQUIO “ANTONIO TELMO E A KABBALAH

Estudar e perspectivar o legado de António Telmo a partir das marcas que a kabbalah, sob diversas formas, imprimiu na sua obra é o grande propósito desta iniciativa do Círculo António Telmo, que se realiza no próximo dia 25, sábado, na Biblioteca Municipal de Sesimbra, a partir das 15 horas. O programa é o seguinte:
Oradores:

António Carlos Carvalho: Uma introdução à Kabbalah
João Pedro Secca: António Telmo e Z’ev Ben Shimon Halevi
Luís Paixão: A Gramática Secreta da Língua Portuguesa
Pedro Martins: Filosofia e Kabbalah

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

ESTRAVAGANCIAS II, 3













Os Raposões

Cynthia Guimarães Taveira


Os raposões do filme “Sonhos”, de Akira Kurosawa. Que fazem eles? Naqueles dias únicos nos quais, ao mesmo tempo, faz sol e chove, sai um cortejo de homens-raposas em ritual pela floresta. São eles os iniciadores, de uma criança que os espreita quando é proibido espreita-los. Que fazem eles para além disso? Dão alguns passos, param e olham fixamente. A única diferença é essa: olham simplesmente com a profundidade dos contos de fadas. Essa profundidade do olhar está ligada aos sentidos: o gesto como tacto, suspenso no tempo e no espaço, o som que pára em uníssono com esses gestos, o olhar que atravessa várias camadas do ser. Esse olhar é de amor. Mas não de sentimentalismo, como se existisse uma espécie de amor que, na sua essência, nasce enlaçado, misturado com a verdade. Uma espécie de verdade implacável que atravessa os seres em voos internos, deixando para trás camadas e camadas superficiais até ao cerne da própria existência.

Os outros são mistérios indecifráveis para nós. Na superfície são máscaras, mesclados de psicologias, historietas, vulgaridades, animalidades, confusões de imagens. No primeiro olhar os outros são sempre surrealistas no absurdo. Como se o que fosse verdadeiro tivesse necessidade de se camuflar em teatro.

Mas quando chove e faz sol, nesse tempo indefinível em que o fogo e a água se misturam na atmosfera, em que é fácil luzir o arco-íris, como aliança entre o visível e o invisível, esses raposões, homens de olhar apurado, saem pela floresta em ritual que é apenas a vivência do mito do próprio momento. Não há actualização do mito nesse instante porque o mito é o próprio instante em que chove e faz sol, é a actualização da actualização. Esse é o momento tradicional por excelência, porque mostra, revela, confirma que a tradição está viva no tempo sem tempo. Mostra que a Vida está viva, que o não tempo é, afinal, todo o tempo do mundo. Daí a proibição de os observar nesse instante. Toda a proibição é um convite em simultâneo, como o paradoxo de chover e fazer sol.

A Tradição, estranhamente, nesse conto, aparece como a possibilidade e a capacidade de contemplar. Mas a contemplação é já morte e é, ao mesmo tempo, a contemplação de um mistério. Um mistério mudo. Um mistério que se aproxima de nós por uma intuição tão forte que toca, literalmente, porque em corpo, a raiz da existência. Mas uma existência que é toda potência, toda essência à beira de uma explosão em manifestação. O corpo, é afinal, potência de manifestação e não manifesto ainda. É nesse limbo, nesse limiar que a exigência de morte aparece. Porque só pela morte se pode dar a manifestação. Nesse sentido, numa primeira volta, o corpo que temos é morto e só numa segunda volta se torna vivo.

Uma das formas pelas quais a Tradição se revela, se mostra, mais do que isso, regressa em Vida à vida, é pelo olhar, o real olhar, porque o olhar é o sentido de ausência (na medida em que há um esquecimento do eu) e um sentido apurado de presença no mesmo instante.

Creio que hoje poucos escutam e poucos ainda mais olham. Mas um olhar que é todo o ser projectado para a frente, para a imagem que contemplam: um olhar que vasa na imagem toda a máscara que somos, todas as camadas, todos os pensamentos, todos os sentimentos, todas as intuições que residem no coração. Um olhar que desagua como um rio no oceano da Tradição, um oceano sem dimensões por conter todas elas.

Nesse pequeno instante em que o olhar desagua, então a Tradição toma conta de nós. Adopta-nos como uma mãe. Torna-nos sua parte, seu instrumento sem a mácula do materialismo puro. Nem se poderá falar de sintonia porque não há partes dispersas nesse gesto (que é estar e ser) que acontece simplesmente. Há uma verdadeira união. Um regresso ao Uno. Um acordo, um acorde musical, um acordar, um coração a dar. Um pelicano, afinal, daqueles antigos que arrancavam do seu coração parte do seu ser, e como em pó de projecção, transmutavam outros na mesma subtileza, na mesma natureza, nas mesmas propriedades. Ouro gerando ouro em gerações múltiplas.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

NAS 101 CARTAS DE ANTÓNIO TELMO
















«A ocultação da natureza constitui um dos fenómenos mais significativos do fim de um ciclo. A palavra de Heraclito 'a natureza gosta de esconder-se' nunca foi tão verdadeira como hoje.» Se é verdade que há um aparente desejo de regresso à natureza, no entanto, diz António Telmo, esse «sentimento da natureza tem hoje duas formas: é, por um lado, o sentimento estético da paisagem ou, mais precisamente, o sentimento fotográfico da paisagem; é, por outro lado, o sentimento higiénico das forças naturais, a pele queimada pelo sol, o ar puro dos pinheiros. Nestes dois aspectos se configura o desejo de um regresso à natureza numa humanidade lassa, fabril ou febril, burocrática, vazia.» E ainda: «A expressão 'regresso à natureza' tem o defeito de poder significar uma espécie de fuga ao stress, como se o homem fosse repousar do cansaço dos dias trabalhosos ou luxuriosos no 'retiro espiritual' de uma casa de campo ou de uma barraca montada sobre qualquer praia.» Sob a aparência esconde-se algo diferente: «a verdade é que esse aspecto e outros análogos que possa assumir o 'regresso à natureza' constituem mais uma forma de cisão radical entre o homem e a terra. Onde quer que vá encontrará sempre outros homens, tão mortos como ele, numa terra morta. O que realmente importa é o encontro do homem consigo na natureza sem ninguém, do homem que por uma transmutação interior se torna capaz de um contacto efectivo com aquilo que a natureza é: o lado oculto das coisas e dos seres.» (António Telmo, História Secreta de Portugal, 129-130)

Lendo o texto de António Telmo, podemos entrever que, por um lado, o homem se coloca face à natureza e não na natureza; daí o impulso que sente de 'tirar' uma fotografia, em vez de parar para contemplar; por outro lado, parece querer apenas tirar partido, de modo utilitário, da natureza para melhorar a sua saúde corporal. Se nenhum destes dois aspectos está errado em si mesmo, no entanto, trata-se de duas manifestações inferiores da sua relação com a natureza. A saúde corporal devia ser uma consequência natural da contemplação, isto é, este movimento do espírito, sabendo ver na natureza ou através da natureza a luz arquetípica do paraíso primordial, de que o homem guarda a recordação no fundo da sua alma, deveria fluir sobre a alma como um orvalho de bênçãos e a alma, por sua vez, dimanaria estes eflúvios sobre o corpo. Como o homem perdeu a capacidade para realizar a sua relação com a natureza a partir de dentro, procura realizá-la a partir de fora apenas.

Seyyed Hossein Nasr narra num dos seus livros um episódio que ilustra de um modo muito belo aquilo a que se refere o António Telmo a propósito da ocultação da natureza: passeava um dia com o seu mestre persa Tabataba'i - sábio e santo como são necessariamente os sábios - numa bela manhã num vale nos arredores de Teerão; tinham acabado de fazer as orações da aurora. A natureza parecia ter-lhes aberto o seu segredo sagrado e dela emanava uma forte presença espiritual. O mestre disse que bastaria que um ou dois 'profanos', isto é, uma ou duas dessas pessoas que não rezam nem têm o sentimento íntimo de comunhão com a natureza, aparecesse para que toda a ambiência espiritual desaparecesse ou se escondesse. Pouco depois aparecem justamente dois indivíduos com as características referidas pelo mestre e, de facto, de imediato toda a ambiência paradisíaca desaparece, toda a beleza sagrada se oculta. O mestre, sorrindo, disse que é o que acontece quando aqueles que são estranhos (a expressão persa refere-se àqueles que não pertence ao núcleo mais íntimo da família) entram na parte mais interior da natureza. Ela fecha-se, escondendo deles o seu sagrado segredo.

O homem sabe sempre, ainda que apenas como um pressentimento no mais fundo de si, que a natureza é o templo por excelência e o lugar, se souber bem olhar, da teofania: uma realidade sacramental, hierática, simbólica, presencial. Por isso, para além do encontro consigo mesmo, referido por António Telmo, e partindo do dito tradicional (de Elêusis ao Islão) "aquele que se conhece a si mesmo conhece o seu Senhor", podemos ainda entrever outro encontro: o da criatura com o seu Criador. Seria necessário, no entanto, que o homem pudesse ainda saber-se, conceber-se, sentir-se criatura. Mas o orgulho e a filautia cegam-no, fechando-o no pequenino mundo das suas fantasias, no mundo cutural, num mundo que é já apenas uma remota criação de uma criação de uma criação ou um sonho de um sonho de um sonho. O cultural não se opõe, como falsamente se diz, ao natural, o cultural deve ser a assumpção transcendentalizante do natural - como a igreja românica prolongando sobrenaturalmente o cimo do monte, elevando-o da natureza à sobrenatureza, no movimento complementar ao da criação divina em que a sobrenatureza se 'naturaliza' ou 'mostra', por assim dizer, na natureza, pela natureza. Por outras palavras: o Criador desce às criaturas revelando-se pela natureza e o homem, criatura suprema, ascende ao Criador sobrenaturalizando a natureza, dirigindo ascensionalmente a barakah da criação.

Esta é a função sacerdotal, por excelência, da humanidade, função com que foi sacramentada desde a eternidade, mas função que cada homem, com essa vocação, deve actualizar nos sacramentos das religiões ou das iniciações, de modo a estabelecer o limite dentro do qual poderá ser pontifex sem correr o risco de profanação ou impiedade.
Pedro Sinde
Poderão consultar o blogue:

ENIGMAS, 7












(Texto pensado a partir do livro “Da Serpente à Imaculada” de Dalila Pereira da Costa, e dos fragmentos pessoanos sobre “O Caminho da Serpente”)


Para onde vai a serpente quando passa por Deus e não pára?

Cynthia Guimarães Taveira

Ela volta por um outro caminho (ou por um caminho, uma vez que o primeiro não o era, de facto) porque lá, nesse Além Deus, só encontrou Vazio e gera, em movimento triplo, um outro caminhar de uma outra substância, pois, por se opor ao primeiro, desencadeia um terceiro movimento (a lei do pêndulo possui uma terceira força motriz invisível no balançar). Esse terceiro movimento só é perceptível na ponta final (porque nele se esconde a invisibilidade da invisibilidade), quando encontra Deus, de novo. Esse último, e terceiro, passo, é Deus no seu fluir.

Aqui, fala-se no regresso da serpente ( no seu segundo movimento) quando volta após ter ido além Deus, e, sofrendo o baptismo do Vazio, volta então como Imaculada:
Conhece todos os mistérios sem os atravessar.

Não os vê como ilusão, vê-os como lei.

Não assume as formas.

Assume a substância.

Não deixa a pele largada, quando deixa incendeia o passado, subtilizando-o assim, no osso.

Tem todos os caminhos.

É ordem e iniciação.

É obediência.

Não há oposição ao universo.

Não se tenta, não se mata.

Aceita a verdade e o erro.

____________//______________


A serpente é repugnante na forma.

A imaculada é bela na forma.

A serpente é oca,

A imaculada é só substância.

A imaculada tem a consistência de todos os mistérios.

A serpente é tridimensional: o círculo e o S.

A imaculada é sem dimensão.

A imaculada pisa a serpente e resgata-lhe o osso que não tem, mas passa a ter.

A imaculada é a ordem e sistema.

A imaculada não repudia o que ama, integra-o (re-integra-o).

A serpente liga os contrários.

A imaculada não tem contrários.

A serpente inicia-se.

A imaculada é iniciadora.

A imaculada não envolve os mistérios, funde-se neles.

A imaculada, no seu gesto, é a lua nas suas faces em verdade interna e externa.

Onde parece que é igual, não é diferente.

É precisa como a ciência.

É mágica, senão mesmo a própria magia.

É alquímica porque transmutadora.

E quando chega a Deus sempre esteve n'Ele e n'Ele continua.

Continuando-O.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

POSTAIS DA ARRÁBIDA, 2














GEORGE AGOSTINHO

Na manhã clara,
mas fria,
deponho a flor
na lápide votiva.
Séria, sábia, serena,
a imagem na memória
descreve o destemor
de uma força altiva
sob a luz amena
da santidade.
Não é de outiva
a sabedoria
dessa bondade
antiga e rara
que a fotografia
marcou.
Verdade
cara, preciosa,
com ela traça
em cada dia
a estreita estrada
custosa
por que passou.
Mas só a graça,
afinal,
lhe é lei e caminho,
o som como dom
na palavra inspirada.
Tua bênção,
George Agostinho,
poeta e canção,
nome de Portugal!

13 de Fevereiro de 2012

Pedro Martins

domingo, 12 de fevereiro de 2012

AFORISMOS, 133












Eduardo Aroso

O povo que, tendo elevado a alto grau o «elemento água», na retorta histórica dos oceanos, ligando o mundo e vencendo o gélido e húmido terror do medo, não é provável que agora se alheie radicalmente desse mesmo elemento aquoso, para se sintonizar em demasia com o elemento fogo, o das convulsões pela guerra ou das acções de alavancas industriais. Na simbologia água/sentimento-imaginação, no soberano sacrifício de existir Portugal, transmudou-se alegria em tristeza («Ó mar salgado, quanto do teu sal/ São lágrimas de Portugal!»), mas também decadência em renascença, «O inteiro mar, ou a orla vã desfeita - / O todo ou o seu nada».

No sentir subterrâneo, para onde fomos levados depois de Alcácer-Quibir, ainda é possível desabrochar na alma a potência para largar no inesperado.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

ENIGMAS, 6


















“Ao observar a via de desenvolvimento daqueles que silenciosamente e como que inconscientemente se superavam a si mesmos, constatei que os seus destinos tinham algo em comum: o novo vinha a eles do campo obscuro das possibilidades de fora ou de dentro, e eles o acolhiam e com isso cresciam. Parecia-me típico que uns o recebessem de fora e outros, de dentro, ou melhor, que nalguns o novo cresce a partir de fora e em outros, a partir de dentro. Mas de qualquer forma, nunca o novo era somente exterior ou somente interior. Ao vir de fora, tornava-se a vivência mais íntima. Vindo de dentro, tornava-se acontecimento externo. Jamais era intencionalmente provocado ou conscientemente desejado, mas como que fluía na torrente do tempo.”

Jung C. G.; R. Wilhelm, “O Segredo da Flor de Ouro - Um livro de Vida Chinês", ed. Vozes, pág. 32

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

UMA PÁGINA PARA ACOMPANHAR & UM COLÓQUIO A NÃO PERDER

  


Constituída notarialmente em 12 de Dezembro de 2011, a Associação Cultural Círculo António Telmo é uma associação de direito privado, de âmbito nacional e natureza eminentemente cultural, que tem por objecto principal a preservação da memória e do legado do filósofo e escritor António Telmo Carvalho Vitorino (Almeida, 1927 – Évora, 2010), através da evocação exemplar da sua vida e do estudo e da difusão da sua obra, e conferindo uma particular atenção à estreita ligação que este autor manteve com o concelho de Sesimbra.
Complementarmente, o Círculo tem ainda como finalidade a promoção e a difusão da cultura  artística, científica, literária, histórica e filosófica, nas suas vertentes local, regional, nacional e internacional.

COLÓQUIO “ANTONIO TELMO E A KABBALAH”

Estudar e perspectivar o legado de António Telmo a partir das marcas que a kabbalah, sob diversas formas, imprimiu na sua obra é o grande propósito desta iniciativa do Círculo António Telmo, que se realiza no próximo dia 25, sábado, na Biblioteca Municipal de Sesimbra, a partir das 15 horas. O programa é o seguinte:
Oradores:

António Carlos Carvalho: Uma introdução à Kabbalah
João Pedro Secca: António Telmo e Z’ev Ben Shimon Halevi
Luís Paixão: A Gramática Secreta da Língua Portuguesa
Pedro Martins: Filosofia e Kabbalah

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

AFORISMOS, 132 *














Na Imagem: imagens
produzidas por caleidoscópios

O autor retoma a rubrica «Aforismos» que, num total de 131, foram publicados periodicamente neste blogue, entre Setembro de 2009 e Maio de 2010.

Eduardo Aroso


Agostinho da Silva – A utopia é sopro ou semente que será fruto suculento ou reino das almas em flor.

Lima de Freitas – Toda a orla atlântica é símbolo.

António Telmo – Entre os sons do alfabeto português esconde-se a caverna de Platão.

Dalila Pereira da Costa – Todas as noites as sibilas dos tempos lhe entoam a mais antiga canção.

Pinharanda Gomes – Cada dia do calendário é preenchido com a dedicação pensada.

Joaquim Domingues – O seu pensamento vai onde deve estar.

Carlos Aurélio – As contas do rosário transmudam-se nas palavras certas do seu pensar.

Pedro Sinde – O oculto serpenteia nele.

Cynthia Taveira – Em certas manhãs surge sempre uma ave que nunca vimos, tornando o nevoeiro mais luminoso.

Pedro Martins – No mastro da razão, o mar move-lhe o pensamento no largo oceano.

Renato Epifânio – O incansável cavaleiro andante da Lusitânia universal.

Paulo Borges – O vento existe; não sabe de onde vem; e quando vai, sabe apenas que sopra.

*Este aforismo não tem o alcance de abarcar todos os pensadores portugueses. Refere-se, como é óbvio, àqueles cuja obra, por várias razões, me está mais próxima.

1-2-2012

Eduardo Aroso

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

EXTRAVAGÂNCIAS II, 2








Fernando Pessoa & Rémi Boyer, um diálogo espelhado

Cynthia Guimarães Taveira

Tomaremos como ponto de partida a perspectiva de Mircea Eliade, a partir da qual estabelece três tipos de iniciação, ou três categorias iniciáticas explicitas na História das Religiões, sendo que A primeira compreende os rituais colectivos pelos quais se efectua a passagem da infância, ou da adolescência para a idade adulta”(1), é a chamada iniciação tribal e é obrigatória para os membros de uma comunidade tradicional. A segunda “… compreende todas as espécies de ritos de entrada numa sociedade secreta, num Bund ou numa confraria.(2) Este tipo não é obrigatório, é muitas vezes reservado a um único sexo (a grande maioria das sociedades secretas são masculinas), sendo os casos dos reservados aos dois sexos muito raros, como é o caso dos Mistérios greco-orientais. E, por fim, uma terceira categoria:

“… aquela que caracteriza a vocação mística, ou seja, ao nível das religiões primitivas, a vocação do «homem-medicina» ou do xamã. Iniciação esta na qual se destaca o valor dado à experiência pessoal, em que os indivíduos estão destinados - quer queiram quer não - a participar numa experiência religiosa mais intensa do que aquela que é acessível ao resto da comunidade. Dissemos: quer eles queiram quer não, porque é possível alguém tornar-se «medicine-men» ou xamã após uma decisão pessoal de se apropriar dos poderes religiosos (aquilo a que se chama a «busca»), mas também por vocação (o «chamamento»), ou seja, porque é forçado a sê-lo por seres sobre-humanos.”(3)

Tomaremos, igualmente, como ponto de partida a definição existente no dicionário de símbolos para a palavra Iniciação:

"Iniciar é, de certa forma, morrer, provocar a morte. Mas a morte é considerada como uma saída, a passagem de uma porta que dá acesso a outro lugar. À saída segue-se uma entrada. Iniciar é introduzir.”(4)

Dos três tipos de iniciação apontados por Mircea Eliade aqueles que, neste caso, mais nos interessam são os dois últimos. O primeiro, a iniciação na puberdade, existindo também no ocidente, nas três religiões do Livro, é obrigatório e dirigido aos membros de uma comunidade como introdução num mundo simbólico, teórico e prático. Os dois últimos são mais elitistas, por assim dizer, caminham do geral, por exemplo uma sociedade secreta, para o particular, para o individuo. Há como que um afunilar nas vias iniciáticas e, no entanto, esse afunilar, ao terminar no indivíduo único, pode gerar, por sua vez, movimentos regeneradores ao nível de uma comunidade, por exemplo, Cristo pertencerá, com certeza, ao último tipo de iniciação apontado por Mircea Eliade, a sua iniciação foi directamente conduzida por forças não-humanas sobrenaturais (ficando aqui a sua origem humana ou não em segundo plano na análise). É, ainda assim, na concentração de um único indivíduo, Cristo, que se origina uma nova religião, com todos os seus níveis: exotérico (por exemplo, os ritos de passagem para a idade adulta, como o Crisma), esotérico (por exemplo, sociedades secretas que fazem girar as suas iniciações em torno de temas cristãos), e ainda as iniciações individuais (por exemplo o caso dos santos místicos), que originam, por sua vez, movimentos regeneradores dentro do próprio cristianismo; é, portanto, um movimento circular aquele que preside à iniciação no ocidente.

Tanto Rémi Boyer como Fernando Pessoa partem do principio que existem vários tipos de iniciação. Fernando Pessoa estabelece três tipos de iniciação:

"Há, primeiro, e no nível ínfimo, a iniciação exotérica, análoga à iniciação maçónica () que serve para pôr o indivíduo em condições de poder dar-se o caminho esotérico, de poder buscar, pelo contacto, embora esotérico, com símbolos e emblemas, o verdadeiro caminho. O mais exterior e nulo dos sistemas iniciáticos - como é hoje o da maçonaria - serve este fim. ( ) o único fim com que os Rosa-Cruz instituíram a maçonaria exotérica é o de pôr muita gente em contacto com, por assim dizer, o aspecto externo da verdade oculta (). Há depois a iniciação esotérica. Difere da primeira, em que tem de ser buscada pelo discípulo, e por ele desejada e preparada em si mesmo. «Quando o discípulo está pronto», diz o velho lema dos ocultistas, «o mestre está pronto também». Há por fim a iniciação divina. () vem directamente, e por cima de todos, das mesmas mãos, do que chamamos Deus.”(5)

Embora a Maçonaria seja uma sociedade secreta, não se dirigindo a toda a comunidade, tem, para Fernando Pessoa, um papel semelhante àquele descrito por Mircea Eliade quando se refere à Iniciação com vista à passagem da puberdade à idade adulta. No fundo, há na Maçonaria, como nesse tipo de iniciações, regras de conduta que são transmitidas, uma base teórica com vista à especulação e ainda um conjunto de símbolos e rituais que integram o neófito num sistema de valores. A crítica de Pessoa à Maçonaria como tendo um valor nulo iniciático é ainda mais vigorosa do que a de Rémi Boyer quando este, após conotar a Maçonaria com a Iniciação na Cidade e os Rosa-Cruz como sendo o protótipo da Iniciação no Jardim, afirma:

"A Iniciação na Cidade está estabelecida em torno de constrangimentos. A doutrina será privilegiada como objecto do saber. A Cidade estabelece, aliás, listas de objectos iniciáticos e não iniciáticos (o alimento, a tecnologia, a sexualidade) assim como distingue o profano e o sagrado, nos espaços exteriores como nos espaços interiores.”(6)

Poder-se-á dizer, e retirando das entrelinhas algumas palavras invisíveis destes dois textos, que o ritual maçónico incorre no erro de ser um teatro sem alma. O Despertar, entenda-se, pratica-se no sentido em que o indivíduo se encontra no estado de vigilante ou em estado de vigília, ou ainda, nas palavras de Almada Negreiro, "à escuta do universo”(7). O mesmo problema suscitado pela Iniciação é levantado em relação à Arte, não havendo muita diferença entre aquele que pratica uma certa vibração ou frequência dentro do silêncio, aqui como processo iniciático e o artista que deixa que a inspiração nele flua, à boa maneira medieval, isto partindo do principio que, no inicio, maçons eram aqueles que praticavam a arte da pedra. A arte como duplo sopro que molda as formas no areal: o vento molda a areia e sopra, por sua vez, segundo e seguindo as formas desse areal moldado por ele em influência criativa mútua (as bacias semânticas das quais nos fala Gilbert Durand). É sempre um princípio superior que se espera que influencie o artífice:

"A iniciação representa verdadeiramente e legitimamente o espírito, animador principal de todas as coisas, enquanto no que diz respeito à «pseudo-iniciação», o espírito está naturalmente ausente. Daqui resulta imediatamente que a acção assim exercida, em vez de ser realmente «orgânica», só pode ter um carácter puramente «mecânico».(8)

Rémi Boyer é mais descritivo relativamente aos processos de funcionamento maçónicos, visando demonstrar a contradição no que se refere às palavras Igualdade e Fraternidade:

"Em Loja, a palavra circula de cima para baixo e de baixo para cima. A deslocação de Loja em Loja está submetida ao controlo hierárquico () O saber é esperado vindo do outro, de fora, ainda que por vezes seja «de fora de em si mesmo».(9)

Faz, deste modo, um aviso atento à diferença existente entre iniciação externa e iniciação interna, sendo que o de fora em si mesmo será trabalho meramente intelectual, sem a participação do espírito, ainda que solitário. Toda esta hierarquia piramidal existente em Loja acaba por “…impossibilitar o Companheirismo tradicional, que é, no entanto, o que justifica a Iniciação na Cidade.”(10) Igualdade e Fraternidade são dois conceitos, portanto, dificilmente alicerçados, uma vez que implicariam uma certa horizontalidade, uma determinada Távola Redonda, na qual os Iniciados estariam igualmente posicionados face ao Centro. Em pirâmide verticalizada, tal distancia não é possível. A Fraternidade pura, entre irmãos de um mesmo pai e de uma mesma mãe, é difícil de encontrar numa Sociedade que distingue Aprendizes, Companheiros e Mestres; o mais velho, o mais sábio, está numa plano acima do neófito Aprendiz.

Também a face especulativa da Maçonaria não é poupada, nesta discrição que permeia a crítica: tendo raízes operativas sobre a matéria e, tendo sido minimizado, ao longo dos últimos quatro séculos, o trabalho manual sobre a pedra, dá-se a impossibilidade de realizar a Obra: A realização da Obra-Prima é muitas vezes esquecida para se contentar apenas com o conceito de obra-prima, com a sua ideia.” (11)

Se Fernando Pessoa fala da Maçonaria como a face exotérica, exterior daquilo que supostamente guarda uma sabedoria oculta, e se afirma até que foram os Rosa-Cruz que instituíram a Maçonaria, provavelmente numa alusão a um qualquer período coincidente com a passagem da Maçonaria operativa à especulativa (talvez como esforço de resgate e salvação de alguma sabedoria em risco de se perder), Boyer fala dessa face exterior da Ordem iniciática tendo em vista o apelo tradicional da supremacia do Espírito sobre a matéria:

"A Cidade promove as organizações iniciáticas que não passam de criações humanas, veículos imperfeitos e ecos muitas vezes longínquos das vias iniciáticas, sendo estas, na sua essência, «não humanas», entenda-se «não condicionadas». (12)

Sendo o Iniciado na Cidade aquele que se mostra, que se dá a conhecer, enfim, que é um

"conquistador, inscrito no esforço, por vezes em sobre-esforço; quer progredir, evoluir, atingir o divino, etapa após etapa. É uma visão prometeica, típica da «pessoa», do «eu», do ego fascinado pelo devir. O iniciado na Cidade está ainda sobre a influência da «pessoa» () Perdido no duplo constrangimento da Cidade de Deus e da Cidade dos homens, o iniciado na Cidade cai por vezes no pacto faustiano.” (13)

Como se poderá dar a passagem da Cidade para o Jardim? É Fernando Pessoa que, falando das habilitações indispensáveis aos candidatos, nos revela essa passagem. Notamos aqui igualmente as duas matérias primas que regem estes tipos de iniciação: na Maçonaria a matéria-prima é a pedra, no Jardim, a madeira. Numa primeira fase o homem construiu com madeira, numa segunda fase com pedra: "...por isso a arte da carpintaria que aparece como auxiliar a maçonaria, é-lhe anterior, mais primitiva, portanto, mas também ligada à matéria orgânica, sensível e mais subtil: A suprema arte do carpinteiro trabalha com a matéria do mundo e os aprendizes têm de transformar-se em pássaros para não sentirem a vertigem sobre os altos andaimes.” (14)

É a madeira, segundo António Telmo, a matéria do mundo, e ainda Em português, matéria é madeira, que se arranca das florestas“ (15), sendo as raízes, matrizes, e dando ainda um ensinamento Maçónico: O Grande Arquitecto do Universo edificou o Templo do Mundo sobre a madeira" (16). Matéria mais subtil, portanto, obrigando os aprendizes a transformarem-se em pássaros para que não caiam das alturas, tendo sempre em vista que Em Tiferet, no centro dos centros, já não há esse perigo de cair, porque o baixo é o alto e o alto é o baixo. O Sol não cai, imóvel no centro do seu sistema. Pois para que lado há-de cair, se já não há lado?”(17) Esses aprendizes dejardinagem devem ter características fundamentais:

"Ser um simbolista () para quem os símbolos são coisas, vidas, almas, e para quem, paralela e conversamente, as coisas e os homens tenham, em certo modo, a vida irreal, a analógica dos símbolos, devem estudar as matérias com simpatia, que pode ser induzida com um grande poder de imaginação, de despersonalização, de auto-sugestão, e, por fim, saber nas ler nas entrelinhas, pois os livros maçónicos, e sobretudo os públicos, por isso mesmo que são públicos, não são nem podem ser escritos em linguagem que não seja a linguagem que lá está.”(18)

E Pessoa chama a atenção mais à frente: É impossível chegar a qualquer entendimento íntimo da Maçonaria sem ter conhecimento da chamada Ciência Hermética”(19) e aqui dá-se então o passo fundamental: está o aprendiz no limiar, no portal de acesso ao jardim. Mas não está ainda no jardim. A despersonalização terá de ser dupla: morte da pessoa e morte daquilo que mais ama: os símbolos, primeiro uma morte dos símbolos como suporte de um ritual, em seguida a morte efectiva de todos os símbolos (num percurso que, lembremos, é de morte e renascimento), isto porque Quem tenha em si o poder de sentir pronta e instintivamente a vida dos símbolos não precisa de iniciação ritual.“(20), palavras que mais uma vez vão ao encontro das de Rémi Boyer: Qualquer via começa onde acaba a imitação e a repetição, onde se apaga a organização iniciática. Ela é realmente um abandono das formas, incluindo das formas sagradas que são os ritos, para penetrar o Grande Real.”(21)

O problema da repetição e da criação é aquele que se enlaça com a própria natureza e seus segredos, a manutenção dos ciclos em repetição é sempre constituída também por uma arritmia breve mas suficientemente forte (porque provém de um tempo forte, o sagrado) para que haja mudança. É assim que, no pensamento hermético, nada é absolutamente equivalente na natureza. Um pássaro gera outro da mesma espécie, mas em si são dispares, com pequenas diferenças quase imperceptíveis, mas que geram a renovação das gerações, como padrões que mudam devagar, ou músicas que se transformam noutras com ligeiras alterações nas notas até à aquisição final de uma forma totalmente nova, e, no caso do sagrado, Totalmente Outra. Diríamos que as pequenas intervenções do Espírito Santo vão gerando pequenas mutações com o propósito de uma perfeição final. Larga-se o papel do caseiro do jardim, que mantém a casa e entra-se num outro estado, o do Jardineiro que cria o jardim dentro de si:

"O iniciado não tem qualquer necessidade de nomear a Coisa. Ele é a própria Coisa. Ele é o próprio Jogo da Energia e da Consciência, o jogo sem eu, o jogo sem palavras e sem males pois a oposição obsessiva entre o bem e o mal -- característica da Cidade e das suas leis liberticidas -- dissolveu-se na Imperiência da Liberdade Absoluta.”(22)

Chegámos, aqui, ao terceiro elemento, o da Liberdade, que, afinal, na iniciação maçónica era, tal como a Fraternidade e a Igualdade, afinal uma lei liberticida, uma não-liberdade. E os símbolos, esses que eram suporte de meditação, que se erguiam em dança nos rituais, que brilhavam em cima de panos escarlate, são, afinal, parte de um mundo ilusório, eles pertencem a este mundo apenas, de alguma maneira eles morrem e o neófito morre com eles:

"Mas o verdadeiro significado da iniciação é o de ser este mundo visível em que vivemos um símbolo e uma sombra, e o de ser esta vida que conhecemos por intermédio dos sentidos uma morte e um sono, é o de ser quanto vemos uma ilusão. A iniciação é o desfazer gradual e parcial dessa ilusão. A razão para ser simbólica é não ser a iniciação um conhecimento mas uma vida e por conseguinte devem os homens pensar pela sua cabeça o que os símbolos mostram, pois de tal modo não apenas aprenderão as palavras em que se exprimem, mas viverão por si próprios as suas vidas“(23),

ou nas palavras de Rémi Boyer, num outro livro: As Vias Reais são feitas para aqueles que são reais, que vivem, em vez de serem vividos“(24). O mistério da morte iniciática é, ainda assim, silenciado, por todos os hermetistas, sendo apenas comunicado por uma linguagem simbólica, como por exemplo morrer de amor, em Dante e Camões, na linhagem dos Fiéis dAmor, a abertura da matéria em Alquimia, ou ainda, as mortes fragmentadas em êxtase dos místicos, em visão e vivência corporal, traduzida, por exemplo, por Bernini na magnífica estátua na qual Santa Teresa de Ávila desfalece em frente a um anjo que segura uma seta.

É nesta dupla condição, de morte em vida e vida em morte, numa espécie de suspensão num abismo, que é possível caminhar pelo Jardim e conter, em simultâneo o Jardim dentro de si. Porque não há ego, nem eu, o Iniciado não se mostra nem demonstra como o Iniciado na Cidade, ao invés, ele “… oculta-se. Para vivermos livres, vivamos ocultos, diz o Mestre Jardineiro.”(25)
Foi dita a frase a Rémi Boyer por Lima de Freitas: O Modernismo abre espaço para a Tradição passar”. É  uma frase digna de um Fiel dAmor. Assim, na perspectiva de Boyer, o Modernismo vai ser o movimento que se solta e um movimento solto de antigos espartilhos simbolistas e decadentistas. São os  Modernistas, nestes tempos próximos de nós, os inventores  do próprio tempo e, na sua vertigem de invenção, de criação, de arte, de alguma forma, projectam-se até ao limite de um Futurismo vivido antecipadamente, acabando por alterar as leis do tempo que são sempre constrangimentos, que são sempre condicionantes, até atingir um não-tempo:

"O iniciado no Jardim é um poeta, um fazedor - palavra que define o alquimista -, um profeta do não-tempo, um teósofo. Ele sabe que tudo já está cumprido, que ele não está em devir. Ele é o Absoluto. Ele é. A iniciação no Jardim não é conquistadora, é libertária, é uma Recordação, segundo Hermes, uma Reintegração, segundo Martinez de Pasqually, um Re-conhecimento da sua Liberdade Absoluta, para Mestre Eckhart, como para Abinavagupta. O iniciado no Jardim está des-mascarado, é acéfalo. Nesse sentido, o iniciado no Jardim opõe-se ao profeta. É um hipo-feta, palavra forjada por Rabelais para designar aquele que se recorda do que já passou, do antigo. Mas este «antigo» é mais antigo do que o antigo, é original; é por isso que ele é totalmente novo e vanguardista, tanto na sua expressão como na sua impressão.”(26)

O iniciado no Jardim reencontra-se também com a matéria-prima, sendo que o seu ofício externo e visível na sua expressão e impressão possa ser o da criação, domínio para o qual ele nasceu (raíz do verdadeiro adepto), de um Jardim, de um Poema, e o seu interno é o de um Mestre (poderemos dizer de um mestre de cerimónias, se bem que as cerimónias sejam produto de um Mistério, traduzidas na Alegria que preside a Vida) que conduz, ou antes, abre a porta para que se dê a iniciação, esta sim, subtil e derradeira, mas apenas como um destino que se cumpre num fluir natural a par (e sempre em sintonia) com o fluir sobrenatural e, no qual o desejo é axializado, e não terreno. A sua matéria-prima é viva, os objectos dos quais se socorre já não estão dentro dos limites e divisões do sagrado e do profano:

"No Jardim, não há objecto iniciático e objecto não-iniciático. Qualquer situação pode beneficiar de um tratamento iniciático. Não é a situação externa e interna que importa, mas sim a relação de consciência mantida com a situação, que a torna a própria matéria da Obra.”(27)

Ele é um despertador: No Jardim, o ensinamento é como o bater de asas da águia. Uma palavra, um olhar, uma alusão, um silêncio, um gesto, uma imobilidade despertam para o Grande Real“(28), mas um despertador no âmago, na verdade, no plano em que não há eu, ele desperta ao ponto de não haver distância, separação entre ele e o outro, porque se tudo é passível de tratamento iniciático, e a sensibilidade desperta reside no Absoluto, então ele sofre mais no corpo dos outros do que no seu próprio corpo“(29), digamos que, em termos iniciáticos, ele vive mais a morte do outro do que a sua.

Se até aqui estávamos no plano da Liberdade, regressamos mais uma vez, mas agora em viagem interna e oculta, ao plano da Igualdade e da Fraternidade. Numa voz em coro com a de Fernando Pessoa, diz-nos Rémi Boyer: A Confraria dos Jardineiros da Rosa designa uma axiologia composta por todos aqueles que passaram para lá da Aparência das aparências e se reconheceram como o Absoluto, o próprio Senhor"(30); indo ainda mais longe na descrição de tal estado, Fernando Pessoa escreve não designando os Rosa-Cruz mas sim a Ordem de Cristo:

A Ordem de Cristo não tem graus, templo, rito ou passe. Não precisa reunir-se, e os seus cavaleiros, para assim lhes chamar, conhecem-se sem saber uns aos outros, falam-se sem o que propriamente se chama linguagem. Quando se é escudeiro dela não se está ainda nela; quando se é mestre dela, já se lhe não pertence. (…). Não se entra para a Ordem de Cristo por nenhuma iniciação, ou, pelo menos, por nenhuma iniciação que possa ser descrita em palavras. Não se entra para ela por querer ou por ser chamado; nisto ela se conforma com a fórmula dos mestres: “quando o discípulo está pronto, o Mestre está pronto também. “E é na palavra “pronto” que está o sentido vário, conforme as ordens e as regras.

Fiel à sua obediência - se assim se pode chamar onde não há obedecer -, à fraternidade de quem é filha e mãe, há nela a perfeita regra de Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Os seus cavaleiros - chamemos-lhe sempre assim - não dependem de ninguém, não obedecem a ninguém, não precisam de ninguém, nem da Fraternidade de que dependem, a quem obedecem e de que precisam. Os seus cavaleiros são entre si perfeitamente iguais naquilo que os torna cavaleiros; acabou entre eles toda a diferença que há em todas as coisas do mundo. Os seus cavaleiros são ligados uns aos outros pelos simples laço de serem tais, e assim são irmãos, não sócios nem associados. São irmãos, digamos assim, porque nasceram tais. Na ordem de Cristo não há juramento nem obrigação.”(31)

É então desvendada a verdadeira metáfora, provocada pela Maçonaria quando menciona pedreiros livres, fraternos e iguais entre si. Hierarquizada, ritualizada, com juramentos, obediências e lealdades, símbolos, uma matéria-prima existente apenas como decoração (sem que ninguém a trabalhe, de facto e literalmente) e ainda um Grande Arquitecto do Universo, dúbio, às vezes, pela ausência de crença em princípios espirituais, desde o século XIX, a Maçonaria nada mais é, afinal, do que uma Grande Alegoria do que será uma iniciação interna, efectiva e actuante, vinda directamente das profundezas do coração da Tradição.

Tanto Fernando Pessoa como Rémi Boyer partem de uma crítica (sobre um ponto de vista analítico totalmente impessoal no apelo da observação) do chamado mundo externo para chegar ao interno; uma via iniciática externa, a Maçonaria, e outra, interna, a da Arte Hermética. Por um percurso um pouco sinuoso, é indicada, pelos dois autores, a possibilidade de se sair de um circulo vicioso, que é no fundo o circulo vicioso da própria vida enquanto “somos vividos” e não “vivemos”. Este trabalho procurou acompanhar apenas (e não recriar pelas próprias palavras) o caminho elaborado por estes dois autores na procura de uma Via Iniciática verdadeira, dentro do esoterismo ocidental. No final, fica suspensa a questão, até porque Fernando Pessoa brincava facilmente com palavras, mas sobretudo com ideias: não será uma alegoria também o que o poeta escreveu relativamente à aparentemente extinta Ordem Templária de Portugal afirmando ter tido o seu término exactamente no ano do nascimento do poeta? Não terá antes re-nascido com ele? Se “O jardim está onde está o iniciado“(32), e ainda, “a Obra-Prima é realizada“(33), não será este, afinal, o retrato do poeta enquanto iniciado e iniciador?

Notas

(1) Eliade, Mircea, Ritos de Iniciação e Sociedades Secretas, Edições Ésquilo, 2004, pág. 22
(2) Obra cit., pág. 22
(3) Obra cit., pág. 22
(4) Chevalier, Jean; Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos, Ed. Círculo de Leitores, 1997, pág. 377
(5) Pessoa, Fernando, Obra em Prosa de Fernando Pessoa, A procura da Verdade Oculta - Textos Filosóficos e esotéricos, prefácio, organização e notas de António Quadros, Ed. Europa-América, 2ª edição, 1989, pág. 168
(6) Boyer, Rémi, O Discurso de Sintra - Metafísica & Iniciação, Co-edição Zéfiro e Arcano Zero, 1ª edição, 2011, pág. 92
(7) Negreiros, Almada, A Invenção do Dia Claro, Ed. Assírio & Alvim, 2005, pág. 12
(8) Guénon, René, O Reino da Quantidade e os sinais dos Tempos, Ed. Dom Quixote, Lisboa, 1989, pág. 229
(9) Boyer, Rémi, O Discurso de Sintra - Metafísica & Iniciação, Co-edição Zéfiro e Arcano Zero, 1ª edição, 2011, pág. 91
(10) Obra cit., pág. 91
(11) Obra cit., pág. 92
(12) Obra cit., pág. 94
(13) Obra cit., pág. 96
(14) Telmo, António, O Mistério de Portugal na História e n’Os lusíadas, Ed. Ésquilo, 2004, pág. 26
(15) Obra cit., pág. 266
(16) Obra cit., pág. 266
(17) Obra cit., pág. 266
(18) Pessoa, Fernando, Obra em Prosa de Fernando Pessoa, A procura da Verdade Oculta - Textos Filosóficos e esotéricos, prefácio, organização e notas de António Quadros, Ed. Europa-América, 2ª edição, 1989, pág. 168
(19) Obra cit., pág. 170
(20) Obra cit., pág. 175
(21) Boyer, Rémi, O Discurso de Sintra - Metafísica & Iniciação, Co-edição Zéfiro e Arcano Zero, 1ª edição, 2011, pág. 101
(22) Obra cit. pág. 102
(23) Obra cit., pág. 178
(24) Boyer, Rémi, O Louco de Shakti, Ed. Hugin, 1998, pág. 7
(25) Boyer, Rémi, O Discurso de Sintra - Metafísica & Iniciação, Co-edição Zéfiro e Arcano Zero, 1ª edição, 2011, pág. 94
(26) Obra cit., pág. 97
(27) Obra cit., pág. 94
(28) Obra cit., pág. 94
(29) Boyer, Rémi, Poeiras de Absurdidade Sagrada - Livro Solar, Co-Edição Zéfiro e Arcano Zero, 2011, pág. 44
(30) Boyer, Rémi, O Discurso de Sintra - Metafísica & Iniciação, Co-edição Zéfiro e Arcano Zero, 1ª edição, 2011, pág. 105
(31) Pessoa, Fernando, Obra em Prosa de Fernando Pessoa, A procura da Verdade Oculta - Textos Filosóficos e esotéricos, prefácio, organização e notas de António Quadros, Ed. Europa-América, 2ª edição, 1989, pág. 231
(32) Boyer, Rémi, O Discurso de Sintra - Metafísica & Iniciação, Co-edição Zéfiro e Arcano Zero,edição, 2011, pág. 92
(33) Obra cit., pág. 92